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“Destarte se esclarece o entendimento, Que experiências fazem, repousando, E fica vendo, como de alto assento, O baixo trato humano embaraçado.

Este, onde tiver força o regimento, Direito, e não de afeitos ocupado,

Subirá (como deve) a ilustre mando, Contra vontade sua, e não rogando” (Camões, Os Lusíadas, Canto VI)

Os slogans de luta estão de volta. A geração pós-ditadura militar, pós-Collor e pós-Lula agora se escandaliza com a volta da inflação e os preços praticados no Brasil. De repente, consensos feitos à nossa revelia ganham as ruas como grito coletivo. Você pode até se ver no meio de uma marcha, sem saber se aquilo de fato representa o que você quer. A passagem está cara? Alguém há de pagar. Atraso na estação de metrô? Vamos botar para quebrar. A maconha está proibida? O trânsito vai parar. Meu time perdeu? Toca a incendiar carros. O que isso quer dizer? Que vivemos a sociedade de tolerância zero. Zero de frustração. Zero de civilidade. Quem grita mais alto leva. Pois não é que os militantes do precinho, regidos pelo imediatismo, também se apoiam no senso comum?

Vivemos a sociedade de tolerância zero, zero de frustração, zero de civilidade

Destarte, o notável agora, fora a promoção da violência, tem sido testemunhar a pobreza de espírito das últimas reinvindicações. Melancólico constatar que não lutam por mais liberdade, contra a censura, nem por ética na política. O problema não são gerações de administradores com descaso pelo transporte público ou com a calamidade das cidades. Agora a boa briga é berrar contra aumento das tarifas e miudezas de ocasião. Tantos exemplos municipais, estaduais e federais em que tivemos o “pragmatismo acima de tudo”, que eles, enfim, aprenderam. Querem mais é desconto.

Esta consciência instantânea — linchamentos, justiça relâmpago e turbas inflamadas fazem parte do pacote — é a outra faceta do senso comum que escraviza a maioria. Ela também é a responsável pelas catarses sociais sem causa, pelo cabresto eleitoral e pelo culto às celebridades. É preciso coragem para ir contra o senso comum e confirmar que precisamos de uma refundação. Das noções de ética, valores e princípios.

Mais um motivo para que você deteste o senso comum. As propostas oriundas dele pressupõem uma redução intelectual drástica, e ainda ameaçam virar soluções imediatas para os grandes problemas sociais como violência, corrupção e desmandos. E tanto faz a ideologia. Faz parte do acervo: “Por que eu não faria se todo mundo faz?”, “Bolsa Família resolveu os problemas de renda no Brasil”, “reduzir maioridade penal e dar mais poder de fogo à polícia”, “políticos não prestam”, “direitos humanos servem para proteger criminosos”, “ficaram ricos porque roubaram”, “a ditadura é que era boa”, “está desempregado porque é vagabundo”, “se ele indicou para votar, deve ser bom”, “os responsáveis pelos nossos problemas são os outros”.

Essas e tantas outras preciosidades que se ouvem pelas ruas são exemplos de como noções silenciosas se formam, crescem e migram, sem que se possa refletir sobre elas. Os populistas e a casta de dirigentes que nos assistem fazem amplo uso, não só subliminar, dessas vozes sociais. E ninguém negará seu êxito: reproduzem direitinho o que se quer ouvir para contabilizar votos. É a política do eco.

Noções silenciosas se formam, crescem e migram, sem que se possa refletir sobre elas

Um político reformador, original, crítico e criativo não teria a menor chance frente à massa de chavões e lugares comuns que são campanhas eleitorais. Decerto, um candidato que não ficasse na reprodução dos refrões e obviedades seria tomado como elitista,  eleitoralmente inviável ou louco.

Albert Camus queria assassinar toda esperança. Max Weber pedia desprezo pelo senso comum. Mas realismo sem esperança é autoflagelo, e não se pode simplesmente ignorar a multidão. Mesmo assim, diminuir as expectativas e educar-se para não ser pressionado pelas opiniões coletivas é uma alternativa política para que cada um aspire a ser sujeito da própria história.