Seria possível coletar muita informação dos cartazes, faixas e slogans destes últimos dez dias. Poderíamos até fundi-las com as de maio de 1968. Mas pergunto se será possível ao Estado atender tantos pedidos simultâneos? Se não fizemos em 500 anos, vão providenciar para a semana? Não seria, talvez, exigir demais? Não que o Estado tenha se comportado bem com o cidadão, pelo contrário. O Bullying de Estado comprova o quanto o Poder contemporâneo massacra seus súditos.

Há algum tempo o filósofo Edgard Morin indagou se na luta por transformações não nos faltaria um terceiro elemento? Aquele que complementa liberdade e igualdade, para além da liberdade e da igualdade. Um elo vital que caracterizaria uma outra perspectiva existencial. Segundo ele, nem antes nem depois nem nunca foi colocado em pauta!

Os grupos que foram às ruas pelo País saíram inicialmente com pauta única, mono específica: redução dos valores das passagens. Avaliando o eco que o MPL conquistou, ampliou as ordens (não importa que o MPL não tenha autorizado a participação de outras pautas, a sociedade é, para usar o jargão, horizontal e autonômica, portanto, todos devem ter o mesmo direito de reivindicar) desta vez muito mais abrangentes e abstratas. Os sonhos foram colocados nas demandas. Aspirações românticas. Desejos breves. Necessidades imediatas. Coisas inadiáveis. Tudo para ontem, para já, numa pauta insaciável.

O que se pede é muito mais que troca de regime. A demanda foi quase que comandada por uma inusitada rede de significados. É como se o consumo e a energia motriz acumulada por tantos anos de paralisia, sedentarismo e vida virtual tivessem jorrado para fora das cabeças e dos corpos ao mesmo tempo. Agora, passado o espasmo, já é outra coisa. Racionalizada e analisada a coisa toda não só perde um pouco de graça, esvazia-se o sentido. O charme da bagunça e da rebelião era exatamente guiar-se pela intuição, imaturidade, matizado por certa irracionalidade e leveza. Anarquismo ameno, bem humorado, que não podia ser reduzido a um gesto político muito menos ser interpretado à luz das ciências sociais. A concretude aspirada – diminuir as mazelas reais – era menos importante do que só se expressar. Testemunhe você mesmo, muitos nem imaginam o que é PEC 37 ou Ato Médico.

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