Tags
ação penal final, anomia, desempate, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, mensalão, significado de justiça, STF, utopia
Desate, o empate
Reis tombados, xeque-mate
Torne crível, como todo jogo inesquecível!
17 terça-feira set 2013
Posted in Artigos
Tags
ação penal final, anomia, desempate, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, mensalão, significado de justiça, STF, utopia
Desate, o empate
Reis tombados, xeque-mate
Torne crível, como todo jogo inesquecível!
22 quinta-feira ago 2013
Posted in Artigos
Tags
centralismo partidário, embargos, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, justiça, manipulação, significado de justiça, STF, utopia
Justiça seja feita. Nos últimos 20 anos conseguiu-se expressivo aumento do IDH da maioria dos municípios brasileiros. Malgrado o país tenha melhorado em muitos aspectos, especialmente na desigualdade social — ainda uma das 10 piores do mundo — não se conseguiu (coletivo, todos nós) inculcar na elite, nos dirigentes e na própria população uma das qualidades essenciais da democracia. Aqui há, sim, um principismo: que assumamos as responsabilidades.
Sem esta qualidade viveremos em solavancos e de sustos. Revolucionar valores tem a ver mais com o mundo que valoriza qualidades do que com o que os grupos escrevem em suas plaquetas. Curioso é que parecem todos as favor. Se não há ninguém contrário às mudanças, o que estamos esperando?
Mas, e se as regras que permitiriam o resgate da cidadania estiverem cercadas pelas catracas do atraso e de um anacrônico sistema cartorial? E se a burocracia continuar a engessar a liberdade? Sair por aí contestando sem foco, sem direção e especialmente sem princípios não é saída, é escapatória autoilusória.
Crescer não significa abandonar ambições e expectativas, nem a derrocada da utopia que nunca chegou. O amadurecimento tem a ver antes com enfrentar as consequências dos próprios atos. Não que seja fácil ingressar no mundo adulto, mas é o que podemos exigir dos que postulam e ocupam cargos públicos.
Sejamos sensatos, peçamos o inconcebível, quem sabe conquistamos o plausível?
A maturidade ensina que a demolição prematura de instituições que apenas começavam a funcionar depois da redemocratização do país é o resultado de grave erro de avaliação. Na era do tempo real, sem verdadeiros pactos pelo consenso a governabilidade inexiste ou tem prazo de validade vencido precocemente. Não basta ter a soma dos votos e a maioria. Quando com um clique se convoca uma marcha pelas redes sociais, ninguém pensa no alcance prático disso. O protesto, que era manifesto, que era resistência, que era indignação coletiva, vem adquirindo uma autonomia escusa. E, como se sabe, a violência costuma ser o braço armado do autoritarismo.
Não porque existem vândalos. Os anarquistas que depredam as vias públicas pensam ser revolucionários vem a calhar. Servem bem para construir repúdio por mudanças e mostrar quão pior pode ser. São, portanto, a antítese da revolução. Incorporaram-se à reação porque a sua preocupação está em mostrar força e negar qualquer tipo de poder. Ao mesmo tempo, investem-se de um poder maior, e fazem das multidões um aríete contra qualquer um. Dominados pelo narcisismo primitivo que distorce as imagens e os espelhos, não se enxergam assim. Mas não passam de reacionários perturbados. E eles não estão sós. Por trás dos mascarados que roubam e depredam está uma inimputabilidade inconsequente que o poder, com a anuência da sociedade, vem se outorgando. Pois, não se trata de uma outra via autoritária quando se criam foros privilegiados, justiça inacessível e/ou subordinada? Quando ficam evidentes os critérios seletivos para o que se costuma chamar “igualdade de oportunidades”?
Para cada autêntico beócio predador que se infiltra nos protestos há um correspondente que se esconde na vidraça blindada das autoridades, dos palanques, no palavreado autocongratulatório e nos discursos de posse. Trata-se da dupla face, ambas igualmente injustificáveis e daninhas. Só que enquanto uma é televisionada, a outra permanece privativa em circuito fechado.
E como a filósofa ensinou: quando se perde a autoridade, alguém há de clamar pelo autoritarismo.
08 quinta-feira ago 2013
Posted in Artigos
Tags
Eichmann, Hannah Arendt, justiça, nazismo, O Mal e os dez réis de mel coado, significado de justiça, Von Trotta
Se quisermos seguir uma linha de raciocínio persecutória, o filme “Hanna Arendt” de Margarethe Von Trotta confere fôlego extra e talvez aporte simpático involuntário para alimentar as teses revisionistas que despontam neste fim da pós-modernidade. Revisionismo que vai para bem além da contestação da numerologia dos mortos.
Von Trotta resolveu emprestar toda voz a um só lado da história, e ainda lhe ofereceu as palavras finais. Quase ao término a diretora deu enorme destaque ao discurso que a filósofa faz na universidade onde lecionava. Era o libelo de autodefesa contra os ataques que sofreu pelos EUA após a publicação dos artigos. Na cena ela é aplaudida efusivamente pela plateia de acadêmicos entorpecidos pelo seu brilhantismo intelectual. Proficiência insuficiente para sustentar as insinuações de que as vítimas desenvolveram cumplicidade com os carrascos.
Ora, sabe-se por depoimentos de sobreviventes como operavam as brigadas alemãs. Comandos da SS jugulavam de cara qualquer reação e promoviam o esvaziamento prévio de toda e qualquer autoridade. O totalitarismo nunca vem de supetão, ele se implementa em fogo lento e faz meticulosos testes empíricos para avaliar até onde a sociedade emudece. A dose do remédio foi gradualmente aplicado na própria Alemanha, primeiro com a promulgação das leis raciais de Nuremberg, depois com a declaração de ilegalidade, extinção e subsequentes assassinatos de todos os líderes políticos que não se curvassem à hegemonia do partido nazista.
Essa rotina foi quase redundante nos depoimentos daqueles que sobreviveram, conforme nos relata em detalhes o historiador Jacob Robinson. Além disso, o filme não faz uma única menção às centenas de episódios de resistência judaica — que resultou em levantes como a do Gueto de Varsóvia. Isso significa que uma das estratégias da arquitetura de domínio do nacional socialismo alemão era impor precisamente a acefalia.
Heidegger, considerado o maior filósofo do século 20, confessou ter enterrado seus escritos nazistas na Floresta Negra
Na cena em que a filósofa faz uma aula magna com a exposição de suas teorias, a diretora bem que tentou minimizar a defesa partisã enxertando contestações dos supostos detratores, ex-amigos de Arendt, que estavam presentes na plateia para testemunhar suas considerações. Um destes amigos, o intelectualmente mais consistente deles, era o sujeito que já havia sido previamente desqualificado lá pelo meio do filme. O marido de Arendt confidencia a ela que as críticas deste amigo eram “movidas pelo ciúme” e por ser a “pupila preferida” do famoso professor. Referia-se ao caso amoroso que sua cônjuge teve com Martin Heidegger, além de sua aluna predileta em Freiburg. Heidegger ocupou a reitoria da universidade e se filiou ao partido de Hitler. Numa retratação discreta, aquele que é por muitos considerado o maior filósofo do século 20 confessou ter enterrado seus escritos nazistas na Floresta Negra.
Seria Eichmann apenas um funcionário cioso com seus deveres hierárquicos, o parafuso inerme na azeitada engrenagem nazi? O que permanece indiscernível é o papel que coube a cada cidadão quando o país inteiro aclamava o mal. Neste caso, terá mesmo o mal um caráter tão desprezível?
Isso importa muito para a atualização das nossas experiências. Como pudemos nos render tão facilmente às autoridades, sejam elas membros do partido, intelectuais venerados pela inteligentzia, ou líderes com inaudito traquejo com as massas?
Só um estado coletivo de entorpecimento poderia explicar como opera um processo que se desenvolve às custas da abolição do pensar. Aprender a pensar criticamente é o oficio humano mais doloroso, solitário e estraga-prazeres que existe.
Mas, vez por outra, é a decência e não a inteligência que nos pede para resistir.
04 domingo ago 2013
Posted in Artigos
O novo mês entra e a sede por utopia parece intacta. Não se trata só das manifestações – que começam a parecer redundantes — nem da notável sensação de desgoverno. Parece que somos pastoreados por gente que perdeu o discernimento no patético clima de despreparo dos legisladores.
A desigualdade social diminuiu e pode até ser que a insatisfação das ruas seja realmente um fruto indireto de expectativas inflacionadas. Mas a ascensão de toda essa gente à classe média jamais seria uma espécie simbólica de “índice de sucesso” como quiseram insinuar os propagandistas do poder. Oportunistas com suas bravatas são os que menos precisamos nessa hora.
Reparem que desde os blocos de junho não surgiu um só político com visão de Estadista, nenhum discurso que trouxesse uma percepção original, nada de uma análise ampla para o esclarecimento da delicadeza do momento atual e a grande oportunidade para fazer avançar a democracia.
A psicologia já fez notar que é próprio do mundo idílico não assumir responsabilidades. É sob este clima que Governo e oposição ficam no faz de conta. Agora travam guerra aberta de dossiês na mídia, com óbvia vantagens para quem controla as informações e as escoa conforme sua conveniência. Alguém do alto do marketing político está dando as cartas. E está tentando infundir a ideia de que é tudo igual. Há contudo uma diferença: há figuras fortes da oposição com autocrítica suficiente para pedir investigações na própria carne, já, do outro lado, sabemos onde foi parar a tal refundação do partido depois do mensalão.
Ler mais em
http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/jogos-paradoxais/
27 quinta-feira jun 2013
Posted in Artigos
Tags
democracia, hegemonia e monopólio do poder, jogo vital, justiça, manipulação, mensalão, movimento ônibus, pacto politico, pobre nova classe media, significado de justiça, voto distrital
Pacto: do latim pactum, origem; pascisci, particípio passado de pactus, concordar
Um pacto não é uma ordem. Um pacto não nasce de um desejo voluntarioso. Um pacto não pode ser firmado com condições, pressões ou sob armistícios frouxos. Um pacto também nunca é ditado ou decretado. Um pacto não é legitimo, a menos que esteja na plataforma dos consensos. Pactos não são conchavos. Um pacto é o oposto de um acordo entre lobistas, a antítese de uma união em detrimento do bem público. O pacto rejeita o oportunismo Um pacto não é poesia (ainda que a partir dele algum verso possa acontecer).
Pactos são destinos compartilhados. Políticas de legitimação. O pacto favorece a atitude republicana e coloca na defensiva quem rejeita o entendimento. O pacto é um tratado que tira a prerrogativa do partidarismo. Pactos promovem acordos intersubjetivos. Ressonâncias acordadas. Pacto são diálogos que fluem na tentativa de compreender a interlocução. Pactos têm poder autêntico: combatem miséria, fome e opressão. Pacto é um arranjo, não é uma negociata. Pacto é consentimento, não acomodação. Pacto exige a presença de muitos. Pacto é um conluio entre vozes, conciliação. Pacto é cachimbo de paz.
Quando ouvimos que era chegada a hora do pronunciamento, havia uma expectativa e uma tensão que poucas vezes se viu no país. Havia alguém no comando? Quem estava governando? Hiatos assim jogam contra a República. Todos aguardaram, queriam sentir e, se possível, experimentar qual era a mensagem. A maioria bufou um “ahh!!”. O gol perdido, uma chance desperdiçada, ou uma grande esperança que nunca se concretiza. Sim, o povo é crédulo. Sim, as pessoas têm as melhores intenções de envolver-se nos pactos, mas não acatá-los sem compreendê-los. Sim, todos reconhecem que, gostemos ou não, há um jogo que foi jogado, e as regras devem valer até que se criem novas regras, ou o fim do tempo regulamentar.
Pobre nova classe média, sem poder carimbá-la e com medo de perdê-la eleitoralmente, políticos e intelectuais se inquietam no afã de tachá-la com precisão. É difícil etiquetar o novo. E talvez eles estejam certos em silenciar mais uma vez. E se a nova classe busca, através da intuição, um caminho que ninguém percorreu? E se não for direita nem esquerda, para desespero dos maniqueístas da taxionomia?
Há um jogo sendo jogado, e as pessoas não querem mais participar como expectadoras, figurantes ou como equipe dos bastidores. Acabou-se o tempo em que se contemplava o rio sem querer provar da correnteza. A batalha é clara: que sejamos aceitos como protagonistas. Os principais, se não falha a memória. A quem mais o Estado deve obedecer?
Mas é claro que se compreende por que tanto empenho. Não se trata de simples campeonato ou Copa do Mundo; trata-se do jogo vital. O presente e o futuro de todos depende do desenrolar deste jogo vital. E ninguém mais aguenta ver árbitros oniscientes nem jogadores passivos. Só podemos ser otimistas — e acreditar no grande teste para avaliar o estado de nossa democracia — se mantivermos o clima de paz. Quem não quer viver sem violência? Sem a miséria degradante das crianças? Sem a estupidez em vigor? Quem não declararia amor a uma cidade sem guerras civis abafadas pelas distorções da estatística? Quem não deseja que o vizinho não sofra as mazelas que sofremos? Quem não se sentiria melhor com florestas, índios e habitats protegidos e seguros? Quem não se inclinaria diante de um político ou estadista que abandonasse os privilégios e, como qualquer um de nós, cumprisse os deveres do cargo?
A chacoalhada foi geral. Não abalou só a classe política. O tremor intencional fez acordar a esperança de que não precisamos ser anônimos, sujeitos ocultos, ou zumbis que aceitam qualquer coisa.
Houve uma mudança de degrau. A mudança que se impõe não é por mais, agora é por melhor, mais digno, mais justo.
E os efeitos colaterais? Não há substância, em matéria médica ou sociológica, que não os apresente. Pois a transformação é também contra a tirania velada do tal “formador de opinião”. O autoritário, cantor, astro ou famoso que indica seu sucessor pode estar entrando em decadência.
A autoeducação amplia muito a visão. Enfim, se enxerga com muito mais clareza a inconsistência quando somos mal dirigidos ou governados, e como é possível inverter os ritmos que antes pareciam ser nosso único destino.
Veja a matéria no Jornal do Brasil
13 quinta-feira jun 2013
Posted in Artigos
Tags
Albert Camus, Camões, consensos, democracia, ditadura militar, hegemonia e monopólio do poder, Lusíadas, Max Weber, nocões silenciosas, o que você quer, os lusíadas, passe livre, política do eco, senso comum, significado de justiça, violencia, zero de civilidade
“Destarte se esclarece o entendimento, Que experiências fazem, repousando, E fica vendo, como de alto assento, O baixo trato humano embaraçado.
Este, onde tiver força o regimento, Direito, e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando, Contra vontade sua, e não rogando” (Camões, Os Lusíadas, Canto VI)
Os slogans de luta estão de volta. A geração pós-ditadura militar, pós-Collor e pós-Lula agora se escandaliza com a volta da inflação e os preços praticados no Brasil. De repente, consensos feitos à nossa revelia ganham as ruas como grito coletivo. Você pode até se ver no meio de uma marcha, sem saber se aquilo de fato representa o que você quer. A passagem está cara? Alguém há de pagar. Atraso na estação de metrô? Vamos botar para quebrar. A maconha está proibida? O trânsito vai parar. Meu time perdeu? Toca a incendiar carros. O que isso quer dizer? Que vivemos a sociedade de tolerância zero. Zero de frustração. Zero de civilidade. Quem grita mais alto leva. Pois não é que os militantes do precinho, regidos pelo imediatismo, também se apoiam no senso comum?
Vivemos a sociedade de tolerância zero, zero de frustração, zero de civilidade
Destarte, o notável agora, fora a promoção da violência, tem sido testemunhar a pobreza de espírito das últimas reinvindicações. Melancólico constatar que não lutam por mais liberdade, contra a censura, nem por ética na política. O problema não são gerações de administradores com descaso pelo transporte público ou com a calamidade das cidades. Agora a boa briga é berrar contra aumento das tarifas e miudezas de ocasião. Tantos exemplos municipais, estaduais e federais em que tivemos o “pragmatismo acima de tudo”, que eles, enfim, aprenderam. Querem mais é desconto.
Esta consciência instantânea — linchamentos, justiça relâmpago e turbas inflamadas fazem parte do pacote — é a outra faceta do senso comum que escraviza a maioria. Ela também é a responsável pelas catarses sociais sem causa, pelo cabresto eleitoral e pelo culto às celebridades. É preciso coragem para ir contra o senso comum e confirmar que precisamos de uma refundação. Das noções de ética, valores e princípios.
Mais um motivo para que você deteste o senso comum. As propostas oriundas dele pressupõem uma redução intelectual drástica, e ainda ameaçam virar soluções imediatas para os grandes problemas sociais como violência, corrupção e desmandos. E tanto faz a ideologia. Faz parte do acervo: “Por que eu não faria se todo mundo faz?”, “Bolsa Família resolveu os problemas de renda no Brasil”, “reduzir maioridade penal e dar mais poder de fogo à polícia”, “políticos não prestam”, “direitos humanos servem para proteger criminosos”, “ficaram ricos porque roubaram”, “a ditadura é que era boa”, “está desempregado porque é vagabundo”, “se ele indicou para votar, deve ser bom”, “os responsáveis pelos nossos problemas são os outros”.
Essas e tantas outras preciosidades que se ouvem pelas ruas são exemplos de como noções silenciosas se formam, crescem e migram, sem que se possa refletir sobre elas. Os populistas e a casta de dirigentes que nos assistem fazem amplo uso, não só subliminar, dessas vozes sociais. E ninguém negará seu êxito: reproduzem direitinho o que se quer ouvir para contabilizar votos. É a política do eco.
Noções silenciosas se formam, crescem e migram, sem que se possa refletir sobre elas
Um político reformador, original, crítico e criativo não teria a menor chance frente à massa de chavões e lugares comuns que são campanhas eleitorais. Decerto, um candidato que não ficasse na reprodução dos refrões e obviedades seria tomado como elitista, eleitoralmente inviável ou louco.
Albert Camus queria assassinar toda esperança. Max Weber pedia desprezo pelo senso comum. Mas realismo sem esperança é autoflagelo, e não se pode simplesmente ignorar a multidão. Mesmo assim, diminuir as expectativas e educar-se para não ser pressionado pelas opiniões coletivas é uma alternativa política para que cada um aspire a ser sujeito da própria história.
23 quinta-feira maio 2013
Posted in Artigos
Tags
anomia, apagão logístico, atençao primária à saúde, centralismo partidário, CFM, conselho federal, cubanos, cuidadores, democracia, hegemonia e monopólio do poder, médicos cubanos, pathos, significado de justiça, violencia, voto distrital
Doutores escravos e similar nacional
Em meio ao imbróglio dos médicos cubanos as coisas realmente importantes passam despercebidas. Fica muito clara a tática do governo ao convocar os médicos de lá. Querem ocluir o debate sobre a falta de oportunidades, política salarial e de um plano de carreira para os médicos e cuidadores brasileiros.
A cortina de fumaça que se esboça com a importação de médicos cubanos também funciona bem para postergar o debate dobre a grave situação de saúde pública no País. E quanto aos médicos cubanos propriamente ditos? O Conselho Federal de Medicina já se manifestou corajosa e muito apropriadamente. Restam alguns adendos. O projeto não é só inapropriado, oculta uma agenda anacrônica. Serão aproveitados como propaganda grátis para os irmãos Castro. Soa paranóico? Viajei? Nem tanto. Busquem vídeos de estudantes brasileiros que cursam medicina em Cuba. Em seus depoimentos mostram quem na verdade subsidia seus cursos. Ou perguntado de outra forma: o que o MST tem a ver com a formação de estudantes brasileiros que estudam medicina em Cuba? Perguntem à embaixada do Brasil em Havana. Continuar lendo
16 quinta-feira maio 2013
Posted in Artigos
Tags
açao penal 470, autocracia, centralismo partidário, centros de pesquisas e pesquisadores independentes, democracia, educação política, governo federal, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, manipulação, medidas provisórias, mensalão, odeio a classe média, política como risco à saúde, propaganda eleitoral, significado de justiça, silência dos intelectuais
Jornal do Brasil
Quinta-feira, 16 de Maio de 2013
Coisas da Política
Hoje às 06h46
Irretocável política
O escalpo político eleitoral a céu aberto durante as votações das Medidas Provisórias, onde emendas multimilionárias são negociadas pelo governo federal, usando dinheiro dos contribuintes para pagar votos dos representantes do parlamento, poderia ter muitos nomes. Voto em cambolhada de grelos.
Quem acompanha noticiários políticos – que tragam tarjas de advertência “ risco à saúde” – já deve ter abandonado de vez a ilusão da lógica, da coerência e de um processo civilizatório. Ainda que o barco esteja sendo mantido na superfície e a economia dê sinais de tímida estabilidade, o maior problema do País é, de longe, a política.
A cerimonia de beija-mão do vice governador de SP contra o anel presidencial só desnuda toda fragilidade. Avolumam-se as tentativas e arranjos partidários para, numa frente inédita, desestabilizar o STF. Há gente graúda e muito capital disponível para apostar que, se tudo der certo, um novo julgamento será provocado e, desta vez, o placar os favorecerá. É como jogar partidas tantas vezes quanto for preciso até que o resultado favoreça o time perdedor.
Esgotados todos os recursos, já não se trata de ser contra ou a favor do que o Supremo decidiu, o que está sendo jogado agora está em outro campo, muito mais perigoso que o veredito da Corte. O que entra na balança é a lisura e autonomia de poder das instituições. Lula acaba de verbalizar que não existe político irretocável. Ninguém nem de longe sonharia com tal aberração. O que interessa é o que seu discurso ocultou. Travestido na língua fácil, a verdadeira afirmação, o mote de seu partido e da frente que os apoia: Políticos são esses aqui mesmo! Aceitem, ou, danem-se e engulam. E para dar o toque final alguém lá da mesa fez um voto de “ódio à classe média”. Curioso.
A estratégia do marketing do PT – apoiado em extensas pesquisas qualitativas – fez fundir a imagem do ex-presidente com a presidenta em quadros de meia tela que ora se sobrepunham e deslizavam de lado, sempre se alternando em nobres promessas. No show: “Você que já tem sua casinha, seu carrinho, seu computador agora terá muito mais…” A farsa teve um extra inédito. A inclusão de um surpreendente texto de propaganda. Agora entre outras benesses ofertadas para quem continuar votando no Partido estava “doutorado no exterior”? Com o triunfalismo barato do uso do diminutivo e fazendo usufruto da estabilidade conquistada também às custas dos governos anteriores, o ex-presidente, como de hábito, joga todos os méritos da fartura em si mesmo e em sua claque. E aproveita para caluniar a mídia como a grande criadora de fantasias. A imprensa livre cria conceitos impossíveis e monstruosos, como políticos ideais, amantes da ética, respeito à coisa pública.
Inverter a conspiração é rigorosamente a repetição de uma estratégia eleitoralmente vitoriosa. Eles se fazem passar por vítimas, não são os perseguidores ou os agentes do mal feito. Inegável, eles são mesmo imbatíveis.
O trágico não se restringe ao momento, mas ao que isso significa em termos de educação política. Não é só repisar as mentiras até que passem como verdades, o que buscam é o aperfeiçoamento progressivo dos vícios. Essa sedução anestesia e funciona bem para o que se presta. De tanto apanhar vamos ficando insensíveis e desinteressados. Daí à generalização é um passo. A imagem de que todos os políticos bebem da mesma taça, vai ganhando materialidade. Gerações vindouras ou os tomarão como exemplo (afinal é só isso que conhecem do mundo político) ou refluirão às suas vidas privadas já que “não tem conserto mesmo”.
Um desserviço à República. E o plano era esse. Explicitar que o sistema foi criado para sustentar o vício.
Sob o profundo desprezo que têm pela opinião pública, os governantes do País abusam da ideologia negacionista. Não há descontrole das finanças, não há epidemia de violência, não há conflito de interesses e tudo bem que o público e o privado estejam de mãos dadas. A novidade está na tranquilidade. Impunidade baseada em evidencias, por suposto. Enquanto amigos da corte nunca estiverem tão protegidos e subsidiados, todos nós nos tornaremos alvos fáceis do arbítrio. Não é delírio. Aconteceu na Venezuela, na Argentina, na Bolívia, no Equador. Operações cala boca e dossiês podem estar sendo preparadas para fazer cortina de fumaça aos capiangos. Nosso crime? Testemunhar a distorção, calculada e seletiva, no uso das leis e das regras constitucionais.
O expressivo silêncio dos intelectuais, a esta altura uma afasia, continua inexplicável.
Estamos por conta. Minha aposta é que não passarão.
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/05/16/irretocavel-politica/
02 quinta-feira maio 2013
Posted in Artigos
Tags
antijudaismo, antisemitismo, Irã, Israel, judaísmo, justiça, revisionistas do holocausto, significado de justiça, utopia
Me chamo…meu nome não é relevante. O que importa é explicar porque tive que voltar. Esta é a terceira ou quarta vez. Geralmente venho com uma missão pontual, desta vez, múltipla. Nos últimos tempos lembro de ter visto artigos e comentários sobre nós, judeus que comandaram a luta contra os nazistas no episódio conhecido como “levante do Ghetto de Varsóvia”. Depois de tanto tempo, não sei bem se estou vivo ou não, a última coisa que lembro foi ter sido espetado no ombro esquerdo por uma baioneta e, se realmente estava morto, posso afirmar que dói. Muito.
Aqui também há burocracia mas tudo vai na velocidade da luz. Essa última viagem foi decidida quando percebemos que as palavras vêm sendo distorcidas. Seria bom informar a estas pessoas que mudam o sentido das palavras que a corrupção começa e termina pela linguagem.
Acompanho religiosamente os jornais e as críticas sobem até nós. Israel têm sido demonizado de todos os lados, sob a complacência de boa parte da mídia do mundo. Revivi as cenas de 1939. Na época sabíamos exatamente de onde provinham os patrocínios. Quem será que financia a campanha desta vez? Dizem que a culpa é dos próprios judeus (já ouvi ontem e anteontem) mas, pelo que li, ninguém aponta para a complexidade real do problema.
Dizem que a culpa é da direita. Mas nada mudou nas acusações e hoje o poder político pertence ao centro. Aqui em cima analisamos tudo e contamos com a máxima diversidade. Uma crença compartilhada, que virou unanimidade: todos aqui acreditam nos homens.
Outra coisa que chama a atenção é que andam dizendo que os judeus não precisam de uma nação: “eles se dispersaram pelo mundo”. É verdade e o exílio involuntário trouxe coisas positivas para nós e os povos com os quais convivemos. O pessoal da administração sempre fala disso com alegria. Isso não significa que um povo não tenha direito a uma terra.
Corrijam se eu estiver errado, mas a partilha feita em 1947 constituiu dois estados, um para nós, outro para os primos árabes. Qual é o problema então? Me sopram que assim que a divisão foi estabelecida os radicais nos atacaram. E isso se repetiu várias e várias vezes. Estou virando e revirando os jornais e parece que há mais de 60 anos as tentativas para encontrar a estrada da paz falharam. Não pode ser verdade. Quem sabota? Quando as duas partes mais interessadas só teriam a ganhar com paz e estabilidade, sim, alguém está sabotando!
A solução seria “paz em troca de terras”. Então fomos ao arquivo morto e revisamos tudo. Parece que um dos lados exige – está em sua constituição — que o Estado de Israel deixe de existir para começar a negociar. Até para nós, daqui do outro lado, há limites para o ceticismo. Trata-se de uma piada, não?
Depois, mais recentemente, o ditador da Pérsia afirma que o holocausto é uma invenção e duas a três vezes por semana solta frases como vamos “varrer Israel do mapa”. Agora quer a bomba atômica. Isso mexeu até com a cúpula aqui por cima. O pessoal ficou realmente aflito e a correria aumentou nos últimos tempos.
Quando decidimos pegar em armas em Varsóvia era para não morrer como mosquitos esmagados. Era uma situação limite. Uns poucos contra a massa que exigia nossa eliminação. Na escala de guerras justas (aqui é proibido usar esse termo) estaria entre as 10 primeiras. Sabíamos do extermínio em massa, deliberado, sistemático e impiedoso. Sim, aquilo era mesmo um genocídio. Mas qualificar o que está acontecendo entre israelenses e palestinos, usando a mesma palavra é uma imoralidade. Claro que daqui de cima nosso apoio aos patrícios não é incondicional. Não gosto de ver um povo como o meu, historicamente oprimido, fazer papel de opressor. Mas avisem para parar com esta bobagem de esquerda e direita. Eu, que já cantei a Internacional com a mão no peito posso garantir. É verdade que nós ainda temos o idealismo espiritual de esquerda, aquele que quer justiça social e fraternidade sem esquecer de Deus nem da paz. É que com ele tão por perto isso não é uma escolha, simplesmente acontece. Com o perdão da insinuação — pode pegar mal — vocês também vão experimentar. Posso confrontar as decisões e fazer objeções ao que está acontecendo por lá, mas há iletrados que estão usando equivalências entre nós e os nazistas. Merecem um belo puxão de orelha. Há limites até para os mortos. Falam que estamos “murando por dentro” o País. Minhas fontes dizem que foi uma medida provisória para se proteger dos ataques de gente que queria explodir qualquer um. Agora chamam isso de terror? Eu sei que fizemos das nossas contra os ingleses e quem usou isso como arma está errado, não importa quando nem onde. Aqui em cima a regra é clara e expressa pelo próprio Criador. Por ordens dele aqui não há propaganda, e ninguém doutrina ninguém. A única exceção são placas visíveis em todo lugar e em todos os idiomas: viva e deixe viver.
Eu já desci outras vezes. Uma delas foi para ver os alemães virem até a Rua de Mila e desmaiar quando se deram conta do que fizeram com nosso bairro em Varsóvia. Voltei para ver as máquinas e buldozeres dos poloneses demolirem nossas casas. As ruínas viraram pó. Uma das poucas vezes na vida que gritei em desespero, mas ninguém ouvia. Eles demoliram tudo. Ali morri mais uma vez. Precisávamos daquelas ruinas. A preocupação constante por aqui é com o futuro — não porque temos vontade de sofrer com as recordações, mas sim ficar mais alertas para o que está ao alcance de vocês evitar. Uma última mensagem que o povo daqui pede: que eu esclareça a palavra genocídio. É uma palavra que não existia em nossa época. Foi criada a partir de tudo que se viu durante a tentativa de nos exterminar embora outros povos também experimentaram. Um compatriota juntou a palavra genós (do grego tribo ou raça) e caedere (do latim, matar, assassinato).
Sinto, mas a administração solicita minha presença e aqui brincamos muito, menos com o tempo. É que Ele já se cansou de assistir o papelão que fazemos. Como a paciência dele é infinita torço para resolvermos já as brigas. Aqui estão todos de acordo com a exortação de ser um só povo. O consenso é de que isso só será possível quando reconhecermos o valor da pluralidade e a identidade de cada uma das tribos.
Sinceramente, M.I. I.
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Publicou “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed Record)
o link para a publicação no JB
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/05/02/para-alem-do-ghetto/
25 quinta-feira abr 2013
Posted in Artigos
Tags
antiamericanismo, democracia, diálogos interditados, formadores de opinião, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, interdição da razão, Irã, jihadismo internacional, mensalão, redução da maioridade penal, significado de justiça, violencia
Diálogos Interditados
RSS
Twitter
Facebook
Jornal do BrasilQuinta-feira, 25 de Abril de 2013
Hoje às 06h09 – Atualizada hoje às 09h57
Diálogos interditados
Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum *
Como previsto por este colunista, vários “formadores de opinião” com sua tradicional pós-graduação em cegueira ideológica tentaram estabelecer “se” e “mas” para condenar com timidez os ataques terroristas em Boston. A vergonhosa relativização arrasta o desfile de falácias. A evocação dos desastres em guerras num passe de mágica se transformam em argumentos justificacionistas. É típico da desonestidade intelectual embolar tudo para simular equiparações onde elas não existem. Como se não bastasse, tentam estabelecer equivalência moral entre a piração religiosa jihadista (cujo prolifico DNA encontra-se no Irã, no Líbano, na Síria, na maioria dos países africanos e agora no varejo, com franquias Al Qaeda) com os conflitos tradicionais.
Como pacifista, não é difícil classificar de repugnantes tanto umas como outras. Mas granadas lançadas a esmo e bombas em eventos públicos têm um peso distinto de conflitos entre nações. Guerras santas e líderes fanáticos não costumam ceder à razão. Pelo contrário, ela é o único alvo.
“Guerras santas e líderes fanáticos não costumam ceder à razão ”No fanatismo não há interferência diplomática. Não há dissuasão. Não cabe diálogo. O terrorismo é uma batalha perdida para a escuridão das pulsões destrutivas, geralmente acobertadas pela ilusão do conserto do mundo. Os terroristas são antes de tudo uns convictos. Têm razão a priori. Por isso recusam o debate.
A guerra pode ser terrível, abjeta, escandalosa, mas ainda pode ser detida, contornada e minimizada. Sempre existem fronteiras a serem negociadas, reparações, compensações e jeitos para obter paz. A tolerância, a compaixão e a simpatia que os fascistas de esquerda e direita mostram pelo terror decorre de uma identidade patológica primitiva, onde o ideário prevalente é o batido “os fins justificam os meios”. Pois estamos bem no meio de uma pandemia fanática, onde quem está interditada é a razão.
O mesmo tipo de absurdo se vê na interdição do debate sobre a redução da maioridade penal no Brasil. Está academicamente comprovado que isso traria baixo impacto na redução da criminalidade — continuo achando pouco crível que absolutamente nada esteja sendo feito para conter a violência no pais e enxergo a omissa mão do Estado nesta inércia — entretanto, a forma como os menores estão sendo manobrados e manipulados por maiores para praticar crimes exige uma contrapartida jurídica. Onde estão os planos de reeducação e reinserção social? Quais perspectivas o Estado oferece para uma massa sem perspectivas? Sem experimentar novas políticas e leis, não podemos saber se a redução da maioridade penal teria ou não impacto na cadeia viciosa de crime-impunidade-inimputabilidade.
Mas, mais uma vez, o debate encontra-se obstaculizado sob a argumentação imaginária de que qualquer mudança criminalizaria apenas o jovem socialmente carente. Não é bem assim. Mas quem quer saber? Quem ousa falar contra uma cadeia de dogmas instrumentalizados por estudos muitas vezes descontextualizados e anacrônicos? Desconfio que o politicamente correto tenha sido uma invenção dos ditadores para blindar os dogmas. A redução pura e simples da idade penal conquanto não seja uma solução pode ser o início de uma discussão democrática de quais limites e sob quais contextos queremos estabelecer as leis: quem merece ser responsabilizado e em quais circunstâncias.
“Ninguém espera que a sociedade seja virtuosa. Longe disso, e Brasília parece concentrar os espertos do mundo”Por fim, merece análise mais minuciosa a frase do presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara, que só sai dali se os réus condenados do mensalão desocuparem seus postos parlamentares (pesadelo à parte sermos obrigados a voltar ao assunto). Por incrível que pareça (só neste quesito já que vindo dele a verdade é item perecível), talvez ele tenha alguma razão. Pois, se o preceito de que a justiça deveria ser igual para todos tivesse qualquer efeito, teríamos que na prática contemplar princípios minimamente isonômicos. Ninguém espera que a sociedade seja virtuosa. Longe disso, e Brasília parece concentrar os espertos do mundo. Ninguém está livre do engano, e a ética é um perigo quando usada como flecha. Mas deveria haver um mínimo. Por exemplo, garantias de que gente condenada (ou sob investigação) se afastasse de qualquer representação parlamentar. Mas as brechas jurídicas — risível frouxidão — usadas por escritórios potentes postergam a justiça real. O resultado todos sabem. Penas proscritas e, por fim, exaustão. E dá-lhe legitimação do vale-tudo.
O malefício que a interdição dos debates, da razão e da decência faz à democracia só é comparável à mordaça psíquica que nos impede de gritar. Urremos uníssonos, antes que sejamos condenados aos suspiros.
* médico e escritor, autor de ‘A verdade lança ao solo’ (Ed. Record)
Link do Jb
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/04/25/dialogos-interditados/