Todo final de ciclo é já um recomeço. Observem bem os semblantes das pessoas. Estarão mesmo atentas?  A história é afoita e se desenrola com celeridade. A velocidade com que ela espalha e as repercussões que causa parecem ser mais determinantes do que os próprios acontecimentos. A violência política precede os atentados. A primeira vista parece indicar que, ao oferecer paz,  subentende-se guerra. E assim, sucessiva e permanentemente.

Antes da inação das instituições, o clima que vivemos evidencia o descontrole da linguagem. A domínancia de palavras  anomicas, que assim como nas ruas atuais, ameaçam não obedecem mais leis, nem regras de organização. E é assim, ensina a história, que o sentido das coisas se dissipa. No domínio das causas e das militâncias, preferimos ter razão à construção de consensos.  Mínimos múltiplos comuns das sociedades foram perdendo substância. Subsistem sem força, enquanto o ponto de união foi se diluíndo em sucessivas subdivisões.

A prioridade tem sido ideologia em detrimento da verdade. O drama substituindo a realidade. A história não se repete como farsa, mas, com ajuda de farsantes, ela tem promovido efeitos diversos. A história é neutra. Mas a má hermeneutica e suas orquestras amestradas a retorcem. A filosofia instrumental que a deforma. A alusão às doutrinas arremata a falsificação. São as notícias simultâneas e díspares operando no cadafalso da desinformação. No rastro dos sistemas de notação.  Conforme as observações do rabino-sociólogo Adin  Steinsaltz tem sido graças à esta “sociologia da ignorância” que os homens, sem se dar conta do tamanho do engano, aderem ao pesadelo hobbesiano de “todos contra todos”.

A paz? Seria a exceção. Sua bandeira? Está representada pelo acolhimento da dignidade das dissidências.

O que esperar se os homens já não se reconhecem como parceiros da mesmíssima matriz? Se desprezam o tecido que os mantém semelhantes? Já não se apoiam nos critérios que numa teologia desmistificadora reafirmam a natureza sagrada da vida. Desatentos à própria origem, podem mudar de lugar, fazer rodízio no poder, criar novas tecnologias, mas ignorando suas matrizes comuns, nada podem cultivar, muito menos a cidadania.  Passam a não mais notar a presença das múltiplas perspectivas. Ignoram a necessidade de um novo giro copernicano, onde o sujeito antecede o Estado. E as pessoas tem prioridade sobre os sistemas de pensamento.

Por sua vez a paz é uma nascente que surge de outra matriz. Mesmo que a paz seja, ela mesma, um incontido desejo pela vida. Irracional, a paz nasce de uma paixão e chega a ser nonsense. Um ímpeto que contraria as pulsões mais comuns. Ela significa concórdia ou, como queriam os gregos, “fechar o templo de Jano”. A paz é capaz de nos impelir ao paradoxal ponto de amor ao oponente. Aceitar a alteridade é só aparentemente uma ingenuidade, ainda que o altruísmo contrarie a ideologia da superação. A paz, em seu sentido universal, recusa a dialética grega ocidental para adotar o estranho e incompreensível espírito dialógico do Talmud.

Ainda assim o metasignificado da paz permanece desconhecido. É mais do que colocar as armas em sarilhos. Mais do que compor-se com inimigos. Está além da fusão de antagonismos. Pois depende da aceitação do deslocamento de um único ponto de vista. Para além da simplificação do contraditório. Como na revolução promovida pela famosa camera de Orson Welles em Cidadão Kane: a sincronicidade da coexistencia, as múltiplas perspectivas que se desdobram em existências únicas. É com isso, e só com isso, que a democracia deveria se ocupar. Com o sujeito e suas idiossincrasias.  Só assim a tentação totalitária seria contida ou dissipada. A ilusão de uma ordem construída de fora para dentro seria abandonada. E expulsaria da imaginação social a fantasia de hegemonia, predomínio e supremacia. E também da contra-hegemonia e dos discursos instrumentais do ódio.

É assim que a interlocução poderia não se reduzir a detalhe supérfluo. Que muitas miradas contemplassem-na ao mesmo tempo e enxergasse as paisagens estranhas umas às outras. Que neutralizaria a ilusão dos portadores do monopólio absoluto da razão. De que como no Aleph de Borges, inúmeras moradas podem conter sincronicamente todos os pontos de vista e nenhum.

É desta simultâneidade não excludente que o respeito mútuo, essencial ao convívio em uma sociedade aberta, se alimenta. É a maturidade possível, na qual se pode assumir que tão cedo — ou nunca — haverá perfeição. E que enfrentaremos melhor as marés oscilantes na renúncia ao belicicismo, mas atentos à exigência do justo.

Rara chance para recolher deste dia o que há de melhor

no belo e no bom, shalom

Shaná tová para todos.