• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Diagonais (Blog Estadão)

08 sexta-feira ago 2014

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código de barras, segredo industrial, teste empírico

Ultimamente, acordo e me sinto um código de barras. É um sentimento que não passa, mesmo tendo aprendido com a biologia que cada um de nós é irrepetível. Rotular é uma mania antiga, é que agora se faz no atacado. Se não acredita, faça você mesmo o teste empírico. Emita opinião sobre o Brasil, […]

Ultimamente, acordo e me sinto um código de barras. É um sentimento que não passa, mesmo tendo aprendido com a biologia que cada um de nós é irrepetível. Rotular é uma mania antiga, é que agora se faz no atacado. Se não acredita, faça você mesmo o teste empírico. Emita opinião sobre o Brasil, Iraque, Rússia, Nigéria, Israel ou China e você vai sentir na pele o que é ter uma etiqueta colada na boca. Acabo de ler que se você é laico, e ainda de esquerda, sua opinião pode ter um valor intrinsecamente superior às demais. Isso mesmo, a priori e independentemente de conteúdo. Trata-se de uma bolsa já sorteada, exclusiva para intelectuais progressistas. Ou seja, o valor do argumento pesa nada ou quase nada diante de quem emite a opinião. Quem usa, acha que se trata de uma espécie de “sabe com quem você está falando” do bem. Cuidado. Se for um destes que é acusado de ser de direita e condenado por ser conservador, vai poder fazer muito pouco para provar sua inocência. É que os maquiadores dos outros, dominaram o segredo industrial da superbonder ideológica. Suspeitas das ditaduras totalitárias? Duvidas das intenções dos populistas? Emites ceticismo sobre a tática do partido mitômano? Não tem simpatia por estratégias terroristas? O carimbo está seco para te molhar: conspirador reacionário. Sabem o que? Podíamos acompanhar Grouxo Marx e declarar que se esse é o preço para entrar, não aceitamos pertencer a um clube que nos aceitem como sócios. Mas, para a ciência estereotipal e seus ideólogos, tudo se resolve na base da calúnia. As vezes é duro ter que encarar que alguém tem argumentos melhores. Aí é só encaixá-lo em uma categoria depreciada e seguir em frente com suas certezas inabaláveis. Complica se o etiquetado também sonha com direitos humanos, liberdade e fraternidade. Passa a ser insuportável se o sujeito ficar entusiasmado com justiça social e equidade. Vão dar um jeito de te desqualificar pelo avesso: radical. E aí os catalogadores tatuarão na tua testa: esquerda, comuna, socialista internacional. Não terá chegado a hora de inventar o novíssimo glossário? Lá estariam verbetes como: a virtude poder mudar de ideia, julgue devagar, coerência ideológica asfixia a honestidade intelectual e outras percepções. Claro que desagradarão a maioria, fazer o que? Sem a cultura do diálogo político, opiniões não conversam, a coexistência vira tortura. Alguém duvida que é mais fácil obedecer bandeiras e doutrinas que pensar sozinho? Se você tiver sorte, podem só te chamar de aberração. O anacronismo não é só na educação e ninguém pode ser arrogante diante da complexidade. Ela renega aqueles que dispensam contextos e discorda de qualquer alinhamento automático. Suspeito que isso é o enfurece tanta gente. Chegou a hora da desforra contra tanta taxionomia política selvagem: sejamos diagonais.

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O que não consigo perdoar (Blog Estadão)

06 quarta-feira ago 2014

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O que não consigo perdoar.

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 06/08/14

Posso ter lá errado com meus vizinhos. Mas não é por isso que continuam com o foguetório. São 66 anos. A vizinhança e, mesmo em lugares distantes, todos sabem o que está acontecendo. Então, por que se calam? Se ao menos me reconhecessem, até aceitaria discutir o lugar da cerca. Mas eles ficam sonhando com […]

Posso ter lá errado com meus vizinhos. Mas não é por isso que continuam com o foguetório. São 66 anos. A vizinhança e, mesmo em lugares distantes, todos sabem o que está acontecendo. Então, por que se calam? Se ao menos me reconhecessem, até aceitaria discutir o lugar da cerca. Mas eles ficam sonhando com meu desaparecimento. Não vai acontecer. O que mais me espantou? Vi que quando se trata de legitima defesa, uns são mais iguais que outros. Se fosse em outro bairro, outras cidades, ninguém ousaria recriminar. Aprendi que o vale tudo na mídia, e fora dela, serve para ganhar corações e mentes. Conquista barata. Você pode ganhar uma disputa e sair derrotado. A civilização passou a dispensar inquéritos e com apenas um computador na frente, já se pode julgar instantaneamente. Sei que a história tende a revisar as mentiras, o problema é que os registros históricos demoram. Quando conseguem desmontar uma farsa, pode ser tarde demais: a memória do mundo já pode ter caducado. Querem um resumo? Se atacam, me defendo, sou condenado. Me atacam, não me defendo, morro. Sim, tento conversar, mas parece que eles ficam surdos com qualquer contradição. Os dogmas sofrem de estoicismo. Há alguma doença nesta santidade toda. Quando reajo, dizem que é desproporcional. Se não me defendo, pessoas são expostas, aí viro cúmplice. Me pergunto se há saída. Depois de tantas pedradas com revide, já não sei quem começou, e, as vezes, me enxergo como bandido. Quando a coisa passa dos limites, instintivamente volto ao contra ataque. Mas, ao defender os meus, atinjo inocentes deles. Senti que a insanidade se aproximava, quando comecei a esperar o placar mostrar paridade entre vítimas. Pior é que sei explicar porque isso acontece. Me protejo com escudos físicos, eles, coletes humanos. Se me firo menos, murmúrios de desaprovação. A intolerância nasceu com esse dom de reunir várias ideologias na mesma cumbuca. Podem dizer o que pensam, já decorei o bordão dos intelectuais progressistas: ninguém razoável usaria seus filhos como bucha de canhão. Isso é ilógico, irracional, um despropósito. Mas eis a crua realidade desse mundo. Está acontecendo agora. E é exatamente isso que não consigo perdoar: me forçam a ser um executor dos sacrifícios que eles planejaram para si mesmos.

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Uma tecnologia para a paz (Blog Estadão)

03 domingo ago 2014

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Uma tecnologia para a paz

Paulo Rosenbaum

domingo 03/08/14

  Já vimos o suficiente, certo? Agora já podemos nos posicionar. Não restam muitas opções. Façam suas escolhas: a favor ou contra. Esqueçam as infinitas gradações. Borrem o contexto. A dicotomia simplória é só um exemplo de como o diálogo está moribundo. Mas há algo para bem além desse fenômeno. A instantaneidade das cenas são […]

 

Já vimos o suficiente, certo? Agora já podemos nos posicionar. Não restam muitas opções. Façam suas escolhas: a favor ou contra. Esqueçam as infinitas gradações. Borrem o contexto. A dicotomia simplória é só um exemplo de como o diálogo está moribundo. Mas há algo para bem além desse fenômeno. A instantaneidade das cenas são tão céleres como os julgamentos sumários. E vem contribuindo para web linchamentos, que, com alguma frequência transpiram para o mundo real. Foi o caso recente da dona de casa assassinada pela turba incendiada pelas falsas informações. Mais acesso às informações incrementa da intolerância? Não há algo errado nesta equação? A qualidade faz diferença. O que só faz aumentar a responsabilidade dos jornalistas e blogueiros. Formadores de opinião tem poder, inclusive para propagar distorções. No anonimato e sem sanções impregna-se o ciberspace com fotos falsas, conclusões  equivocadas e generalizações improváveis. Colher informações do rescaldo das redes sociais sem verificar a matriz da informação, pode ser desastroso. E qual o papel dos insufladores na atual epidemia de intolerância? O que significa dar voz para pregadores da violência? O que fazem, além de acirrar ânimos, aguçar paixões e induzir à beligerância? O que acontece nas guerras já não é suficiente?

O problema ético atualíssimo é a cobertura jornalística dos conflitos no Oriente Médio. A marcação cerrada com Israel chama a atenção. Dilemas morais e conflitos estão democraticamente distribuídos pelo mundo e não só no oriente médio. Uma guerra é sempre, lato sensu, um álibi universal. Inflando falsas polêmicas, a chancelaria do Brasil, comandada pelo PT, se posicionou ideologicamente a favor de um dos lados, um jornal abriu espaço para que um colunista pouco articulado pregasse o fim de um País e as Tvs hegemônicas impuseram a versão que mais lhes convém. Com tantos estímulos, verificou-se significativo aumento de ataques antissemitas pelo mundo, e, por aqui, uma inédita hostilidade contra a comunidade judaica. Cabe um paralelo com a violência no Brasil (mais de 50.000 mortos em 2013) onde, numa incrível inversão, há mais preocupação com os criminosos, do que com aqueles que sofrem com suas ações, vale dizer os cidadãos. Como se os primeiros fossem assunto do Estado e os demais, ora, os demais que se virem. Quando um absurdo destes é naturalizado, a tendência é que seja incorporado pela opinião pública. Tudo isso cabe na agenda do marxismo reacionário que adotou, nos termos de Fareed Zacharia, a democracia iliberal.

Se há excesso de um exército, que se denuncie esse excesso. Mas o que fazer quando quem ataca não pode ser convertido ao processo dialógico?  Nas palavras de um conhecido pacifista, o escritor israelense Amos Óz, o que você faria se seu vizinho disparasse uma metralhadora contra você e sua família, segurando um bebe no colo? Fujo da angústia e, a cada foguete, preciso me esconder. Eu me envergonho. Mas não pelo direito que um País têm de legitimamente defender sua população, e sim pela absoluta falta de criatividade de quem dirige as populações, a ONU, a diplomacia internacional. Faltam Estadistas, porém o déficit é, sobretudo, de imaginação. Existem sinais de que ela pode ter entrado em recesso.

É difícil aceitar que ninguém tenha desenvolvido uma tecnologia de paz. Um vale do silício do armistício. Uma startup da solução negociada. Ao mesmo tempo, não queremos morrer. Queremos ser equânimes. Nossos cérebros reptilianos nos convencem que se alguém deve sobreviver, somos nós. Não é decisão, ponderação moral ou tirocínio. Segundo o epistemólogo Georges Canguilhén, para os suicidas, tirar a própria vida é um recurso cujo objetivo seria reduzir a tensão à zero. É um equivoco sem volta pois, junto com a tensão, sacrificam a vida. Nós, os conformados, afundamos as cabeças nos travesseiros. Dormimos até que o sangue estanque. Para surpresa de muitos o antissionismo se fundiu ao antissemitismo e está bem mais vivo do que supunha nossa vã paranoia. Pela anômala repetição histórica dos surtos de judeofobia na história, somos obrigados a indagar: estamos diante de um problema de origem transcendental? O judeu, agora cidadão do mundo como outro qualquer, é culpado por não ser mais o bode indefeso preferencial a ser expiado? Talvez não seja nada disso. Quando o mundo, de tempos em tempos, submerge em tensão, os disfarces caem por terra, e os preconceitos, libertados, vingam-se da civilização. Não foi preciso muito esforço. Nunca foram necessários grandes pretextos para condenar Israel e judeus. Hoje há algo bem mais assustador: o estrondoso silêncio da maioria.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/uma-tecnologia-para-a-paz/

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E se hoje acordássemos ninguém? (Blog Estadão)

30 quarta-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Armagedon, eventos religiosos, fissão nuclear, história recontada, Israel, Mídia

E se hoje acordássemos ninguém? Nem ilhas nem continentes, religiosos, materialistas ou céticos. E se não nos dividíssemos entre nacionalistas, anarquistas ou fundamentalistas? E se não fôssemos cabos eleitorais das guerras, candidatos ou nações? E se não houvesse mundo algum? E se não estivéssemos separados por fronteiras? E se os países fossem mais que mercados? As pessoas mais que contribuintes? E se considerássemos que ninguém é traidor ou aliado? E se a paz não precisasse de transfusões? E se não precisássemos defender ou atacar? E se nem as utopias correspondessem à realidade? Não por serem beatificas, ideais, finais. Porque a terra não finda. Porque não há Armagedon, apocalipse ou término para o que mal começou. A menos que passemos a adorar a ideia. A menos que os homens passem a viver por nada. E se a vida não estivesse concentrada na sobrevivência? E se ela estivesse entre todos e espalhada? Se recuperasse o significado? Tingiria outros universos? Alcançaria outros estágios de energia? E se os papeis dos jornais formassem pontes? A se a mídia instruísse? E se negássemos todos os marcos? Todas as datações? E se os símbolos criassem comunidades? E se as datas recusassem reduções? E se o tempo não fosse marcado por eventos religiosos, revolução francesa, 100 anos da primeira guerra mundial? E se o Big Bang não mantivesse a expansão? E se não reduzíssemos tudo à nada? E se respeitássemos a singularidade? E se hoje fosse o aniversario do cosmos? E se a gravidade fosse suspensa? E se o sol descesse, a supernova decantasse e a anã ganhasse um azul? E se agora, neste segundo, zerássemos tudo? Assim mesmo, do nada. E se a fissão nuclear ficasse obsoleta? E se o marco zero fosse absoluto? Nada de políticos: imagino oxigenação, ressignificação dos ofícios humanos, fim das tramas. E se passássemos a contar tudo de novo? A história recontada, nova. Outra história. Quando foi a última vez que sentamos e conversamos? E se fosse essa a primeira vez que ouvíssemos nossas vozes? E se nascêssemos?

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/e-se-acordassemos-ninguem/

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Nenhum homem é uma ilha? ( Blog Estadão)

28 segunda-feira jul 2014

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Nenhum homem é uma ilha?

Paulo Rosenbaum

segunda-feira 28/07/14

“No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friends or of thine own […]

“No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main;

if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were,

as well as if a manor of thy friends or of thine own were; any man’s death diminishes me, because

I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”

John Donne (meditation 17)

“Nenhum homem é uma ilha” diz o poema de John Donne. Mas as vezes, é assim que nos sentimos. Já passou do tempo. A proporção de forças díspares vem sendo discutida. O Conselho de Segurança falou, tá falado. Mas a abstração de teoremas desaparecem na extensão das coisas terrenas. Serve para Gaza, Ucrânia, França, América Latina, Rússia, Sudão, Cuba ou Taiwan. Não importa a latitude. Nada do que se passa parece razoável. Como dizer sem confessar ser parte do problema? Mas é literal: compartilhamos o mesmíssimo barco. A desproporcionalidade, a injustiça e o abandono estão na ignorância. As pessoas não odeiam País A, B ou C, elas só não sabem o significado de cada um deles. Como toda luta contra forças talhadas pela obscuridade só podemos golpear o ar. A batalha pelo ciberspace, mais plástica, mais rápida, mais mentirosa. O verdadeiro conflito protegido pelos bastidores: Qatar e Turquia Versus Egito e Arábia Saudita. A mídia desfigura reputações, e a retratação, tardia, só refaz superfícies. É tão difícil assim entender que ser contra a guerra não significa abdicar da obrigação de se defender? Para a maioria parece que sim, trata-se portanto de uma compreensão seletiva da realidade. Ainda bem que nunca levei fé em maiorias. Mas é claro que Israel é um caso a parte: a legítima defesa criminalizada. O contexto, abortado. Para deslegitimar testemunharam-se desvios, da razão, da civilização. Na lógica dos mísseis todos os alvos se tornaram legítimos. A rotação da esfera entrou no lado escuro, sombra e escatologia. Chamem como quiserem, mas não existe choque entre civilizações. Há vácuo. Ele estacionou entre culturas. Ilhados e sem reparo à vista, ninguém ainda acordou para o fim da tolerância. Para bem além do antissemitismo, a guerra rola contra todos. O que explicaria cristãos carbonizados, budistas enforcados, xiitas mutilados e minorias esmagadas? O fetichismo do Isis? A sobrenatural leniência do ocidente? A silenciosa opressão chinesa? O fantasma de uma KGB mundial no neoczarismo de Putin? Sem muita cerimônia, tendências extremas se reagruparam no calor das oportunidades. Neonazistas respiram, separatistas picotam, jihadistas comandam, xenófofos enxotam. Não basta a complexidade da vida, agora seremos colonizados por demandas que nem escolhemos? A ideologia doutrinaria se uniu aos conservadores pragmáticos. Velhos comunistas, veteranos fascistas e ideologias de antanho entraram em acordo. E por aqui? Tanto faz sininhos, peter pans, ou o exército do capitão gancho: a violência fixou-se como linguagem. Junho negro, molotovs e partidos de ação direta. É bem provável que tenhamos que financiar campanhas e pólvora com dinheiro público. E as jurisdições não alcançam as aberrações. Mereciam condenação por burrice e infração única: colaboraram para que incríveis manifestações pacíficas dessem em nada. Nem erudição nem populismo tem respostas. Os intelectuais emudeceram na ciclotimia, alimentados com subsídios do Estado. Nenhuma fonte é mais confiável. Uma geração dividida entre subserviência e radicalismo. A critica torturada sob a positividade das convicções. A vingança virá com o centralismo partidário, revival de soviets ou golpes de Estado. Com a anomia cultivada, a censura branda vige. Nem bancos podem mais dizer o que pensam. Enfim consenso. Todos se juntam quando o alvo são as liberdades. Eleitas como o grande perigo para o projeto. Esquerda e direita se uniram num complô contra os continentes.

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A Intermediação (Blog Estadão)

24 quinta-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Assessor internacional, assuntos internacionais, direito das mulheres, Extra Extra Extra, Iraque, O Partido, Partido, Putin, respeito à orientação sexual, Síria, Sudão, Terroristas, Ucrânia, Vaga já preenchida no Conselho de Segurança da ONU

A Intermediação

Paulo Rosenbaum

quinta-feira 24/07/14

Extra Extra Extra – Acaba de vazar que o assessor especial para assuntos internacionais, se dispôs a intermediar os conflitos e embarca agora a tarde para a região com uma comitiva especial do Partido escolhida a dedo. Passarão, em ordem cronológica, pela Síria, Irã, Sudão, Nigéria e Iraque. Se sobrar tempo, outras áreas serão incluídas […]

Extra Extra Extra – Acaba de vazar que o assessor especial para assuntos internacionais, se dispôs a intermediar os conflitos e embarca agora a tarde para a região com uma comitiva especial do Partido escolhida a dedo. Passarão, em ordem cronológica, pela Síria, Irã, Sudão, Nigéria e Iraque. Se sobrar tempo, outras áreas serão incluídas no roteiro. Círculos próximos afirmam que ele está eufórico. Chegou a confidenciar que em sua experiência “tudo sempre se resolve com diálogo franco e cerveja”. Na pauta: respeito às escolhas de orientação sexual, situação das feministas, proteção às minorias, liberdade de culto, segurança pública e como implementar a democracia plena durante a recessão econômica. Integrantes do Boko Haram e Isis aguardam ansiosos a presença do enviado e já declararam “não ver a hora de ter esta oportunidade”.

Ps- A fronteira da Ucrânia acaba de ser incluída no roteiro e uma conferência magna foi agendada para Moscou com o inspirador título “O míssil era para Putin”

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A paz começa com perguntas ( Blog Estadão)

22 terça-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Israel Hamas, Peace start with questions, Self defense (article in Enclipaedia of International Laws) Max Planck

A paz começa com perguntas

Paulo Rosenbaum

terça-feira 22/07/14

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da […]

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da população de ataques violentos. Para quem quer discutir a questão do ponto de vista legal, leia o artigo de Christopher Greenwood, “Self Defense” na Enciclopedia Max Planck de Leis Internacionais. Num País com democracia estável e com muitas vozes, a praxe é falta de consenso. Isso colocado, a demonização a qual Israel — e, por tabela, judeus — estão sendo submetidos só não é sem precedentes, porque o holocausto é, em termos históricos, um evento recente. Não bastasse a desproporcional quantidade de citações desqualificadores de Israel nas redes sociais e na mídia, o abuso de comparações descabidas, o discurso agora está centrado na ideia de que a injustiça está na desproporcionalidade das forças. Só por má consciência, ignorância ou incapacidade intelectual de discernimento um País que tem um milhão e meio de árabes israelenses, a maioria muçulmana, poderia ser acusado de limpeza étnica ou genocídio, sem gerar escândalo. Mas não só ele não aconteceu como a acusação vêm sendo replicada e endossada por intelectuais. A maioria são aqueles de sempre, que tem uma militância (desconfie sempre deste gênero) que parece apagar os traços de treinamento na arte de pensar. Essa situação chega a ser mais grave do que a própria guerra, porque reedita o apoio aos períodos em que os povos eram ritualisticamente demonizados. Para a maioria, a distinção entre antissionismo e antissemitismo tornou-se apenas retórica. Entretanto, quem precisa ser convencido da desproporcionalidade não são as forças de defesa de Israel, mas as lideranças que se ocupam em espalhar o terror. Quem contesta, que então defina melhor: o que significa construir túneis embaixo de hospitais, mesquitas e centros residenciais? O que representa para essas pessoas manter foguetes nos céus dirigidos especificamente contra populações civis? E é precisamente esse o ponto central. Muito provavelmente Israel aceitaria o cessar fogo e a abertura de fronteiras. Desde que se garantisse que o fluxo de armas, mísseis e material bélico fosse substituído por alimentos e infra estrutura para os habitantes de Gaza. E quem pode garantir isso? A ONU? Os EUA? Os países da Península? A Comunidade Europeia? Ontem, um dos líderes do Hamas condicionou a trégua ao direito de resistir. Chegaríamos ao seguinte paradoxo, e preparem-se para o nonsense: reivindicam do algoz a liberdade de obter aparatos e tecnologia bélica para ataca-lo. Curiosamente, Israel vem sendo pressionado neste sentido! Mesmo correndo o risco de ser deslegitimado, a contradição apontada tem a estranha mania de sobreviver às personalizações. É inusitado que os esforços pela legítima defesa dos civis de um País sejam colocados em cheque, só porque no imaginário social os habitantes deste País tenham propensão ao sacrifício diante de quem explicita seu desejo de extermínio.São tempos nos quais já é impossível acreditar que quaisquer esforços racionais sejam suficientes para demover quem já tem todas as respostas. A paz começa com perguntas.

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Torto (Blog Estadão)

21 segunda-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Querido presidente, hola, que tal? Bien, bien, y usted? (sacodem-se pelos ombros e encostam os rostos para falar mais baixo) Melhor hablar el português acá! Seguro comandante! Me entendes, não? Perfectamente! Que lugar rico! Es nuestro? Praticamente! No era el palácio brasileno? Querido, no se deixe enganar pelas aparências Não houve protestos? En mi […]

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Querido presidente, hola, que tal?

Bien, bien, y usted?

(sacodem-se pelos ombros e encostam os rostos para falar mais baixo)

Melhor hablar el português acá!

Seguro comandante!

Me entendes, não?

Perfectamente!

Que lugar rico! Es nuestro?

Praticamente!

No era el palácio brasileno?

Querido, no se deixe enganar pelas aparências

Não houve protestos? En mi País teríamos que usar as milícias.

Não, não, ninguém se molesta aqui, e ainda fizeram chistes, uma piada

Ah, sim?

Sabe como justificaram?

Não faço a menor ideia!

(aproximam-se de novo)

Disseram que era por reciprocidade!!

(gargalhadas abafadas, que depois se expandem e perturbam os seguranças armados)

O que posso fazer por você, Huguito?

Não está mais aqui, agora sou eu, Nicolas

Claro, claro, perdão.

Precisamos de mais gente, agora esta mui difícil. Sabes que a oposição está achando que tem direito de protestar?

Mais hombres? Já são mais de 50 mil !

Mire Raulzito, nunca poderíamos imaginar que maquiar la democracia desse tanto trabalho!

Ustedes seguem a cartilha? Falaram sobre a democracia direta? Criaram conselhos populares?

Sim, claro, modelos de soviets?

(Raul se afasta, espantado com a impudência)

Não pronuncie nunca esta palavra….

Desculpa, chefe.

Aqui a palavra chave é mais: lance lá o programa “mais instructores militares”

(Nicolas se esforça para estampar uma cara pensativa)

Não compreendo, comandante.

No importa. Temos eleições com uno solo partido há mais de meio século, e, mire, como estamos bien.

Também tentamos, mas ainda tem jornais que não controlamos.

(Os dois balançam a cabeça em desapontamento)

É essa coisa de liberdade atrapalha muito. Por que não faz como los hermanos daqui: “controlar a mídia”. Tenemos mucha experiência neste campo.

Por isso que vim, comandante!

(Os dois batem continência e saem para passear pelo jardim e deparam com a placa “Residência oficial do Torto”)

Comandante, o que significa torto?

(O dirigente para, coloca as mãos para trás, dá de ombros e continua andando até se voltar e explicar)

Algum significado místico.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/torto/

Paulo Rosenbaum
rosenb@netpoint.com.br
rosenbau@usp.br

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/torto/

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E agora, amanhã? (Blog Estadão)

16 quarta-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Desconfie dos estereótipos. Árabes e judeus são péssimos negociantes. Tudo bem, o Brasil pode ser mais desta vez uma exceção. Sem ofensas. Leia até o fim que tudo será esclarecido. Por que as análises do conflito atual entre Israel e o Hamas se pautam pelo imediatismo? Quem não sabe que paz é raridade e a guerra é uma aporia obtusa? A cena é a mesma: parte do mundo árabe demonizando judeus. Israelenses pedindo a retomada de Gaza. Todos sabem berrar quando não querem conversar. Testemunhei o estupido crime premeditado dos três garotos. Suportei a vingança imbecil de guardiões religiosos que queimam pessoas vivas. Quando ontem Israel enfim aceitou o cessar fogo costurado pelo Egito – que oportunidade – algo precisava ser feito para esfriar a retórica contra o Estado judaico. Até antes de ontem era a resposta aos foguetes desvairados a causa do problema. O aforismo é correto: a primeira vítima da guerra é a verdade.

Li sobre a convocação de ódio aos judeus em Paris, Frankfurt e Cairo. Será que o crematório ainda está fresco? Não foi o suficiente? Dentro ou fora, Israel ainda é o único Estado que tem sua existência questionada. Isso já seria escandaloso. Judeus não podem mais aceitar imolação. Basta a culpa ancestral, a carga auto imposta, relembrada de tempos em tempos. Não é escolha, é reafirmação moral: judeus não podem perseguir nem permitir que alguém seja. Por isso, torna-se insuportável que as imagens descontextualizadas deturpem a realidade do solo. Muitos insinuam, mas não se sustenta dizer que o lugar histórico encontra-se invertido. Bancar o opressor não combina com os fundamentos éticos. Não faz sentido. Mas quem liga?

No documentário da HBO cinco chefes aposentados do serviço secreto de Israel, o Shin Bet, declararam que que não há solução militar. São acompanhados por generais de peso. Serão despreparados? Agentes duplos, infiltrados? Devemos ir para bem além do militar: talvez nem mesmo haja possibilidade de cura social, política ou espiritual.

Mas se todos compreendem que aprumar as coisas através das armas jamais funcionará, não teríamos de cara um desses milagrosos consensos?

O conflito atual está com os dias contados. A pergunta vital passa a ser: e agora amanhã? O que podemos esperar desta geração de israelenses e palestinos? Minha hipótese destoa. O fanatismo jihádico ganhou proporções irreversíveis. Boa parte não poderá ser dissuadida. Não, não é bem isso que amarra os acordos. Há um elemento oculto, inconsciente, subliminar que poderia ser apelidado de fobia à emancipação. Palestinos dependem demais dos assim chamados algozes para assumir sua independência. Por sua vez, Israel não consegue uma diplomacia sagaz e ágil. Teria que contar inclusive com alguma densidade psicoterápica. Para negociar sim, o que mais? Negociantes é o que precisam agora ser. Agora! Essa é a única perspectiva remanescente de viabilidade ou não daquelas terras. Mesmo santas, abrigam mais sangue do que todos os homens juntos podem suportar. Falcão contra falcão nunca gerou diálogo, canibalismo no máximo.

Antes das acusações: não me identifico com um pacifista entreguista. Recuso ser confundido com traidor da etnia ou pária que vira as costas à tribo. Isso aqui é só alguém tentando respirar em meio à asfixia generalizada.

Discordo de muitas teses defendidas por Amos Óz, mas ele tem razão em uma coisa: quem dera limitássemos as escaramuças às brigas de fronteiras, picuinhas entre vizinhos, ofensas entre embaixadores. Para isso, deve haver alguém generoso. Alguém que convença a parte resistente que deve aceitar os riscos da emancipação. Será duro crescer. Imensamente sôfrego depender das próprias pernas, mas o resultado final é que precisa ser enaltecido: o nascimento de duas Nações inteiras.

Considera-se covarde achar que não existem outras formatações possíveis para lidar com o conflito? Então, daqui assumo: sou o tal pusilânime. Se o País dos sabras é só para durões, talvez eu não seja um deles. Mas o gabinete deveria considerar que talvez os judeus da diáspora tenham alguma razão. De longe, pode surgir uma perspectiva mais razoável no horizonte. A obrigação de ser mais tolerante não comporta renunciar à autodefesa, mas pragmatismo para construir laços de confiança. E se for urgente chegar à paz de qualquer maneira? Não importa como, nem com quem. Que seja o inimigo que aglutinou os defeitos do mundo, ou o menos confiável dos habitantes. A outra alternativa é que os papeis da história podem se dar ao luxo de desfilar até o fim do abismo com a humanidade se encolhendo e desviando o olhar. Todos nós vamos passar, mas se nada for feito, é o mal-estar que fica para a semente. Sigamos Martin Luther King, já que ainda ninguém ousou caçar o direito de sonhar: e se essa não fosse só mais uma guerra para dar lugar a outras? E se fosse a última?

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Outras melancolias (Blog Estadão)

16 quarta-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Palavras se impõem. Predominam, apesar dos fatos. Para além deles. Nem sempre designam o que os vocabulários exigem. São polissêmicas , transbordam dicionários. A melancolia (do grego, melakhole – bile negra, um dos quatro temperamentos) passou a ser a tradução do amargor pelo futebol no país da copa. Capa das manchetes. Não me refiro às rígidas categorias psiquiátricas. A depressão é cerebral, a saudade, anímica, a melancolia visceral. Mas, e as outras melancolias? As mais dignas de menção. A melancolia da política, ou de sua falta. A melancolia da rotina, sem jogos, o cenário lugar comum. A melancolia das guerras, que substitui razão por bile. O cinza pelo escarlate. A melancolia da poesia, para Goethe, vital. A grande melancolia, ainda não mapeada. A que se acha nos escritos de Jane Austen “uma cara agradável, e um ar melancólico”.A que enfoca a vida. A que rompe o automatismo. A melancolia da contemplação, do afastamento, do narcisismo, do enxergar que não é só isso. De que não é por ai. A melancolia das aberturas, do vazio que confunde, das ausências. A melancolia de fundo, a apreciação mais lenta, das balas perdidas, do choro hesitante, do soluço esparso, da beleza latente. A umidade dos dias, das tardes ociosas, da secura do ar. A melancolia como força de mudança, de esperança, de autenticidade. A melancolia da energia perdida, das manifestações rasuradas, da falta de consenso. Da educação transformada. Do país justo. Do planalto renovado. Da alegria contida. Da euforia gotejada. Das calçadas arejadas. A melancolia dos espinhos, dos parques, dos vinhos. A melancolia que não é ainda tristeza, flutua, no meio fio da incerteza. A melancolia do pensamento que criamos a todo momento.

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