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Jonas e o vácuo

É possível sobreviver no ventre de um grande animal marinho? James Bartley sobreviveu 15 horas nas entranhas de um cachalote nas ilhas Malvinas em 1891, e um marinheiro inglês foi resgatado depois de passar 48 horas dentro de um tubarão baleia. Isso importa menos do que o simbolismo dos depoimentos de um personagem considerado “solto no ar” pelos exegetas bíblicos.

Passou quase despercebido, mas os adoradores do terror do Isis, acabam de anunciar a destruição da tumba de Jonas no Iraque, que se encontrava em uma mesquita construída sobre o mesmo sítio que já abrigara uma igreja, desde o século VIII. O simbolismo é significativo. Jonas é o profeta que dá nome ao livro bíblico reconhecido por todas as tradições monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos,

A narrativa explica que Jonas sobreviveu por quase três dias nas entranhas dum monstro marinho, o qual poderia ser a baleia. Esse profeta, mesmo não sendo economista, era um daqueles sujeitos torturados pela constante sensação de vislumbrar o futuro. Ele não ameaçava, insistia em persuadir a humanidade a abandonar pequenos narcisismos. Em outras palavras, que recuperasse os sentidos, a fração justa, algum superego. Denunciava a crueldade entre os povos, dos assírios, dos habitantes de Nínive, das pessoas que habitavam o Mediterrâneo.

Jonas, em oposição ao catastrofismo inexorável dos oráculos e de outros alarmistas formulava previsões condicionais: as imprecações vinham junto com a torcida para que não precisassem se realizar. Parece estranho, mas faz todo sentido.

Para ele, Deus não poderia ser uma entidade nacional, partisã, ou exclusividade de um só povo. O mais provável é que o Criador fosse uma entidade universal, acessível e sensível. É como se não fizesse sentido que a salvação precisasse ser a virtude de uns em detrimento dos outros.

Parece que a mais nova neo-vertente, o Isis, também conhecido como “Califado da Retidão”, a quem agradeço de coração por poder reestudar este sábio bíblico, assim como outros grupos fundamentalistas islâmicos fazem suas marchas determinados: contra a diversidade. Não suportam a vasta e desconcertante pluralidade deste fim da pós modernidade.

A passagem de uma sociedade oprimida por ditadores sanguinários para a liberdade, ensejou, para desgosto do neopopulismo da esquerda latino americana, não uma primavera, mas longo inverno de lutas tribais.

Financiadas por regimes inteiros, e subsidiadas por milionários do ramo da indústria do petróleo, ficaram férteis e belicosos. Represadas por séculos, elas agora encontram o corredor aberto para extravasar e se esparramar por vários continentes. As civilizações podem não estar em rota de colisão, enquanto o hiato parece claro. Tomara que regressem do vácuo, com alguma criatividade. É urgente, precisamos de mais um Renascimento.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/08/15/onde-jonas-foi-parar/