Movimento deixará população mais vigilante

As faces do movimento nas ruas: Punks, tribos sem vínculos políticos, viciados, trabalhadores e moradores de rua foram personagens dos protestos

O maior inimigo desta vitória não foi ainda identificado. Ele anda no esconderijo sutil, lá, onde sabe que é impossível ser defenestrado. Ficou a espreita por uma geração e meia. Ele não só se articulou para trazer a passividade excessiva, como, impedir que qualquer descobrisse qual sua missão central. Preferiu ficar imerso no na sombra, o lado escuro de todo acerto. Torcia quieto, não queria que nada atrapalhasse a hibernação coletiva.

A cara deste monstro inominável bem que poderia ser encontrada naqueles gibis velhos. Deveríamos procurá-lo nos antigos romances. Em meio aos personagens estereotipais. Alguns admitem terem sentido sua presença em becos sem um pingo de esperança. Ele esteve nas piores guerras, nos massacres sucessivos. Dizem que ele vigia e estimula as ofensas que cometemos uns contra os outros. Viveu em toda opressão que exercemos sobre aqueles que não podem se defender. Sua última aparição pública precedeu a devastação e depois comandou as sessões de tortura contra a natureza.

Essa aberração nunca esteve longe. Sempre aqui, bem ao lado. Low profile, foi criado em cada casa. Alimentado em cada escola. Mantido em todos os postos de trabalho, em qualquer reunião, nos passeios, nos mercados e na via pública.

O silêncio. Exato, é dele que falamos. Ádito, omissão, interdição do diálogo, apuridar-se.

Há terapêutica? Mas é claro, diálogo, seu nome é diálogo! Também conhecido por interlocução, conversação, debate, parouvelar, cavaquear, discretear.

Mas soube-se que o medicamento, apesar de ser instrumento imprescindível para a democracia, passou gerações inteiras sem ser treinado ou ensinado. Por aqui ninguém compreendeu sua importância. Sua força permanece ignota. Cult para as ciências humanas, só foi isolado para estudo em profundidade uma vez em maio de 1968. Enigmático, ninguém das ciências naturais ousou mensura-lo em joules até que ele escapou de uma prisão de segurança máxima.

As vozes que agora se ouvem não querem só gritar. Preferem audiência atenta, intensa, prolífica. Não podem mesmo ficar impassíveis quando sentem a farsa. E quem atua no poder não pode fingir. Não pode atuar para fazer parecer que não é com ela. Quem governa não pode dissimular. Ignorar quem fala é como cultivar o abandono. Ainda que não saibam perfeitamente disso, a multidão exige mais ser escutada, que obter respostas práticas pelas quais ela luta. Não há culpa e sequer culpados isoladamente. Precisamos consentir: o mal já estava sendo feito há muito. Feito e consumado. Eu mesmo demorei para perceber que não era só o caso de consumidores enfurecidos. Era isso também, mas era mais.

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