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A máxima sabotagem

Paulo Rosenbaum

domingo 17/08/14

Aristóteles considerava que quase nada poderia existir sem causas. Para ele, todos os tipos de causalidades tinham, obrigatoriamente, alguma finalidade última. Se para tudo há uma finalidade a exceção é a causa acidental, o acaso. Ao contrário das outras causas elas são irregulares e não necessárias, e, por isso, desafiam o determinismo. Dai o susto, […]

Aristóteles considerava que quase nada poderia existir sem causas. Para ele, todos os tipos de causalidades tinham, obrigatoriamente, alguma finalidade última. Se para tudo há uma finalidade a exceção é a causa acidental, o acaso. Ao contrário das outras causas elas são irregulares e não necessárias, e, por isso, desafiam o determinismo. Dai o susto, o escape da função e da razão. O dicionário filosófico de Andre Lalande esclarece o acidente: trata-se de um evento que chega de “maneira contingente ou fortuita e na linguagem corrente, aquilo que raramente ocorre”. Causam susto, escape da função e fuga da razão. Portanto, a causa acidental deveria ser rara. O raro é sempre estranho. Seu aparecimento, inesperado. Foge da ordem natural. A ordem natural, para quem acredita, é a rotina. Sair de casa e voltar. Chegar ao destino. Um dia completo. Escapar do súbito. Do infortúnio. Realizar desejos e projetos. Mas e quando a pedra não sai do caminho? E quando há vento de cauda, névoa espessa, inclinação exagerada e pista oculta? A mesma alegada premonição que faz alguém não embarcar na nave que cairá, vitima quem não teve a mesma inspiração. Por se tratar de um evento com sujeito oculto, acidentes são, essencialmente, injustos. A realidade dos fenômenos acidentais, é dolosa. Mas até prova em contrário, culposa. E a quem devemos recorrer? Uma vez submetidos a eles, não há instância superior, não existem culpados, vilões visíveis ou elucidação possível. Só sobram restos e vítimas. Somos obrigados a submergir em lamentos e luto. Considerando que temos centenas de outras prováveis conspirações em curso, a maior conspiração dentre todas seria se, neste episódio, não tivéssemos nenhuma conspiração. A máxima sabotagem será essa, com o toque místico de tudo ter lugar no dia de aniversário do falecimento do avô, um acidente puro, onde a caixa preta emudece, sem suspeitos, sem provas, sem mapeamento, sem um único indício vivo. Um acidente inapreensível, de evidências vagas, sem rastros. Se não for o crime perfeito, terá sido uma das maiores surpresas que o acaso preparou para a história das gangorras políticas.

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