Elogio da Alienação (blog Estadão)

 

 

Elogio da alienação

Paulo Rosenbaum

quinta-feira 21/08/14

Será que só em alienação conseguimos enxergar o perfil misterioso que se esconde atrás de todas as coisas? Áureo, brilhante, promissor. Um mar de sóis. E assim supor que há um fio que nos sustenta, que nega o culto da morte? Ainda podemos discordar da mandatária geral? Eles ainda não sabem que existem motivos de […]

Será que só em alienação conseguimos enxergar o perfil misterioso que se esconde atrás de todas as coisas? Áureo, brilhante, promissor. Um mar de sóis. E assim supor que há um fio que nos sustenta, que nega o culto da morte? Ainda podemos discordar da mandatária geral? Eles ainda não sabem que existem motivos de sobra para desconfiar? Na versão deles somos uma nação de pessimistas com má vontade. Como aprendemos nestes infindáveis 12 anos, o apego supera a autocritica E se o verde não fosse um partido, mas a grande causa sem partido? E se os fantasmas de estadistas promissores não precisassem encarnar em candidatos? E se desligássemos as TVs e escolhêssemos o que ler nos jornais? E imaginar que as cidades romperam suas degradações? Pois, só para fazer a imagem, e se os fragmentos superassem o todo? E se as ruas arborizadas não fossem exceções? E se a periferia e o centro viessem juntas, numa plaina suave? Esqueçam uniformidade, pensem em vizinhanças com vãos livres. Onde consenso e planejamento substituíssem leis e decretos. E se as conversas rasgassem nosso campo de visão para fundir horizontes? E se a terra fosse cultivada sem que quem a possui desconfiasse de quem a trabalha. E vice versa. E se o consumo tivesse outro destino? E se o ofício não estivesse divorciado do talento? E se invertêssemos o mundo só para usufruir novos ângulos E, se hoje, o céu fosse convidado a testemunhar na CPI das coisas impossíveis? E se o afastamento das galáxias fosse a pauta no Congresso? E se o esforço concentrado não estivesse em apontar para a brutalidade da matéria? E se as carreiras não penalizassem o mérito? E a se a fama não fosse a moeda das oportunidades? E se o sol fincasse pé no corredor de todos os espaços? E se os prédios se sustentassem nas hortas? E se o infinito sentasse para narrar sua história? As vezes, a impossibilidade nos aliena na justa medida. Mas, um fato acaba de se impor, bem aqui: acabamos de imaginar esse dia memorável.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/elogio-da-alienacao-2/

 

A arte de bloquear (Blog Estadão)

 

 

A arte de bloquear

Paulo Rosenbaum

terça-feira 19/08/14

  Não deu. Era aquilo mesmo. Convidei gente que queria acabar com minha raça. Como poderia saber? Não solucei, mas troquei fluxo de consciência por exclusão.  Estranhei excluir tantos de uma só vez. Um a um, e foram quase todos. Fiz uma rápida revisão e me perguntei: como todos vieram parar no meu feed de […]

 

Não deu. Era aquilo mesmo. Convidei gente que queria acabar com minha raça. Como poderia saber? Não solucei, mas troquei fluxo de consciência por exclusão.  Estranhei excluir tantos de uma só vez. Um a um, e foram quase todos. Fiz uma rápida revisão e me perguntei: como todos vieram parar no meu feed de notícias? Eram escolhidos no calor dos dias. Nas noites sem luz. As vezes, o velho acaso. A vigília é uma inércia. Olhava e convidava.Ou só aceitava, sem duvidar. E como iria saber quem eram?  Era só teclar “solicitação de amizade”. Com um click cometia o erro, com o outro  pensava estar livre dele. Só que não é bem assim. Como diz o aforismo, cessam as causas, não os efeitos. E diante daquele “tem certeza que deseja fazer isso?”, eu “não, não tenho certeza”.  Não era só pelo spam, piadas infames, ataques primários ou pobreza de espírito.  Como em toda cartilha paranoica, sou eu, contra todos. Quem dera, 1948 amigos! Ali não eram nem cinco! 1948? Desconheço tantas pessoas de carne e osso. Agora que já aconteceu, confesso a hesitação. Me convenço que só a solidão processa o espírito. Claro que sei, daqui em diante só verei palpites semelhantes aos meus. E qual é o problema? E, por acaso, isso aqui deveria ser uma amostragem da população? Há alguma lei que me obrigue a hospedar na sala quem detesta democracia e despreza as instituições? É o critério de justiça deles que sou obrigado a adotar? Que pregam golpes ou conselhos populares.  Jurisprudência cativa e imprensa controlada? Os falsos e os censores? São fantasmas arbitrários. Abaixo aqueles que toleram intolerâncias. Não escolhi brigar. Não quero ouvir, ser obrigado a ver, nem compungido às leituras obrigatórias. Não ter que responder ou se defender dos boatos destrutivos, conclusões toscas, propaganda política rasa e camisetas de terroristas customizadas. Suportei jihadistas do partido, trools revolucionários, perfis falsos e perfídia. Só aí soube, há um mar ignominioso no espaço cibernético.

A desculpa de quem age é a reação. Depois de feito, creiam, simplesmente impossível compartilhar o alívio que se sente ao final da faxina. A vida precisa voltar a ser fixada sob impulsos. As vezes, a saída não passa pela razão, chega no ímpeto. Viva a alienação. Avante opinião única. Que entrem os moderados e expulsem esse novo entulho autoritário disfarçado de transformação.  Que sentem-se os intuitivos. Farei meu trajeto, acesso, e compasso. Em meio aos julgamentos precários, hoje escolho meus vereditos. Entre as tiranias do mundo, me solidarizo com minhas arbitrariedades. Adeus ironias alheias. Se for critica, trato disso em frente ao espelho. E assim, posso deixar de me levar a sério. Não, não quero curtir, obrigado. Não curto, não compartilho, denuncio ou comento. Para mim, chega. No começo foi difícil. Hoje, quero só falar. Nem adianta responder.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/a-arte-de-bloquear/

Sabotagem do Acaso (blog Estadão)

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A máxima sabotagem

Paulo Rosenbaum

domingo 17/08/14

Aristóteles considerava que quase nada poderia existir sem causas. Para ele, todos os tipos de causalidades tinham, obrigatoriamente, alguma finalidade última. Se para tudo há uma finalidade a exceção é a causa acidental, o acaso. Ao contrário das outras causas elas são irregulares e não necessárias, e, por isso, desafiam o determinismo. Dai o susto, […]

Aristóteles considerava que quase nada poderia existir sem causas. Para ele, todos os tipos de causalidades tinham, obrigatoriamente, alguma finalidade última. Se para tudo há uma finalidade a exceção é a causa acidental, o acaso. Ao contrário das outras causas elas são irregulares e não necessárias, e, por isso, desafiam o determinismo. Dai o susto, o escape da função e da razão. O dicionário filosófico de Andre Lalande esclarece o acidente: trata-se de um evento que chega de “maneira contingente ou fortuita e na linguagem corrente, aquilo que raramente ocorre”. Causam susto, escape da função e fuga da razão. Portanto, a causa acidental deveria ser rara. O raro é sempre estranho. Seu aparecimento, inesperado. Foge da ordem natural. A ordem natural, para quem acredita, é a rotina. Sair de casa e voltar. Chegar ao destino. Um dia completo. Escapar do súbito. Do infortúnio. Realizar desejos e projetos. Mas e quando a pedra não sai do caminho? E quando há vento de cauda, névoa espessa, inclinação exagerada e pista oculta? A mesma alegada premonição que faz alguém não embarcar na nave que cairá, vitima quem não teve a mesma inspiração. Por se tratar de um evento com sujeito oculto, acidentes são, essencialmente, injustos. A realidade dos fenômenos acidentais, é dolosa. Mas até prova em contrário, culposa. E a quem devemos recorrer? Uma vez submetidos a eles, não há instância superior, não existem culpados, vilões visíveis ou elucidação possível. Só sobram restos e vítimas. Somos obrigados a submergir em lamentos e luto. Considerando que temos centenas de outras prováveis conspirações em curso, a maior conspiração dentre todas seria se, neste episódio, não tivéssemos nenhuma conspiração. A máxima sabotagem será essa, com o toque místico de tudo ter lugar no dia de aniversário do falecimento do avô, um acidente puro, onde a caixa preta emudece, sem suspeitos, sem provas, sem mapeamento, sem um único indício vivo. Um acidente inapreensível, de evidências vagas, sem rastros. Se não for o crime perfeito, terá sido uma das maiores surpresas que o acaso preparou para a história das gangorras políticas.

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http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/a-maxima-sabotagem/

Jonas e o Vácuo

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Jonas e o vácuo

É possível sobreviver no ventre de um grande animal marinho? James Bartley sobreviveu 15 horas nas entranhas de um cachalote nas ilhas Malvinas em 1891, e um marinheiro inglês foi resgatado depois de passar 48 horas dentro de um tubarão baleia. Isso importa menos do que o simbolismo dos depoimentos de um personagem considerado “solto no ar” pelos exegetas bíblicos.

Passou quase despercebido, mas os adoradores do terror do Isis, acabam de anunciar a destruição da tumba de Jonas no Iraque, que se encontrava em uma mesquita construída sobre o mesmo sítio que já abrigara uma igreja, desde o século VIII. O simbolismo é significativo. Jonas é o profeta que dá nome ao livro bíblico reconhecido por todas as tradições monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos,

A narrativa explica que Jonas sobreviveu por quase três dias nas entranhas dum monstro marinho, o qual poderia ser a baleia. Esse profeta, mesmo não sendo economista, era um daqueles sujeitos torturados pela constante sensação de vislumbrar o futuro. Ele não ameaçava, insistia em persuadir a humanidade a abandonar pequenos narcisismos. Em outras palavras, que recuperasse os sentidos, a fração justa, algum superego. Denunciava a crueldade entre os povos, dos assírios, dos habitantes de Nínive, das pessoas que habitavam o Mediterrâneo.

Jonas, em oposição ao catastrofismo inexorável dos oráculos e de outros alarmistas formulava previsões condicionais: as imprecações vinham junto com a torcida para que não precisassem se realizar. Parece estranho, mas faz todo sentido.

Para ele, Deus não poderia ser uma entidade nacional, partisã, ou exclusividade de um só povo. O mais provável é que o Criador fosse uma entidade universal, acessível e sensível. É como se não fizesse sentido que a salvação precisasse ser a virtude de uns em detrimento dos outros.

Parece que a mais nova neo-vertente, o Isis, também conhecido como “Califado da Retidão”, a quem agradeço de coração por poder reestudar este sábio bíblico, assim como outros grupos fundamentalistas islâmicos fazem suas marchas determinados: contra a diversidade. Não suportam a vasta e desconcertante pluralidade deste fim da pós modernidade.

A passagem de uma sociedade oprimida por ditadores sanguinários para a liberdade, ensejou, para desgosto do neopopulismo da esquerda latino americana, não uma primavera, mas longo inverno de lutas tribais.

Financiadas por regimes inteiros, e subsidiadas por milionários do ramo da indústria do petróleo, ficaram férteis e belicosos. Represadas por séculos, elas agora encontram o corredor aberto para extravasar e se esparramar por vários continentes. As civilizações podem não estar em rota de colisão, enquanto o hiato parece claro. Tomara que regressem do vácuo, com alguma criatividade. É urgente, precisamos de mais um Renascimento.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/08/15/onde-jonas-foi-parar/

Intolerância latente ( Blog Estadão)

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Intolerância latente

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 13/08/14

Antisemitism means “hating Jews more than is absolutely necessary. Antissemitismo significa: odiar judeus mais do que o absolutamente necessário. Isaiah Berlin Sou mais um que vai parodiar Tom Jobim, mas o refinado senso irônico de Isahiah Berlin não é mesmo para principiantes. Apresenta a eloquência dos que compreenderam que sempre haverá álibi para racionalizar a […]

Antisemitism means “hating Jews more than is absolutely necessary.

Antissemitismo significa: odiar judeus mais do que o absolutamente necessário.

Isaiah Berlin

Sou mais um que vai parodiar Tom Jobim, mas o refinado senso irônico de Isahiah Berlin não é mesmo para principiantes. Apresenta a eloquência dos que compreenderam que sempre haverá álibi para racionalizar a judeofobia. Alguns destes álibis são hilários, outros travestem a lógica com argumentos aparentemente plausíveis. Entre os diagnósticos instantâneos: “Estão vendo, é Gaza! É a direita no poder em Israel! A culpa é da política expansionista dos israelenses! O conflito não é ideológico, mas puramente político!”

Recente edição do “The Guardian” relatou em números, o aumento exponencial dos ataques antissemitas pelo mundo: só comparável ao período de ascenção dos nazistas ao poder. Só que isso foi em 2013. Evidentemente que a catarse de uma guerra acelera hostilidades latentes. Na semana passada, cemitérios pichados na Itália, turbas apedrejaram lojas de judeus em Marselha e Paris, e neonazistas se juntaram aos jihadistas e à extrema esquerda, para entoar conhecidos slogans antijudaicos em Berlin e Munique.

Em geral, as minorias são mais vulneráveis à intolerância como todos estamos testemunhando no impensável retrocesso da civilização no Iraque. Como ousam yazidis, cristãos, sufis, e outras tribos e etnias, subsistirem dentro de suas tradições, sem sucumbir à pressão do fundamentalismo que aspira ser dominante, e suprime as dissonâncias? Para além das escolhas religiosas, essa supressão é também cultural e simbólica. Se não, qual seria o motivo pelo qual os terroristas do Estado islâmico tenham se dado ao trabalho de destruir a tumba de Jonas dentro de uma mesquita histórica?

Cenário e alianças podem mudar dramaticamente. Nas palavras do ministro das relações exteriores da Arábia Saudita, o conflito agora não é mais entre árabes e israelenses. Judeus, assim como outras minorias, são alvos ancestrais desses sentimentos, especialmente sob maiorias controladas por tiranos. É quando o “ódio suficiente” referente à ironia de Berlin, sai do controle, o excedente escapa, e as intolerâncias podem explodir em paz.

Trata-se do velho pretexto infinito, do álibi universal, da licença poética para perseguir, que, subsiste, intacta, nos grotões da ignorância, nos porões inconscientes e sobretudo na linguagem. Dos libelos de sangue medievais – agora repetidos nas escolas infantis pelos terroristas do Hamás – ao affair Dreyfus, do arianismo aos campos de extermínio, os vagões podem ter mudado, trens e trilhos são, rigorosamente, os mesmos.

Por outro lado, não é razoável acusar quem critica Israel neste ou em outros conflitos, como necessariamente antissemita. Mas o viés persistente que aponta quem se defende como algoz, o bias da mídia, e o tom usado pela legião de juízes parciais, são ingredientes que acabam metamorfoseando a crítica martelante em ação antissemita involuntária.

A persistente tentativa de deslegitimar um Estado é o prenúncio para inviabilização do povo que o habita. No tabuleiro geopolítico do Oriente Médio é comum reputar o Estado hebreu como a única peça sobressalente. Entretanto, é fato que a maioria dos Estados nacionais só se agruparam como os conhecemos, durante o século XX. E por que com este País haveria de ser diferente? A difusão parcial dos eventos históricos pode ajudar a explicar, ainda que não justifique, boa parte da notória má vontade quando a pauta é Israel.

Tags: antissemitismo, bias da mídia, diferença entre criticar Israel e ser antissemita, intolerancia latente, isaiah berlin, Israel, libelos de sangue, nazistas, terrorismo Hamás

Pai é Pai (Blog Estadão)

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Todo mundo se concentra nas mães. Ficam aflitos com o masculino em baixa. Mas pai é pai. Essa é para os que estão aí. Os pais que foram e os que estão chegando. Os que mudaram e os que migraram. Aqueles que podemos contar. Os inspiradores. Os engraçados. Os piadistas. O provedor e o bolsista. Os generosos e os malandros. Os pais intensos e os desajeitados. Os joviais e os avôs. O pai referencia e os da memória. Os afetivos e os endurecidos.  O pai professor e o pai aluno. Os pais atentos e os distraídos. Aqueles que olham nos olhos e os que choram. Os que viajam muito e trazem presentes. O rabugento, que derrete no beijo. Os comilões e os esportistas. O rápido e o artista. O durão que abraça. Os temporários, que ficam para sempre. Os pais barítonos e sopranos. O pai que não desgruda. Paizões que mimam, e os que só murmuram. O pai desconhecido e o que acabamos conhecendo. Os invisíveis, involuntários e os palpáveis. O pai que agora é filho. O pai que se despede e aquele que nunca sai das nossas vidas: todos eles.

 

 

Deveras inadmissível (Blog Estadão)

 

 

Deveras inadmissível

Paulo Rosenbaum

sábado 09/08/14

‘É inadmissível’, diz Dilma sobre alteração de perfis Em outros países, e, as vezes, por muito menos, eventos como a recente “lista negra” e esse de adulteração de perfil de jornalistas, geraria um pedido de investigação (não interministerial, claro), teria enorme impacto político e talvez até culminasse num processo contra mandatários. Aqui é diferente, como […]

‘É inadmissível’, diz Dilma sobre alteração de perfis

Em outros países, e, as vezes, por muito menos, eventos como a recente “lista negra” e esse de adulteração de perfil de jornalistas, geraria um pedido de investigação (não interministerial, claro), teria enorme impacto político e talvez até culminasse num processo contra mandatários. Aqui é diferente, como em outros desmandos, quem se esconde atrás do mal feito costuma se disfarçar de vítima. Só para relembrar, a culpa era dos aloprados (dossiê contra o adversário político na disputa presidencial), depois que ele foi traído (episódio do mensalão), e agora afirma-se que é inadmissível (fraude executada na partir de computadores localizados no palácio do planalto). Inadmissível, nos dizeres dos dicionários analógicos, têm um sentido abrangente: fora da lei, frauduno, frauduleiro, estrangeiro, exotismo, avulso, a mais, mano a mano (sem partido). Muito emblemático para a corrente situação política do País. Qual será o próximo passo? Fechamento dos jornais e mordaça final na livre imprensa? As chances das democracias em decadência se salvarem existem quando ainda não foram completamente caladas.  Depois? Consultem a história.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/inadmissivel/

Diagonais (Blog Estadão)

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Ultimamente, acordo e me sinto um código de barras. É um sentimento que não passa, mesmo tendo aprendido com a biologia que cada um de nós é irrepetível. Rotular é uma mania antiga, é que agora se faz no atacado. Se não acredita, faça você mesmo o teste empírico. Emita opinião sobre o Brasil, […]

Ultimamente, acordo e me sinto um código de barras. É um sentimento que não passa, mesmo tendo aprendido com a biologia que cada um de nós é irrepetível. Rotular é uma mania antiga, é que agora se faz no atacado. Se não acredita, faça você mesmo o teste empírico. Emita opinião sobre o Brasil, Iraque, Rússia, Nigéria, Israel ou China e você vai sentir na pele o que é ter uma etiqueta colada na boca. Acabo de ler que se você é laico, e ainda de esquerda, sua opinião pode ter um valor intrinsecamente superior às demais. Isso mesmo, a priori e independentemente de conteúdo. Trata-se de uma bolsa já sorteada, exclusiva para intelectuais progressistas. Ou seja, o valor do argumento pesa nada ou quase nada diante de quem emite a opinião. Quem usa, acha que se trata de uma espécie de “sabe com quem você está falando” do bem. Cuidado. Se for um destes que é acusado de ser de direita e condenado por ser conservador, vai poder fazer muito pouco para provar sua inocência. É que os maquiadores dos outros, dominaram o segredo industrial da superbonder ideológica. Suspeitas das ditaduras totalitárias? Duvidas das intenções dos populistas? Emites ceticismo sobre a tática do partido mitômano? Não tem simpatia por estratégias terroristas? O carimbo está seco para te molhar: conspirador reacionário. Sabem o que? Podíamos acompanhar Grouxo Marx e declarar que se esse é o preço para entrar, não aceitamos pertencer a um clube que nos aceitem como sócios. Mas, para a ciência estereotipal e seus ideólogos, tudo se resolve na base da calúnia. As vezes é duro ter que encarar que alguém tem argumentos melhores. Aí é só encaixá-lo em uma categoria depreciada e seguir em frente com suas certezas inabaláveis. Complica se o etiquetado também sonha com direitos humanos, liberdade e fraternidade. Passa a ser insuportável se o sujeito ficar entusiasmado com justiça social e equidade. Vão dar um jeito de te desqualificar pelo avesso: radical. E aí os catalogadores tatuarão na tua testa: esquerda, comuna, socialista internacional. Não terá chegado a hora de inventar o novíssimo glossário? Lá estariam verbetes como: a virtude poder mudar de ideia, julgue devagar, coerência ideológica asfixia a honestidade intelectual e outras percepções. Claro que desagradarão a maioria, fazer o que? Sem a cultura do diálogo político, opiniões não conversam, a coexistência vira tortura. Alguém duvida que é mais fácil obedecer bandeiras e doutrinas que pensar sozinho? Se você tiver sorte, podem só te chamar de aberração. O anacronismo não é só na educação e ninguém pode ser arrogante diante da complexidade. Ela renega aqueles que dispensam contextos e discorda de qualquer alinhamento automático. Suspeito que isso é o enfurece tanta gente. Chegou a hora da desforra contra tanta taxionomia política selvagem: sejamos diagonais.

O que não consigo perdoar (Blog Estadão)

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O que não consigo perdoar.

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 06/08/14

Posso ter lá errado com meus vizinhos. Mas não é por isso que continuam com o foguetório. São 66 anos. A vizinhança e, mesmo em lugares distantes, todos sabem o que está acontecendo. Então, por que se calam? Se ao menos me reconhecessem, até aceitaria discutir o lugar da cerca. Mas eles ficam sonhando com […]

Posso ter lá errado com meus vizinhos. Mas não é por isso que continuam com o foguetório. São 66 anos. A vizinhança e, mesmo em lugares distantes, todos sabem o que está acontecendo. Então, por que se calam? Se ao menos me reconhecessem, até aceitaria discutir o lugar da cerca. Mas eles ficam sonhando com meu desaparecimento. Não vai acontecer. O que mais me espantou? Vi que quando se trata de legitima defesa, uns são mais iguais que outros. Se fosse em outro bairro, outras cidades, ninguém ousaria recriminar. Aprendi que o vale tudo na mídia, e fora dela, serve para ganhar corações e mentes. Conquista barata. Você pode ganhar uma disputa e sair derrotado. A civilização passou a dispensar inquéritos e com apenas um computador na frente, já se pode julgar instantaneamente. Sei que a história tende a revisar as mentiras, o problema é que os registros históricos demoram. Quando conseguem desmontar uma farsa, pode ser tarde demais: a memória do mundo já pode ter caducado. Querem um resumo? Se atacam, me defendo, sou condenado. Me atacam, não me defendo, morro. Sim, tento conversar, mas parece que eles ficam surdos com qualquer contradição. Os dogmas sofrem de estoicismo. Há alguma doença nesta santidade toda. Quando reajo, dizem que é desproporcional. Se não me defendo, pessoas são expostas, aí viro cúmplice. Me pergunto se há saída. Depois de tantas pedradas com revide, já não sei quem começou, e, as vezes, me enxergo como bandido. Quando a coisa passa dos limites, instintivamente volto ao contra ataque. Mas, ao defender os meus, atinjo inocentes deles. Senti que a insanidade se aproximava, quando comecei a esperar o placar mostrar paridade entre vítimas. Pior é que sei explicar porque isso acontece. Me protejo com escudos físicos, eles, coletes humanos. Se me firo menos, murmúrios de desaprovação. A intolerância nasceu com esse dom de reunir várias ideologias na mesma cumbuca. Podem dizer o que pensam, já decorei o bordão dos intelectuais progressistas: ninguém razoável usaria seus filhos como bucha de canhão. Isso é ilógico, irracional, um despropósito. Mas eis a crua realidade desse mundo. Está acontecendo agora. E é exatamente isso que não consigo perdoar: me forçam a ser um executor dos sacrifícios que eles planejaram para si mesmos.

Uma tecnologia para a paz (Blog Estadão)

Uma tecnologia para a paz

Paulo Rosenbaum

domingo 03/08/14

  Já vimos o suficiente, certo? Agora já podemos nos posicionar. Não restam muitas opções. Façam suas escolhas: a favor ou contra. Esqueçam as infinitas gradações. Borrem o contexto. A dicotomia simplória é só um exemplo de como o diálogo está moribundo. Mas há algo para bem além desse fenômeno. A instantaneidade das cenas são […]

 

Já vimos o suficiente, certo? Agora já podemos nos posicionar. Não restam muitas opções. Façam suas escolhas: a favor ou contra. Esqueçam as infinitas gradações. Borrem o contexto. A dicotomia simplória é só um exemplo de como o diálogo está moribundo. Mas há algo para bem além desse fenômeno. A instantaneidade das cenas são tão céleres como os julgamentos sumários. E vem contribuindo para web linchamentos, que, com alguma frequência transpiram para o mundo real. Foi o caso recente da dona de casa assassinada pela turba incendiada pelas falsas informações. Mais acesso às informações incrementa da intolerância? Não há algo errado nesta equação? A qualidade faz diferença. O que só faz aumentar a responsabilidade dos jornalistas e blogueiros. Formadores de opinião tem poder, inclusive para propagar distorções. No anonimato e sem sanções impregna-se o ciberspace com fotos falsas, conclusões  equivocadas e generalizações improváveis. Colher informações do rescaldo das redes sociais sem verificar a matriz da informação, pode ser desastroso. E qual o papel dos insufladores na atual epidemia de intolerância? O que significa dar voz para pregadores da violência? O que fazem, além de acirrar ânimos, aguçar paixões e induzir à beligerância? O que acontece nas guerras já não é suficiente?

O problema ético atualíssimo é a cobertura jornalística dos conflitos no Oriente Médio. A marcação cerrada com Israel chama a atenção. Dilemas morais e conflitos estão democraticamente distribuídos pelo mundo e não só no oriente médio. Uma guerra é sempre, lato sensu, um álibi universal. Inflando falsas polêmicas, a chancelaria do Brasil, comandada pelo PT, se posicionou ideologicamente a favor de um dos lados, um jornal abriu espaço para que um colunista pouco articulado pregasse o fim de um País e as Tvs hegemônicas impuseram a versão que mais lhes convém. Com tantos estímulos, verificou-se significativo aumento de ataques antissemitas pelo mundo, e, por aqui, uma inédita hostilidade contra a comunidade judaica. Cabe um paralelo com a violência no Brasil (mais de 50.000 mortos em 2013) onde, numa incrível inversão, há mais preocupação com os criminosos, do que com aqueles que sofrem com suas ações, vale dizer os cidadãos. Como se os primeiros fossem assunto do Estado e os demais, ora, os demais que se virem. Quando um absurdo destes é naturalizado, a tendência é que seja incorporado pela opinião pública. Tudo isso cabe na agenda do marxismo reacionário que adotou, nos termos de Fareed Zacharia, a democracia iliberal.

Se há excesso de um exército, que se denuncie esse excesso. Mas o que fazer quando quem ataca não pode ser convertido ao processo dialógico?  Nas palavras de um conhecido pacifista, o escritor israelense Amos Óz, o que você faria se seu vizinho disparasse uma metralhadora contra você e sua família, segurando um bebe no colo? Fujo da angústia e, a cada foguete, preciso me esconder. Eu me envergonho. Mas não pelo direito que um País têm de legitimamente defender sua população, e sim pela absoluta falta de criatividade de quem dirige as populações, a ONU, a diplomacia internacional. Faltam Estadistas, porém o déficit é, sobretudo, de imaginação. Existem sinais de que ela pode ter entrado em recesso.

É difícil aceitar que ninguém tenha desenvolvido uma tecnologia de paz. Um vale do silício do armistício. Uma startup da solução negociada. Ao mesmo tempo, não queremos morrer. Queremos ser equânimes. Nossos cérebros reptilianos nos convencem que se alguém deve sobreviver, somos nós. Não é decisão, ponderação moral ou tirocínio. Segundo o epistemólogo Georges Canguilhén, para os suicidas, tirar a própria vida é um recurso cujo objetivo seria reduzir a tensão à zero. É um equivoco sem volta pois, junto com a tensão, sacrificam a vida. Nós, os conformados, afundamos as cabeças nos travesseiros. Dormimos até que o sangue estanque. Para surpresa de muitos o antissionismo se fundiu ao antissemitismo e está bem mais vivo do que supunha nossa vã paranoia. Pela anômala repetição histórica dos surtos de judeofobia na história, somos obrigados a indagar: estamos diante de um problema de origem transcendental? O judeu, agora cidadão do mundo como outro qualquer, é culpado por não ser mais o bode indefeso preferencial a ser expiado? Talvez não seja nada disso. Quando o mundo, de tempos em tempos, submerge em tensão, os disfarces caem por terra, e os preconceitos, libertados, vingam-se da civilização. Não foi preciso muito esforço. Nunca foram necessários grandes pretextos para condenar Israel e judeus. Hoje há algo bem mais assustador: o estrondoso silêncio da maioria.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/uma-tecnologia-para-a-paz/