Quem transita pela rede não consegue mais conter o suspiro. Eis que na reta final de uma campanha violenta, um fenômeno ocorre sob nossas barbas. Muitos se outorgaram o direito de intimar o próximo. Uma pandemia de justiceiros sociais cobram posição política alheia com perturbadora naturalidade. Cobrando não, exigindo . Exigindo não, coagindo. A patrulha recrudesceu e se tornou vigilância, marcação homem a homem, mulher à mulher, opressão. Ora, dentro da confraria nota-se gente com vocação para inquisidor. Mas não houve um número significativo de pessoas que se manteve calada — ou neutra— nestes 15 anos? Foram inquiridos por isso? Aceitariam ser cobradas? Fizeram algum tipo de autocrítica? Mas, eis que agora, subitamente, imaginam ter direito adquirido ao patrulhamento.

Quem conhece as nossas histórias individuais ? Muitos que colocam agora que os outros estão do “do lado errado” historicamente também se posicionaram contra o arbítrio, a  tortura e a autocracia desde que o País atravessou os anos de chumbo, eu inclusive. Mas isso parece não significa nada para quem se considera um “bem pensante”. Na verdade, o que não perdoam, mas não podem confessar, é que acham inadmissível que tenhamos aprendido com a experiência. O número de pessoas cristalizadas, aditos ao anacronismo, praticada por boa parte do que uma vez já se chamou  esquerda não deixa de ser desolador. A recusa à revisão, o  estoicismo,  a negação, preferindo ignorar a história e apagar a falência do muro de Berlim. Parcela significativa da ideologia que antes fundamentava a idéa de justiça social sucumbiu à distorção neo-populista da administração pública, misturada com um ativismo institucional que esqueceu que não possível nem justo que o Estado pertença ao partido.

Foi a densidade histórica acumulada que nos faz pressentir o perigo da recusa ao rodízio e portanto a perpetuação do lulismo no poder, ainda que ideologia alguma tenha o monopólio do risco ao estado democrático de direito. Como vaticinou o político do nordeste: vão perder. Por que? A pressão nao funciona mais. A chantagem gerou resistência. O estelionato eleitoral, desconfiança. A coação, desonestidade.

Insisto, porém, num ponto. Nenhum dos dois candidatos nos traz paz de espírito, nem à sociedade nem às instituições. Ambos são resultado de uma estratégia construída por uma base que, apesar das aparências, esteve sempre aliada em pelo menos um princípio teleológico: apropriar-se do Estado. A união era em prol do gerenciamento da manutenção do poder, como tentei explicar no artigo neste mesmo blog do Estadão sob o título “Oposição Substituta”

Um estudo epidemiológico viria a calhar agora, quando o grau de inquietude atinge o sistema de alarme biológico dos indivíduos. Vale dizer, as eleições de tornaram importante fonte de patologia. Estão estressando as pessoas em níveis para além de uma mera hipótese teórica. A democracia deveria  amadurecer como um fluxo de consciência, jamais como uma decisão de vida ou morte. Se isso aconteceu é um preocupante sinal de tilt institucional.

No caldo de ideias indistintas o número de informações falsas e verdadeiras se misturaram de forma a confundir o eleitor. Neste contexto é possível compreender uma provável maciça anulação do voto, não como desapreço à democracia, mas como um suspiro de protesto. Protesto tanto inútil como melancólico.

Mas o realmente chamativo é como se encaminha o problema filosófico da assimetria e da equivalência moral diante da incontinência verbal dos  contendores. É inadmissível que um indivíduo enalteça as torturas pregressas, mas é muito mais insuportável que agentes do Estado e, quiçá, o próprio, defenda regimes equivocados como os da Venezuela e da Nicaragua. Regimes vigentes que perpetram crimes contra seus próprios cidadãos. Na tragédia deste contexto, há sim, uma gradação e uma assimetria moral.

O petismo esgotou-se por dentro, está fora de cogitação para a maior parte do eleitorado e para não ter a tentação enunciada por Bertold Bretch  de “mudar de povo” é este ciclo que deve ser superado. Como dizia Millor “ o fracasso lhes subiu à cabeça “ já que acreitam piamente que alcançaram o status de desoneração moral: o que os colocaria como a única opção ética para salvar o País da barbárie. Ora, mas foi exatamente ele, este partido, respaldado por militantes e intelectuais orgânicos, gente que silenciou diante do mal feito associados às hostes pagas do partido que nos fez herdar o atual momento. Se não enxergo qualidade de estadista em Bolsonaro, tampouco enxergo perfil de ditador ou de um fascista, apenas um conservador exacerbado que deve ser contido em seus excessos verbais. No lugar de coagir as pessoas, os fiscais do voto alheio deveriam se concentrar no esforço pragmático para buscar o diálogo com as massas e civilizar as posturas extremadas e promover a paz.

Será que realmente a desejam?

Aliás aqueles que abusam da palavra “democracia” em libelos e abaixo-assinados deveriam ter o cuidado de analisar melhor antes de lançar mão do top trend xingamento universal “fascista” contra qualquer dissidência. Nao é infrequente que quem profetiza o ovo da serpente, esteja acomodado dentro do ninho denunciado.  Ninguém mais está comprando a ideia daqueles que acham que pensam melhor do que os demais. Igualmente notável é a homogeneidade programática daqueles que desprezam a percepção da opinião pública. Num outro veiculo jornalístico onde assinei por anos a coluna “Coisas da Política” quem me censurou não foi o candidato do PSL mas o partido do ex prefeito de São Paulo.

É possível que todo sofrimento e os abalos provocados nas relações pessoais causados por este pleito sejam redimidos na noite do dia 28. Ou não. Neste caso teremos que lidar com os danos permanentes. Agora é respirar fundo, e votar com consciência, a tradição já nos ensinou: “um suspiro quebra o mundo”’.

Confesso que quebrei.