Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)

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Escritor de deserto

(Do livro “Céu Subterrâneo” onde usei trechos da minha entrevista com Amós Oz realizada em Israel em 2013)

Para Amós Oz

…eu já tinha entrevistado algumas pessoas e, na noite anterior, graças à persistência em cima de sua agente literária em Londres, Amos Oz conversaria comigo por telefone, de sua casa no deserto, Arat, sul de Israel.

Se pudesse confessar, confirmaria que tinha a ingênua sensação de que se minha inteligência fosse reconhecida por algum notável, minha reputação na nova carreira estaria, se não garantida, pelo menos bem encaminhada. Originalmente planejei uma abordagem enfocando a militância política de Oz, mas um acordo prévio me inibiu e só conversariam sobre literatura.

Eu estava muito apreensivo, já que o telefone em Arad não atendia. Tentei novamente buscando novo código de área.

O telefone toca.

– Sim –, atende a voz grave de Amos.

Eu não sabia o quanto poderia avançar, mas me convenci de que estava fazendo seu trabalho.

Identifiquei-me e já fui perguntando diretamente, sem rodeios:

– Qual seu conselho para um escritor?

– Sim. Um, muito simples e breve: só escreva sobre aquilo que você conheça muito bem.

Foi então que repeti a sentença e Amos calou como se dando um desfecho abrupto.

Reagi:

– O que é conhecimento?

– É a imaginação.

– Conhecemos pela imaginação?

– Não sei, não sou mais filósofo. Mas a criatividade foi o que nos restou como instrumento de sondagem… não há mais nada.

– O que se pretende com a literatura, vale dizer, devemos pretender?

– Você diz, além de uma terapêutica involuntária? – Amos riu sem espontaneidade para prosseguir de mau humor provavelmente por ter achado a pergunta previsível:

– Não há finalidade, nada a ser aprendido ou ensinado. Apenas um sujeito doando suas impressões. Isso, doação de impressões. Meu compromisso não é esse, mas acho que até acabamos ajudando pessoas! O mundo precisa mais de literatura do que os escritores. Aliás, ninguém precisa dos escritores.

– Há uns anos você provocou seus leitores dizendo que precisávamos convidar a morte para sentar e conversar. Em qual contexto disse isso?

– Não era provocação! Devemos convidá-la para fazer as perguntas que faríamos a ela depois. Oz pigarreia para concluir.

– Depois?

– Quando já é tarde demais e já não poderemos ter o prazer de perguntar. Por que não antecipá-las e fazê-las enquanto ainda estamos aqui vivos?

– Quais perguntas?

– Mister Mondale, sei que o compreenderá, estou no meio de um texto desafiador. Como escritor, o senhor sabe do que falo.

“Poeta, não escritor.”

Assim terminou a entrevista.

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O que aprendi com Oz?

Que tudo é contagem regresssiva, e só o que importa é a exiguidade do tempo diante da uma gigantesca e interminável tarefa, a de contar histórias.

Até a pergunta chave para a morte merece ser suspensa quando se trata de usar a imaginação. E escrever.

Grato Amós.

Um aiatolá em São Paulo (Estadão)

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.

As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo

A Paz numa breve incursão ao ciclo de 5779 (Estadão)

Todo final de ciclo é já um recomeço. Observem bem os semblantes das pessoas. Estarão mesmo atentas?  A história é afoita e se desenrola com celeridade. A velocidade com que ela espalha e as repercussões que causa parecem ser mais determinantes do que os próprios acontecimentos. A violência política precede os atentados. A primeira vista parece indicar que, ao oferecer paz,  subentende-se guerra. E assim, sucessiva e permanentemente.

Antes da inação das instituições, o clima que vivemos evidencia o descontrole da linguagem. A domínancia de palavras  anomicas, que assim como nas ruas atuais, ameaçam não obedecem mais leis, nem regras de organização. E é assim, ensina a história, que o sentido das coisas se dissipa. No domínio das causas e das militâncias, preferimos ter razão à construção de consensos.  Mínimos múltiplos comuns das sociedades foram perdendo substância. Subsistem sem força, enquanto o ponto de união foi se diluíndo em sucessivas subdivisões.

A prioridade tem sido ideologia em detrimento da verdade. O drama substituindo a realidade. A história não se repete como farsa, mas, com ajuda de farsantes, ela tem promovido efeitos diversos. A história é neutra. Mas a má hermeneutica e suas orquestras amestradas a retorcem. A filosofia instrumental que a deforma. A alusão às doutrinas arremata a falsificação. São as notícias simultâneas e díspares operando no cadafalso da desinformação. No rastro dos sistemas de notação.  Conforme as observações do rabino-sociólogo Adin  Steinsaltz tem sido graças à esta “sociologia da ignorância” que os homens, sem se dar conta do tamanho do engano, aderem ao pesadelo hobbesiano de “todos contra todos”.

A paz? Seria a exceção. Sua bandeira? Está representada pelo acolhimento da dignidade das dissidências.

O que esperar se os homens já não se reconhecem como parceiros da mesmíssima matriz? Se desprezam o tecido que os mantém semelhantes? Já não se apoiam nos critérios que numa teologia desmistificadora reafirmam a natureza sagrada da vida. Desatentos à própria origem, podem mudar de lugar, fazer rodízio no poder, criar novas tecnologias, mas ignorando suas matrizes comuns, nada podem cultivar, muito menos a cidadania.  Passam a não mais notar a presença das múltiplas perspectivas. Ignoram a necessidade de um novo giro copernicano, onde o sujeito antecede o Estado. E as pessoas tem prioridade sobre os sistemas de pensamento.

Por sua vez a paz é uma nascente que surge de outra matriz. Mesmo que a paz seja, ela mesma, um incontido desejo pela vida. Irracional, a paz nasce de uma paixão e chega a ser nonsense. Um ímpeto que contraria as pulsões mais comuns. Ela significa concórdia ou, como queriam os gregos, “fechar o templo de Jano”. A paz é capaz de nos impelir ao paradoxal ponto de amor ao oponente. Aceitar a alteridade é só aparentemente uma ingenuidade, ainda que o altruísmo contrarie a ideologia da superação. A paz, em seu sentido universal, recusa a dialética grega ocidental para adotar o estranho e incompreensível espírito dialógico do Talmud.

Ainda assim o metasignificado da paz permanece desconhecido. É mais do que colocar as armas em sarilhos. Mais do que compor-se com inimigos. Está além da fusão de antagonismos. Pois depende da aceitação do deslocamento de um único ponto de vista. Para além da simplificação do contraditório. Como na revolução promovida pela famosa camera de Orson Welles em Cidadão Kane: a sincronicidade da coexistencia, as múltiplas perspectivas que se desdobram em existências únicas. É com isso, e só com isso, que a democracia deveria se ocupar. Com o sujeito e suas idiossincrasias.  Só assim a tentação totalitária seria contida ou dissipada. A ilusão de uma ordem construída de fora para dentro seria abandonada. E expulsaria da imaginação social a fantasia de hegemonia, predomínio e supremacia. E também da contra-hegemonia e dos discursos instrumentais do ódio.

É assim que a interlocução poderia não se reduzir a detalhe supérfluo. Que muitas miradas contemplassem-na ao mesmo tempo e enxergasse as paisagens estranhas umas às outras. Que neutralizaria a ilusão dos portadores do monopólio absoluto da razão. De que como no Aleph de Borges, inúmeras moradas podem conter sincronicamente todos os pontos de vista e nenhum.

É desta simultâneidade não excludente que o respeito mútuo, essencial ao convívio em uma sociedade aberta, se alimenta. É a maturidade possível, na qual se pode assumir que tão cedo — ou nunca — haverá perfeição. E que enfrentaremos melhor as marés oscilantes na renúncia ao belicicismo, mas atentos à exigência do justo.

Rara chance para recolher deste dia o que há de melhor

no belo e no bom, shalom

Shaná tová para todos.

Monocratismo esclarecido (Estadão)

Estamos em uma Pátria passional. Por isso, talvez, ninguém costuma acertar os prognósticos. No País da gangorra emocional prevalece — parafraseando David Laing — fingir não ver o jogo que eles fingem não jogar. Cujas regras sabemos que eles não respeitam. O sobressalto pode vir durante um gol, em plena tristeza da eliminação da seleção na Copa, ou numa manhã melancólica de domingo sob a caneta de um magistrado de plantão.

Pedir intervenção militar, suspiros por ditadores autocratas, glamorização da truculência, tudo isso é anacrônico e ridiculo. Mas muito mais perigoso e perturbador tem sido a irresponsabilidade das instituições. Ao contrário do que boa parte da midia tenta nos fazer crer, a opinião pública não está dividida. Inexiste, na prática, o “nós e eles”. A disputa em curso tem feito aproximações sucessivas para colocar sobre a mesa o risco de ruptura institucional. O ônus está nas costas do Poder cada vez mais isolado contra a esmagadora maioria da sociedade. A esquação seria algebricamente evidente, mas será preciso explicita-la: se e o condenado ex-presidente está detido ninguém está imune à justiça, se ele fica em liberdade — com o aval concedido a quem praticou tantos crimes contra a Nação —  todos se tornam invulneráveis. É automático e linear.

É básico ter isso em mente. Luis Ignacio é o termostato absoluto do reino da impunidade. E não é bem que a lava-jato tenha sido canonizada (o que seria sempre negativo), é que a premencia geral tem sido optar por exorcismos extremos contra aqueles que escarnecem da opinião pública, e porque não dizer, da própria jurisprudência por eles gerada.

Tivemos tanto trabalho para nos livrar da ditadura e do arbitrio para cair de monocratas ilegitimos que tratam de expulsar toda racionalidade do recinto dos colegiados para preenche-lo por paixões partidárias despropositadas? Se era para cair nisso que tal voltarmos ao absolutismo esclarecido? Quem sabe do déspota esclarecido poderiamos esperar um pensador do Estado, alguém ilustrado que recolocasse na política algum sentido de coletividade e solidariedade. Sem duvida, melhor do que tribunais servicais e um parlamento movido a chantagens e comandado pelo medo dos dossies.

Vale lembrar que as jovens democracias não costumam sucumbir por morte subita. Elas vão sendo defenestradas pelo desgaste. Vão sendo humilhadas por uma lenta e permamente indução voluntária de microcaos diário.  Pelo envenenamento social regado a discursos com antidotos vencidos. Estamos testemunhando a história se desenrolar sobre as nossas cabeças e onde é que ficamos? Com quem contaremos a não ser com nós mesmos? Fala-se mal das redes e da propagação das falsas notícias, mas quem está se preocupando com as fake news oficiais? Aquelas que emergem dos institutos de pesquisa que insistem em naturalizar a presença de gente inelegível. E daqueles que propagam estes resultados sem questiona-los. A falsificação intelectual emitida por candidados e analistas políticos também merecem atenção, aliás elas são potencialmente mais lesivas do que as falsas notícias.

Na sombra cinzenta entre o licito e o legal convém perguntar se a decisão dos monocratas de plantão, do Planalto ao Chuí, não visaria, ao fim e ao cabo, desmoralizar todo sistema juridico? A desqualificação indiscriminada viria a calhar para quem quer apenas usar os recursos postergacionistas para tumultuar e criar a cortina de fumaça necessária para vilipendiar a democracia. O jurista Modesto Carvalhosa tem divulgado que a apuração secreta do pleito não é constitucional, muito menos democrática. Vale dizer, não basta que as urnas eletrônicas sejam confiáveis, elas precisam parecer fiéis guardiãs do pleito. O voto tem para uma democracia, a sacralidade que determinados objetos e rituais tem para a religião.

A ideia generica de que toda teoria que contesta as decisões que tem sido tomadas contra os interesses da sociedade é conspiratória serve apenas para desqualificar as denúncias. Maseis que  o dia de hoje acaba de produzir incontestáveis evidências: existe sim conspirações e elas estão em curso. E quem é que está patrocinando e dando aval para a anomia? Desta vez o atingido não é uma pessoa, um segmento social, um grupo, partido ou minoria.

Desta vez o alvo é o País. A mira é clara e a arma, posicionada. O risco é acertarem na mosca.

Um suspiro quebra o mundo (Estadão)

Quem transita pela rede não consegue mais conter o suspiro. Eis que na reta final de uma campanha violenta, um fenômeno ocorre sob nossas barbas. Muitos se outorgaram o direito de intimar o próximo. Uma pandemia de justiceiros sociais cobram posição política alheia com perturbadora naturalidade. Cobrando não, exigindo . Exigindo não, coagindo. A patrulha recrudesceu e se tornou vigilância, marcação homem a homem, mulher à mulher, opressão. Ora, dentro da confraria nota-se gente com vocação para inquisidor. Mas não houve um número significativo de pessoas que se manteve calada — ou neutra— nestes 15 anos? Foram inquiridos por isso? Aceitariam ser cobradas? Fizeram algum tipo de autocrítica? Mas, eis que agora, subitamente, imaginam ter direito adquirido ao patrulhamento.

Quem conhece as nossas histórias individuais ? Muitos que colocam agora que os outros estão do “do lado errado” historicamente também se posicionaram contra o arbítrio, a  tortura e a autocracia desde que o País atravessou os anos de chumbo, eu inclusive. Mas isso parece não significa nada para quem se considera um “bem pensante”. Na verdade, o que não perdoam, mas não podem confessar, é que acham inadmissível que tenhamos aprendido com a experiência. O número de pessoas cristalizadas, aditos ao anacronismo, praticada por boa parte do que uma vez já se chamou  esquerda não deixa de ser desolador. A recusa à revisão, o  estoicismo,  a negação, preferindo ignorar a história e apagar a falência do muro de Berlim. Parcela significativa da ideologia que antes fundamentava a idéa de justiça social sucumbiu à distorção neo-populista da administração pública, misturada com um ativismo institucional que esqueceu que não possível nem justo que o Estado pertença ao partido.

Foi a densidade histórica acumulada que nos faz pressentir o perigo da recusa ao rodízio e portanto a perpetuação do lulismo no poder, ainda que ideologia alguma tenha o monopólio do risco ao estado democrático de direito. Como vaticinou o político do nordeste: vão perder. Por que? A pressão nao funciona mais. A chantagem gerou resistência. O estelionato eleitoral, desconfiança. A coação, desonestidade.

Insisto, porém, num ponto. Nenhum dos dois candidatos nos traz paz de espírito, nem à sociedade nem às instituições. Ambos são resultado de uma estratégia construída por uma base que, apesar das aparências, esteve sempre aliada em pelo menos um princípio teleológico: apropriar-se do Estado. A união era em prol do gerenciamento da manutenção do poder, como tentei explicar no artigo neste mesmo blog do Estadão sob o título “Oposição Substituta”

Um estudo epidemiológico viria a calhar agora, quando o grau de inquietude atinge o sistema de alarme biológico dos indivíduos. Vale dizer, as eleições de tornaram importante fonte de patologia. Estão estressando as pessoas em níveis para além de uma mera hipótese teórica. A democracia deveria  amadurecer como um fluxo de consciência, jamais como uma decisão de vida ou morte. Se isso aconteceu é um preocupante sinal de tilt institucional.

No caldo de ideias indistintas o número de informações falsas e verdadeiras se misturaram de forma a confundir o eleitor. Neste contexto é possível compreender uma provável maciça anulação do voto, não como desapreço à democracia, mas como um suspiro de protesto. Protesto tanto inútil como melancólico.

Mas o realmente chamativo é como se encaminha o problema filosófico da assimetria e da equivalência moral diante da incontinência verbal dos  contendores. É inadmissível que um indivíduo enalteça as torturas pregressas, mas é muito mais insuportável que agentes do Estado e, quiçá, o próprio, defenda regimes equivocados como os da Venezuela e da Nicaragua. Regimes vigentes que perpetram crimes contra seus próprios cidadãos. Na tragédia deste contexto, há sim, uma gradação e uma assimetria moral.

O petismo esgotou-se por dentro, está fora de cogitação para a maior parte do eleitorado e para não ter a tentação enunciada por Bertold Bretch  de “mudar de povo” é este ciclo que deve ser superado. Como dizia Millor “ o fracasso lhes subiu à cabeça “ já que acreitam piamente que alcançaram o status de desoneração moral: o que os colocaria como a única opção ética para salvar o País da barbárie. Ora, mas foi exatamente ele, este partido, respaldado por militantes e intelectuais orgânicos, gente que silenciou diante do mal feito associados às hostes pagas do partido que nos fez herdar o atual momento. Se não enxergo qualidade de estadista em Bolsonaro, tampouco enxergo perfil de ditador ou de um fascista, apenas um conservador exacerbado que deve ser contido em seus excessos verbais. No lugar de coagir as pessoas, os fiscais do voto alheio deveriam se concentrar no esforço pragmático para buscar o diálogo com as massas e civilizar as posturas extremadas e promover a paz.

Será que realmente a desejam?

Aliás aqueles que abusam da palavra “democracia” em libelos e abaixo-assinados deveriam ter o cuidado de analisar melhor antes de lançar mão do top trend xingamento universal “fascista” contra qualquer dissidência. Nao é infrequente que quem profetiza o ovo da serpente, esteja acomodado dentro do ninho denunciado.  Ninguém mais está comprando a ideia daqueles que acham que pensam melhor do que os demais. Igualmente notável é a homogeneidade programática daqueles que desprezam a percepção da opinião pública. Num outro veiculo jornalístico onde assinei por anos a coluna “Coisas da Política” quem me censurou não foi o candidato do PSL mas o partido do ex prefeito de São Paulo.

É possível que todo sofrimento e os abalos provocados nas relações pessoais causados por este pleito sejam redimidos na noite do dia 28. Ou não. Neste caso teremos que lidar com os danos permanentes. Agora é respirar fundo, e votar com consciência, a tradição já nos ensinou: “um suspiro quebra o mundo”’.

Confesso que quebrei.

Maiêutica e o vício em doutrinar (Estadão)

“Maiêutica – Do grego “maieutitké” – relativo ao parto. Processo utilizado por Sócrates para ajudar a pessoa a trazer ao nível da consciência as concepções latentes em sua mente” 

Dicionário Etimológico. Antonio Geraldo da Cunha.

Em tempos de cultura pop, enquanto a histeria progride. Reduz tudo à posições políticas cartográficas. Vira mania, enquanto a arte pedagógica vital foi relegada. A proposta de ensino socrática conhecida por maiêutica não foi só desprezada. Deformada, hoje ela está a serviço do vício em doutrinar. Das cátedras às redes sociais, das redações aos programas de auditório, um perturbador ruído de fundo constrange o pensamento. A independência intelectual virou artigo inalcançável. Ao sequestrar o exercício da reflexão trocado por engajamentos doutrinários, a vida parece ficar mais fácil, enquanto a educação mingua à sombra de torcidas dispersas. No jogo viciado, leva a melhor quem for mais ruidoso ou cooptar mais público. Nem sempre foi assim. Sem nostalgia, é importante observar que estamos enredados na defensiva. A trincheira está cada vez mais a mão, ainda assim o antônimo desejável de politicamente correto não é o politicamente incorreto, como se tornou comum propagar sem cerimônia ou autocensura. Talvez seja uma outra coisa. Bem menos previsível. Muito mais empírica para estes tempos de legiões de lobos avulsos, onde conspirações secretas de primeira página parecem ser as únicas confluências possíveis. Onde a omissão permissiva vale mais do que a explicitação dolorosa. Será preciso investigar usando todos os serviços de inteligência do mundo porque o establishment faz uso seletivo das palavras, cuidadoso  falseamento da ciência de da realidade. A negação permanente desprotege todos. Ninguém ainda lamentou suficientemente o aparelhamento de uma década. Seria o fundamento da critica. O primeiro da lista. Ao obstar o fluxo de pensamento para o substituir pela ordenha mecânica de vozes eleitas por grupos afins, o convívio foi aniquilado. O novo populismo saído diretamente da causa do saber. De onde nunca emergiu muita coisa além de slogans circulares, discursos peremptórios que mimetizam uma filosofia. O saber não é causa emancipada, que sobrevive sem interpretação. Ocorre que, por acaso, ainda pode-se escolher quem será convocado para executa-la. Se os eleitos forem afilhados locais, nepotismo intelectual. Se escolhidos através da mesma meia dúzia de referencias bibliográficas, monopsismo cultural.  A redução é clara: não se sabe se a escola deve ser dominada por uma linha partidária ou submeter-se à todas. Essa é a verdadeira dúvida, traduzida na linguagem da polêmica irrelevante. Talvez o conhecimento não merecesse destino tão recortado. Nem as instituições tratamento tão afoito. O medo de enfrentar o extremo, é, no fundo, a compensação neurótica de quem não conseguiu encarar o que chegou até nós. A tocha de brilho fosco. Não a olímpica. Mas a mecha do aposto. A aposta no enunciado de um bem único. De uma unificação impensada, porque impossível. Da ética de monopólio. De opiniões respaldadas em círculos fechados. O que foi a mutação da política senão um consenso cozido entre gabinetes herméticos? Não se espantem se testemunharmos os extremos do pavio se desgarrarem em filiais violentas emancipadas da matriz. Democracias mitômanas e autocracias cínicas são espelhos da mesma atuação. Sairemos do enredo circular quando o dialógico aprender a recusar mentiras prudentes.

Alalshak: a-grande-peninsula (Estadão)

 

(foto PR – Glaciar em Juneau)

O Alaska é um caminho, eólico, chuvoso. As geleiras não desaparecem, elas se moveram para o sul. Recuaram.  Escorrem, flocadas, numa lama medicinal formada a partir do esmagamento das rochas por pressão dos glaciares.

Mais ao norte, pouco antes da Península Valdez a corrida ao ouro ainda não terminou. Nossos sonhos de conquista são a de todos os pioneiros, acesso, sucesso, e no fim, não regresso. A vida é mais cara dizem os locais atuais, mas o panorama compensa a decadência financeira. Os aleutas e esquimós são mais difíceis de contactar. Sua língua a inuite é impossível de ser escutada. Justo ela que tem mais de cem definições para a palavra neve.

Os colonos de hoje são pilotos do Arizona, motoristas do Texas, comerciantes de tanzanita de New York, atendentes de bar de Dakota ou garçons da Indonésia. O turismo é impecável, encontra-se um pouco acima da natureza.

Desde que em 1879, o escritor e naturalista John Muir (1838-1914) um dos principais idealizadores de parques e reservas naturais norte americanas, descobriu que as coníferas do Norte estão dispostas lá desde sempre, e a formação dos glaciares parecia  ter sido interrompida.

Hoje se sabe, a rarefação dos cristais aprisionados pelo gelo geraram o brilho azul- estanho, e assim a água vertida para um outro estado de matéria se fixa na imaginação do mundo. A tonalidade turquesa, ilusão de ótica, sem o contrapeso da realidade, sem parâmetros para daltônicos, provoca o choque cromático. Um golpe de vista que leva a cor até o olho, o qual não foi avisado que, persistente, ainda enxerga o que a ciência desconstruiu. Mas lá está ele, azul, poroso, fixo, qualidade indiscutível.

Quem já provou da agua do degelo? Garanto, não é insípida, incolor ou inodora. A agua do degelo desce como uma destino impreciso, aquele que não sabe se escolherá uma rota até o sal do Pacífico ou deslizará até formar lagos alcalinos providenciais.

Aquele que se impõe pela corredeira, que se exalta por um caráter firme e indisponível às revisões. A realidade corre aqui como os corvos que anunciam aos chilros, o fim da estação. O dia aqui nunca foi o de esquimós no país das sombras longas, mas de um dia que dispõe de brilho efêmero, cortante, e cujo rasante nos retira o sangue da cara. Perplexidade, a única reação possível para um céu que migra amiúde. Mas, dirias, todos os céus migram. Só que este é mais rápido, mais evidente e mais contundente.

Por todo lado, nesta Amazonia de cima, as aguas descem como cronômetros de guilhotinas. E como laminas cansadas deixam-se levar pela gravidade. Levam ao ar multidões de partículas da negantropia, que suspendem o juízo daqueles que tinham tudo planejado. Um ensaio sobre o Alaska não seria sobre ursos e baleias, golfinhos ou salmoes, mas acerca de um vento obliquo, que atrapalha as rotas, que desvia os navios. Que encanta pela exaustão. Seria sobre um lugar sem espaço regular na cartografia.

Tudo que se define como “Passagem de dentro”, o maior corredor natural preservado com mundo, é um destino a ser aspirado. Como turista, visitante ou curioso, num acampamento, num cruzeiro ou dentro de botes salva- vidas o banho que dessaliniza é um pouco da surpresa que ainda há no mundo. O lugar que ainda corre para se opor as elucidações predadoras, aos campo devassáveis por curiosos sem imaginação.

O Alaska peca pelo excesso. De mistério, de inadaptabilidade, uma terra de índios sem emancipação, de uma cultura que foi destruída sem sequer ter sido redescoberta. Um território comprado dos russos, que é hoje um País reduzido a um Estado.

A grande península grita por ser extremo sem nostalgias. Mesmo assim, as saudades já se fazem sentir muito tempo, antes, muito antes de que tudo acabe.

Nação em transe e o risco de acertar (Estadão)

Qual é o significado de estar à deriva? Quais as analogias possíveis entre um transatlântico e o Brasil? Um barco pode ir adiante, ceder ao extravio. Uma belonave, encontrar o Rochedo, o Farol ou encalhar numa praia deserta sem nunca aportar. O que faremos com um País que parece não se encontrar em lugar algum? De um Estado que age à revelia das pessoas? Que humilha a opinião publica. Será um problema de identidade ou de escrúpulos? De orfandade política ou submissão aos critérios malucos? Seremos uma sociedade inauditavel? Foi a economia que nos cegou para todo o resto? Que nau é essa, que ruma acéfala? Qual tipo de embarcação transita com passageiros apavorados e que sonham apenas com dias menos sobressaltados? E dai que a bolsa subiu se os dividendos morais desceram ao inconcebível? Não é que um País de mandatários inidôneos — ativos ou passivos — pode ser governado adequadamente. Acontece que agora a náusea fina e o enjoo permanente vem assolando incessantemente. Estamos à beira do brejo, com um Paranoá de vantagem, mas calma, ainda não transitou em julgado. Eis que vemos a justiça como uma miragem deformada, com cadeiras elétricas no pedestal.

A justiça que deveria coincidir conosco ainda não examinou as necessidades elementares da sociedade. A justiça prescinde do povo e ao que ele aspira. Compreende-se o desprezo, afinal qual Estado precisa de seu povo passado o período eleitoral? A justiça perdeu-se na forma da norma. E o sentido, mais uma vez, teve que ser sacrificado pelo juízo.

Recém descobrimos que foi lá, na fábrica de heróis, que os vilões foram faturados. Heróis especializados na reforma alheia. Olímpicos ou ordinários trata-se de política de terra espoliada. E, mais uma vez, e de novo, voltamos à lentidão seletiva da justiça. Por sua vez, é ela, a justiça, que guarda potencial para incendiar os cidadãos com a coragem. Daqueles que não temem se expor para sustar a sangria provocada pela facas da inércia. Da vida doada por outrem. Da honra que se esfacelou contra postes indicados. Que tomaram o poder com aval do capital. Dos litigantes mudos que desistiram dos ressarcimentos. Da cassação da voz dos assassinados a sangue frio. Ressentimentos incoesos vem e vão enquanto a sessão senado vai sendo reprisada à tortura. Jagunços veementes em suas retóricas dedicadas ao despiste. Está é uma Nação em transe?

Era.

O crime não compensa, só foi sendo assimilado como tradição. É natural que as organizações criminosas sejam autorreferentes. As regras valem pelo fio da navalha. Hoje vigente, amanha quem sabe, diferente? Duram um átimo, conforme a balança adulterada, o empréstimo estatal subsidiado, o imposto desviado. Não é consolo, mas eles ainda não acordaram para o pesadelo que os espera. Não há nenhuma chance de viver e ser agraciado enquanto teu irmão está cercado por fuzis ou milícias. Enquanto crianças habitam celas de perversos, e seguranças descontentes incineram creches. Se a missão das víboras tem sido produzir veneno, a única ação digna será buscar antídotos.

Eles trabalham com mandingas, nós exigimos ciência. E agora, o que me dizem? Que estamos todos cansados de tudo? De que estaríamos reduzidos a duas soluções: banho de ditadores ou juízes legisladores. Quem sabe um tirano avulso que saiba tratar as ratazanas? Que estamos no fim da estrada e o estado policial nos agraciará com suas mordaças e sombras? Essa é a pior hora para descansar. É o momento para escândalos públicos. De urrar forte contra a tentação da censura. É o timing para convocar ruas que esvaziem palácios. É verdade que, as vezes, temos que nos resignar com o maniqueísmo: a escolha simples entre o beneficio da duvida e os malefícios (reais) das certezas. Se há mesmo um lado bom da polarização, do entrechoque permanente, das colisões frequentes é que, sem alarde, nota-se que brota um subproduto inesperado: uma população de pragmáticos e não ideológicos independentes.

Um autor contemporâneo acaba de propor : basta de eleições – para ele estatisticamente a fonte de quase toda desgraça e corrupção – que tal escolher através de sorteio, as pessoas que nos governam? Para ele, teríamos mais chances. É claro que gera desconfiança mas há pelo menos uma vantagem: colocar toda culpa no lance dos dados. Imagino que, teimosos, insistiremos mais um tanto nesse empirismo eleitoral inventado pelos gregos — ir errando até correr o risco de, um dia, acertar.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nacao-em-transe-e-o-risco-de-acertar/

Há uma razão que nos destrói (Estadão)

Há uma razão que nos destrói.

27 Outubro 2017 | 19h54

 

Há um metabolismo que nos percorre as artérias por fora. Paralelo aos corpos. Há um modo de ver as coisas que não é discutível. Que nos impõe seu fluxo pelo ritmo aflitivo com que anda. Pela dor que vem em salvas. Pelo eclipse das passagens. E para que? O alcance da vida sem mundo interno vinga-se das certezas precárias. Por isso, e só por isso, o dia precisa de deslizes, de pequenas amnésias, de traumas curativos, de excentricidades regulares. E não, não é só as ofensas da irracionalidade que precisam de combate. Há uma razão que nos destrói. As avalanches psíquicas da Terra não justificam o encolhimento das impressões. Nem a hipertrofia do mundo objetivo contra a arte e os artistas. Ou a síntese da matéria contra o análise dos romances.   Seria isso se o senso comum não tivesse a priori definido o que devemos ou não sentir, se a ordenação pratica não tivesse determinado os limites à imaginação. Estamos sem  horizonte e não é só por falta de lideres. Nem porque esta safra de estadistas não nos diz mais nada. Ou porque os magistrados nos mostraram dosimetrias maniqueístas. Estamos sós, mas não é essa a dificuldade. O trágico é não conseguir assumir que nos isolamos das responsabilidades, pelos atalhos que nos enfiamos, pelos desvios que nunca enfrentamos. A culpa, não é da nossa civilização, nem da cultura que forjamos. Se há uma, culpa, deve ser exclusiva e intransigentemente individual. Mas sonhamos acordados com um principio do prazer assoprando de que isso nunca acabará. É só ao outro que podemos contar nossas histórias.  Só um outro para poder ouvir que não temos direito à paralisia. Nem nos é dado ficar à mercê dos governos, dos tiranos ou das prisões de antanho. Exigiríamos mais de nós mesmos se soubéssemos que tudo termina, já, agora, neste instante? Se o varejo das relações sumir teremos só atestado mais um isolamento. Nossa vida impregnada com a obsessão terminal. Nosso impacto mínimo na galáxia. Nossa irrelevante missão no cosmos em qualquer coletivo que se imagine. Mas, e se antes soubermos que há uma fala, um argumento e uma mão que nos desfragmenta? Que nos segura e sustenta sobre o abismo e seus resumos? Que nos apoia quando nem sonhávamos com amparo. Seremos sempre atentos aquelas sombras que nos iludiram, mas não aprendemos a reconhecer a escuridão que as escondia. Por isso há um dedo que dirige – invisível que seja — os apontamentos dos destinos. As desatenções com que singramos os caminhos. O esquecimento do fim e da morte com vinho. Estamos a um só passo de saber que nosso lugar nunca foi este, e mesmo assim, contra tudo e contra todas as evidencias, persistimos na esperança.  Esperança de que tanto a salvação como o completo extravio não nos expulse da condição humana. E que, perder-se no afeto, não é muito distinto que encontrar-se com a redenção. Alguma delas.

A história e seus efeitos não mais se erguerão contra aqueles que a constroem. (Estadão)

A história e seus efeitos não mais se erguerão contra aqueles que a constroem.

Aqui ou acolá, você poderá encontrar neo czaristas estáticos ou nostálgicos do muro de Berlim intacto. Os lados ainda não perceberam: só existe o presente contínuo, só vale o daqui em diante. E não importa muito como fazer valer o daqui em diante. Se há uma certeza é que, desta vez, não nos deixaremos paralisar. Recusaremos branco ou vermelho, esquerda ou direita: aprendamos a recusar todo código binário. Daqui em diante a inércia deixará de ter o monopólio da força. Prometemos dissidência às hegemonias, aos partidarismos, à militância, às ilhas de ideologias. Daqui em diante, observaremos movimento a movimento, a direção das árvores, as palavras inarticuladas, o subtexto dos contextos. Daqui em diante não permitiremos que a vida esteja cercada, encarcerada pelo obscuro. Não prometo, mas daqui em diante, tua sombra será assimilada por outra, mais dura, mais opaca, mais resistente. Daqui em diante, e por que não dizer já, as concessões serão revogadas. Daqui em diante, sem entrar no jogo que eles fingem não jogar, serão outras regras.  A partir daqui ,desligaremos a chave mestra que te sustentava. Será a dimensão e a geração que andará ao largo do “nós e eles”. Sim, é isso, apagaremos os registros da tua presença. Nada a ver com intolerância. Trata-se de uma calma que desconhecíamos. Um renitente sentimento, de coragem, que só hoje percebemos. Daqui em diante tua voz não nos consumirá, nem tua imagem nos sondará em círculos. Hoje, mas principalmente daqui em diante, a determinação superará teu escárnio. E teu deboche estratégico, nos abrirá uma clareira no sossego. Teu sumiço trará de volta a fusão de horizontes. Superar o fantasmagórico da tua imagem será alivio suficiente. Abolir o culto à personalidade é que nos comoverá. Sem saudades, embarcaremos numa plataforma na qual você será obsoleto. Daqui em diante – me  convenço sem esforço – seremos mais fortes que tua capacidade de explosão, menos emocionais para sucumbir à sedução. Negaremos teu estado de negação.  Tudo pode ruir ao teu redor agora que seguiremos adiante. Doravante, ou daqui em diante. Mudaremos de casa em casa, de rua em rua, mar ou campo, tempo frio ou ensolarado.  Ninguém mais será ofuscado. Irmãos farão as pazes nas praças. Daqui em diante nossa casa não será mais tua. Nos mercados, nas inspirações, nos passeios públicos, nossas vidas afirmarão a variedade que jamais toleraste. Por isso, nenhuma revolução nos serve. Tua voz efêmera, despencará no vazio. No registro irrelevante. A história — e seus efeitos — não mais, não mais se erguerão contra aqueles que a constroem.  Seja como barricada, pólvora, ou combustão inata. Daqui em diante, e para sempre, será esta a marcha que te acordará dos sonhos impostos. O sucesso de estima não será mais rima.

Teu discurso será apenas destroços, distantes e frios, secos e inúteis. Daqui em diante nenhum homem te depreciará, será melhor: perceberemos que conseguiremos viver sem tua dependência. Respirar sem tua anuência, sem as tuas falsas condescendências. Seremos apenas o resultado benéfico de outra compreensão. Até que diremos sim. Sim à natureza vivaz que se compraz no que é veraz.

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