Lutam pela causa, causa própria

Paulo Rosenbaum

16 março 2016 | 23:48

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto sem chapas, mas não lutei, junto com minha família para ver isso. Se aqui é o fim do mundo, pode acabar logo. Hoje parece distante, mas na época estávamos colados, bem ao lado da opressão. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas que o domínio segue ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. Os que persistem em endossar perderam o rótulo de sonhadores e já não podem ser poupados. Para obstruir é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se os dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, e por isso mesmo, o juiz Moro tem suas razões. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no crime? Que o legaliza em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave estivesse na posse do sítio ou do triplex. Se a acusação fosse clara, o crime é usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, e ainda podem sangrar. Contra o gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes podem ser ouvidos à distância. Sabe o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso?  Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar. Trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento  a burguesia. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu as discordâncias. Afinal dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O ardil triunfou, por um tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, senhores, comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E as combustões se propagam. Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação, hoje já esvaziada de qualquer sentido, nem eles podem ignorar: de fato, eles ainda hoje lutam pela causa, causa própria.