Odisseia da democracia (blog Estadão)

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Odisseia da democracia

Paulo Rosenbaum

26 outubro 2014 | 13:25

Odisseia da democracia

Não se trata mais de candidatos, partidos, ou grupos antagônicos brandindo slogans de guerra. O que está acontecendo supera tudo que já se viu. Perdemos a leveza, e com razão. Quem aguenta rir com Stalin ou Pinochet e outras tentações autoritárias à porta? As teorias conspiratórias transpiraram para a realidade. Mas não é só isso, o que realmente choca é a falta de alguém, maduro, unificador, pacificador, que responda pelo estranho estado das coisas. Que venha de qualquer lado. Notem que não há mais ninguém respeitado. Alguém já ouviu falar em conflito de interesses? Na ciência, assim como na vida política, não é detalhe, trata-se de item fundamental. Um apetrecho básico para que não reste dúvida de que o processo transcorrerá limpo, equânime, e de forma juridicamente incontestável. Me pergunto se isso ocorre? A carência é por uma espécie de Estadista transpartidário e supra governamental. Um moderador nato. Alguma força democrática que colocasse os pingos nos is. Dizem que os momentos pré revolucionários são assim mesmo. Um período de anarquia vigiada, o qual precede o caos absoluto. Qual o vigor de nossas instituições? Como assim? Uma revista é duvidosamente sequestrada das bancas porque trouxe determinados elementos fundamentais para que o eleitor teça suas próprias considerações sobre o caráter ético-moral de quem o governa, e não se fala mais nisso? Que o lado ofendido produza suas contra evidencias. Mas sequestrar a revista ou comprar a tiragem toda é uma inquietante medida autoritária.  Desde o escândalo Watergate, que culminou com o impeachment de Richard Nixon, foi o heroísmo de alguns — que souberam superar pressão, intimidação e ameaças – que triunfou para mostrar crimes políticos (e comuns) à opinião pública. E O Poder do Estado não esteve a serviço da campanha? Quem regula de fato está sendo imparcial? Oscilo se sou só eu que tenho tantas dúvidas ou se todos as tem, mas, como na famosa síndrome, sinto que muitos desenvolveram uma espécie de amor subliminar pelo algoz,  medo de ofender o opressor, culminando com uma reverencia patológica pelos hegemônico.

Confesso, minha estranheza decorre da observação de que parece que não há mais ninguém achando tudo isso bizarro para o que acreditávamos ser uma democracia. Digo estranho para contornar a incomoda palavra “suspeito”. É inquietante ver que quem administra o País mergulhe junto na convicção das paixões. Enquanto isso, numa festa ou estádio de futebol, no ônibus ou nos bares, nas casas e no campo, e até nas filas de votação as pessoas aparentam levar uma vida normal, como se nenhuma exceção estivesse ocorrendo. Como se não houvesse uma tensão iminente, como se não estivéssemos num preâmbulo ameaçador para além dos resultados finais. Para além das agudizações trazidas pelo Petróleo, subsiste um problema crônico, que foi convenientemente esquecido ou abandonado. A óbvia nuvem totalitária de quem se proclama esquerda mas apresenta uma carta em branco com um populismo arrivista e sem um projeto emancipador para quem gostaria de trocar bolsa por renda. Uma esquerda que bem poderia ser chamada de direita, dada as afinidades fisiológicas, os desmandos e a completa falta de respeito com o contraditório.

E quem manda o eleitor querer ser sempre impertinente: querer saber antes o programa que vai eleger, insistir com a casta política que quer conhecer qual a palavra clara do governo. Imaginem só que o sufragista ousa ter a petulância, a curiosidade de querer conhecer as agendas ocultas e dossiês de interesse público. Por que permanecem arquivados como se não se tratasse de nada ligado ao serviço secreto. Ou se trata? Tudo que acontece nestes dias que antecedem o que deveria ser uma festa democrática impede que se comemore a calma fictícia que reina no planalto de estoicismos.  E nem me refiro aqui aos e-mails ameaçadores que eu e outros jornalistas periodicamente recebemos. Me refiro às garantias constitucionais. Onde estarão, neste exato momento? Já as procurei em jornais e partidos, nas seções eleitorais e em amigos advogados, em juristas de plantão e em redes sociais. Ninguém sabe, ninguém viu. Até que atinja algum novo apogeu, a Odisseia da democracia pode demorar a se firmar como cultura. Mas, ás vezes, demora tanto e seus trâmites são tão burocráticos que ela, já cansada de tanto assédio e testemunhando a perversão de alguns de seus princípios fundantes, resolve dizer aos seus usuários: façam bom proveito, mas o serviço de assistência ao cliente acabou de  encerrar suas atividades.

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Discursos de posse (blog Estadão)

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Discursos de posse

Paulo Rosenbaum

24 outubro 2014 | 12:14

Primeira Hipótese

Queria aqui, humildemente, agradecer o apoio e dizer que precisamos sanar todas as fendas criadas entre nós. Temos que caminhar como uma civilização, distribuindo renda, diminuindo a desigualdade mas sem criminalizar o empreendimento, o trabalho, o esforço pessoal, este seria o verdadeiro triunfo da meritocracia. Quero ainda dizer que, se desejamos alcançar uma meta, qualquer que seja a distancia que nos separa dela, ela terá que ser feita com solidariedade e gentileza. Diremos não a qualquer autoritarismo, não ao culto à personalidade e um grande basta para a incompetência e a falta de gestão. Não vamos cultuar a ruptura e a violência, vamos, ao contrário, buscar transformar o País para que ele seja, de fato, a Nação para todos. Saberei respeitar os 38,6% da minha adversária e convido a parcela propositiva de base que a apoiou, em meu nome e de meus amigos, a se juntar a nós nesta tarefa, que será árdua, e cheia de obstáculos diante dos quais não fugiremos, de reconstruir o País, e apagar as marcas das cisões que nos castigou durante as paixões eleitorais. Temos a oportunidade, única e irrepetível, de unificar o Pais e de trazer todas as forças construtivas para nos reerguer. (aplausos) Fico imensamente grato por toda generosidade. [começa a chorar, mas suprime as lágrimas]. Só eu sei o quanto fui atacado, mas vamos deixar isso de lado. Agradeço a todos que nos ajudaram nesta trajetória e, mais uma vez, quero que saibam, estou bem consciente que esta foi uma escolha que transcendeu meu nome e dos partidos que nos apoiam. Assumo a responsabilidade, mas sei que esta foi uma vitória da ação coletiva, de um povo que amadureceu, que daqui em diante, se Deus quiser, recusará salvadores da Pátria e aventuras temerárias. Quero ajudar para que a consciência inovadora use o Poder de um item do qual pouco se fala: a promoção do bem estar e da felicidade das pessoas. Faremos um governo libertados de ideologias retrogradas, uma administração transcultural e aberta, com justiça social e abertura. Uma gestão que use o poder, não para impor ou controlar, mas para respeitar os cidadãos, oferecer segurança, preservar a natureza com uma política ambiental séria [olha para o lado cumprimentando alguém] e reorganizar as cidades e municípios que estão abandonados. (discretos aplausos). E, é em homenagem a isso que faço nossas as palavras de um escritor notável, o norte americano Mark Twain “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”. (saudações com a mão aberta). Muito obrigado.

Hipótese restante

Companheiras e companheiros, muito agradecida pelo voto de confiança e quero dizer aqui que nós não estamos aqui a toa. Nos colocaram aqui, porque somos o povo. E o povo sabe quem que os governe. E nós estamos aqui para dizer que nós agora vamos mudar e mudar para valer. E que aqueles que não queriam a gente aqui agora vão ter que nos engolir, com ou sem barba. (aplausos e urros indecifráveis). E, além disso, quero dizer para vocês que eu devo de ter o apoio da maioria e quem quiser se juntar a nós será bem vindo e os que não querem…bem, isso já é problema deles. (gritos e assobios) Além do mais, vamos criar muito mais empregos, com mais especialidades, mais casas, mais reformas, ideias novas, mas novas mesmo [branco ou tilt]. Desta vez, será inovação. Serão ideias tão novas, mas tão novas que vamos deixar os outros estarrecidos e humilhados. A culpa pelo que ainda não foi feito é deles, da imprensa, e das forças que não querem o bem do povo. Sabem por que eles não gostam de nós? Porque sabemos fazer, e eles não sabem. Ganhamos porque fizemos o melhor. O plano real que acabou com a inflação? Pode ser um tiquinho [gesto depreciativo] Mas nós é quem fizemos a melhor gestão, as mudanças, e mesmo com a grande crise mundial [olha para os lados em busca de apoio] crescemos uns 0,21. Para eles é pouco. Mas quem se importa com eles? Perceberam a diferença entre nós e eles? Já ordenei, fiz os decretos. Temos que parar com esse negócio e mostrar quem é que manda por aqui. Eu, eu, eu…quero dizer para vocês que eu devo de ter uns 1000 e-mails pedindo para fazer as reformas. Nós dois que demos as bolsas, nós dois que tiramos as pessoas da miséria. E os reajustes podemos agora falar com clareza vão só sobrecarregar quem pode. Por exemplo, essa classe media atrasada, não é professora? E também, [longa pausa, seguida de pigarros do assessores] e…quero dizer para vocês mais uma coisa que nós estamos contentes e chegou a hora destes pessimistas calarem a boca. E vida longa ao partido! (punhos cerrados)

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Discursos de posse, eleições 2014, hipóteses de discursos

Fábrica de acirramentos (Blog Estadão)

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Fábrica de acirramentos

Paulo Rosenbaum

23 outubro 2014 | 00:15

Claude Bernard, pai da medicina experimental, considerava que a estatística é uma verdade para o geral, mas uma mentira para o particular. É que ele não estava bem familiarizado com regimes totalitários, nem conhecia bem a era das manipulações. Pesquisas sempre foram indícios, não resultados. Ingenuamente tematizado, será mesmo o discurso do ódio um fruto do curso de jardinagem intensiva administrado nos últimos tempos? A luta política, se nunca foi civilizada, raras vezes alcançou a degradação que testemunhamos. Ódio nunca foi uma palavra muito especializada, e o rancor é outra generalização abstrata. Trópicos sempre significaram tradição em violência. As quase 60 mil pessoas assassinadas no Brasil no ano passado indicavam que já estávamos previamente rachados. Pelas discrepâncias não saneadas, inércia, e a curiosíssima fusão do público com o privado. Foi o discurso quem sucedeu os fatos, e não o contrário. Uma anomia programada foi sendo cuidadosamente instalada, sem que a maioria, inerme, percebesse. Como é mesmo que se proíbe a compra de votos? Quais as regras para adquiri-los, e qual é o poder que regulamenta o uso do Estado a serviço do Partido? Teríamos que partir daí: o sequestro do erário. Voto é decisão subjetiva. Em meio às injustiças, metáfora do parcialíssimo que nos assola, votamos. Na fria cabine privativa, onde deixamos para trás um som nada certificador, o cidadão têm sua última arma ainda não confiscada. Ódio algum jamais teve geração espontânea. Com fábricas espalhadas em zonas francas os neo oligarcas emergentes precisavam governar sobre o conflito e o usam para reinar. O acirramento é uma commoditie inesgotável, quando some do mercado, sempre pode ser refabricada. Aí estão, em triunfo, o marketing da difamação, a propaganda enganosa, e a indústria da boataria anônima. A demonização do adversário e a infame evocação do holocausto, feita pelo ex presidente, é só a gota d’água ignominiosa, o transbordamento da manipulação. A dualidade sempre esteve comprometida com o maniqueísmo. Mesmo assim, é preciso ter a coragem para recusar a tese da equivalência moral. Em tempos de desmandos, tentação autoritária e acefalia de gestão, a neutralidade é a atividade mais vergonhosa. As vezes, um lado não é só bem menos nocivo que outro: é ele que pode liberta-nos da maleficência máxima, a perpetuação no poder.

Jejum Nacional pelo término dos maus decretos

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Há uma tradição, compartilhada por muitas tradições, de que o jejum sincero pode evitar um mau decreto. Proponho jejum coletivo, nacional, ao modo de Gandhi, nesta quinta feira, 23/10, do nascer do sol até o poente. Todos os que gozam de razoável saúde e, que acreditam numa ação de resistência pacífica, podem se privar de alimentos sólidos (e doar o equivalente ao que não foi consumido). Sugiro meditar 45. No final, rogar por uma vitória do Aécio contra todos os maus decretos.

Jejum_NacionalX

Querido Neto (blog Estadão)

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Querido Neto

Paulo Rosenbaum

17 outubro 2014 | 13:45

Respondo sua missiva de ontem a noite. Não sei usar este negócio direito, mas aqui diz: on line. Vamos ser rápidos. A chefia está preocupada e convocou Estadistas que já fizeram alguma coisa pelo País. Vou ter que dar uma subida até lá. Eu sei, vi, ouvi, testemunhei, você está fazendo o máximo. O povo vai percebendo. Claro, escutei sim, filho. Para constar, cá entre nós, você sempre foi o favorito. Exatamente, isso você herdou de mim. Bate pronto. Mas, mantenha distancia, recordou a sequencia? Depois do soco inglês, vêm os jabs de direita. Cruzado de esquerda? Esqueça, desperdício, ela não aguentaria o tranco. Nenhum conterrâneo decente quer o outro beijando lona. Lembra do ditado? Aquele lá de São João? Quem luta na sujeira, colhe lama. Não era bem isso, parecido. Cansei de falar isso ao Getúlio, mas ele foi ficando teimoso. Aquele chimarrão fervendo! Sabe o que me levantou? Aquela malícia que ela insinuou, e você, assumiu e devolveu com bônus. Não. Eles não sabem o que significa elegância. Senti orgulho. Eu vi, eu vi. Agressão e mentira são fáceis no começo, e a prova veio a cavalo: sustenta-las por muito tempo faz mal à saúde. Exato, é chegada a hora. Está certíssimo, autocritica. É isso que temos. Claro que lá tinha muita gente boa: mas foram sendo expulsos, ameaçados, cooptados. Querias minha previsão? Não posso, aqui têm gente muito mais qualificada que eu. Agora posso confessar? Sabe o que achei mais alentador na madrugada do outro debate? Não, não foi o próprio. Foi o videoteipe da opinião de um senhor negro de meia idade. Foi apresentado alguns minutinhos antes do início. Entrevistado sobre o que esperava do confronto entre vocês dois, ele olhou de lado para o repórter (olho no olho, não na câmera) e disse com notável determinação algo como “não tem mais ninguém bobo não senhor”. Palpito que este governo deve sucumbir exatamente porque está apostando no contrário. As contradições chegaram naquele ponto de sinuca. Já lutam entre eles. Não, não é bem isso. Não tem partido santo. Mas eles cruzaram a fronteira. Dali, ninguém nunca passou e levou. Discordo. No mundo deles isso não é baixaria, é agonia por revanche. Lembro do JK, ele dizia que incompetente é raivoso. Fique e mostre generosidade. Agora, a conversa vai ser diferente. Como já disse o escritor – aliás, vi ele outro dia com um livro do Machado numa mão ,e, na outra, uma pena toda enfeitada – quando a verdade escapa, sobram interpretações desesperadas.

Boa sorte dia 26, a família está toda aqui, torcendo pelo Brasil.

Ps – Hoje teve muita neve aqui em cima, bom sinal, bom sinal, bom sinal.

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Glossário eleitoral analógico (Blog Estadão)

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Glossário eleitoral analógico

Paulo Rosenbaum

14 outubro 2014 | 09:19

Contabilidade criativa – a ordem dos fatores não afeta o déficit

Protocolo para obtenção de registro na OAB-  Carteirinha de filiação partidária

Urna eletrônica – Fria, impessoal, e não dá para mandar whatsapp

Golpe- Inadvertida pancada desferida de dentro das estatais

Muro total – Votem nele, em branco, nulo ou na outra.

Correios imparciais – Nada a ver com correio elegante

O bicho vai pegar – Se correr, o tucano sobe

Caldo vai engrossar – Ninguém imaginou que ia ser canja

Crise hídrica – Foi por um pingo

Chuvas na Cantareira – Nunca se sabe

Lei seca – Nunca se sabe menos ainda

Fantasma do passado – pai de Hamlet

Fantasmas do presente – Quem mandou faltar à sessão espírita?

Marketing de desconstrução – Desmanches psicológicos que operam na Alvorada

Investimento social–Infraestrutura de países amigos do regime

Bolivarismo – Sai para lá, Che!

Pré sal- Dieta sem sódio

Reajuste no dia 1 de janeiro – Fiado, só com o novo presidente

Herança maldita – O que divulgam que receberam

Herança bendita – O que não divulgam que vão deixar

Base aliada  – Cosmetologia pesada para disfarçar envelhecimento precoce

Greve no período eleitoral – Ao meu torpedo, descruzem as armas

Institutos de pesquisa – Aplicação de questionários com fins recreativos.

Postes – Estruturas em concreto que perderam os plugs

Bolsas e Mercado – Subsidio populista perpétuo e desenvolvimentismo democrático emancipador.

Memória dos Românticos (blog Estadão)

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Memória dos românticos

Paulo Rosenbaum

10 outubro 2014 | 18:42

Estamos bem na metade da ponte, e a tendência é que se encontrem bem lá, no meio. De um lado acordos, alianças, confluência, liga. De outro, luta, conflito, colisão polaridade, e antagonismo. No fundo, todo adulto pobre ou rico, erudito ou leigo, rural ou urbano, nortista ou sulista, sabe intuir: exceto no futebol, vitória nunca foi fazer o outro lado engolir a derrota. Pode ser de grande valor acionar a memória nos incertos dias do presente.

O interesse pelo bem comum, teórica característica do que fazer político, pode estar não só ultrapassado, como ter sido destituído sem consulta prévia. Deu lugar a uma geração de hábeis representantes cismáticos, porfiosos, rabulisticos e facciosos. Ao se açular uns contra os outros e, abraçar diretamente o partido, quem estão submetendo ao combate? Não é mais um postulante contra o outro, nem rinha de ideias. Agora, é povo contra povo. A maioria nem percebe, trata-se de um jogo que, lá atrás, poderia ser chamado de zangui-zarra, renzilha ou chantagem. Nele, a esgrima de baixa qualidade, fingindo discutir valores, promove a deselegância. Com efeito, o refrão já está pronto e na ponta da língua: “é política, vale tudo.” Se ao menos pudéssemos resmungar, encaixar a agressão em alguma figura jurídica, ou, simplesmente, migrar para um reino menos litigante.

Mas, pensou-se em tudo. Nada parece estar ao nosso alcance a não ser entrar na bolha e assumir o contágio. No manual dos litigantes está o alfabeto do ajuste de contas, buscar ocasião de bulha, falar entre os dentes, medir-se em duelo, em uma palavra, haver-se.

Quando lá do fundo da sala te perguntarem: é essa então a tal festa democrática? Já poderás dissuadi-los e responder que não sabe. Mas, na memória dos românticos haveria outra: não é nem a sombra do que poderia ter sido.

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Os refratários – blog Estadão

Os refratários

Paulo Rosenbaum

08 outubro 2014 | 15:38

A sensação é incerta, mas o espírito indica que podemos estar saindo de um pesadelo. Mesmo que nem todos chancelem esta percepção, é notável, depois de domingo já se respira bem melhor. Mas não é bem a vitória da razão. O que vimos emergir foi a contracorrente, um sentimento coletivo que fermentou a aversão ao conjunto da obra. Pode-se explicar pelo artificialismo de uma cisão entre o sul contra o resto. Também buscaram-se justificativas nas más gestões apresentadas.  A maioria deu o recado em paz, com extrema civilidade. E foi exatamente esta civilidade, gentil, mas determinada, que fez acender as irascibilidades latentes. Iracundos que, refratários às decisões democráticas, e, impedidos de fazer autocrítica, preferiram ressuscitar teorias de conspiração, táticas neofascistas e a belicosidade de sempre. Previsivelmente preferiram apontar indetectáveis forças da reação, que assumir os enganos. Mas, se há mesmo uma conspiração em curso ela seria o método recorrente: hostilizar quem não os aprova. Desqualificar as divergências com personalismos foi o que insuflou a animosidade. Plantar veneno é uma aposta de alto risco. Parecem dispostos a corre-lo, enquanto cresce a usurpação do Estado. Sequestro ainda sem resposta por parte das instituições imobilizadas pelos exércitos de nomeados. Na guerrilha eletrônica tentam desconstruir a coalizão de descontentes usando todas as armas e recursos. Contam com a lentidão das medidas jurídicas que os conteria.

O que pode atrapalhar aquele que parecia ser o plano perfeito foi um erro de cálculo. Negligenciar uma terceira força, que, ainda não completamente desenvolta, que cresceu e cresce por contágio, esboça potencial mais amplo do que só um sufrágio. Se não é propriamente nova, aglutina prioridades distintas e, principalmente, concentra novas preocupações. Este novíssimo contingente não é propriedade de ninguém, líder, partido ou entidade. Emergiu do saldo da pós modernidade determinando a orfandade política de parcela significativa de jovens.

Órfãos preferem acompanhar ideias à submissão aos pastores. O carisma pessoal, o magnetismo sedutor e a capacidade de persuasão não convencem com a mesma facilidade de antes. O novo em política não será, portanto, decisão de uma cabeça, conselho de notáveis, nem do habitual messianismo roto. Emergirá de consensos que parecem escapar das ruas, das necessidades complexas destes nossos tempos, e dos verdadeiros direitos humanos: o desejo por uma vida melhor, mais liberta, mais secura, e menos consumista.

Faz parte destes ingredientes, por exemplo, não ser controlado por gestores e partidos desconectados dessas necessidades. Emancipação das ideologias que definem o que deve ou não ser pensado. Libertados daqueles que insistem na navalha dicotômica: direita ou esquerda, conservador ou progressista. O anacronismo sobrevive na bandeira dos ideólogos, que sucumbem aos dogmas, slogans e culto à personalidade. Incapazes de conceber outras soluções para os problemas sociais, persistem nas teses superadas: autocracia, Estado onipresente, progressivamente controlador e hegemonia partidária. Não foi por racismo, preconceito de classe ou elitismo. Foi para este projeto de poder que significativa parcela da sociedade, justamente a mais bem informada, registrou sua mensagem: NÃO.

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Dia dos Perdoados (Blog Estadão)

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Dia dos perdoados

Paulo Rosenbaum

03 outubro 2014 | 16:34

Quem é perdoado reconhece o que se perdoou? Na generosidade irrealista do perdão, o perdoado raramente repara no que acaba de receber. E aí há uma interessante inversão. Uma carga às avessas. Um espaço criado à força. A inesperada perspectiva de reparação. Pois um perdão não precisa ser justo, coerente, adequado ou mandatório. Sua oferta, inclusive, prescinde origem, circunstância e justiça. O perdoado não necessariamente mergulha no mérito. Perdoar é um verbo estranhamente impreciso, porque não pertence à agenda da razão. Rompe com qualidades às quais acostumamos no universo da des-subjetivação. Onde bens, serviços e relações instrumentais ocuparam o lugar da solidariedade. Um perdão é, portanto, uma reconsideração filosófica de valores. Pode ser a pequena meditação sobre um julgamento, mas também, elevar a potência de uma consideração. Perdoar é abandonar voluntariamente – e não à revelia, essa é toda a diferença – a nostalgia. Esquecer o passivo parece medida anti terapêutica. Talvez não seja. Destarte, há que se impor a particularidade. A alienação e a passividade não podem valer frente aos opressores e regimes tirânicos, potenciais ou reais. Com efeito, já que o silêncio aplaca a repressão, toda perspectiva totalitária exigirá grito, resistência e luta. A mentira, dita com convicção, constrange. Eis que em tempos de cólera política, a alienação pode ser o oásis da neutralidade. Por que nos impomos escolhas? Ao sim ou não, ao agora ou depois, a este ou aquele, ao sucesso ou fracasso? Um dia de expiação não é para sofrer, mas buscar o neutro. Neutralidade não significa anulação (não anulem), mas atuação pelo desconcertante. Através da metáfora da desrazão, perseguir a paz da incoerência. A relativização da seriedade e a recuperação do humor. O verdadeiro desvio do previsível. Já que alguns significados do perdão devem recair na metafísica, sua máxima concretude pode estar em passar sobre as ofensas, alcançar o outro na congratulação do dia a dia, e sentir se há alguma fusão de horizontes em vista.

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Tags: dia dos perdoados, Yom Kipúr

Timing e justiça poética (blog Estadão)

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Timing e justiça poética

Paulo Rosenbaum

05 outubro 2014 | 06:42

Juro, é incompreensível. Eles bem que prometeram, o bicho iria pegar. E mesmo assim, ninguém ainda sabe qual vai dar. Não é descrédito nos instituto de pesquisa, apenas respeito pelo imponderável. Timing sempre foi vital. Na política, perdê-lo costuma ser desastroso. Custava a história postergar junho de 2013 para meados deste ano? Fosse assim, a aspiração de parte significativa de brasileiros estaria previamente garantida e alguma oposição vingaria. A eclosão precipitada, o parto prematuro e a pressa do processo histórico pode ter nos custado caro. Um perturbador continuísmo. A arrogância maciça. O totalitarismo de gabinete. Ou será que tivemos transformações das quais ninguém se deu conta? Mobilidade urbana? Reformas políticas não oportunistas? Descentralização de impostos? Controle da inflação? Ajustes nas contas públicas? Transparência e diálogo? Não só tivemos Copa, como os benefícios palpáveis perduram invisíveis. Por capricho aleatório dos eventos, corre-se o risco de engolir mais enganos sucessivos, submissão à manipulação e observar o agônico torniquete contra as liberdades democráticas. Num País rachado a tentação controladora fica mais plausível. Nesta peculiar democracia programa de governo tornou-se agenda secreta: só em primeiro de janeiro. O mérito pela diminuição das desigualdades? Deveria ser coletivo, e vêm de longe. Resultado direto do espantoso respeito inicial pelas conquistas do plano real. Mas a cegueira pode ter se tornado pandemia contagiosa. Um jogo não deveria observar regras? A constituição não exigiria garantias e igualdade de oportunidades aos candidatos? Ou a máquina do Estado foi declarada propriedade do partido? E só para saber: qual órgão da República cuidaria da matéria difamação e calúnia no horário político gratuito? No futuro, podemos nos pegar rindo da navalha sobre a qual estamos suspensos. Infelizmente, o presente têm mais rigor: só nos permite votar, cruzar os dedos e esperar pela justiça poética do timing.

Tags: eleições 2014, justiça poética do timing, manifestações juninas, timing e justiça poética