A Verdade Lançada ao Solo no Portal Pletz

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A obra do autor Paulo Rosenabaum, foi notícia no portal judaico. O romance discute o fato da religião estar perdendo espaço para a ciência no século XXI.

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Pacto e Jogo Vital

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Pacto: do latim pactum, origem; pascisci, particípio passado de pactus, concordar

Um pacto não é uma ordem. Um pacto não nasce de um desejo voluntarioso. Um pacto não pode ser firmado com condições, pressões ou sob armistícios frouxos. Um pacto também nunca é ditado ou decretado. Um pacto não é legitimo, a menos que esteja na plataforma dos consensos. Pactos não são conchavos.  Um pacto é o oposto de um acordo entre lobistas, a antítese de uma união em detrimento do bem público. O pacto rejeita o oportunismo Um pacto não é poesia (ainda que a partir dele algum verso possa acontecer).

Pactos são destinos compartilhados. Políticas de legitimação. O pacto favorece a atitude republicana e coloca na defensiva quem rejeita o entendimento. O pacto é um tratado que tira a prerrogativa do partidarismo. Pactos promovem acordos intersubjetivos. Ressonâncias acordadas. Pacto são diálogos que fluem na tentativa de compreender a interlocução. Pactos têm poder autêntico: combatem miséria, fome e opressão. Pacto é um arranjo, não é uma negociata. Pacto é consentimento, não acomodação. Pacto exige a presença de muitos. Pacto é um conluio entre vozes, conciliação. Pacto é cachimbo de paz.

Quando ouvimos que era chegada a hora do pronunciamento, havia uma expectativa e uma tensão que poucas vezes se viu no país. Havia alguém no comando? Quem estava governando? Hiatos assim jogam contra a República.  Todos aguardaram, queriam sentir e, se possível, experimentar qual era a mensagem. A maioria bufou um “ahh!!”. O gol perdido, uma chance desperdiçada, ou uma grande esperança que nunca se concretiza. Sim, o povo é crédulo. Sim, as pessoas têm as melhores intenções de envolver-se nos pactos, mas não acatá-los sem compreendê-los. Sim, todos reconhecem que, gostemos ou não, há um jogo que foi jogado, e as regras devem valer até que se criem novas regras, ou o fim do tempo regulamentar.

Pobre nova classe média, sem poder carimbá-la e com medo de perdê-la eleitoralmente, políticos e intelectuais se inquietam no afã de tachá-la com precisão. É difícil etiquetar o novo. E talvez eles estejam certos em silenciar mais uma vez. E se a nova classe busca, através da intuição, um caminho que ninguém percorreu? E se não for direita nem esquerda, para desespero dos maniqueístas da taxionomia?

Há um jogo sendo jogado, e as pessoas não querem mais participar como  expectadoras, figurantes ou como equipe dos bastidores. Acabou-se o tempo em que se contemplava o rio sem querer provar da correnteza. A batalha é clara: que sejamos aceitos como protagonistas. Os principais, se não falha a memória. A quem mais o Estado deve obedecer?

Mas é claro que se compreende por que tanto empenho.  Não se trata de simples campeonato ou Copa do Mundo; trata-se do jogo vital. O presente e o futuro de todos depende do desenrolar deste jogo vital. E ninguém mais aguenta ver árbitros oniscientes nem jogadores passivos. Só podemos ser otimistas — e acreditar no grande teste para avaliar o estado de nossa democracia — se mantivermos o clima de paz. Quem não quer viver sem violência? Sem a miséria degradante das crianças? Sem a estupidez em vigor? Quem não declararia amor a uma cidade sem guerras civis abafadas pelas distorções da estatística? Quem não deseja que o vizinho não sofra as mazelas que sofremos? Quem não se sentiria melhor com florestas, índios e habitats protegidos e seguros? Quem não se inclinaria diante de um político ou estadista que abandonasse os privilégios e, como qualquer um de nós, cumprisse os deveres do cargo?

A chacoalhada foi geral. Não abalou só a classe política. O tremor intencional fez acordar a esperança de que não precisamos ser anônimos, sujeitos ocultos, ou zumbis que aceitam qualquer coisa.

Houve uma mudança de degrau. A mudança que se impõe não é por mais, agora é por melhor, mais digno, mais justo.

E os efeitos colaterais? Não há substância, em matéria médica ou sociológica, que não os apresente. Pois a transformação é também contra a tirania velada do tal “formador de opinião”. O autoritário, cantor, astro ou famoso que indica seu sucessor pode estar entrando em decadência.

A autoeducação amplia muito a visão. Enfim, se enxerga com muito mais clareza a inconsistência quando somos mal dirigidos ou governados, e como é possível inverter os ritmos que antes pareciam ser nosso único destino.

Veja a matéria no Jornal do Brasil

Saciedade e Fraternidade.

Seria possível coletar muita informação dos cartazes, faixas e slogans destes últimos dez dias. Poderíamos até fundi-las com as de maio de 1968. Mas pergunto se será possível ao Estado atender tantos pedidos simultâneos? Se não fizemos em 500 anos, vão providenciar para a semana? Não seria, talvez, exigir demais? Não que o Estado tenha se comportado bem com o cidadão, pelo contrário. O Bullying de Estado comprova o quanto o Poder contemporâneo massacra seus súditos.

Há algum tempo o filósofo Edgard Morin indagou se na luta por transformações não nos faltaria um terceiro elemento? Aquele que complementa liberdade e igualdade, para além da liberdade e da igualdade. Um elo vital que caracterizaria uma outra perspectiva existencial. Segundo ele, nem antes nem depois nem nunca foi colocado em pauta!

Os grupos que foram às ruas pelo País saíram inicialmente com pauta única, mono específica: redução dos valores das passagens. Avaliando o eco que o MPL conquistou, ampliou as ordens (não importa que o MPL não tenha autorizado a participação de outras pautas, a sociedade é, para usar o jargão, horizontal e autonômica, portanto, todos devem ter o mesmo direito de reivindicar) desta vez muito mais abrangentes e abstratas. Os sonhos foram colocados nas demandas. Aspirações românticas. Desejos breves. Necessidades imediatas. Coisas inadiáveis. Tudo para ontem, para já, numa pauta insaciável.

O que se pede é muito mais que troca de regime. A demanda foi quase que comandada por uma inusitada rede de significados. É como se o consumo e a energia motriz acumulada por tantos anos de paralisia, sedentarismo e vida virtual tivessem jorrado para fora das cabeças e dos corpos ao mesmo tempo. Agora, passado o espasmo, já é outra coisa. Racionalizada e analisada a coisa toda não só perde um pouco de graça, esvazia-se o sentido. O charme da bagunça e da rebelião era exatamente guiar-se pela intuição, imaturidade, matizado por certa irracionalidade e leveza. Anarquismo ameno, bem humorado, que não podia ser reduzido a um gesto político muito menos ser interpretado à luz das ciências sociais. A concretude aspirada – diminuir as mazelas reais – era menos importante do que só se expressar. Testemunhe você mesmo, muitos nem imaginam o que é PEC 37 ou Ato Médico.

Leia mais no site do Estadão.

Paulo Rosenbaum no Portal UbaWeb

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O portal publicou o artigo de Paulo Rosenbaum sobre as manifestações no Brasil, veja:

UbaWeb

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Novo Post em “Conto de Notícia”- Blog Estadão

Movimento deixará população mais vigilante

As faces do movimento nas ruas: Punks, tribos sem vínculos políticos, viciados, trabalhadores e moradores de rua foram personagens dos protestos

O maior inimigo desta vitória não foi ainda identificado. Ele anda no esconderijo sutil, lá, onde sabe que é impossível ser defenestrado. Ficou a espreita por uma geração e meia. Ele não só se articulou para trazer a passividade excessiva, como, impedir que qualquer descobrisse qual sua missão central. Preferiu ficar imerso no na sombra, o lado escuro de todo acerto. Torcia quieto, não queria que nada atrapalhasse a hibernação coletiva.

A cara deste monstro inominável bem que poderia ser encontrada naqueles gibis velhos. Deveríamos procurá-lo nos antigos romances. Em meio aos personagens estereotipais. Alguns admitem terem sentido sua presença em becos sem um pingo de esperança. Ele esteve nas piores guerras, nos massacres sucessivos. Dizem que ele vigia e estimula as ofensas que cometemos uns contra os outros. Viveu em toda opressão que exercemos sobre aqueles que não podem se defender. Sua última aparição pública precedeu a devastação e depois comandou as sessões de tortura contra a natureza.

Essa aberração nunca esteve longe. Sempre aqui, bem ao lado. Low profile, foi criado em cada casa. Alimentado em cada escola. Mantido em todos os postos de trabalho, em qualquer reunião, nos passeios, nos mercados e na via pública.

O silêncio. Exato, é dele que falamos. Ádito, omissão, interdição do diálogo, apuridar-se.

Há terapêutica? Mas é claro, diálogo, seu nome é diálogo! Também conhecido por interlocução, conversação, debate, parouvelar, cavaquear, discretear.

Mas soube-se que o medicamento, apesar de ser instrumento imprescindível para a democracia, passou gerações inteiras sem ser treinado ou ensinado. Por aqui ninguém compreendeu sua importância. Sua força permanece ignota. Cult para as ciências humanas, só foi isolado para estudo em profundidade uma vez em maio de 1968. Enigmático, ninguém das ciências naturais ousou mensura-lo em joules até que ele escapou de uma prisão de segurança máxima.

As vozes que agora se ouvem não querem só gritar. Preferem audiência atenta, intensa, prolífica. Não podem mesmo ficar impassíveis quando sentem a farsa. E quem atua no poder não pode fingir. Não pode atuar para fazer parecer que não é com ela. Quem governa não pode dissimular. Ignorar quem fala é como cultivar o abandono. Ainda que não saibam perfeitamente disso, a multidão exige mais ser escutada, que obter respostas práticas pelas quais ela luta. Não há culpa e sequer culpados isoladamente. Precisamos consentir: o mal já estava sendo feito há muito. Feito e consumado. Eu mesmo demorei para perceber que não era só o caso de consumidores enfurecidos. Era isso também, mas era mais.

Leia a matéria na íntegra

Ousadia para ouvir

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Enquanto a inflação volta e a crise econômica se instala, o mercado de opiniões opera em franca oscilação. O que se condena hoje exalta-se amanhã, e vice-versa. Os analistas se desencontram. A coerência e a verdade vão ao sacrifício. Uma coisa parece estável: a tentativa de encontrar culpados pela crise. Ela transitou entre governo federal, globo, políticos de Brasília, gastos da Copa, insegurança e omissão do Estado em assuntos vitais. Ninguém tem razão sozinho. Não se pode ter a tentação de achar que tudo é problema oriundo da inoperância petista. E quanto a essa oposição que engoliu tanto sapo e só agora soluça? Tímida, amedrontada e estudando os benefícios da desorganização. Não tão rápido nem tão simples. E os votos desta moçada? Onde foram despejados? Há poucos meses, sufragaram esses mesmos que agora são contestados.

O problema é que o poder e os poderosos chamaram para si e magnetizaram a ira quando tripudiaram com postes eleitos sem luz própria, com medidas duras de autoacobertamento, e, principalmente, pela arrogância escancarada à luz do dia. Só há uma saída: cultivar a ousadia de ouvir. As ironias e o sarcasmo como que foram se liberando, e não passaram despercebidos pelos homens e mulheres comuns que agora marcham.

Sabe quem pode ter decifrado fração importante destes nós? Sob o incômodo exercício da função de máxima autoridade judiciária da República,  Joaquim Barbosa afirmou que os partidos no Brasil eram “de mentirinha”. Talvez pudesse não ter dito isso sendo quem é, e representando o que representa. Mas julguem por vocês mesmos mediante observação das ruas. Aquela verdade inconveniente não continha mais que mero fundinho de razão? Muita gente — a maioria que assistiu ao desenrolar das discussões no STF  gritava “sem partido, sem partido”. É inegavelmente um novo fenômeno social, que vai gerar implicações políticas adiante.

E agora? Espera-se civilidade e respeito, sem dúvida. Mas por que temos a sensação de que o poder público está se omitindo? Medo das massas? Aflição pela sangria de votos já em curso? Para garantir a integridade dos manifestantes e das cidades estamos testemunhando um colapso paralelo. O estado de direito ainda deve ou não prevalecer numa democracia? Cidadãos podem aplaudir, mas não querem ser acuados pela liberdade dos outros. É para esperar os tribunais revolucionários? Para quando? Vai ter fórum privilegiado para quem apoiou?

Pode-se perguntar como fica o direito dos que não se manifestaram?   Vinte e dois hospitais nos arredores da Paulista não têm podido funcionar adequadamente e em outras capitais mais gente ficou sitiada. Alguém contabilizou? Alguém sabe o que isso significa para as famílias com parentes internados? Estão se lixando? Um detalhe? Ah, isso é coisa de burguês? Mas o risco de se aglutinar é esse mesmo. Perder a individualidade, abandonar-se à transcendência horizontal, e, com isso, esquecer do motivo que, em última análise, nos impeliu às ruas: opor-se ao massacre do sujeito.

Deveríamos sempre lembrar que, em qualquer causa justa, renunciar à delicadeza é o princípio do fim.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/06/20/ousadia-para-ouvir/

Paulo Rosenbaum na Revista Voto

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A versão online da Revista publico o artigo de Paulo Rosenbaum sobre as manifestações no Brasil. Veja:

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Insatisfação ampla geral e difusa: hipóteses

 

Manifestantes vão filmar e denunciar ação de vândalos

Movimento Passe Livre adotará medida no protesto desta segunda-feira, dia 17, no Largo da Batata, para evitar violência e confronto com a Polícia Militar

 

Muitas vezes, a análise jornalística deriva para o campo opinativo. Melhor então ficar com as hipóteses que as certezas.  

Recente artigo traduzido para o inglês e publicado no site da CNN diz sobre “as verdadeiras causas das manifestações em São Paulo”. Depois alguém postou um outro com legenda e tudo. Em nenhum momento a pessoa se identifica nem fala a qual partido ou organização pertence.

Afinal, quem são eles? O que querem? Quem os subsidia?

Contudo, antes é preciso lembrar da sequencia cronológica de eventos. Começou com a mobilização pelo passe livre, bandeira de partidos de extrema esquerda que entre outras perspectivas pedem em seu programa de governo o “fim do capitalismo” e a adoção, como princípio político, “a ditadura do proletariado”. Não merece comentários a incapacidade da esquerda latino americana de reciclar o marxismo, tampouco sua visão estanque e quadrada da realidade social. Há uma paralisia mental que não consegue perceber que é vital ressignificar o socialismo e o que se entende por justiça social. Isso, se quisermos ter qualquer viabilidade democrática em nossos tempos.

Entre os integrantes do MPS há gente autenticamente indignada mas entre eles estão grupos anarquistas, trotskistas, juventude do PT, agrupamento freelances, e, mais recentemente, parece que ajuntaram-se a eles torcidas organizadas e MMA autônomos. A polícia reagiu, ao que parece com intensidade um pouco maior do que a situação pedia, e ai começou, de fato, a se desenrolar o que realmente interessa para construir hipóteses.

A instrumentalização se tornou patente e enquanto o governador se degastava opinando, o prefeito titubeante se calava. Só depois, tardiamente, acenou de Paris que a culpa pelo acirramento dos conflitos era da polícia militar do estado. Muito conveniente. Após uma semana tergiversando resolveu sentar-se com os manifestantes. O que isso indica? Que o que está em jogo de imediato é, na verdade e de fato, a sucessão ao governo de São Paulo. Não é a toa que as fichas lançadas e jogadas de vários cantos do país estão vindo parar neste Estado.

Para ler na íntegra

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia

Anomia

 

Sete mil marcham em Brasília e ocupam a cúpula do Congresso

Policiamento não conseguiu deter avanço dos manifestantes; protesto teve motivos diversos, desde o aumento de tarifa a temas da política nacional

Onde andam todos eles? Sabe aqueles carismáticos? Sumiram? É compreensível, não querem se desgastar por nada. Se o movimento vinga eles podem sacar uns votos, se não der certo eles arrumam a gravata e bola pra frente. Não foi sempre assim por aqui? Quer dizer, só para recapitular, há um povo sem liderança? Ou há lideranças sem povo? Normalmente não, mas a esta altura tanto faz. Todo mundo sabe que estava para acontecer. Ninguém tinha coragem de acender a lamparina para enxergar que no porão tinha gente. Sim, sim, gente. Mas entupir as pessoas em vagões e encher as plataformas e a cegueira, agora se vê, era para não ter que apertar o cinto. Não tem médico? Importa de Cuba. Não tem infra? Improvisa com esparadrapo. Não tem caixa pro essencial? Truque fiscal. Não tem segurança pública? Prende uns pés de chinelo. Não idiota, era de mentirinha! Não percebeu não? Era para meter medo nessa burguesia reacionária. Que nojo. E aí vieram os incríveis estádios, a vila olímpica (já tinha a que sobrou do Pan) grandes discursos, base alugada, derrama e a mídia paga. Se não funciona vamos controlar os jornalistas. Os mais indóceis despede. Os testudos, a gente põe no plano B. Pronto, o grande confeiteiro, com a ajuda do economista que era a medula espinhal da Arena, criou mais este grande bolo: estava constituída a quinta economia do mundo. De décima, mas era a quinta do mundo. Mas ainda não estava na hora de dividir. Renda de verdade não presta. O que funciona na base da gratidão é uma bela de uma bolsa cala-boca. E vamos adiar a infra para tocar mais fermento na coisa. Isso, até que estejamos maduros para dividir. Houve um problema quando o chefe ditava.

 

Ver mais em

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/anomia

 

Deteste o senso comum

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“Destarte se esclarece o entendimento, Que experiências fazem, repousando, E fica vendo, como de alto assento, O baixo trato humano embaraçado.

Este, onde tiver força o regimento, Direito, e não de afeitos ocupado,

Subirá (como deve) a ilustre mando, Contra vontade sua, e não rogando” (Camões, Os Lusíadas, Canto VI)

Os slogans de luta estão de volta. A geração pós-ditadura militar, pós-Collor e pós-Lula agora se escandaliza com a volta da inflação e os preços praticados no Brasil. De repente, consensos feitos à nossa revelia ganham as ruas como grito coletivo. Você pode até se ver no meio de uma marcha, sem saber se aquilo de fato representa o que você quer. A passagem está cara? Alguém há de pagar. Atraso na estação de metrô? Vamos botar para quebrar. A maconha está proibida? O trânsito vai parar. Meu time perdeu? Toca a incendiar carros. O que isso quer dizer? Que vivemos a sociedade de tolerância zero. Zero de frustração. Zero de civilidade. Quem grita mais alto leva. Pois não é que os militantes do precinho, regidos pelo imediatismo, também se apoiam no senso comum?

Vivemos a sociedade de tolerância zero, zero de frustração, zero de civilidade

Destarte, o notável agora, fora a promoção da violência, tem sido testemunhar a pobreza de espírito das últimas reinvindicações. Melancólico constatar que não lutam por mais liberdade, contra a censura, nem por ética na política. O problema não são gerações de administradores com descaso pelo transporte público ou com a calamidade das cidades. Agora a boa briga é berrar contra aumento das tarifas e miudezas de ocasião. Tantos exemplos municipais, estaduais e federais em que tivemos o “pragmatismo acima de tudo”, que eles, enfim, aprenderam. Querem mais é desconto.

Esta consciência instantânea — linchamentos, justiça relâmpago e turbas inflamadas fazem parte do pacote — é a outra faceta do senso comum que escraviza a maioria. Ela também é a responsável pelas catarses sociais sem causa, pelo cabresto eleitoral e pelo culto às celebridades. É preciso coragem para ir contra o senso comum e confirmar que precisamos de uma refundação. Das noções de ética, valores e princípios.

Mais um motivo para que você deteste o senso comum. As propostas oriundas dele pressupõem uma redução intelectual drástica, e ainda ameaçam virar soluções imediatas para os grandes problemas sociais como violência, corrupção e desmandos. E tanto faz a ideologia. Faz parte do acervo: “Por que eu não faria se todo mundo faz?”, “Bolsa Família resolveu os problemas de renda no Brasil”, “reduzir maioridade penal e dar mais poder de fogo à polícia”, “políticos não prestam”, “direitos humanos servem para proteger criminosos”, “ficaram ricos porque roubaram”, “a ditadura é que era boa”, “está desempregado porque é vagabundo”, “se ele indicou para votar, deve ser bom”, “os responsáveis pelos nossos problemas são os outros”.

Essas e tantas outras preciosidades que se ouvem pelas ruas são exemplos de como noções silenciosas se formam, crescem e migram, sem que se possa refletir sobre elas. Os populistas e a casta de dirigentes que nos assistem fazem amplo uso, não só subliminar, dessas vozes sociais. E ninguém negará seu êxito: reproduzem direitinho o que se quer ouvir para contabilizar votos. É a política do eco.

Noções silenciosas se formam, crescem e migram, sem que se possa refletir sobre elas

Um político reformador, original, crítico e criativo não teria a menor chance frente à massa de chavões e lugares comuns que são campanhas eleitorais. Decerto, um candidato que não ficasse na reprodução dos refrões e obviedades seria tomado como elitista,  eleitoralmente inviável ou louco.

Albert Camus queria assassinar toda esperança. Max Weber pedia desprezo pelo senso comum. Mas realismo sem esperança é autoflagelo, e não se pode simplesmente ignorar a multidão. Mesmo assim, diminuir as expectativas e educar-se para não ser pressionado pelas opiniões coletivas é uma alternativa política para que cada um aspire a ser sujeito da própria história.