Palavras se impõem. Predominam, apesar dos fatos. Para além deles. Nem sempre designam o que os vocabulários exigem. São polissêmicas , transbordam dicionários. A melancolia (do grego, melakhole – bile negra, um dos quatro temperamentos) passou a ser a tradução do amargor pelo futebol no país da copa. Capa das manchetes. Não me refiro às rígidas categorias psiquiátricas. A depressão é cerebral, a saudade, anímica, a melancolia visceral. Mas, e as outras melancolias? As mais dignas de menção. A melancolia da política, ou de sua falta. A melancolia da rotina, sem jogos, o cenário lugar comum. A melancolia das guerras, que substitui razão por bile. O cinza pelo escarlate. A melancolia da poesia, para Goethe, vital. A grande melancolia, ainda não mapeada. A que se acha nos escritos de Jane Austen “uma cara agradável, e um ar melancólico”.A que enfoca a vida. A que rompe o automatismo. A melancolia da contemplação, do afastamento, do narcisismo, do enxergar que não é só isso. De que não é por ai. A melancolia das aberturas, do vazio que confunde, das ausências. A melancolia de fundo, a apreciação mais lenta, das balas perdidas, do choro hesitante, do soluço esparso, da beleza latente. A umidade dos dias, das tardes ociosas, da secura do ar. A melancolia como força de mudança, de esperança, de autenticidade. A melancolia da energia perdida, das manifestações rasuradas, da falta de consenso. Da educação transformada. Do país justo. Do planalto renovado. Da alegria contida. Da euforia gotejada. Das calçadas arejadas. A melancolia dos espinhos, dos parques, dos vinhos. A melancolia que não é ainda tristeza, flutua, no meio fio da incerteza. A melancolia do pensamento que criamos a todo momento.

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