Desconfie dos estereótipos. Árabes e judeus são péssimos negociantes. Tudo bem, o Brasil pode ser mais desta vez uma exceção. Sem ofensas. Leia até o fim que tudo será esclarecido. Por que as análises do conflito atual entre Israel e o Hamas se pautam pelo imediatismo? Quem não sabe que paz é raridade e a guerra é uma aporia obtusa? A cena é a mesma: parte do mundo árabe demonizando judeus. Israelenses pedindo a retomada de Gaza. Todos sabem berrar quando não querem conversar. Testemunhei o estupido crime premeditado dos três garotos. Suportei a vingança imbecil de guardiões religiosos que queimam pessoas vivas. Quando ontem Israel enfim aceitou o cessar fogo costurado pelo Egito – que oportunidade – algo precisava ser feito para esfriar a retórica contra o Estado judaico. Até antes de ontem era a resposta aos foguetes desvairados a causa do problema. O aforismo é correto: a primeira vítima da guerra é a verdade.

Li sobre a convocação de ódio aos judeus em Paris, Frankfurt e Cairo. Será que o crematório ainda está fresco? Não foi o suficiente? Dentro ou fora, Israel ainda é o único Estado que tem sua existência questionada. Isso já seria escandaloso. Judeus não podem mais aceitar imolação. Basta a culpa ancestral, a carga auto imposta, relembrada de tempos em tempos. Não é escolha, é reafirmação moral: judeus não podem perseguir nem permitir que alguém seja. Por isso, torna-se insuportável que as imagens descontextualizadas deturpem a realidade do solo. Muitos insinuam, mas não se sustenta dizer que o lugar histórico encontra-se invertido. Bancar o opressor não combina com os fundamentos éticos. Não faz sentido. Mas quem liga?

No documentário da HBO cinco chefes aposentados do serviço secreto de Israel, o Shin Bet, declararam que que não há solução militar. São acompanhados por generais de peso. Serão despreparados? Agentes duplos, infiltrados? Devemos ir para bem além do militar: talvez nem mesmo haja possibilidade de cura social, política ou espiritual.

Mas se todos compreendem que aprumar as coisas através das armas jamais funcionará, não teríamos de cara um desses milagrosos consensos?

O conflito atual está com os dias contados. A pergunta vital passa a ser: e agora amanhã? O que podemos esperar desta geração de israelenses e palestinos? Minha hipótese destoa. O fanatismo jihádico ganhou proporções irreversíveis. Boa parte não poderá ser dissuadida. Não, não é bem isso que amarra os acordos. Há um elemento oculto, inconsciente, subliminar que poderia ser apelidado de fobia à emancipação. Palestinos dependem demais dos assim chamados algozes para assumir sua independência. Por sua vez, Israel não consegue uma diplomacia sagaz e ágil. Teria que contar inclusive com alguma densidade psicoterápica. Para negociar sim, o que mais? Negociantes é o que precisam agora ser. Agora! Essa é a única perspectiva remanescente de viabilidade ou não daquelas terras. Mesmo santas, abrigam mais sangue do que todos os homens juntos podem suportar. Falcão contra falcão nunca gerou diálogo, canibalismo no máximo.

Antes das acusações: não me identifico com um pacifista entreguista. Recuso ser confundido com traidor da etnia ou pária que vira as costas à tribo. Isso aqui é só alguém tentando respirar em meio à asfixia generalizada.

Discordo de muitas teses defendidas por Amos Óz, mas ele tem razão em uma coisa: quem dera limitássemos as escaramuças às brigas de fronteiras, picuinhas entre vizinhos, ofensas entre embaixadores. Para isso, deve haver alguém generoso. Alguém que convença a parte resistente que deve aceitar os riscos da emancipação. Será duro crescer. Imensamente sôfrego depender das próprias pernas, mas o resultado final é que precisa ser enaltecido: o nascimento de duas Nações inteiras.

Considera-se covarde achar que não existem outras formatações possíveis para lidar com o conflito? Então, daqui assumo: sou o tal pusilânime. Se o País dos sabras é só para durões, talvez eu não seja um deles. Mas o gabinete deveria considerar que talvez os judeus da diáspora tenham alguma razão. De longe, pode surgir uma perspectiva mais razoável no horizonte. A obrigação de ser mais tolerante não comporta renunciar à autodefesa, mas pragmatismo para construir laços de confiança. E se for urgente chegar à paz de qualquer maneira? Não importa como, nem com quem. Que seja o inimigo que aglutinou os defeitos do mundo, ou o menos confiável dos habitantes. A outra alternativa é que os papeis da história podem se dar ao luxo de desfilar até o fim do abismo com a humanidade se encolhendo e desviando o olhar. Todos nós vamos passar, mas se nada for feito, é o mal-estar que fica para a semente. Sigamos Martin Luther King, já que ainda ninguém ousou caçar o direito de sonhar: e se essa não fosse só mais uma guerra para dar lugar a outras? E se fosse a última?

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