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Doutores escravos e similar nacional

Em meio ao imbróglio dos médicos cubanos as coisas realmente importantes passam despercebidas. Fica muito clara a tática do governo ao convocar os médicos de lá. Querem ocluir o debate sobre a falta de oportunidades, política salarial e de um plano de carreira para os médicos e cuidadores brasileiros.

A cortina de fumaça que se esboça com a importação de médicos cubanos também funciona bem para postergar o debate dobre a grave situação de saúde pública no País. E quanto aos médicos cubanos propriamente ditos? O Conselho Federal de Medicina já se manifestou corajosa e muito apropriadamente. Restam alguns adendos. O projeto não é só inapropriado, oculta uma agenda anacrônica.  Serão aproveitados como propaganda grátis para os irmãos Castro. Soa paranóico? Viajei? Nem tanto. Busquem vídeos de estudantes brasileiros que cursam medicina em Cuba. Em seus depoimentos mostram quem na verdade subsidia seus cursos. Ou perguntado de outra forma: o que o MST tem a ver com a formação de estudantes brasileiros que estudam medicina em Cuba? Perguntem à embaixada do Brasil em Havana.

Pois é esse aparelhamento visceral do Estado, incluindo a diplomacia, que mostra o tamanho e organização do projeto das últimas gestões. Ou votação democrática é carta branca para o poder? O slogan “acorda Brasil” veio meio tarde, o diagnóstico era narcolepsia.

Isso porque a razão política entre nós se encontra hoje na pauta da paixão (pathos – patologia). A lógica definha e prevalece a defesa de um ponto de vista que sempre excederá a racionalidade. Para isso não há cura. Na verdade, tribos políticas atuam como torcidas de futebol na qual ninguém converte ninguém, nem com os melhores e mais distintos argumentos. O diálogo político, aquele que já produziu estadistas e lideranças republicanas está morto.  Por isso é mais fácil e mais rápido culpar a América do Norte, os bancos, as indústrias e enfim a direita, ou a esquerda, tanto faz, pelas mazelas do mundo. Não que eles não sejam responsáveis, mas decerto não são os únicos, sequer os principais responsáveis pelas nossas deficiências.

O apagão logístico não é só dos portos, aeroportos, malha viária, energia e  segurança pública. A questão da saúde pública brasileira também passa pela falta dramática de infra estrutura. Quem sabe é quem está do lado de cá do balcão. Só eles sabem o desespero que é uma sala de cirurgia precária, um pronto atendimento sem fio de sutura ou a falta de medicamentos básicos num posto de saúde. Além disso, há um histórico desprezo à atenção primária e uma incapacidade de promover um debate que mostre isso claramente para a população. Com a ressalva de que isso não é culpa exclusiva deste governo. É uma questão de educação e cultura. Pois qual partido dará a cara para bater quando formular sua inovadora política de saúde:

“Menos hospitais e mais UBS (unidades básicas de saúde), menos especialistas e mais generalistas, menos tecnologia sofisticada e mais assistência e cuidado. Cidadão: a prevenção é a mais inteligente das terapias”.

Talvez nenhum. O que dá votos (e dinheiro) são grandes edifícios hospitalares, máquinas caras, remédio a rodo e acomodação em quarto individual.

De que outro modo explicar que só no Estado de São Paulo existam mais tomógrafos do que no Canadá inteiro? A crítica dirigida aos médicos que são contra a vinda dos importados tem sido injustas. Agora acusam as entidades médicas de atitude corporativa. Não que ela não exista. Mas, neste caso, simplesmente não procede já que a objeção dos representantes dos médicos arregimentou impecável argumentação. Temos recursos humanos, com potencial para ser treinada e atuar nos lugares mais distantes. Similar nacional, brasileiros, por que não? O que não existe são profissionais de saúde dispostos a se submeter ao trabalho escravo ou quase isso.

O poder arrisca sem parar, testa a opinião pública com medidas marotas e benesses caça-votos. Tantos deslizes, um atrás de outro, já não se sabe se isso faz parte da estratégia de ir apagando rastros dos erros pregressos, pura incapacidade ou má fé. Se o planalto quer economizar que o faça cortando a oferta de emendas parlamentares bilionárias em troca de votos para as Medidas Provisórias e não buscando doutores escravos para dourar a pílula e disfarçar os buracos deixados pela imperícia administrativa.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/05/23/doutores-escravos-e-similar-nacional/