Novíssima República (Estadão)

Novíssima República

Paulo Rosenbaum

10 março 2016 | 15:32

 

Acredita-se que o primeiro passo para o surgimento de uma nova cultura deve ser ajusta-la à linguagem. Na linguagem de Gramsci, fonte de inspiração para fundamentalistas locais, a tática é promover o que ele classificava como “hegemonia cultural”. Todas as correntes políticas, com maior ou menor domínio teórico, buscaram essa perspectiva. Para conquistar o sucesso nessa empreitada seria vital o domínio do sistema educacional. Encaixa-lo, perverte-lo e impingi-lo para viabilizar o projeto. O modelo ajudou muitos tiranos conseguirem que sociedades inteiras fossem submetidas ao arbítrio, mesmo quando se imaginavam livres da ameaça. Foi assim que depois da queda do muro de Berlim a palavra “comunismo” foi sendo apagada dos partidos e discursos. É assim também com outras expressões como “antissionismo”, atualmente usada consensualmente por esquerda e direita para escamotear a judeofobia, associada ao comprometido termo antissemitismo, também fazem parte destes deslocamentos estratégicos para ocultar termos desgastados perante a opinião publica. Neste sentido, recomendo a leitura do artigo de Roger Cohen do NYT, “Um antissemitismo da esquerda” traduzida e reproduzida neste Estadão. (http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,um-antissemitismo-de-esquerda,10000020266)

A palavra “impostos” é outra que tende a ser suprimida dos léxicos para dar lugar a “contribuição”. Afinal, contribuir, além de soar melhor, reveste-se da aura de espontaneidade participativa com que o Estado precisa contar para enfiar a mão no bolso dos contribuintes. O famoso conceito de Marx  “luta de classes” também foi se dissipando no caldo ralo de expressões como “justiça social” e “isonomia econômica”. “Nós e eles” substituiu com maestria o”ricos contra pobres” pois, sob o manto do sujeito indefinido “nós e eles” podem ser quaisquer agentes sociais, além de sugerir uma proximidade empática com o “nós” contra um distanciamento calculista do “eles”. Substituir terminologias e conservar, na maioria das vezes, o mesmíssimo conceito; para muitas dessas dissonâncias, dá-se o nome equivoco de politicamente correto.

Assim, no Brasil atual, também existem concepções que são muito peculiares ao universo lulopetista e a todos aqueles que vem se destacando na defesa desse governo terminal. Contornar expressões que impactam o senso comum, distorcer condições e contextos e coloca-las sob suspeita é uma espécie de exercício de engano sistemático. Esse é o plano B, já que quase todas as apostas autocráticas malograram enquanto o partido afunda no mal feito movediço gerado pelo desejo de poder. O abuso destes recursos, que adulteram o sentido, e distorcem os procedimentos democráticos se tornaram a estratégia predominante da atual gestão federal: apropriação indébita está sujeita a neo conotação “projeto social”. É possível que liberdade de expressão passe a significar controle da imprensa com censura. Democracia deve ser sinônimo de hegemonia do partido. Todos são iguais perante a lei parece ter sido igualado a “companheiros investigados merecem inimputabilidade ou ministério”. Condução coercitiva pode significar violação do Estado Democrático de Direito. Investigação parece ser sinônimo de abandono da presunção de inocência. E finalmente a grande sacada: seguir a constituição é golpe.

Quando lamurias generalizadas fazem o coro de que nos faltam lideranças criveis, estamos apenas endossando a busca inconsciente por personalidades magnânimas, quando já deveria estar evidente o desastre quando se trata de idolatrar caudilhos populistas, elegendo seus satélites e postes. O hiato de poder que temos pela frente é temerário, mas, comparado com o status da ocupação atual, que venha o vácuo. Apenas a maturidade da própria sociedade proporcionaria o nascimento de lideranças consistentes e não personalistas. Em 13 anos a confiança cedeu lugar a um brutal ceticismo, onde a palavra dos que nos governam não tem mais nenhum valor, salvo uma interpretação reversa. A passagem da indução subliminar para a explicitação da beligerância por parte daqueles que estão prestes a deixar o poder não deveria nos espantar. Espantoso mesmo é a passividade com que a aceitamos. De forma irreversível, e contra a marcha do autoritarismo que quase nos empareda por inteiro, as instituições avançam junto com a população.  Se os agrupamentos intolerantes desejam levar a estratégica às ultimas consequências terão que re-pactuar toda a linguagem. Sugiro que publiquem um glossário próprio, para uso exclusivo entre quatro paredes, dentro e fora dos bivaques que frequentam. O importante é que depois de todas as dores deste prolongado parto, o próximo domingo está prestes a dar a luz. Nascerá forte e será uma menina, Novíssima República.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/novíssima-republica/

O mínimo que nos une (Estadão)

O mínimo que nos une.

Paulo Rosenbaum

13 março 2016 | 13:10

 

Eu poderia me afundar na neutralidade. Há anos faço isso. Não gosto de concentração, de aglomeração e tenho surtos de claustrofobia., Mas hoje não. Hoje um sentido de agrupamento me invadiu sem avisar. Caminhei quase automaticamente. Cheguei ao núcleo e lá me vi cercado de pessoas com as quais não conseguia enxergar afinidades. Meu esforço era buscar qualquer Identidade, impossível. Continuei andando. O palco era o mesmo, o asfalto tenso com reinvindicações dispares, sem foco. Mas havia uma, comum a maioria. Queriam mudar e exigiam o fim do pesadelo. Foi quando ergui o celular para captar a multidão que levei um cutucão. Era Irma, a amiga perdida, uma das melhores, que me bloqueou lá atrás, quando os escândalos começaram. Todo mundo sabe, os contatos nas redes sociais são voláteis. Com Irma era diferente, uma amiga de infância. 26 anos de contato interrompidos pela estranha devoção ao partido.

–Você, aqui? Enfatizei meu espanto.

— Só vim dar uma olhada.

— E o que me diz?

–É a direita, sempre a direita.

— Vamos começar de novo?

— Não, é só você admitir

— Admitir o que?

— Que traiu a causa.

— Minha causa é a sua causa, e de toda essa gente.

— A minha não! Ela limpou a boca.

— Qual é a sua?

— Você está careca de saber. Justiça social, decência, o fim de toda essa bagunça

— Irma, é o que quase todos querem. Dá uma parada, sinta a realidade.

Ela olha em volta e retorna um olhar negativo

— Bando de burgueses!

— Bando de cidadãos

— Não acredito. Você esqueceu das aulas?

— Fui além. Também fiz questão de desaprender livros

— Bem que me falaram, você cedeu: virou um deles

— “Um deles”? Somos todos “um deles”

— Nada. Eu não! Ela ameaçou se afastar.
— Amiga, demorou, mas só agora percebi que eles não eram republicanos. Por favor, não finja não ver o jogo que eles fingem não jogar.

— Aff. Não embarco nessa.

— É fácil, eu tirei os óculos e ajustei a lente.

— Ok. O que me diz de todos os intelectuais? A maioria fechou com o governo.

— Não é mais unanimidade e você sabe tão bem quanto eu que eles nunca tiveram bom gosto.

— Gosto? Por favor…

— Faz o seguinte, que tal confiar mais na sua experiência do que na sua inteligência?

— Não dá, eu ainda tinha um fiapo de esperança

— Tenha. Olha isso! E apontei para todos ali.

— Estou vendo e isso só reforça o que eu já tinha concluído.

— O que Irma?

— Que somos incompatíveis.

— E o que faremos ?

— Cada um fica na sua.

— Abandonar o ideal e ficarmos com o mínimo que nos une?

Ela deu de ombros e foi se afastando, mas deu tempo para gritar

— Tem certeza?

Ela só virou o pescoço e usou a mão em concha para falar de volta

— Vou te desbloquear.

E foi desaparecendo, acenando de costas um longo tchau.

Me afastei da multidão para analisar a conversa. Desbloquear pode ter sido um sinal. Sinal de uma união possível e não ideal. De que o diálogo poderia voltar a fluir. De que uma democracia nunca é perfeita, comporta contrários e não anula ninguém. Que a incompatibilidade era uma espécie de cortina de fumaça de uma fogueira que nenhum de nós dois criou.

Me voltei em direção à gigantesca massa de gente e lá me entreguei ao êxtase. Ao êxtase do pertencimento.

Paulo Rosenbaum

Lutam pela causa, causa própria (Estadão)

Lutam pela causa, causa própria

Paulo Rosenbaum

16 março 2016 | 23:48

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto sem chapas, mas não lutei, junto com minha família para ver isso. Se aqui é o fim do mundo, pode acabar logo. Hoje parece distante, mas na época estávamos colados, bem ao lado da opressão. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas que o domínio segue ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. Os que persistem em endossar perderam o rótulo de sonhadores e já não podem ser poupados. Para obstruir é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se os dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, e por isso mesmo, o juiz Moro tem suas razões. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no crime? Que o legaliza em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave estivesse na posse do sítio ou do triplex. Se a acusação fosse clara, o crime é usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, e ainda podem sangrar. Contra o gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes podem ser ouvidos à distância. Sabe o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso?  Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar. Trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento  a burguesia. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu as discordâncias. Afinal dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O ardil triunfou, por um tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, senhores, comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E as combustões se propagam. Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação, hoje já esvaziada de qualquer sentido, nem eles podem ignorar: de fato, eles ainda hoje lutam pela causa, causa própria.

A máscara do establishment (Estadão)

A máscara do establishment

Paulo Rosenbaum

17 março 2016 | 08:42

 

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto chapa fria, mas não lutei contra o autoritarismo, junto com a família, para testemunhar isso. Entendia e compreendia a neutralidade de tantos. Também tenho amigos e ex-amigos que se calaram com medo de ofender quem ainda acreditava no projeto que ultraja a República. No entanto, ao contrario deles, não só é nosso dever criticar o Poder, como é previsível que, num futuro não muito distante, a maioria reconhecerá o equívoco. Mais do que isso, irão admitir, inclusive, que se o petismo degenerado tivesse sucesso na implementação do golpe totalitário, todos correriam risco, risco de nem poder mais emitir suas opiniões. Depois de obstaculizar a justiça, a liberdade seria o próximo alvo. Isso já seria um grande motivo para contestá-los, ou não? Hoje parece distante, mas, na época, estávamos todos colados, bem ao lado de uma ardilosa opressão silenciosa. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, as migalhas ofertadas, o populismo que subsidia, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas consciência de que o predomínio é ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. O contraditório pode ser respeitado, a bizarra defesa de um Estado movido pelo crime, não. Aqueles que persistem em endossar perderão o rótulo de sonhadores, e já não podem ser poupados. Para obstruir, é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, o juiz Moro teve razões de sobra para cercar-se de evidencias forenses. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no registro do crime? Que o legalizou em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Seu poder ceifado. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave a posse do sítio, triplex ou objetos. Se a acusação fosse clara, a fraude seria usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, ainda podem sangrar, a ferida seguirá contaminada. Contra um gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes, podem ser ouvidas à distância. Sabem o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso?  Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar, se acham no direito de persistir. Com aval de intelectuais comprometidos. Poderia ser um escândalo, mas trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento a burguesia e amordaçou a sociedade. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu discordâncias. Afinal, dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O veneno triunfou, por algum tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, tem seu espelho. Do outro lado comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E combustões se propagam.  Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação idealista, hoje esvaziada de sentido, nem mesmo eles podem ignorar: de fato, o establishment hoje luta pela causa: causa própria.

A teia e o enredo (Estadão)

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A teia e o enredo

Paulo Rosenbaum

27 março 2016 | 10:27

“Nem sei mais se são os tempos ou os contra tempos. Sei que pago o preço, o preço do meu bem estar ter se fixado na contra mão de outros com excessivo poder. Processo histórico, preâmbulo revolucionário, estado estável insuportável? Estamos todos num só barco imaginando como e quando o mar nos dividirá. Mas, e se nos descobríssemos embarcações mais fortes daquelas à deriva? E se a constituição não fosse apenas um joguete hermenêutico nas bocas da corte? Não posso culpar ninguém. Minha decisão era só minha e atingiu um estado incontornável.  Mas há ou houve algum suporte coletivo que poderia ter evitado esse desfecho trágico? Até isso ficou para trás. Neste confinamento que já dura meses (nessa escuridão perdi a noção do tempo) essas são as últimas palavras de um juízo que, não tarda, será extinto, infelizmente pela violência, não da maioria que exigia ser emancipada, mas por força da truculência, da chantagem, do medo e das armas. Se alguém puder ter acesso a isso adiante afirmo que  não esmoreço, não esmorecerei. Se vou ser silenciado que seja diante deste protesto, cujo deslacre pertence ao futuro. Admito ter extrapolado limites em alguns momentos mas  ainda” (O bilhete termina abruptamente)

Esse bilhete manuscrito foi achado há apenas seis meses, enterrado na cela secreta número 13. Encontrado numa província ao Sul do Lago, deve ter sido escrito alguns dias antes da acusação de alta traição. Sua datação exata é imprecisa por conta dos incêndios que se seguiram aquilo que hoje conhecemos como o Verdadeiro Golpe. Na época, ainda era tática usada para confundir a opinião pública. Era prática comum daquela agremiação acusar de golpe as forças constitucionalistas, para, então aplicar sua própria modalidade de exceção. As forças da Usul e os blindados assumiram posições em vários estados da federação. Isso foi um pouco antes da caminhada dos 50 milhões, oficialmente a maior concentração pacifica de civis já registrada no planeta. No dia 08 de julho as tropas nacionais, em desavença, se viram frente a frente, contra e a favor do governo, já declarado ilegítimo por praticamente todas as instituições. A operação “Iludir-Frust” desencadeada pelo poder prestes a cair, foi marcada pelo silenciamento da mídia, suspensão dos direitos civis, e toque de recolher em cidades com mais de 100 mil habitantes. Ninguém respeitou. A ameaça de uma conflagração civil fratricida tornava-se eminente. No dia 09 de julho a ordem transmitida em castelhano e ouvida pelos dois lados para “bombardear las fuerzas contra-revolucionarias” deram o alerta e foram também desrespeitadas. Foi somente no dia 10 daquele mesmo julho, com o avanço de tanques e colunas de infantaria vinda das fronteiras do oeste e de cima que o exército de Trasio foi reunificado, e  ainda que salva de tiros e escaramuças tenham sido reportadas em várias localidades, assim como esporádicos choques entre civis, nenhuma gota de sangue foi derramada. Numa estranha e rápida reviravolta, menos de 36 horas a tropa, reunificada e a agressão externa foi rechaçada, e os invasores foram presos e escoltados para além dos limites da cordilheira.

Surpreende que tudo isso tenha chegado a este ponto e tenha acontecido numa escala e volume de desvios inimagináveis. Desde o fim da guerra fria não se testemunhava um Estado dominado por cúpula tão habilidosa na arte de deslegitimar a democracia. Tudo isso aconteceu um pouco antes dos anos 20. Trasio havia sido controlada por uma espécie de poder paralelo que instaurou políticas fiscais autodestrutivas. Praticamente todas as instituições precisaram ajoelhar-se diante do alcance e poder do Estado que prosperava sem oferecer praticamente nenhuma emancipação real — de renda ou autonomia — para seus súditos. Entretanto, como negócio privado dentro do Estado fora um plano considerado bem próximo da perfeição. Sem os acasos e imponderáveis que desfiaram a teia e o enredo, estima-se que talvez tivesse durado mais 50 anos.

Nesta primeira aula de História da Administração do século XXI, disciplina oferecida por esta Universidade em português e inglês, nosso objetivo não é o julgamento do passado, apenas oferecer elementos para interpretar o que realmente aconteceu em Trasio nos últimos 30 anos.

Sob um consenso nunca antes registrado na história contemporânea das nações, a caminhada teve inicio e apoio maciço. O governo, que já comemorava a vitória soube da reunificação das tropas e do avanço da FRP. O Poder foi sendo sitiado pelas multidões organizadas pela FRP (Forças da Resistência Pacifica) que fluíram de todas as regiões até a cidade de Ilia. Cercada, a cúpula tentou então destruir os documentos da “pasta L”, as mais graves evidências documentais, a essência do material incriminador. Em meio a situação ainda ouvia coros desestimulando a renuncia. Em seguida, a chefe, pessoalmente, tentou transporte junto às companhias de helicópteros. O objetivo de curtíssimo prazo era deixar o Altiplano para buscar exílio no País do meio, mas mesmo as embaixadas consideradas amigas foram instruídas a acionar suas secretarias eletrônicas. Como ninguém mais os atendesse, recorreram às milícias acampadas nos arredores do palácio quando se descobriu que as barracas já haviam sido abandonadas. Já que os motoristas e serviçais também haviam sumido, recorreram às bicicletas. Com disfarces improvisados chegaram até a Esplanada de Ilia, mas foram alcançados por populares antes de chegar ao aeroporto onde haviam combinado sequestrar um Boeing 727. Presos pelos civis foram entregues às tropas e seguiram diretamente para a província do Sul. Quando lá chegaram, com garantias de amplo direito de defesa, foram julgados e condenados por crimes contra a humanidade. A ex chefe saiu sob liberdade condicional em 2030 e alguns anos depois ainda tentou, em vão, se eleger vereadora de uma cidade pequena no extremo sul.O tal bilhete, perdido por quase 20 anos, e recém resgatado, ficou sob poder do novo Tribunal. Desde as reformas dos anos 30 que corrigiram quase todas as distorções ideológicas — do ensino à política —  foram inseridas importantes novas cláusulas para evitar a repetição de uma hegemonia quase perfeita que se instalou na distante República de Trasio. Radicais e populistas de direita e de esquerda foram varridos pelas urnas. Na nova constituição, itens pétreos foram instaladas como salvaguardas estritas contra qualquer tentativa de poder hegemônico. As instituições judiciárias agora poderiam se manter incólumes às pressões, e, protegidas de qualquer ativismo. Doravante, seriam eleitas a partir de listas elaboradas pelo próprio poder judiciário. O novíssimo congresso de Trasio também foi consequência direta daqueles dias turbulentos. Os empresários e suas mega corporações, então condenadas, tiveram que repatriar recursos e suas penas foram substituídas por serviços prestados ao Estado supervisionadas por comissões especiais eleitas pela sociedade. Com a reforma do sistema penal, prisões foram esvaziadas e a violência sofreu inédita diminuição. A infraestrutura que Trasio tem hoje, uma das mais eficientes do mundo, fora também um dividendo direto da ação dessa supervisão praticada por toda a sociedade. Com impostos diminutos, justos e descentralizados a sonegação passou a ser mínima. As disparidades sociais não apenas foram mitigadas como Trasio pulou à condição de 3a economia do mundo (e não a falsa sétima posição, alavancada por influencia do partido) com um planejamento original e completamente renovado.

O que eu acho? A renuncia poderia ter sido um último ato com alguma força e dignidade, e não de covardia. Imagino que vocês queiram saber o nome do autor do bilhete? Pois afirmo que hoje o nome não importa.  Depois de ser resgatado do cárcere de um porão na península próxima ao Lago Sudoeste, ele preferiu apartar-se da vida pública. Escolheu passar seus anos no convívio com a família ainda que seu nome continuasse por décadas na lista de prováveis candidatos à primeiro ministro. Nunca mais se ouviu falar do ex-chefe daquela República. Suspeita-se que, fugitivo, tenha conseguido deixar Trasio, e, sob uma plástica mal sucedida, mas suficientemente desfigurante, tenha vivido e morrido no anonimato numa distante província da Coreia do Norte.

As respostas estão no subsolo (Estadão)

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AS RESPOSTAS ESTÃO NO SUBSOLO

Novo romance de Paulo Rosenbaum promete entregar respostas e mistérios da origem comum aos seres humanos. Elas não estão no céu que nos protege, mas no subterrâneo que nos sustenta.

Em Céu Subterrâneo, novo romance de Paulo Rosenbaum, a sensação labiríntica de risco e desconcerto infiltram-se pelas páginas e dominam a saga de Adam Mondale, colecionador de câmeras antigas, possuidor de uma córnea defectiva, aspirante a escritor e judeu laico. Em sua personalidade plural e interesse particular, Mondale é regido pelos mistérios que envolvem um antigo e irrecuperável negativo fotográfico, que carrega em si o insuperável da condição humana.

 

Ao receber uma bolsa literária, Adam Mondale embarca no último vôo noturno para Jerusalém, a fim de desvendar os mistérios de um antigo negativo fotográfico. Através de linguagem simples e envolvente, Céu Subterrâneo propõe uma visão crítica das sociedades atuais, divididas entre a exigência de uma racionalidade laica e o apelo da tradição, inclusive religiosa. De formação acadêmica laica, Rosenbaum apresenta em forma de romance, um texto que se equilibra entre ensaio e declaração de princípios, no eterno jogo entre razão, subconsciente e valores sociais.

 

Desci do carro cheio de pressentimentos. Um cheiro me acompanhava na descida. Estava impregnado, mas não sabia se vinha do motorista, da rua, de um incenso ou de uma especiaria esmagada no chão. Saí do carro me arrastando instável e cheio de malas, mochila e sacolas. Sozinho, parei para olhar a viatura branca se distanciando na madrugada. O trajeto já indicava temperaturas de inverno, mas tudo só se confirmou quando parei para respirar fundo. Aquela noite gélida, escura, tinha textura. Do céu roxo gotejava aquilo que os ingleses chamam de freezing rain, gotas intermitentes que transitam entre chuva, neve e garoa. Temi pela região deserta, pelo rigor mortis da quadra, pelo esconderijo do apartamento.
“Qual prédio?”
Minha residência parecia abandonada. Só uma janela acesa no terceiro piso num prédio de quatro andares.
“Ops. Mas aluguei um apartamento no oitavo andar!”
Em todo caso, ignorei o desconforto e caminhei em direção ao here arrastando a mala.
Chamou minha atenção o letreiro de jade do muro que parecia uma lápide do século XIX.
“Montefiore Testemunhals”
Tomei coragem e entrei na viela, desequilibrado pelo piso de pedras irregulares.
Fixei-me então nas calçadas com aqueles blocos enormes: as mãos do arquiteto Herodes estavam por toda parte. A escuridão esfumaçada da neblina retinha o toque noir. Uma sensação às costas indicava que eu estava sendo seguido de perto. De vez em quando eu olhava para trás, mas não surpreendia ninguém.

https://editoraperspectivablog.wordpress.com/2016/04/29/as-respostas-estao-no-subsolo/

http://www.editoraperspectiva.com.br/index.php?apg=cat&npr=1094&uid=05062016145628176070148200

Os horizontes do justo (Estadão)

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Os horizontes do justo

Paulo Rosenbaum

04 julho 2016 | 11:56

Discordo, e não é só para contrariar o bom humor com que o notável Mario Vargas Lhosa finalizou sua coluna neste Estadão sobre os justos de Israel. Pelo que se vem falando sobre os dilemas contemporâneos de Israel — implicitamente ligado ao shoah e ao destino do povo judeu — o leitor corre o risco de imaginar que tudo pode ser condensado aquele único horizonte. Opressor contra vítima. Dominador e dominado. Segregador e segregado. Destarte, o mais estranho tem sido observar a redução de um conceito muito caro à humanidade — como é o caso do “justo de Israel” — ao guerreiro que se autodenuncia, o combatente que recusa a violência ou o homem que renega, por questões morais, toda hostilidade cometida por sua própria tribo. Justo tem sua raiz na palavra hebraica tzadik que por sua vez deriva da palavra tzedaká, cuja tradução apenas aproximada seria “caridade”. A estas características seria bom acrescentar outras, talvez mais relevantes, decerto mais próximas do conceito original. Ao menos estabelecer uma equivalência analógica. Há um conceito ampliado do justo de Israel,  pois há também o justo das Nações: é aquele que se aproxima da santidade. Aqui tomada menos em sua conotação transcendente, mas como sujeito que consegue atingir um estágio de conhecimento e separação que  o habilita a estabelecer um julgamento quase perfeito. São tão poucos e raros aqueles que logram alcançar este patamar que a axiologia foi obrigada a criar a categoria de “intermediário”. Uma espécie de pessoa que, incessantemente, busca a justiça — abarcando também o bastardizado conceito de “justiça social” — mas que, muito provavelmente, não a alcançará. Ao menos através de um modo acabado e idealizado.  Já o justo, de acordo com os critérios da hermenêutica é aquele que atinge o grau máximo de discernimento. Grau que nem sem sempre está de acordo com o que anuncia o senso comum. Esta é uma peculiaridade muito própria do justo; estar oculto e ser minoria entre as minorias. Por sua vez, o justo, quando chamado manifesta-se por inteiro, a contrapelo, enquanto outros preferem esconder-se na maré do senso comum. Nesta acepção, o justo sempre buscará a paz, sem no entanto desfazer-se do direito à existência e, principalmente, sem renunciar à autodefesa. O justo também não é nem um traidor nem alguém que se dispõe à autoimolação. De que valeria um justo sacrificar-se ofendendo as próprias balizas éticas? Um equânime que serviria apenas para o endosso de uma violência que não se cala? Israel não é um mar de rosas, muito menos um lugar perfeito. Se a opressão não é justiça, ceifar a vida de inocentes com ataques terroristas menos ainda. Se a ocupação é condenável e uma política colonialista um pesadelo, a resposta jamais será a prescrição de esfaqueamentos aleatórios. Há uma importante distorção na análise da desproporção. Disputas territoriais e questões étnicas tem sido cooptadas como uma causa que vitimiza apenas um lado. O supostamente mais fraco e indefeso. A tragédia, e ela existe, é sempre bilateral. Teorias socio-psicologicas se esforçam para explicar a preferência pelos fracos e indefesos contra a potencia que subjuga. Mas, uma vez conhecidas, eles não pode servir para endossar o álibi da demonização branca de toda uma sociedade. Há uma critica que oculta, sob o manto do discurso da igualdade, um viés repleto de preconceitos. Se o sionismo demanda ressignificação, isso nada tem a ver com as acusações genéricas e pouco fundamentadas que vem dominando a intelligentsia internacional e fomentando a irresponsavelmente a globalização da judeofobia. O discernimento e a honestidade intelectual exigem colocar as coisas nos seus devidos lugares. Uma delas é separar os elementos para analise impedindo a aglutinação que generaliza uma condição particular. Só um Estado com altíssimo grau de consciência permitiria que militares insatisfeitos deponham contra este mesmo Estado, e ainda sejam protegidos em seus direitos pela Suprema Corte, ainda que com algum grau de censura. Deste modo, o “justo de Israel” pode nem mesmo ser uma pessoa. Não sendo uma personalidade, o justo não deve estar onde se supõe que esteja. Pode estar encarnado numa entidade abstrata, numa consciência com grande impacto na realidade. Pode estar exatamente na natureza ímpar de um País que permite que todos, incluindo jornalistas e ex-militares insatisfeitos, possam se expressar. Isso é justo. Mais do que justo.

Derrota na cultura do êxito (Estadão)

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Admito que fui ver uma sessão de aletismo dos jogos olímpicos. Precisava testemunhar e sobretudo arriscar uma interpretação para um fascinio o qual a princípio me sensibiliza mais pela perplexidade que pelo encantamento. Um aspecto que merece atenção neste revival repaginado do antigo ritualismo grego: quais as finalidades e significados destas reuniões?. Supremacia do corpo? Filosofia da superação? Bem nessa fase no qual os aspectos esteticos convencionais, os critérios eticos e a propria cultura apolinea estão oscilantes ou sob suspeita?

Destarte, o mais incrível e não menos determinante, parece ser a imaginação dos atletas. Observem como as moças  do salto em altura simulam os voos antes do impulso para superar marcas improváveis. Os nadadores encaram as raias das piscinas como imas unidirecionais. Os lançadores antecipam a rota e as vibracoes do disco e do martelo. Aa esgrimistas cogitam esquivas radicais e estocadas clarividentes. Os lutadores derrubam oponentes, muito antes do desenrolar da contenda. As tenistas empurram mentalmente a bola em linhas diagonais ou paralelas em simulações permanentes. Frequentemente.  balançam as cabecas para torcer ou intuir trajetórias possiveis, fazem gestos repetitivos, obedecem suas superstições, emulam confiança, sonham com o palanque absoluto.

E quanto a derrota? É preciso analisar o símbolo e sua fisiologia. É fundamental penetrar na fenomenologia para bem além da representação dos estados nacionais e do aparente pretexto para exeecitar o assim chamado espírito olimpico. Ninguém mais pode aderir incondicionalmente ao ideário de que o que importa é competir independentemente do resultado. A dor e a humilhação, o esforco invencivel, o suor que marca a exaustão este conjunto de trabalho e esforço impõem-se como simbolos majoritários. O orgulho e a hubris reservados para uma minúscula elite da apreciação de herois hipertrofiados, ultra-habilidosos, ou talentos que viram da resistência psico- fisica.

Essas categorias jà estão auto consagradas na cultura do êxito. O que realmente interessa esmiuçar é o valor inverso. O perdedor. Aquele que se contunde. A derrota é que é o grande tabu, A desonra reservada aos sofredores  sem medalhas que serão ultrapassados.  Aqueles que superados ,fracassam. A competição que esmaga os que foram menos treinados e financiados. Ou aqueles que encontram-se dopados para alavancar propagandas politico comerciais. Decerto existe algo mais grave e me limito a mencionar :a naturalização do conceito de que , para alguns, não haverá equidade.  Como foram os casos testemunhei, isolados, mas contundentes. Um atleta negro foi ofendido,  um judoca egípcio recusou-se dar a mão ao seu adversário judeu. O constrangedor silêncio do COI significa que alguns podem ser discriminados sem maiores consequencias para a honra do esporte e em benefício dos patrocinadores.

Todos sabem que o esporte profissional tem um lado obscuro, mas o que interessa mesmo é o apelo à perfeição o triunfo indiscriminado da performance.

Ainda assim quem poderá negar que é belo, notável e admirável.? A duvida não é outra? Será bom? Uma prioridade? Os músculos exatos, a massa magra, a oxigenação extra podem não significar exatamwnte o que o senso comum imagina. Como já previa Hipócrates (aforismo 3, primeira seção) os maratonistas ou hiperatletas, por exemplo, estão mais sujeitos à morte súbita que os não atletas. Aforismo comprovado só muito recentemente pela medicina contemporânea

Performances e records não valem saúde, nem super treinamento significa neccessariamente boa forma e longevidade. Mesmo assim, e apesar de tudo, quem controla nosso potencial de envolvimento? O saldo final vai contra a intuição. Permanecemos emocionados com essa vertigem coletiva hipnótica chamada Olimpíada

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/derrota-na-cultura-do-exito/

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A derrota da cultura do êxito (Estadão)

A derrota na cultura do êxito – agradeço divulgação
Data: 15 de agosto de 2016 17:39:09 BRT

 

Admito, fui ver uma sessão de atletismo dos jogos olímpicos. Precisava testemunhar e sobretudo arriscar uma interpretação para um fascínio o qual a princípio me sensibiliza mais pela perplexidade que pelo encantamento. Um aspecto que merece atenção neste revival repaginado do antigo ritualismo grego: quais as finalidades e significados destas reuniões? Supremacia do corpo? Filosofia da superação? Justo numa fase na qual os aspectos estéticos convencionais, os critérios éticos e a própria cultura apolínea estão oscilantes ou sob suspeita?

Destarte, o mais incrível e não menos determinante, parece ser a imaginação dos atletas. Observem como as moças  do salto em altura simulam os voos antes do impulso para superar marcas improváveis. Os nadadores encaram as raias das piscinas como ímãs unidirecionais. Os lançadores antecipam a rota e as vibrações do disco e do martelo. As esgrimistas cogitam esquivas radicais e estocadas clarividentes. Os lutadores derrubam oponentes, muito antes do desenrolar da contenda. As tenistas empurram mentalmente a bola em linhas diagonais ou paralelas em simulações permanentes. Frequentemente balançam as cabeças para torcer ou intuir trajetórias possíveis, fazem gestos repetitivos, obedecem suas superstições, emulam confiança, sonham com o palanque absoluto.

E quanto a derrota? É preciso analisar o símbolo e sua fisiologia. É fundamental penetrar na fenomenologia para bem além da representação dos estados nacionais e do aparente pretexto para exercitar o assim chamado espírito olímpico. Ninguém mais pode aderir incondicionalmente ao ideário de que o que importa é competir independentemente do resultado. A dor e a humilhação, o esforço invencível, o suor que marca a exaustão, este conjunto de trabalho e esforço impõem-se como símbolos majoritários. O orgulho e a hubris reservados para uma minúscula elite de heróis hipertrofiados, ultra-habilidosos, ou talentos da resistência psico-fisica.

Essas categorias já estão auto consagradas na cultura do êxito. O que realmente interessa esmiuçar é o valor inverso. O perdedor. Aquele que se contunde. A derrota é que é o grande tabu. A desonra reservada aos sofredores  sem medalhas que serão ultrapassados. Aqueles que, superados, fracassam. A competição que esmaga os que foram menos treinados e financiados. Ou aqueles que encontram-se dopados para alavancar propagandas político-comerciais. Decerto existe algo mais grave e me limito a mencionar : a naturalização do conceito de que, para alguns, não haverá equidade. Como foram os casos que testemunhei, isolados, mas contundentes. Um atleta negro foi ofendido,  um judoca egípcio recusou-se dar a mão ao seu adversário judeu. O constrangedor silêncio do COI significa que alguns podem ser discriminados sem maiores consequencias para a honra do esporte e em benefício dos patrocinadores.

Todos sabem que o esporte profissional tem um lado obscuro, mas o que interessa mesmo é o apelo à perfeição, o triunfo indiscriminado da performance.

Ainda assim quem poderá negar que é belo, notável e admirável.? A duvida não deveria recair sobre outro aspecto? Será bom? Uma prioridade? Os músculos exatos, a massa magra, a oxigenação extra podem não significar exatamente o que o senso comum imagina. Como já previa Hipócrates (aforismo 3, primeira seção) os maratonistas ou hiper-atletas, por exemplo, estão mais sujeitos à morte súbita que os não atletas. Aforismo comprovado só muito recentemente pela medicina contemporânea

Performances e records não valem saúde, nem super treinamento significa, necessariamente, boa forma e longevidade. Mesmo assim, e apesar de tudo, quem controla nosso potencial de envolvimento? O saldo final vai contra a intuição. Permanecemos emocionados com essa vertigem coletiva hipnótica chamada Olimpíada.

Extinção (Estadão)

 A extinção
Data: 22 de agosto de 2016 14:48:28 BRT

A última a falar no Congresso, Yelena Simieva, afirmou que já fazia quase 70 anos que um deles havia sido avistado em ambiente doméstico, portanto mais de uma geração separava a data da inauguração do Museu, do período da grande extinção.

— As vezes é muito natural que todas nós nos perguntemos: e se eles ainda estivessem por aqui? O que seria do mundo? Como seriam nossas vidas?

Yelena ouviu vaias ao fundo, fez uma pausa rápida, para, em seguida, dar continuidade à palestra

— Talvez vocês não entendam, mas não faz tanto tempo assim, minha bisavó, imagine, minha bisavó, chegou a ter um em casa. Na época era normal.

As vaias diminuem.

–Eu sei, sei perfeitamente, hoje temos consciência do quanto eles são desnecessários, mas parece que nem todas eram infelizes com eles por perto. Em nossos dias fica bastante claro que depois que desapareceram, o mundo ficou melhor. As guerras estancaram, a violência e a desigualdade diminuíram, ninguém mais precisa suportar desmandos ou ideias dogmáticas fora das Universidades, barbas que espetam, arrogância cabotina, topetes loiros, cavanhaques ridículos, maus hábitos e convenhamos, os banheiros agora são definitivamente lugares limpos. Tanto os acervos fotográficos como todas as evidencias coletadas mostram que todos nasciam com deficiências genéticas de higiene e especula-se, um invencível complexo de superioridade.

Os aplausos começaram a dividir o fundo da sala de conferencias.

— Foi a história natural, e não nós, quem decidiu que eles já tinham cumprido seu ciclo. Quando os casos de autofecundação começaram a surgir e vingar no mundo todo, os cientistas honestos já previam, só poderia haver um desfecho. Os papersestampavam “quando some a função, o futuro é a extinção”.  Escreveram que 50 anos bastavam para que tudo estivesse consumado, foram necessários quase 100.

Aplausos se intensificam

–Vamos recordar a sequencia dos fatos. Nosso gênero conquistou cargos políticos. Passamos a ocupar o núcleo do poder. Em menos de 40 anos tornamo-nos hegemônicas. No início, reagiram com elegância. Diziam-se constrangidos pelos milênios de opressão. Depois, ficaram incrédulos com nossa eficácia na gestão do mundo. Claro que parecia inverossímil, mas me mostrem pelo um dos dinossauros que esperava pelo fim? Trouxe alguns dos jornais daquele período para que vocês todas reflitam. Vejam, por exemplo, esta manchete de março de 2032:

“Os machos agonizam, merecem a extinção?”.

E leiam essa outra, projetada ai no telão

“O masculino em vias de desaparecer?”

Aplausos seguido de gargalhadas. Yelena pede calma.

— Mas foi só quando, inexplicavelmente, os alfa começaram a ficar inférteis que tudo piorou. O golpe mortal foi no orgulho. Reagiram mal e nos ameaçaram com boicotes e sanções. Foi quando passamos a gerar sozinhas, dispensando todo seu provimento e patrimônio genético. Os biólogos logo constataram: somente fêmeas eram viáveis. O que nunca souberam é que nós jamais desejávamos isso, nem mesmo fizemos força para que entrassem em extinção.  Eu confesso, em caráter pessoal, alguma curiosidade em saber como seria ter um exemplar em casa em nossos dias.

Murmúrios azedos.

–Já imaginaram? Como seria dividir com eles a criação das famílias? Mesmo porque, pelo que tudo indica, parece que esse não era bem o forte deles. Amigas, nós nunca quisemos fundar aquilo que foi designado muito recentemente como “Feministão”. Natureza e evolução fizeram seu trabalho, e, depois de milhões de anos escolheu quem deveria sumir para dar lugar ao gênero que poderia viver para fazer o planeta sobreviver.  Como bem definiu Aristóteles “a natureza faz, não faz nada em vão, só faz, sem instrução,  aquilo que é necessário”. Vamos aceitar este presente e louvar nossa emancipação, sem culpa ou remorso.

— Ao mesmo tempo, é com orgulho que inauguramos nesta data, o Museu do Gênero Desaparecido, que abriga o maior acervo iconográfico, espécimes reais embalsamadas, e uma curadoria especial com os objetos de culto. Só não conseguimos espaço para coleções de álbuns de futebol com figuras carimbadas  da Copa e os carrões potentes. O intuito é mostrar que reconhecemos o quanto eles foram importantes em etapas prévias da humanidade. Sabendo que o tempo não desfaz seus erros nada mais justo prestar esse tributo aos saudosos machos, nossos parentes extintos, e reafirmar como somos reconhecidas por tudo que fizeram.

Yelena termina ovacionada, desce as escadas do palanque agradecendo o entusiasmo com as mãos.

Ao chegar ao camarim, disfarça a nostalgia. “A mãe natureza pode até fazer o que é necessário, alguém precisa avisa-la que não estamos obrigadas a aplaudir”

Certificando-se que a porta está trancada, retira o porta retrato, aproxima-o e chora. Em seguida aperta a fotografia contra o peito.