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Insurreição de gênero: Erundina, Marina e Martha

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum+A-AImprimirPublicidade

A proximidade das eleições traz imagens, e imagens podem mudar tudo. Para além das alianças e manchetes políticas incompreensíveis, algumas cenas mexem com nossas entranhas. Tudo isso se deve ao advento da única ideologia sobrevivente: pragmatismo político. Denunciantes do mensalão desfilam lado a lado com réus que atentaram contra a democracia, e, por segundos a mais, sociais-democratas flertam com nanicos. Como sempre, o glorioso MDB continua jogando em todas as posições, mas, vamos reconhecer, como esse pessoal sabe cavar faltas!

Até a divulgação da famosa foto no jardim, Erundina topava bater ombro a ombro com Maluf. As alianças regionais e nacionais fazem cair o queixo de qualquer cidadão que algum dia sonhou com coerência. O que ainda não sabem é que coerência virou artigo morto no glossário dos políticos contemporâneos. Pobres intelectuais e bem pensantes. Não entenderam nada. Melhor assim. Já imaginaram se os doutos descobrem que não há incoerência alguma? Pois, é isso mesmo. Eles todos são aliados porque concordam no básico: o importante é estar lá, custe o que for.

Ninguém esperava mesmo que sinais angelicais acompanhassem essa turma, mas não pode haver dúvida: é um abismo. Diante do fosso, duas alternativas: mergulhar de cabeça ou resistir e aguentar o tranco. E em meio aos trampolins e piscinas bem regadas, bater o pé em recusa é o que expressivas figuras femininas da política brasileira, como Erundina, Marina e Martha estão começando a fazer.

Dizer não ao costumeiro “sim, senhor” não é fácil, e o pior é “não dá lucro imediato”, por isso mesmo devemos considerar qualquer “não” como ato de bravura. Difícil analisar quais os pontos em comum das três senhoras, mas uma coisa é certa: elas podem até disfarçar e tergiversar, mas são conseguem mais esconder; suas ações afirmativas já são pedras indigestas no sapato do regime.

Como é bom lembrar que há uma raça que não se curva ao comandante! A resistência ao modelo neopatriarcal só poderia mesmo vir das mulheres. Já que falta aos homens disposição ao enfrentamento – sobra narcisismo – são elas que estão dando explícitos sinais de insatisfação. A boa-nova é que os chefões castradores que hoje fazem as vezes dos velhos coronéis do cabresto em currais eleitorais já estão ficando ressabiados.

O feminino, enfim, descobre o agradável poder que existe na infidelidade, partidária. Oxalá isso se espalhasse por toda a República. Assim, quem sabe, voltaríamos aos trilhos da democracia.

Independentemente das simpatias e antipatias pessoais, são elas que estão peitando não só os critérios stalinistas do partido hegemônico como as confrarias que usurparam o poder. Mas, sem idealizações, sabemos que todas também estão atrás dos cargos. Mas que não se desconsidere a novidade em suas mensagens descriptografadas: “Queremos, mas não a qualquer preço”. Se a insubmissão se alastrar, pode-se batizar o movimento Sim, mas não a qualquer preço. Teremos que ser muito agradecidos, qualquer coisa para nos deslocar do medonho status quo.

Não seria exagero afirmar que a insurreição de gênero em curso deve ter fortes repercussões num futuro próximo. Por isso merece registro a postura delas frente aos caciques com seus baralhos viciados. Com o movimento sindical e estudantil nas mãos e uma oposição sem estofo, elas viraram a única peça do jogo político a desafiar os desmandos. Torçamos para que essa lufada de vento também pique Dilma. Calma, eu também duvido, bom demais para ser verdade. Imaginem se ela resolvesse abrir melhor os olhos. Suponham que, tomada pela audácia, ela se rebele contra seu mentor. Seria o mais histórico e memorável de seus atos presidenciais.

Um desejo não deixa de ser possível só porque ainda não se realizou. Até nas profecias há gap temporal. O sonho pode não ser plausível agora, mas se todos bem recordam houve uma vez uma eleição no Brasil com o slogan A esperança venceu o medo. Talvez tenha chegado a hora de fazer isso acontecer de verdade.

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/24/insurreicao-de-genero-erundina-marina-e-martha/