• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Catatonia (blog Estadão)

10 quinta-feira jul 2014

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catatonia, Copa do Mundo, Fifa, Ghiggia, Maracanasco, Scolasco, Viaduto de BH

Catatonia

Paulo Rosenbaum

Convenhamos, o time não era só fraco. Mostrava inconsistência, falhas e insegurança. Não se trata se enxergar cada um dos jogadores – neste torneio o segundo conjunto mais caro do mundo. Falamos de time. Mas a palavra essencial que pode ajudar a entender o transe no Mineirão. Está no relato de uma testemunha ocular da antológica final no Maracanã em 1950: este narrador chamou de “catatônico” (catatonia – do grego katátonos – forma de alienação com tensão permanente de certos músculos) o estado do time, depois que Alcides Ghiggia desempatou a partida.

No caso da atual seleção, o colapso emocional, a derrocada psíquica, de qualquer forma a catatonia, começou muito antes da joelhada. A maioria dos analistas mostrava cautela, mas foi patente o usufruto político que a administração federal e o Partido, sem trair seu estilo auto-referente, vinha fazendo com tudo que se referia à Copa do Mundo.

Descontrole das contas públicas, inflação, aparelhamento, queda do PIB, controle da mídia, a retração dos investimentos e o desejo por supremacia estiveram na ordem do dia da opinião pública, até que, para alívio do Planalto, vieram as partidas. Um stand by geral, tudo suprimido pelo entusiasmo da maioria da população. Muito antes da estranha partida contra a Alemanha, o País já havia sido subjugado pelos cartolas da FIFA. A entidade sem fins lucrativos mudou leis, fez exigências, impôs padrão, regras e preços. Insinuaram até que tirariam o time de campo. Reação? Nem um pio. A Associação foi amplamente atendida, em tudo, ou em quase tudo. Por que um governo, reputadamente presunçoso, se curvaria com tanta presteza? Medo de perder prestigio? Antecipação do potencial cacife político se tivesse dado certo? Obediência tácita? Subserviência estratégica? Sempre houve uma ligação mesmo que não houvesse uma linearidade óbvia com as pesquisas eleitorais. Estava funcionando.

Como anotou Dora Kramer sem sua coluna, quase 90 dias separam o fim da Copa das eleições, e o povo não é bobo. Mas eis que surge o imponderável. As tais fatalidades, que é como por aqui nos referimos aos acidentes evitáveis. Ai chegou a vez dos locutores, que, assumindo a missão do patriotismo pecuniário, puxaram o coro de ofensas. Juntaram-se ao ex-presidente para promover agressões indiscriminadas: pagantes nos estádios, quem vaiava, críticos do time, descrentes da capacidade técnica, e aí foi um passo para reuni-los todos: golpistas e desgostosos com o regime. O ufanismo atingiu o apogeu com jingles insuportáveis criando uma parodia com o aforismo da ditadura “torça ou deixe-o”. Até que colou. Durou pouco. Até que acontece a tragédia do desabamento do viaduto. O desastre catalisou a ruína, que veio em cascata. A partir dai era como se a maquiagem estivesse se denunciando: melhor parar de operar sob escoras. Toda improvisação é fugaz e enganosa. Foi como se o jogo oculto tentasse se auto elucidar. Por qual acaso os esportes seriam os únicos poupados em meio a um clima tão desfavorável? Foi ali, naquele exato instante, que essa seleção perdeu todas as chances. Com o simbolismo em frangalhos e com a tática de um técnico de competência ciclotímica, fomos humilhados. Menos pela Alemanha, do que por golpes da manipulação política.

Há mais mistérios nessa vida do que supõe o senso comum, mesmo assim alguns podem ser esclarecidos: o futebol foi a mais recente vítima instrumental desse governo.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/catatonia-e-politica/

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Terror Próspero (Blog Estadão)

08 terça-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Já desconfiava dessa sequencia. Podem chamar de eloquência, exageros da lucidez ou como escreveu Goethe “Não venham me confundir com contradições. Logo que falamos, começamos a errar”. Concessões e filtros chegam antes do fluxo de consciência. De cara, é preciso fôlego: não há equivalência moral entre atos terroristas. Mas isso importa agora? Faz sentido balança ética quando a pólvora está seguindo seu rastro? Estamos fartos de pancadaria. Ela impera. Ninguém mais suporta manipulação. Ela se impõe. O terror sucede. Sucede porque vinga. Alguém tem que se defender. E atender provocações. O medo criou auto suficiência. A razão, enterrada por argumentos. Quem terá razão? A paz? Sufocada, sequestrada e morta? Enquanto as lideranças dormitam no silencio. Na inação. A diplomacia perdeu o recato. Vazou na Casabranca: que se matem! Mas é evidente que foguetes merecem resposta. Bombas idem. Mas respostas para quem? Para perguntas nunca formuladas? Como é facílimo eliminar a ingenuidade. Que moleza incinerar a esperança. Por isso, a evolução reafirma competição sobre cooperação. As tribos demandam seleção natural. É tudo, menos natural. Sobrevive quem joga melhor. Na base da simulação. A farsa da superação. Muito antes dos corpos, armas já perfuraram espíritos. A vida some diante das colunas. Os blindados rastejam na areia. Sob a mira indiscriminada de lançadores móveis. O novíssimo terror é avulso, automático, prêt-à-porter, a la carte, sob demanda. Meia dúzia, e endossam qualquer Guerra. Eis o verdadeiramente catastrófico. Arrecadação nas redes, crowdfundig para drones, plutônio na manga. O troféu? Assassinato de acordos. Violações e presunção de selvageria. A vida como obra de arte? Não para os cavalheiros. Quem dá a mínima para democracias nos desertos? Pena. O gradiente de regeneração sempre excluiu órfãos e sobreviventes. Ainda assim, a praxe é que a história se refaça. Quem será o descartado desta vez?

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/terror-prospero/

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Vote em cérebros, não em celebridades.

06 domingo jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Vote em cérebros, não em celebridades.

Paulo Rosenbaum

domingo 06/07/14

Números confirmam que significativa parcela de celebridades, embaladas pela ampla exposição pública com que habitualmente são agraciadas, sairão como candidatas nas próximas eleições. Urge alguma contra propaganda cívica. É necessário que a imprensa livre assuma o papel e estabeleça algum contrapeso para esse tipo de marketing. Para que o eleitor não confunda seus ídolos com […]

Números confirmam que significativa parcela de celebridades, embaladas pela ampla exposição pública com que habitualmente são agraciadas, sairão como candidatas nas próximas eleições. Urge alguma contra propaganda cívica. É necessário que a imprensa livre assuma o papel e estabeleça algum contrapeso para esse tipo de marketing. Para que o eleitor não confunda seus ídolos com sujeitos com qualquer competência política. Pode acontecer, mas, em geral, trata-se de exceção à regra. Por isso, é necessário que alguém crie anti campanhas para contrabalançar o poder econômico e midiático: votem em cérebros, não em celebridades.

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Indução à secessão

04 sexta-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Coisas da Política

Hoje às 06h00

Indução à secessão

Paulo Rosenbaum

Pode ser elucidativo examinar a diferença entre desejar e querer. O querer opera no campo consciente, o desejo se expressa pelo inconsciente. O querer tem alguma objetividade, e o que se expressa ali é efetivamente o que está no reino da vontade dos homens.

Desejo é muito mais complicado. Quando alguém lamenta o ódio político a ponto de o tema se transformar em um caso, compêndio e tratado, correndo o risco de culminar em causa, desconfie de desejo.

Ao afirmar que sempre evitou rancor e o detestar, na verdade o sujeito acaba denunciando sua avidez pela matéria. Internamente mobilizado, está determinado a promovê-lo, implantá-lo e finalmente, talvez, desfrutar do que semeou.

Acusar incessantemente o outro de ódio desvela nossa própria hostilidade. Mas isso não é o pior. Se parte significativa dos nossos impulsos tem motivação inconsciente, o que se pode afirmar dos discursos políticos aos quais temos que nos submeter, cada vez mais, assim que os jogos acabarem? Notem que as ações propositivas estão cada vez mais escassas. Vêm sendo substituídas por culpar a outra metade. É evidente que não pode dar certo.

Todo partido que aspira a hegemonia tem sido um pouco mais pródigo nesta arte do que os outros, mas tem sido prática generalizada por aqui aprofundar a fenda para aguçar o conflito. Escondem mais que escancaram. A realidade subjetiva encontra-se oculta. Articulado atrás das aparências, o objetivo é desqualificar o adversário. Isso nos obriga ao especulativo trabalho de descriptografar o impronunciado. De destrinchar entrelinhas. Não há um brasileiro que não se pergunte “mas o que está por trás disso?”. Nada de paranoia. É apenas a violência de mitômanos. Tudo sempre subliminar, tergiversante, escamoteado. Quem foi que falou em maracutaia? A abundância de aloprados se justifica. Preferem que a coisa volte a dar errado do que perder o pleito. Para depois assumirem a nau desgovernada como salvadores do regaço. Ou partirem para uma oposição como nunca se viu antes na história deste país.

Mas, e o Brasil? Esse não importa muito na medida em que é pauta de uma linha só: o controle da sociedade. O poder nunca foi tão cobiçável e ávido. Por que será?, me pergunto. Fama? Necessidade narcisista de comprovar que “a ideia foi minha?”, de que “só nós fizemos”?, ou apenas a nostalgia por enxergar que estamos enfim chegando a um final patético?

Chegamos a acreditar que parecia mesmo ser o fim de um longo processo que estaria retirando o país da barbárie, dragando o atraso, construindo um espaço civilizado e consistente.
“Manipular sentimentos e arregimentar paixões tornou-se especialidade de muitos”

Hoje, escrever se tornou perigoso. Circulam listas negras. A censura, velada, se faz por outras vias. Sempre foi perigoso, mas em nossos dias se sente na pele. Vejam que até correr por aí se tornou uma ameaça. O suspeito pode estar fugindo do crime que acabou de cometer. Foi o caso do professor quase linchado que teve o infortúnio de fazer jogging perto de onde tinha acabado de acontecer um assalto. O retardo da justiça usado como escusa para tomá-la nas próprias mãos.

É assim que acaba se tornando preferível uma manifestação — indelicada, aberta, deselegante — à linguagem despistadora, cabotina, que oculta significados que precisam de segredo, e por isso não podem ser expressos abertamente.

Não foi inventado por eles, porém hoje é o partido da hegemonia não declarada que insiste em nos impingir desgosto, ameaça e farsa como técnicas de domínio. Nas telas, sulcadas nos papéis, ou em mensagens inusitadas, a presença agressiva se multiplica. Mas não pensem os leitores que estarão livres só com isso. Teremos que aguentar réplicas e tréplicas. Dossiês derramados nas telas. Carranca e voz rouca colocando o dedo em riste sobre nossas caras.

Manipular sentimentos e arregimentar paixões tornou-se especialidade da casa. Um dia no futuro, a indução de uma secessão vai exigir ser periciada. Quem ganha a vida oferecendo instrumentos de propaganda para induzir choques sociais e fomentar a anomia será responsabilizado quando o pior eclodir. Só quem sobreviver verá.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/07/04/inducao-a-secessao-2/

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Psicanálise selvagem (Blog Estadão)

03 quinta-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Psicanálise selvagem

Paulo Rosenbaum

quinta-feira 03/07/14

Nossa única missão é ganhar. Foi o que disseram. Depois, vieram ameaças. Quem daqui conhece a história do fantasma do Barbosa? A maioria pensava que falavam de uma outra pessoa. Mas não. Era sobre o goleiro. Na véspera de cada partida nos faziam ver o filminho. Histórias do Maracanazo. Aumentavam o volume. Faziam a gente […]

Nossa única missão é ganhar. Foi o que disseram. Depois, vieram ameaças. Quem daqui conhece a história do fantasma do Barbosa? A maioria pensava que falavam de uma outra pessoa. Mas não. Era sobre o goleiro. Na véspera de cada partida nos faziam ver o filminho. Histórias do Maracanazo. Aumentavam o volume. Faziam a gente decorar o grito de guerra “asco, asco, asco, nada de fiasco”. Depois, tortura. Por três dias tivemos que aguentar o silêncio do estádio em 1950. Aquele ruído dos sapatos descendo das arquibancadas. “Vocês querem que isso se repita, hein hein?” Ficavam berrando. Aí mostravam as manchetes: Vergonha. Morte do futebol e sei lá o que mais. E o professor fazia questão de deixar claro: “ganhar ou morrer”. Ele sempre foi do tipo verdade nua e crua: “vitória não é dever, é obrigação”. Se alguém desse um pio ele se saia com “não é por por vocês nem por mim, é pelo amor à Pátria”. Para ele, essa coisa de meio termo não existia. Nem segundo lugar. Nem fazer bonito. Nem perder com dignidade. Começamos a ficar aflitos. Só um teve peito para perguntar: “Mas e daí se perdermos? Isso por acaso é vergonha, professor?” Olhamos todos ao mesmo tempo para ele. Ou o cara era muito ingênuo ou sei lá. Depois disso, o clima degringolou. Bem que eles tentaram aliviar. Passaram vídeos do Garrincha, da seleção de 70. Esses caras eram mágicos, nós não. Ou eles te deprimem ou te humilham? Lá pelas tantas, um figurão da comissão veio falar dos perigos que corríamos se fracassarmos. Horror mesmo foi antes da penúltima partida: “gente graúda, lá de cima, está de olho em vocês. Depois da Copa, vai ter eleição, preciso falar mais?”. Dali em diante, foi ladeira abaixo. Antes do último jogo, o menino começou a tremer, dava para ver que ele já entrava derrubado. Chorava de dar pena. Foi barra pesada. No dia seguinte, de madrugada, lá pelas 2, veio a doutora. Acordaram todo mundo. Só nós e ela na salão. Ela parecia legal. Falou que todo mundo poderia se abrir. Tudo que fosse dito ali, ficaria entre nós. Eu, que já estava mesmo na reserva, criei coragem e perguntei: por que de repente os outros times não têm medo? Ela enrolou, não sabia o que dizer. Ai o goleiro, o reserva do reserva, desabafou: é muita pressão! Ela sentou numa cadeira, pensou um pouco e falou baixinho: “Por que não tentam ser vocês mesmos?. Divirtam-se com a bola. Não dá para levar tudo a ferro e fogo. Não se levem tão a sério. As pessoas criticam porque querem jogos mais alegres. Sentem falta da molecagem, da ginga, do jeito que só a gente têm. Onde isso foi parar? Deve estar aí dentro de cada um. Não pode ter sumido. Se o esquema tático tá matando vocês, a solução é soltar a criatividade” Todo mundo ficou quieto, olhando para ela. Veio aquele click! Olhamos uns para os outros, sem conversa, sem palavras. Até que o moleque levantou a mão: não pode ser como na concentração da Holanda? A gente se sente meio enjaulado. Parece ditadura, manja? Todo mundo riu. A psicóloga só deu um sorriso e se levantou. Ela ia responder quando atendeu o telefone. Saiu rapidinho da sala. Não dá para jurar, mas acho que ela estava chorando. Perto da porta, antes de sair, deu uma piscadinha para o garoto e falou “Pensem. Não vou poder mais ajudar vocês.” Só depois a gente soube, ela tinha sido demitida. O moleque dançou. Estava escalado para jogar. Uma hora antes do jogo vieram falar que ele tinha sofrido distensão muscular. Quem chorou foi cortado. Aí passou dos limites. Fui de quarto em quarto e falei que a gente tinha que se rebelar. Combinei que se a gente ganhar não vai ter essa de erguer a taça em palácio nenhum. Esse cara da Fifa que se vire com a ira do povo. Nada de rampa ou jaburu. Nada de ficar posando para foto. Aplaudiram e pela primeira vez desde que estou internado aqui, respirei direito. O resto vocês já sabem.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/psicanalise-selvagem-do-escrete/

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Retóricas sem futuro (Blog Estadão)

01 terça-feira jul 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Esperem! Haverá evocação de equivalência moral. A omissão será ela mais uma vez, a chancela. Serão chamados de resistência, milicianos, combatentes. O critério de nomenclaturas vêm morrendo. Quem usa terroristas pode ser etiquetado de direita. O que, de forma nenhuma, se contorna é que vivem de horror. Semeiam descontrole. Colhem bem mais do que aram. Serão as justificativas de sempre. O luto de sempre. O catálogo de desculpas. Mortos não reclamam. Cadáveres não advogam. Crianças  executadas não reivindicam. Fala-se muito por elas. Faz-se nada. Olho por olho, vingança e reciprocidade são retóricas sem futuro. O futuro de todos vai sendo caçado. Ninguém percebe? Tudo, menos olhar para a tragédia. Tudo, menos apreender o contexto. Crime execrável, hediondo, sinistro e maléfico. Bárbaro. Mas se querem a realidade: acontecerá de novo e mais outra vez.

Precisa ser tragédia? Dois povos tomaram viver lado a lado como danação? Perderam a capacidade de conversar e, hoje, passaram ao desprezo mútuo. Internados na insanidade. No ancestral metabolismo da matança. Mas existem outras mortes. Menos evidentes. O silencio e a leniência. O condicional. O talvez se. O se vocês tivessem. Ninguém mais quer consolo. Cansei de “meus sentimentos”. Repudio pêsames. Anulem-se condolências. Uma única bandeira.  Sabotar a paz, o único emblema visível. Mas paz não é, nunca será, auto imolação. Nem pedir cabeças. É chegada a hora dos incineradores espalharem as cinzas. De inocentes. De instrumentos. A vida é um objeto.  Matar a sangue frio é dobrar a morte à uma causa. A diplomacia vai de jargão em jargão. Auto restrição. Controle. Afinal é a civilização. Governos constituídos precisam se conter. Menos com estadistas que se acalmam com a naturalização do inconcebível. Com a aceitação do insustentável. Assumo a parcialidade, mas só a miopia voluntária para não notar a enorme diferença entre os dois lados.

Podem persistir na equação de equivalência. Mas não. Inútil. Não foi um holocausto qualquer. A chacina desses garotos revelará bem mais do que gostaríamos de enxergar.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/retoricas-sem-futuro/

 

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Invisíveis ao Poder (JB) [coluna vetada]

28 sábado jun 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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coluna vetada

 

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Invisíveis ao Poder

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Gosto se discute. Eis que será preciso contestar o velho ditado senso comum de que religião, política e futebol são temas indiscutíveis. Dado nosso contexto, seria possível aceitar pacote de tabus consentidos? Como é que não se discute política? Agindo exatamente como nossos representantes costumam fazer: desqualificar a outra metade. Matam dois coelhos com uma só paulada. Não dialogam sobre o que interessa e contornam a insatisfação crescente da opinião pública. Por quê? 

Porque o que interessa é faturar as eleições, o resto é detalhe. Só se esquecem de que turbinar a animosidade não é bom para ninguém. Este é o caráter do jogo no qual se disputa: ganhe quem ganhar, alguém será transformado em resíduo, sobra, o lado derrotado, a metade perdedora. Destarte, os 49% vencidos somarão, no mínimo, quase metade da população do país. Para desespero de quem aspira ser hegemônico, estes são os fatos. Só um governo civilizado poderia arcar com o ônus que nos aguarda a partir do dia 1 de janeiro de 2015. 

 A metáfora da Copa é pleonasmo, mas vem bem a calhar. Podem se incomodar, mas essa competição esportiva não deixa de ser uma forma de expressão do darwinismo de resultados: alguém precisa perder, morrer, de qualquer forma sumir, para que a evolução prossiga em paz. Só a desrazão faz com que vibremos com disputas. É sob o domínio da afetividade violenta que entramos em férias coletivas. Vamos assumir que é a paixão que assume temporariamente o controle dos corações e mentes. 

Eis um império instável, ciclotímico, e sujeito a guinadas bruscas. Todas estratégias a serem evitadas em campanhas políticas já que o ganho de levar a taça a um custo tão alto gerará – ou já gerou – sérios empecilhos para governar. Vale dizer, governar não é simular administração enquanto se finge que algum estranho pilota. Governar é assumir responsabilidades e propor mudanças que atendam a toda a sociedade, incluindo aqueles que estão rejeitando a administração. 

É preciso interromper o ciclo dos filiados, apadrinhados, subsidiados e patrocinados com dinheiro público

É preciso interromper o ciclo dos filiados, apadrinhados, subsidiados e patrocinados com dinheiro público, promiscuidade letal para a democracia. Para sair da crise institucional – pode ser branda, mas é evidentemente crítica – é preciso ter a coragem para propor e sustentar uma mentalidade realmente inclusiva.  A outra escolha é a aposta catastrófica de segmentar o país e jogá-lo aos termos da violência e da secessão.       

Numa democracia autenticamente representativa são propostas, apenas elas, que deveriam estar no centro do debate. E, num caminho em que cabe todo mundo, senão, nada feito. Não discutir política é bloquear aquele que seria o único resgate razoável para a palavra “cidadania”. Esse termo bastardizado, maltratado, esvaziado de significado na boca vazia da maioria dos legisladores. Só há cidadania com representação e participação. Porém, a criação de instrumentos oportunistas de inclusão – como os tais conselhos populares – só fazem reforçar a desconfiança da sociedade em relação às intenções de golpear acordos. 

Da tentativa perturbadora de que um único partido obtenha hegemonia para reformar o Estado. Argamassa velha não sustenta reboques, e decerto a sociedade se reunificará contra aventuras.   Antes, haveria de se educar pessoas para escapar da armadilha do carisma populista – todo populismo, de qualquer matiz, direita, esquerda, centro, é de índole totalitária – que só uma mudança significativa nos rumos da educação, que vá para bem além de vagas gratuitas e critérios raciais. Desarmar a sociedade não é retirar o direito de se defender do Estado. Não basta recolher pistolas e rojões das ruas, mas concatenar discurso e atitude, articular diálogo com transparência. Talvez esta seja a chance de recobrar a esperança, isso pode significar nos tornar menos invisíveis ao Poder.  

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Treino e castigo (Blog Estadão)

27 sexta-feira jun 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Copa 2014, crime e castigo, Fifa e hipocrisia, psicologia do embate, treino e castigo

Treino e Castigo

Paulo Rosenbaum

sexta-feira 27/06/14

Come essa bola! Arrebenta com eles. Mete a boca. Cãibras? Lembra da glória, fama e grana. Ouro no fim do túnel. Teu passe vai dobrar. Eles não entendem. Tem que ter a manha. Levar vantagem. Microfone abriu, fica na sua. Nunca fale em bicho. A gente faz tudo por idealismo. Tudo pela Pátria. Sacou? Estraçalha. […]

Come essa bola! Arrebenta com eles. Mete a boca. Cãibras? Lembra da glória, fama e grana. Ouro no fim do túnel. Teu passe vai dobrar. Eles não entendem. Tem que ter a manha. Levar vantagem. Microfone abriu, fica na sua. Nunca fale em bicho. A gente faz tudo por idealismo. Tudo pela Pátria. Sacou? Estraçalha. Acaba com eles filho. Vê se dá sangue. Poe raça na jogada. Gana, tem que ter gana. Explode o timeco. Está ouvindo lá fora? Essa gritaria? Estão te chamando para o pau. Humilha. Põe para baixo. Mete o pé. Levou uma, dá duas. Deixa vir o instinto. Faz com raiva. Cada disputa é sua vida. É guerra. Matar ou morrer. Ninguém vê nada. Soca quando subir. Entra de sola. Provoca. Cava. Cai na entrada da área. Xinga baixo. Usa a unha. Obrigado filho. Uso a psicologia para ganhar.

_______________________________________________________________________________________________

Não era bem isso. Você ferrou com tudo. Era canela. Cotovelo, falei cotovelo. Você sabe o que é solar? Deu errado. É esse campo vigiado. Toco, falei toco. Deu muito na cara. Coisa feia. Muito bruta. Dente é Corte marcial. Acabou para você. Volta sozinho. Vergonha. Honre o espírito esportivo. Quem te falou para ser bicho? Não me conformo. Onde é que você estava com a cabeça? Era só um jogo.

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Três garotos (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe? Pedir perdão. Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto.

Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe? Pedir perdão. Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter […]

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe?

Pedir perdão.

Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter feito nada para impedir que as coisas chegassem a esse ponto. Está confuso? Vou explicar.

Sei que pode estar muito frio ou muito calor. Sei do medo e da fome. Como qualquer um que é arrancado dos pais, vocês…

Ver o post original 720 mais palavras

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A fé nasce das zebras (Blog Estadão)

24 terça-feira jun 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Ela veio enviesada, rodopiante. Parou no travessão. Tudo parou. As ruas incertas: entupidas ou desertas. A grama não rola. Some o impacto seco do pé contra a bola. Alegria é rede estufada?  O eixo da bola, imóvel. Bicicleta sem aro. Trivela sem ângulo. Peito do pé descalibrado. Engessamos beleza com cascas. Resíduo de estrelas bordadas. Maior do mundo. Melhor do mundo. Mais caro do globo. Narcisismo de estádio. Propaganda de técnicos. Garganta dos narradores. Ex-jogadores, ex-goleiros, ex-gandulas, ex- zagueiros, ex-espectadores. Locução entravada, convocatória, admoestadora. Está comprovado. Somos uma sociedade retrospectiva. Retroativa. A fatura virá na ressaca. São bilhões para milhares. O brilho dos artistas está ilhado. Cercado por cartolas de todos os lados. Sem mágica, os coelhos emigraram. Imolamos a arte com luxo. A esfera, engolida por esquemas táticos. A bola, oprimida. Tragada por quadrados. Destravar a liberdade é parar com tanta frescura. Mandar de bico aos céus. Time era conjunto, equipe, tabela. Não há, nunca houve, time de um só. Casa bem com nossa cena política. Culto à personalidade, messianismo de ocasião, soberba do chefe.  Será o esporte redentor? Distração costuma ser manobra diversionista. As novidades destes jogos estão sendo externas. Laranjas de Amsterdã, riquezas das encostas, caminhos de Santiago, carrossel mexicano e a América que redescobre os pés. Antes que esqueçamos: pagantes não tem culpa. Vaia não é jogral. Arena não é palanque. Melancolia não é pessimismo. Nasce dos desejos arredios. De que desse certo. Da poesia movediça das promessas. Do horizonte indecifrável. Do logo mais. Do que vem depois. Da discrepância entre o que é e o que poderia ter sido. Da deselegância normativa. Da violência naturalizada. Do desprezo institucionalizado. Da abolição da criatividade. Da postergação das regras. Toda euforia é uma prévia do desgosto. Não, não creio. Quando levantarem o circo veremos o tamanho do descampado. Longa quarta de cinzas. Nenhuma redenção virá do futebol. Nem a esperança das urnas. Talvez, de onde menos se espera. Afinal, a fé nasce das zebras.

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http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/redencao-pelo-futebol/

 

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