Artigo “Equilíbrio Instável” transformado em questão do Vestibular

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LÍNGUA PORTUGUESA
Equilíbrio instável
Paulo Rosenbaum
Vigora a velha ideia distorcida sobre o que
é saúde. Às vezes, ela é encaixada em tópicos
estéticos e procedimentais. O que vale, hoje, é
ser musculoso ou consumir o que é oferecido
como a última palavra em tecnologia. O consumo
irracional de procedimentos tem se tornado um
problema de saúde em si. Muitas vezes, em
detrimento da saúde do próprio sujeito. Excesso
de cirurgias – como a bariátrica, por exemplo – e
o consumo exagerado de drogas, com ou sem
automedicação, colocam o sujeito exposto a
tantos males quanto os que eles supostamente
estariam tentando corrigir como advertiu
abertamente o National Institute of Health dos
EUA, há alguns anos, num extenso relatório.
O fato é que estamos muito distantes de
uma medicina apropriada ao sujeito. No
Congresso Internacional da Medicina da Pessoa,
realizado na Austrália nos anos 50, alguém
formulava sinteticamente uma pergunta central.
Mesmo subestimada, ainda permanece de
importância vital em nossos dias para
compreender a medicina: “Não há saúde sem
uma resposta satisfatória à pergunta: saúde para
quê?” Não que não se possa fazer objeção ao
incômodo que esta pergunta poderia suscitar
naqueles mais pragmáticos. Mas para além deste
ponto a pergunta é oportuna, pois nos remete ao
conceito de saúde subjetiva: a sensação de bemestar.
O desenvolvimento tecno-cientifico,
aplicado às ciências da saúde, conseguiu notável
eficácia e controle sobre uma quantidade
apreciável de doenças. Mas este mesmo controle,
infelizmente, não se estendeu a uma concepção
de saúde mais sutil. O máximo que se fez foi
contemporizar colocando a palavra humanismo
na frente dos postos de saúde, clínicas e
hospitais. O cuidado, a apreciação subjetiva dos
sintomas, a rede de apoio e solidariedade para
quem está perdendo a saúde e até a
cumplicidade frente ao desespero de quem
enfrenta sofrimento não estão dentro da estrutura
geral, que prioriza outros aspectos como critérios
de sucesso. Trata-se de um grande equívoco.
Como negar que as necessidades de
cuidado estão para bem além de drogas
eficientes e hospitais modernos? Como ignorar
que, numa sociedade enferma, a saúde tenda a
ser progressivamente mais instável? Estamos
isolados e, ao mesmo tempo, nossa
interdependência aumentou, pois como se sentir
bem com tanta violência, injustiça social e
competição? Como ser saudável numa sociedade
que se esqueceu do sentido mais íntimo da
cidadania e onde os políticos lato sensu – nossos
representantes! – são os ingredientes menos
confiáveis dentre todas as camadas sociais?
A resposta talvez esteja no espaço interno.
A saúde e sentido correm juntos e dependem da
direção que queremos imprimir às nossas vidas.
Uma vida que não faz mais sentido, passa,
automaticamente, a ser insalubre. O único que
pode atribuir sentidos é o próprio sujeito. Algo
que nos traga ao espaço público sem que nos
igualemos. Para alcançar a paz e a justiça social
podemos prescindir da luta de classes. Por isso é
urgente recuperar o valor da subjetividade e as
sutilezas do espírito.
Talvez uma boa metáfora para a saúde seja
a instalação interativa “equilíbrio instável” de uma
recente exposição de arte internacional que se
realizou no Brasil. Ali centenas de pequenas
peças de acrílico como mesquitas, igrejas,
sinagogas e outros templos e edificações eram
colocadas em cima de uma grossa mesa circular
de vidro, suspensa por um cabo de aço bem no
centro. O desafio era mover uma peça sem
desequilibrar o tampo de vidro. O objetivo era
mover as peças, sem que as oscilações do tampo
chegassem a derrubar tudo. Um minúsculo
movimento em cada elemento provocava grande
turbulência no todo. Quem experimentou mover
as peças sabe: não dá para confiar nos instintos.
Texto adaptado extraído de JB On line em
17/05/2012 – http://www.jb.com.br/coisas-dapolitica/
noticias/2012/05/17/equilibrio-instavel/
Leia atentamente e responda
1) O autor define, na relação da saúde, como
um equilíbrio instável:
a) um constante desequilíbrio de fatores
provocados pelo consumo excessivo de
procedimentos médicos desnecessários.
b) o constante equilíbrio que há entre o
pensamento médico e os procedimentos
de humanização nos hospitais.
c) a relação entre as religiões existentes no
mundo e as lutas que elas empreendem
entre si pelo poder.
d) o equilíbrio social de tudo que é oferecido
ao cidadão e contribui para seu bem estar
emocional e financeiro.
e) um conjunto de fatores que se encontram
em constante relação e em que um
depende do equilíbrio do outro.
Conhecimentos Gerais (Espanhol) 2
2) O conceito mais sutil de saúde não foi
contemplado pelas novas tecnologias de
saúde porque:
a) não se considerou que a saúde envolve
fatores mais subjetivos e sutis no trato
com seres humanos do que o uso de
novas tecnologias.
b) o que vale é a aparência. Um corpo forte
e musculoso e o consumo de novas
tecnologias basta para definir alguém
como saudável.
c) as pessoas continuam consumindo
procedimentos cirúrgicos e
medicamentos de maneira desregrada e
sem prescrição.
d) a única coisa feita foi divulgar a palavra
humanismo em postos de saúde,
hospitais e clínicas médicas.
e) há um equilíbrio estável e constante entre
o homem, seu corpo e a sociedade em
que ele se insere como agente
transformador.
3) Segundo o autor do texto, qual é o conceito
mais adequado à ideia de saúde?
a) O desenvolvimento tecno-científico
trabalhando pelo ser humano.
b) A promoção do bem estar físico,
emocional e social do indivíduo.
c) O corpo forte e musculoso resultado de
exercícios constantes.
d) O uso de cirurgias que promovam o
aperfeiçoamento do corpo.
e) O uso de medicamentos modernos para
promover o bem estar.
4) Leia atentamente e responda
I . Os procedimentos médicos podem
comprometer a saúde e se tornam piores
do que os males para os quais foram
feitos
II . O Consumo de procedimentos e
medicamentos é resultante do maior
acesso das pessoas à informação
atualmente.
III . Saúde é um conceito amplo que envolve
a relação do indivíduo com o meio em
que vive e não só com o seu corpo.
Com base na leitura do texto, podemos afirmar
que estão corretas:
a) I e III
b) I e II
c) II e III
d) Todas
e) Nenhuma
5) Na expressão “equilíbrio instável”, o autor
apresenta a mesma figura de pensamento
que encontramos em expressões como:
a) A última morada do homem
b) O pé da mesa de mármore
c) A clara escuridão da noite
d) O fogo ardente da paixão
e) O frio olhar da moça
Leia o trecho atentamente e responda às
questões 6 e 7
“(TF) A saúde e sentido correm juntos e
dependem da direção que queremos imprimir às
nossas vidas. (FP) Uma vida que não faz mais
sentido, passa, automaticamente, a ser insalubre.
(FS) O único que pode atribuir sentidos é o
próprio sujeito.“
6) O trecho acima constitui um parágrafo
completo por si com um tópico frasal (TF),
uma frase primária de explação (FP) e uma
frase secundária (FS). O autor optou por não
fazer uso de conectivos, mas a relação entre
as unidade do parágrafo são mantidas e
podemos defini-las, respectivamente, como:
a) assertiva / conclusiva / explicativa
b) assertiva / alternativa / concessiva
c) assertiva / adversativa / conclusiva
d) assertiva / explicativa / conclusiva
e) assertiva / adversativa / explicativa
7) Com base no mesmo trecho extraído para a
questão acima, se quiséssemos fazer uso de
conectivos para ligar as unidades do
parágrafo em destaque, a única opção que
nos permitiria o texto sem mudar o seu
sentido original seria, respectivamente, o uso
do:
a) porque / entretanto
b) entretanto / pois
c) já que / embora
d) logo / por isso
e) pois / por isso
Conhecimentos Gerais (Espanhol) 3
8) Leia atentamente
“Vigora a velha ideia distorcida sobre o que é
saúde. Às vezes, ela é encaixada em tópicos
estéticos e procedimentais.” No primeiro
parágrafo, a que se refere o autor no texto
como “tópicos estéticos” e “procedimentais”?
a) músculos avantajados e medicamentos
modernos
b) aparência emocional e medicamentos
c) aparência física e emocional
d) aparência física e cirurgias
e) aparência emocional e cirurgias
9) Todos os conceitos mais sutis e subjetivos de
saúde expresso pelo autor do texto podem ser
representado pelas alternativas abaixo,
EXCETO:
a) sensação de bem estar.
b) exercício da cidadania.
c) ausência de violência.
d) equilíbrio emocional.
e) aparência física.
10) Para o autor do texto, quais critérios podem ser
entendidos como um exemplo de sucesso a
ser considerado no tratamento de pessoas que
estão perdendo a saúde?
a) A tecnologia e o uso de recursos
alopáticos modernos.
b) A fé e o acompanhamento terapêutico do
paciente.
c) O cuidado e a capacitação técnica dos
médicos.
d) O cuidado e a rede de apoio e
solidariedade.
e) A solidariedade e os recursos
tecnológicos.
11) Leia atentamente as afirmativas
I . A saúde é uma junção de fatores que
operam para o bem estar do homem.
II . A saúde precisa de mecanismos
tecnológicos para ser plena e eficiente.
III . A saúde provoca um desequilíbrio instável
quando estamos mal com nós mesmos.
Com base na leitura do texto, qual(is) opção(ões)
está (ão) correta(s)
a) I
b) II
c) I e II
d) Todas
e) Nenhuma
12) Leia atentamente e responda
A imagem abaixo de uma placa em uma
barbearia correu a internet e virou piada pelo
duplo sentido que ela oferece.
Gramaticalmente, podemos dizer que tal
ambiguidade ocorre porque:
a) a conjunção aditiva “e” permitiu a omissão
do verbo “cortar” na segunda sentença
criando a ideia de que “pinto” era um
substantivo e não um verbo.
b) o verbo “pintar” na 1ª pessoa do singular
do presente do indicativo, em razão da
homonímia com o substantivo “pinto”, cria
no leitor a impressão de que tanto ele
quanto o substantivo “cabelo” são
complementos do mesmo verbo.
c) a conjunção “e” aponta para a
classificação do verbo “pintar” como um
substantivo masculino similar a “cabelo”.
d) A palavra “corto” é uma grafia inadequada
do adjetivo “curto” e permite associação
aos substantivos “cabelo” e “pinto”.
e) os três vocábulos que se apresentam no
cartaz podem ser interpretados como três
adjetivos ou três substantivos.
13) Na frase “Talvez uma boa metáfora para a
saúde seja a instalação interativa “equilíbrio
instável” de uma recente exposição de arte
internacional que se realizou no Brasil.” A
oração em destaque corresponde a mesma
classificação sintática da oração apresentada
na alterntiva:
a) Como negar que as necessidades de
cuidado estão para bem além de drogas
eficientes (…)
b) O fato é que estamos muito distantes de
uma medicina apropriada ao sujeito.
c) A saúde e sentido correm juntos e
dependem da direção que queremos
imprimir às nossas vidas.
d) O objetivo era mover as peças, sem que
as oscilações do tampo chegassem a
derrubar tudo.
e) Quem experimentou mover as peças sabe
que não dá para confiar nos instintos

Intelectuais e déspotas

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Intelectuais e déspotas

Não foi um caso isolado da Rio + 20. Às cotoveladas sessenta intelectuais (sempre bom recorrer à etimologia para saber se a atribuição ainda bate com o significado: intelecto – ação de compreender) se apertaram para assistir a explanação do ditador iraniano. Uma possível compreensão, nesse caso legítima, seria que os doutores tivessem ido até lá para saciar a curiosidade frente a um homem deselegante, que já negou o holocausto, considera mulheres seres de terceira categoria, persegue minorias como Bahai e Sufis e prega a reforma “por bem ou por mal” dos homossexuais. Sem contar os criminosos atos contra os protestos da oposição nas comprovadas fraudes eleitorais que o levaram a reeleição. Eleição é modo de dizer, sufrágio indireto, que só se concretiza com aval do líder supremo.

Ninguém duvida que é sempre interessante ter a oportunidade de ver uma “criminal mind” ao vivo, tudo para tentar entender como funciona a mente onipotente, como raciocina o fanático, e sentir a astúcia do mitômano.

Mas parece que não é isso que tem levado intelectuais do mundo a aderir ao pensamento monológico e ao culto dos déspotas que se proliferam pelo mundo. Talvez, cansados da anomia e do fracasso crônico das experiências com os projetos sociais pelos quais se batem, só encontrem recompensa naqueles que prometem implantar a justiça plena na Terra.

Com o fim das doutrinas e a morte dos heróis, só um ungido pode saciar os intelectuais de nossos tempos.

A perplexidade máxima aflora quando se identifica na plateia herdeiros de tradições ideológicas consistentes, a maior parte daquela vertente que um dia convencionou-se chamar de esquerda. A adesão se dá basicamente por uma única afinidade: a postura antiamericana.

Ficou fácil conclamar fiéis, bastando para isso desfraldar a bandeira “morte à América”.

No caso de professores e gente esclarecida e com tanto currículo na bagagem, que espontaneamente escolheu ir ao encontro o fato nos deixa à deriva. Melhor dizendo, à lona!

O fenômeno transcende a razão e como evitamos a parapsicologia, precisamos nos contentar com a velha psicopatologia. Alguém pode explicar como o carisma agressivo e non-sense entorpeceu tantas cabeças a ponto de asfixiar a região onde se aloja a capacidade critica?

Pode ser que seja inevitável que chefes de partidos ou figuras do executivo tenham que ciceronear ditadores e gente que, para conquistar o poder, deixou rastro de cadáveres. Costuma-se aturar isso dignamente com a ajuda de autocontrole, respiração yogue e
banhos frios.

O fenômeno leva o nome de pragmatismo selvagem, o que conduz inevitavelmente a uma espécie de esquizofrenia política.

Basta um exemplo: sabe-se que o regime teocrático do Irã apoia abertamente o regime Sírio de Assad e sua atual política genocida. Pois decerto alguns dos bem pensantes que sentaram nas cadeiras da frente assinaram petições, ao menos devem ter pensando nisso, contra o massacre do povo sírio. Pois é o que a selvageria política faz com as pessoas: produz incoerências seriadas. Ninguém tem compromisso com a coerência nem com a lucidez, mas há uma ambivalência ética que é capaz de dissolver o caráter.

Esta fusão de ideologia tosca com pragmatismo já foi o estuário de desastres políticos importantes em outros continentes. A adesão de extensas camadas da população universitária na Alemanha nazista – o maior apoio vinha dos profissionais liberais com 50% dos médicos alemães dando endosso à ideologia ariana do Fuhrer.

E não é que persiste a maldição dos “formadores de opinião”?

As massas finalmente aderiram e produziu-se um consenso perto do absoluto, a favor do expansionismo belicista germânico.

O mesmo apoio das camadas intelectualmente mais esclarecidas marcou nos primórdios a Revolução Soviética. Até que testemunhando o desvirtuamento e a implantação de um regime tão sanguinário e opressor quanto o de seus antecessores, os intelectuais mais críticos começaram a ser internados em hospitais com ajuda de um sistema nosológico criado sob encomenda aos psiquiatras comunistas.

Dissidentes começaram a ser diagnosticados como insanos: refusiniks. Para um regime totalitário só um doente mental pode recusar o sistema perfeito.

Foi Hanna Arendt quem escreveu que quando “termina a autoridade começa o autoritarismo”. Agora que a autoridade natural no Brasil está no início do declínio já que sua sustentação depende da bonança econômica e a inadimplência chegou a um patamar perigoso, o desespero já começou: alianças desastradas, chantagens e ameaças institucionais chegando ao destempero com promessas de mordidas.

Nossa sorte é que hoje o homem comum no Brasil deixou de ser bobo e já sabe como deve sair de casa: discreto, sem lenço, cheque ou documento e, se possível, com caneleiras à prova de predadores.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A verdade Lançada ao solo” (Ed. Record)
paulorosenbaum.wordpress.com

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Insurreição de gênero

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Insurreição de gênero: Erundina, Marina e Martha

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum+A-AImprimirPublicidade

A proximidade das eleições traz imagens, e imagens podem mudar tudo. Para além das alianças e manchetes políticas incompreensíveis, algumas cenas mexem com nossas entranhas. Tudo isso se deve ao advento da única ideologia sobrevivente: pragmatismo político. Denunciantes do mensalão desfilam lado a lado com réus que atentaram contra a democracia, e, por segundos a mais, sociais-democratas flertam com nanicos. Como sempre, o glorioso MDB continua jogando em todas as posições, mas, vamos reconhecer, como esse pessoal sabe cavar faltas!

Até a divulgação da famosa foto no jardim, Erundina topava bater ombro a ombro com Maluf. As alianças regionais e nacionais fazem cair o queixo de qualquer cidadão que algum dia sonhou com coerência. O que ainda não sabem é que coerência virou artigo morto no glossário dos políticos contemporâneos. Pobres intelectuais e bem pensantes. Não entenderam nada. Melhor assim. Já imaginaram se os doutos descobrem que não há incoerência alguma? Pois, é isso mesmo. Eles todos são aliados porque concordam no básico: o importante é estar lá, custe o que for.

Ninguém esperava mesmo que sinais angelicais acompanhassem essa turma, mas não pode haver dúvida: é um abismo. Diante do fosso, duas alternativas: mergulhar de cabeça ou resistir e aguentar o tranco. E em meio aos trampolins e piscinas bem regadas, bater o pé em recusa é o que expressivas figuras femininas da política brasileira, como Erundina, Marina e Martha estão começando a fazer.

Dizer não ao costumeiro “sim, senhor” não é fácil, e o pior é “não dá lucro imediato”, por isso mesmo devemos considerar qualquer “não” como ato de bravura. Difícil analisar quais os pontos em comum das três senhoras, mas uma coisa é certa: elas podem até disfarçar e tergiversar, mas são conseguem mais esconder; suas ações afirmativas já são pedras indigestas no sapato do regime.

Como é bom lembrar que há uma raça que não se curva ao comandante! A resistência ao modelo neopatriarcal só poderia mesmo vir das mulheres. Já que falta aos homens disposição ao enfrentamento – sobra narcisismo – são elas que estão dando explícitos sinais de insatisfação. A boa-nova é que os chefões castradores que hoje fazem as vezes dos velhos coronéis do cabresto em currais eleitorais já estão ficando ressabiados.

O feminino, enfim, descobre o agradável poder que existe na infidelidade, partidária. Oxalá isso se espalhasse por toda a República. Assim, quem sabe, voltaríamos aos trilhos da democracia.

Independentemente das simpatias e antipatias pessoais, são elas que estão peitando não só os critérios stalinistas do partido hegemônico como as confrarias que usurparam o poder. Mas, sem idealizações, sabemos que todas também estão atrás dos cargos. Mas que não se desconsidere a novidade em suas mensagens descriptografadas: “Queremos, mas não a qualquer preço”. Se a insubmissão se alastrar, pode-se batizar o movimento Sim, mas não a qualquer preço. Teremos que ser muito agradecidos, qualquer coisa para nos deslocar do medonho status quo.

Não seria exagero afirmar que a insurreição de gênero em curso deve ter fortes repercussões num futuro próximo. Por isso merece registro a postura delas frente aos caciques com seus baralhos viciados. Com o movimento sindical e estudantil nas mãos e uma oposição sem estofo, elas viraram a única peça do jogo político a desafiar os desmandos. Torçamos para que essa lufada de vento também pique Dilma. Calma, eu também duvido, bom demais para ser verdade. Imaginem se ela resolvesse abrir melhor os olhos. Suponham que, tomada pela audácia, ela se rebele contra seu mentor. Seria o mais histórico e memorável de seus atos presidenciais.

Um desejo não deixa de ser possível só porque ainda não se realizou. Até nas profecias há gap temporal. O sonho pode não ser plausível agora, mas se todos bem recordam houve uma vez uma eleição no Brasil com o slogan A esperança venceu o medo. Talvez tenha chegado a hora de fazer isso acontecer de verdade.

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Negação da morte e Habitat

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Negação da morte e Habitat

Sabemos que o assunto da hora é a RIO+20. Mas outro tema, igualmente importante, está sendo discutido sem merecer o devido destaque. A comissão que se encarregou de modernizar o novo código penal está concluindo os trabalhos, cuja versão final ainda não se conhece, e ali incluiu assuntos críticos. Refiro-me aqui aos que abordam a terminalidade da vida.

A legislação dos Países Baixos autoriza a eutanásia (medidas ativas, proibidas no Brasil) enquanto nos EUA existem grandes batalhas judiciais que só fazem aumentar as controvérsias. A ortonásia (etimologicamente, morte no tempo certo) tem sido por aqui discutida (diferente da anterior, admitida em casos em que a morte é comprovadamente uma questão de horas ou dias) apesar de já extensivamente praticada. Prevê a cessação de tratamentos considerados fúteis e pode incluir o desligamento de máquinas, interrupção de alimentação parenteral etc.

A ética hipocrática da qual os profissionais de saúde são herdeiros preconiza: não se deve interferir em uma doença sabidamente mortal ou incurável. Por outro lado como saber ao certo? Hipócrates também nos adverte sobre a precariedade das convicções e finalmente questiona em seu primeiro aforismo o valor dos prognósticos: a arte é longa, a experiência enganosa, o julgamento difícil.

O filósofo Montaigne abre um de seus Ensaios com “filosofar é aprender a morrer”. Precisamos aprender, mas como nos educar em terreno tão delicado? Até a pena de morte foi discutida — e abolida em boa parte do mundo – então por que intimidar-se com os debates sobre o fim da vida? Não me convence pensar que a distinção esteja entre castigo e alívio terapêutico.

Esquecemos, convenientemente, que fomos inculcados com uma amnésia chamada finitude. Resumindo, somos desmemoriados o suficiente para tocar a vida contra o inexorável que é nossa condição de mortais. Trata-se de estoicismo adaptativo, conforme mostrou Ernst Becker em seu clássico “A Negação da Morte”.

Hoje temos equipes especializadas em “dar conforto” às famílias de pacientes terminais. Foi uma solução superficial que a medicina hospitalocêntrica encontrou para lidar com o tabu. Este é um legítimo dilema da vida contemporânea: o que fazer diante de sofrimentos extremos e de alegada incurabilidade?

Quem terá o direito de opinar e a quem cabe a decisão final? À medicina, ao Estado ou à família? Haverá espaço para ouvir o único que poderia dar qualquer legitimidade ao ato? Nesse caso o desenganado: o sujeito que muitas vezes é impedido de votar por sedação excessiva, afasia ou coma. Pois e se o doente quiser confirmar presença mais alguns minutos, uns dias, quem sabe a semana? Dissecando o termo “desenganado” descobrimos que pode significar dizer a verdade, revelar, ou dissuadir. E quem pode dissuadir alguém acerca da continuidade da própria vida? É evidente que a sedação da dor e a manutenção de uma medicina paliativa são ganhos importantes no trato com doentes em sofrimento severo.

Portanto o problema parece estar mais no campo da psicologia, filosofia e direitos humanos do que propriamente no da deontologia médica ou direito penal. Qualquer equipe pode ligar aparelhos, mas e quanto a desligá-los? Plantonistas da UTI, dos home care, auditores das empresas de seguro saúde estarão autorizados? Afinal quem é que decide em quem não se deve mais “investir”?

É licito supor que mais este desleixo com os vivos que estão no final de um ciclo esteja mesmo na própria raiz da atual predação sistemática que executamos contra nosso habitat. Queremos consumir mais e praguejamos ao ver espuma nos rios e a bagunça climática. Guiados pelo imediatismo tomamos uma rota de caminho único: já que o planeta está envelhecido vamos logo partir para outro. Infelizmente a Rio+20 não terá tempo de discutir esta tênue relação analógica.
Cabe perguntar: não estamos tornando artificial demais um fenômeno natural assim como já fizemos com os partos e o envelhecimento? Que tal voltar a morrer em casa? Não seria mais digno estar consciente para assistir nosso próprio fim? Há preparação e prevenção para várias situações, mas parece que ninguém se preocupou com a morte. Mesmo quando o prognóstico for desfavorável e o enfermo estiver com os dias contados quem pode decidir quando chegou a hora de abortar a vida? Investidos de qual direito impediremos quem esta morrendo de aproveitar o tempo que lhe resta usando o que sobrou de saúde?

Às vezes é preciso coragem para ir contra as soluções que o senso comum apresenta como óbvias. Da mesma forma que temos o dever de recusar uma vida tutelada, não podemos aceitar o papel de carrascos, mesmo que ele venha com a chancela e a benção do Estado.

Paulo Rosenbaum médico e escritor. É autor do romance “A Verdade Lançada ao Solo”, (Editora Record).
paulorosenbaum.wordpress.com

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Elegância Mínima

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Elegância Mínima

Coluna 41 – Elegância Mínima

Trauma estabelecido e o nome da lesão é fratura sociológica exposta. Segundo o sociólogo Zigmund Bauman o poder encontra-se apartado do governo. Vale dizer, o poder não é mais o bastante para garantir governabilidade.

Tem toda a razão.

Talvez seja ainda pior, entramos na era do consumo como único valor permanente. Ao mesmo tempo temos nas mãos uma epidemia de políticos e figuras públicas megalômanas. Além de se atribuir um valor incompatível com a realidade imaginam-se acima das leis e instituições. O bate boca de um ex-presidente foi um destes momentos que representam muito bem este estado de coisas. Não foi só a compostura, esqueceu-se da elegância mínima. O resultado é fazer pouco da sociedade que, a duras penas luta para se tornar mais orgânica, equânime e viável. Gente assim muito provavelmente não tem a menor idéia do mal estar que produz nos cidadãos.

Tivéssemos instituições mais sólidas e maduras não estaríamos todos tão abalados nem tão divididos quando dois sujeitos, em franca improbidade verbal, discutem questões gravíssimas com a mesma superficialidade e truculência de uma disputa banal de trânsito ou de um clássico do futebol.

O consolo é que mais cedo ou mais tarde o lulo-petismo e todo histrionismo agonizará assim como agonizaram outras agremiações que se renderam ao culto da personalidade. A história comum da ascensão e queda do autoritarismo personalista é que, em nome da hegemonia e da gula pelo mando, todos acharam que poderiam prescindir da sociedade e do país que representavam. Por outro lado, na história da humanidade às vezes, um único sujeito pode fazer toda diferença. Para o bem e o mal (que depois da segunda Guerra Mundial provou que é uma entidade real). Para justiçar pseudo-heróis a verdade histórica tarda, mas triunfa.

Os partidos políticos envelheceram. Isso para evitar mencionar o apodrecimento das instituições políticas partidárias e suas implicações. Há urgência de uma reformulação maiúscula. Diante da falência iminente não se pode mais temer a radicalização da discussão. Nada a ver com moldes violentos ou da anacrônica luta de classes. A radicalização que a sociedade deve propor é maior, mais ambiciosa e mais elegante.

Para contornar o óbvio e o senso comum, temos que perder a covardia. O conformismo que nos governa silenciosamente todos os dias sem dar conta que fomos possuídos por uma inércia mortal.

Doravante, salvo milagres, o diagnóstico para a coalização partidária que sustenta o regime é o pior possível. O cripto-autoritarismo, as ondas de corrupção e o neo-fisiologismo poderiam ser só sintomas de uma jovem democracia buscando se acertar. Neste caso, seria mais que desejável que os ratos benévolos – as pessoas de valor que se encontram esmagadas pela malandragem – pulassem do barco para se ajuntar aos que deram o fora a tempo de preservar suas biografias. O otimismo relativo é que há tanta gente boa que se unidos poderiam ser fiadores de um novo movimento.

Entretanto, quando se vê que o navio incha e o adesismo ao poder está inflacionado, passamos a ter obrigação moral com o pessimismo. Estamos num país sem oposição! Bem entendido, oposição lato sensu – não significa necessariamente opor-se sistematicamente aos governos como já fez o PT aprendiz, mas resistir ao interminável saldo de autoritarismo e ineficiência venha de onde vier.

É trágico que não se enxergue no horizonte um único partido com idéias novas, sobretudo límpidas. Dos chavões neo-marxistas aos slogans neo-liberais, passando pelo discurso verde não se vê um único sujeito ou grupo de pessoas capaz de se articular para fazer emergir uma frente “contra todos” que seja emancipada, conseqüente e coerente.

A faxina geral não deveria ser contra a corrupção, muito menos numa CPMI, mas sim dirigida a favor das leis, de julgamento limpo para o mensalão, por exemplo. Há um vício do pensamento nos iludindo com país bombando, crédito fácil e dívidas difíceis. Desde que os monarcas deixaram de ter a primazia da razão e o monopólio do poder, deveríamos ter abandonado o absolutismo salvacionista. Mas por um desses incuráveis pontos cegos que nos adoecem, não conseguimos abrir mão de um redentor.

Inadimplentes, estamos todos pagando o preço da dívida de outrem.

O crediário não é suave, pelo menos as parcelas estão a perder de vista.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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O Crack da segurança pública

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O Crack da segurança pública
Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum*+A-AImprimirPublicidade

O título é uma provocação? Infelizmente, caro leitor, não é nada disso! Escrevo para dizer que estou, como milhões de paranóicos, entrincheirado onde moro. Seguindo orientações, fiz investimentos pesados em barricadas de travesseiros e estou atento aos movimentos suspeitos nas ruas do entorno. É que a pizzaria bem ao lado de onde moro sofreu um arrastão antes de ontem e três prédios da minha rua foram “esvaziados” por quadrilhas fortemente armadas nos últimos dois meses. Morar numa região central de qualquer cidade do país é, hoje, tremendo risco. Mas parece que no campo e na periferia não tem sido muito diferente.

Os direitos constitucionais dos cidadãos estão todos lá, redigidos na carta, no entanto eles se parecem um pouco com o código de direito do consumidor: vai lá tentar receber teu dinheiro de volta!

A verdade é que o estado tem cada vez mais leis, mas cada vez menos poder para aplicá-las. Quando aplicada, tem sido de modo seletivo. Há razões diretas e indiretas para que não se promova segurança para a maioria da população. Vamos a algumas delas:

-O estado representado pela atual administração federal ainda conserva na memória primitiva e automática a correlação que havia no regime militar entre polícia e repressão política. Ou seja, a repressão tem sempre uma conotação de “direita” enquanto a marginalidade ainda pode ter uma coloração revolucionária. Junte-se a isso, a ingenua consideração de que a correção do problema criminal depende exclusivamente de justiça social.

-É grave saber que o estado não acredita que a ameaça aos seus cidadãos e os insustentáveis índices de violência sejam motivos de preocupação real. Já se ouviu em Brasília gente graúda afirmando com ironia que isso era “medo de burguesia”. O povo mesmo não está ameaçado.

-O estado imagina que a manutenção da ameaça pode, de alguma forma, aumentar o poder de barganha ao se outorgar a primazia da oferta de proteção. Tudo na base do paternalismo tosco que tem caracterizado o populismo latino americano e sua rasteira psicologia para as massas que coloniza.

-A educação formal das novas gerações têm sido pouco criativa, baseada em competição e instiga a agressividade. Tudo sob a fluída evocação do direito de escolha. Ninguém quer a volta das aulas de “moral e cívica”, mas – já que através dos exemplos daqueles que governam não chegaremos a lugar nenhum — um pouco de filosofia e aulas de ética pública e privada não seria má idéia.

-Leniência e assimetrias da lei. Na reforma do código penal legisladores vem descriminalizando pequenos delitos e chamando-os de bagatelas. Mas o que poderia ser um avanço, transforma-se em autorização tácita ao crime se não houver a promoção de medidas sócio-educativas simultâneas ao ressarcimento que o ladrão terá que oferecer à vítima. Agora como é que pode ser que violadores de e-mail de atriz famosa possam ser apenados em até 12 anos de reclusão e os assassinos confessos, violentadores e ladrões do erário, se apenados, se safem com menos de um terço do tempo? Não sou da área, mas isso é desnecessário para enxergar distorções.

-As prisões brasileiras estão entre as mais despreparadas e superlotadas do mundo. As taxas de reincidência e de reinserção social dos egressos demonstram isso amplamente.

–A política de segurança prisional se sofistica muito lentamente. Por exemplo, ainda não se conseguiu um acordo – pasmem, são quase 10 anos de discussão — para que as operadoras de telefonia móvel bloqueiem chips dos celulares que entram aos milhares no sistema prisional. Depois de investimento milionários as salas de telejulgamentos estão ociosas porque não há acordo sobre a constitucionalidade de audiências virtuais. Pode ser até que estejamos na frente em Internet para todos, mas a mentalidade geral persiste retrógrada.

–A política de remuneração de policiais no País (acrescente-se bombeiros) é ridícula e degradante Não porque estas pessoas mereçam privilégios especiais, mas, o exercício de uma profissão que mistura insalubridade com riscos muito reais, merece ter a política de salários completamente revista e reestruturada. Provavelmente a corrupção policial desceria ao patamar administrável.

-Faltam investimentos mais efetivos em inteligência policial, controle de armas nas fronteiras e aprimorar a integração entre as comunidades e a segurança pública.

– Toda policia deveria prevenir e pacificar.

O primeiro golpe nos direitos civis é a ausência de segurança. Mas estamos sem tempo para discutir medidas objetivas. A fofoca política e o bate boca vem em primeiro lugar na audiência. Desde a redemocratização não testemunhávamos impasses institucionais tão graves entre os poderes republicanos: à mercê de gangues, a população pede socorro!

Para quem?

Ps – Estaríamos todos agradecidos com apenas 1% da consideração que os chefes de estado terão durante a RIO+20.

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor.

Para comentários e retransmissão acessar: http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/02/o-crack-da-seguranca-publica/

Sociedade dos paradoxos 

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Sociedade dos paradoxos

Um grupo de 23 cientistas britânicos da Royal Society , encabeçado por John Sulston, acaba de elaborar um documento – a ser apresentado durante a RIO+20 – que vinculará consumo e pobreza.

Como dado preliminar hoje há 1,3 bilhão de pessoas em estado de pobreza absoluta. Não bastasse a cifra escandalosa, temos que considerar que estes números são totalmente dependentes do padrão de consumo nos países desenvolvidos. Só o Brasil representará nos próximos anos 5% do consumo global, enquanto o continente africano responderá com 70% do crescimento populacional do planeta. Há alguma resposta a esta situação? Consumir mais, certo? Segundo os cientistas, não necessariamente, depende de quem consome. Fato que evidencia como o senso comum é cego.

O consumo excessivo e concentrado produz lixo não administrável, além de poluir em escala não civilizada. O consumo é um ato inconsciente. Aliás, um enigma muito bem explorado pelo marketing contemporâneo. O que os publicitários nos ensinaram nestes anos todos é que precisamos precisar. Porém, há muito mais que um único conflito de interesse quando se trata do binômio desenvolvimento industrial e manutenção da biosfera.

Sem atenção planejada e coordenada de uma educação menos informativa e mais crítica, planejamento familiar e radical equalização do consumo, teremos saudades dos tempos em que as conferencias ainda podiam prometer resultados. Nas poucas unanimidades nessa área, uma delas é que estas decisões não são para hoje. Ontem já seria tarde.

Então lá vamos nós aos chavões: comprar movimenta a economia. O excesso de consumo aumenta as discrepâncias sociais. Consumir faz com que a sociedade se torne mais produtiva e competitiva. A industrialização selvagem asfixia e desarticula micro sistemas artesanais e extrativistas de produção jogando populações inteiras à desvalia e ao desamparo social.

O incrível é que é muito provável que todas as afirmações acima sejam verdadeiras ao mesmo tempo. A explicacão de como podemos conviver com tantas contradições é que chegamos à sociedade dos paradoxos.

Dadas as atuais condições desvantajosas do planeta não há mais como sustentar os padrões que as sociedades industrializadas vêm mantendo desde o pós-guerra. Por outro lado, a crise indica que talvez consumir e induzir consumo sejam a única saída. Um consumo mais igualitário poderá favorecer as sociedades e o mundo.

Podemos detestar isso, mas neste ponto da história, em que nos transformamos numa força geológica, estamos em regime forçado de interdependência. É preciso estimular a consciência a trabalhar, já que ela não pega tão facilmente no tranco. Só quando um norueguês perceber que ele aumentará seu risco se não deixar de comprar sua terceira TV de plasma para que um senegalês tenha seu primeiro rádio, o mundo poderá estar ficando menos díspar.

O interesse ativo em manter a população em estado de obscuridade é, infelizmente, a grande força política dominante. Vale dizer, a transparência que se oferece não é a que necessitamos já que o jogo democrático deixou de colocar os interesses coletivos como os mais importantes. E a única coisa que pode nos unir nesse momento é a responsabilidade com o habitat. A ignorância é o estado de maior vulnerabilidade como mostram os estudos epidemiológicos. Por isso, a solução pode estar em medidas mais radicais que o gradualismo que professam os debatedores canônicos.

É chegada a hora de virar a mesa antes que a natureza e os impasses sócio-ambientais nos virem do avesso.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/23/sociedade-dos-paradoxos/

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Equilíbrio instável

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Equilíbrio instável

O brasileiro anda desconfiado. Em recente levantamento feito pela FGV os políticos ocupam o topo do ranking quando se trata de desconfiança da população. Pudera. Se fossemos criteriosos (atenção: criteriosidade não é moralismo) verificaríamos como é difícil manter as aparencias, especialmente quando nossos filhos assistem TV conosco.
Tomem como exemplo a transmissão de uma CPI ao vivo. Velhos arquinimigos trocando afagos, teatralizações horríveis, mentiras e tergiversações. Acareações truculentas (era para ser um parlamento, não delegacia) e o toque circense final: injustificáveis intimidações ao procurador geral da república.
Esqueceram que tem gente sensível e vida inteligente do lado de cá da tela? Ou não dão a mínima para a opinião pública? Os dois? Pois não! Onde é que estamos?
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A saúde tem sido um dos problemas mais graves do País e os avanços, lentos e insatisfatórios. Qual o diagnóstico?
Vigora a velha ideia distorcida sobre o que é saúde. As vezes, ela é encaixada em tópicos estéticos e procedimentais. O que vale hoje é ser musculoso ou consumir o que é oferecido como a última palavra em tecnologia. O consumo irracional de procedimentos tem se tornado um problema de saúde em si. Muitas vezes, em detrimento da saúde do próprio sujeito.
Excesso de cirurgias – como a bariátrica, por exemplo – e o consumo exagerado de drogas, com ou sem automedicação, colocam o sujeito exposto a tantos males quanto os que eles supostamente estariam tentando corrigir como advertiu abertamente o National Institute of Health dos EUA há alguns anos num extenso relatório.
O fato é que estamos muito distantes de uma medicina apropriada ao sujeito. No Congresso Internacional da Medicina da Pessoa, realizado na Austrália nos anos 50, alguém formulava sinteticamente uma pergunta central. Mesmo subestimada, ainda permanece de importância vital em nossos dias para compreender a medicina: “não há saúde sem uma resposta satisfatória à pergunta: saúde para que?”
Não que não se possa fazer objeção ao incomodo que esta pergunta poderia suscitar naqueles mais pragmáticos. Mas para além deste ponto a pergunta é oportuna, pois nos remete ao conceito de saúde subjetiva: a sensação de bem estar.
O desenvolvimento tecno-cientifico, aplicado às ciências da saúde, conseguiu notável eficácia e controle sobre uma quantidade apreciável de doenças. Mas este mesmo controle, infelizmente, não se estendeu a uma concepção de saúde mais sutil. O máximo que se fez foi contemporizar colocando a palavra “humanismo” na frente dos postos de saúde, clínicas e hospitais. O cuidado, a apreciação subjetiva dos sintomas, a rede de apoio e solidariedade para quem está perdendo a saúde e até a cumplicidade frente ao desespero de quem enfrenta sofrimento não estão dentro do mainframe, que prioriza outros aspectos como critérios de sucesso.
Trata-se de um grande equívoco.
Como negar que as necessidades de cuidado estão para bem além de drogas eficientes e hospitais modernos? Como ignorar que numa sociedade enferma a saúde tenda a ser progressivamente mais instável?
Estamos isolados e, ao mesmo tempo nossa interdependência aumentou, pois como se sentir bem com tanta violência, injustiça social e competição? Como ser saudável numa sociedade que se esqueceu do sentido mais íntimo da cidadania e onde os políticos lato sensu – nossos representantes! — são os ingredientes menos confiáveis dentre todas as camadas sociais?
A resposta talvez esteja no espaço interno. A saúde e sentido correm juntos e dependem da direção que queremos imprimir às nossas vidas. Uma vida que não faz mais sentido, passa, automaticamente, a ser insalubre. O único que pode atribuir sentidos é o próprio sujeito.
Algo que nos traga ao espaço público sem que nos igualemos. Para alcançar a paz e a justiça social podemos prescindir da luta de classes. Por isso é urgente recuperar o valor da subjetividade e as sutilezas do espírito.
Talvez uma boa metáfora para a saúde seja a instalação interativa “equilíbrio instável” de uma recente exposição de arte internacional que se realizou no Brasil. Ali centenas de pequenas peças de acrílico como mesquitas, igrejas, sinagogas e outros templos e edificações eram colocadas em cima de uma grossa mesa circular de vidro, suspensa por um cabo de aço bem no centro. O desafio era mover uma peça sem desequilibrar o tampo de vidro. O objetivo era mover as peças, sem que as oscilações do tampo chegassem a derrubar tudo. Um minúsculo movimento em cada elemento provocava grande turbulência no todo. Quem experimentou mover as peças sabe: não dá para confiar nos instintos.

O equilíbrio instável é pedagógico: a única ancora que vale é a de dentro!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A verdade lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/17/equilibrio-instavel/

Comentários: “Romance “A Verdade Lançada ao solo” aborda transcendência, política e religião”

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Romance de Paulo Rosenbaum aborda transcendência, política e religião

O romance “A verdade lançada ao solo” (editora Record) marca a estreia do médico Paulo Rosenbaum na ficção. Ele parte da tradição judaica para questionar o lugar do homem na Terra, aplicando judaísmo e filosofia a fatos históricos. O autor oferece uma visão construtiva em uma época em que se decretou a morte de todas as crenças. Elos inusitados e potentes metáforas desequilibram o leitor em um enredo denso, que mistura drama, aventura, religião e política. (Jornal Alef)

“Romance de Paulo Rosenbaum aborda transcendência,política e religião

Em prosa cheia de imagens originais o escritor lança seu primeiro romance, que aplica judaísmo e filosofia a fatos históricos

Quem criou o criador? Assim, instigando o leitor, começa o livro “A verdade lançada ao solo“, de Paulo Rosenbaum. O livro marca a estreia do médico na ficção, um romance de cunho ensaístico conduzido em três tempos, que parte da tradição judaica para questionar o lugar do homem na Terra.

Em 1856, na aldeia judaica de Tisla, no interior da Polônia, Zult Talb é um rabino com dons proféticos. Ele é o ponto de partida de um itinerário que divaga pelo tempo e corre o mundo: Brasil, Alpes suíços, cidades mediterrâneas e Europa oriental.

Com perspicácia e elegância, Rosenbaum oferece ao leitor uma visão construtiva em uma época em que se decretou a morte de todas as crenças. Elos inusitados e potentes metáforas desequilibram o leitor num enredo denso, que mistura drama, aventura, religião e política” (Blog do livro)

** Paulo Rosenbaum é médico, doutor em ciências pela USP, poeta e escritor. Roteirista e produtor de documentários, atuou como editor de revistas científicas no campo da saúde. Também é pesquisador na área de clínica médica, semiologia clínica, relação médico-paciente, prevenção e promoção da saúde e pesquisa de medicamentos. Com mais de dez livros publicados nas áreas de medicina e poesia, “A verdade lançada ao solo” é seu primeiro romance.