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Equilíbrio instável

O brasileiro anda desconfiado. Em recente levantamento feito pela FGV os políticos ocupam o topo do ranking quando se trata de desconfiança da população. Pudera. Se fossemos criteriosos (atenção: criteriosidade não é moralismo) verificaríamos como é difícil manter as aparencias, especialmente quando nossos filhos assistem TV conosco.
Tomem como exemplo a transmissão de uma CPI ao vivo. Velhos arquinimigos trocando afagos, teatralizações horríveis, mentiras e tergiversações. Acareações truculentas (era para ser um parlamento, não delegacia) e o toque circense final: injustificáveis intimidações ao procurador geral da república.
Esqueceram que tem gente sensível e vida inteligente do lado de cá da tela? Ou não dão a mínima para a opinião pública? Os dois? Pois não! Onde é que estamos?
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A saúde tem sido um dos problemas mais graves do País e os avanços, lentos e insatisfatórios. Qual o diagnóstico?
Vigora a velha ideia distorcida sobre o que é saúde. As vezes, ela é encaixada em tópicos estéticos e procedimentais. O que vale hoje é ser musculoso ou consumir o que é oferecido como a última palavra em tecnologia. O consumo irracional de procedimentos tem se tornado um problema de saúde em si. Muitas vezes, em detrimento da saúde do próprio sujeito.
Excesso de cirurgias – como a bariátrica, por exemplo – e o consumo exagerado de drogas, com ou sem automedicação, colocam o sujeito exposto a tantos males quanto os que eles supostamente estariam tentando corrigir como advertiu abertamente o National Institute of Health dos EUA há alguns anos num extenso relatório.
O fato é que estamos muito distantes de uma medicina apropriada ao sujeito. No Congresso Internacional da Medicina da Pessoa, realizado na Austrália nos anos 50, alguém formulava sinteticamente uma pergunta central. Mesmo subestimada, ainda permanece de importância vital em nossos dias para compreender a medicina: “não há saúde sem uma resposta satisfatória à pergunta: saúde para que?”
Não que não se possa fazer objeção ao incomodo que esta pergunta poderia suscitar naqueles mais pragmáticos. Mas para além deste ponto a pergunta é oportuna, pois nos remete ao conceito de saúde subjetiva: a sensação de bem estar.
O desenvolvimento tecno-cientifico, aplicado às ciências da saúde, conseguiu notável eficácia e controle sobre uma quantidade apreciável de doenças. Mas este mesmo controle, infelizmente, não se estendeu a uma concepção de saúde mais sutil. O máximo que se fez foi contemporizar colocando a palavra “humanismo” na frente dos postos de saúde, clínicas e hospitais. O cuidado, a apreciação subjetiva dos sintomas, a rede de apoio e solidariedade para quem está perdendo a saúde e até a cumplicidade frente ao desespero de quem enfrenta sofrimento não estão dentro do mainframe, que prioriza outros aspectos como critérios de sucesso.
Trata-se de um grande equívoco.
Como negar que as necessidades de cuidado estão para bem além de drogas eficientes e hospitais modernos? Como ignorar que numa sociedade enferma a saúde tenda a ser progressivamente mais instável?
Estamos isolados e, ao mesmo tempo nossa interdependência aumentou, pois como se sentir bem com tanta violência, injustiça social e competição? Como ser saudável numa sociedade que se esqueceu do sentido mais íntimo da cidadania e onde os políticos lato sensu – nossos representantes! — são os ingredientes menos confiáveis dentre todas as camadas sociais?
A resposta talvez esteja no espaço interno. A saúde e sentido correm juntos e dependem da direção que queremos imprimir às nossas vidas. Uma vida que não faz mais sentido, passa, automaticamente, a ser insalubre. O único que pode atribuir sentidos é o próprio sujeito.
Algo que nos traga ao espaço público sem que nos igualemos. Para alcançar a paz e a justiça social podemos prescindir da luta de classes. Por isso é urgente recuperar o valor da subjetividade e as sutilezas do espírito.
Talvez uma boa metáfora para a saúde seja a instalação interativa “equilíbrio instável” de uma recente exposição de arte internacional que se realizou no Brasil. Ali centenas de pequenas peças de acrílico como mesquitas, igrejas, sinagogas e outros templos e edificações eram colocadas em cima de uma grossa mesa circular de vidro, suspensa por um cabo de aço bem no centro. O desafio era mover uma peça sem desequilibrar o tampo de vidro. O objetivo era mover as peças, sem que as oscilações do tampo chegassem a derrubar tudo. Um minúsculo movimento em cada elemento provocava grande turbulência no todo. Quem experimentou mover as peças sabe: não dá para confiar nos instintos.

O equilíbrio instável é pedagógico: a única ancora que vale é a de dentro!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A verdade lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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