Os refratários

Paulo Rosenbaum

08 outubro 2014 | 15:38

A sensação é incerta, mas o espírito indica que podemos estar saindo de um pesadelo. Mesmo que nem todos chancelem esta percepção, é notável, depois de domingo já se respira bem melhor. Mas não é bem a vitória da razão. O que vimos emergir foi a contracorrente, um sentimento coletivo que fermentou a aversão ao conjunto da obra. Pode-se explicar pelo artificialismo de uma cisão entre o sul contra o resto. Também buscaram-se justificativas nas más gestões apresentadas.  A maioria deu o recado em paz, com extrema civilidade. E foi exatamente esta civilidade, gentil, mas determinada, que fez acender as irascibilidades latentes. Iracundos que, refratários às decisões democráticas, e, impedidos de fazer autocrítica, preferiram ressuscitar teorias de conspiração, táticas neofascistas e a belicosidade de sempre. Previsivelmente preferiram apontar indetectáveis forças da reação, que assumir os enganos. Mas, se há mesmo uma conspiração em curso ela seria o método recorrente: hostilizar quem não os aprova. Desqualificar as divergências com personalismos foi o que insuflou a animosidade. Plantar veneno é uma aposta de alto risco. Parecem dispostos a corre-lo, enquanto cresce a usurpação do Estado. Sequestro ainda sem resposta por parte das instituições imobilizadas pelos exércitos de nomeados. Na guerrilha eletrônica tentam desconstruir a coalizão de descontentes usando todas as armas e recursos. Contam com a lentidão das medidas jurídicas que os conteria.

O que pode atrapalhar aquele que parecia ser o plano perfeito foi um erro de cálculo. Negligenciar uma terceira força, que, ainda não completamente desenvolta, que cresceu e cresce por contágio, esboça potencial mais amplo do que só um sufrágio. Se não é propriamente nova, aglutina prioridades distintas e, principalmente, concentra novas preocupações. Este novíssimo contingente não é propriedade de ninguém, líder, partido ou entidade. Emergiu do saldo da pós modernidade determinando a orfandade política de parcela significativa de jovens.

Órfãos preferem acompanhar ideias à submissão aos pastores. O carisma pessoal, o magnetismo sedutor e a capacidade de persuasão não convencem com a mesma facilidade de antes. O novo em política não será, portanto, decisão de uma cabeça, conselho de notáveis, nem do habitual messianismo roto. Emergirá de consensos que parecem escapar das ruas, das necessidades complexas destes nossos tempos, e dos verdadeiros direitos humanos: o desejo por uma vida melhor, mais liberta, mais secura, e menos consumista.

Faz parte destes ingredientes, por exemplo, não ser controlado por gestores e partidos desconectados dessas necessidades. Emancipação das ideologias que definem o que deve ou não ser pensado. Libertados daqueles que insistem na navalha dicotômica: direita ou esquerda, conservador ou progressista. O anacronismo sobrevive na bandeira dos ideólogos, que sucumbem aos dogmas, slogans e culto à personalidade. Incapazes de conceber outras soluções para os problemas sociais, persistem nas teses superadas: autocracia, Estado onipresente, progressivamente controlador e hegemonia partidária. Não foi por racismo, preconceito de classe ou elitismo. Foi para este projeto de poder que significativa parcela da sociedade, justamente a mais bem informada, registrou sua mensagem: NÃO.

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