Blog Estadão – Atores Fartos

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Parecer do MP Eleitoral rejeita registro de novo partido de Marina Silva

PT comanda obstrução e impede minirreforma eleitoral para 2014

O PT e o PSDB praticamente monopolizaram os últimas duas décadas da historia política recente. Ainda que tenhamos avançado nos indicadores sociais, nenhum deles fez as reformas essenciais, aquelas que nos concederia estabilidade política e social. Pelo contrário. Essa, a prova empírica do esgotamento e do final de um ciclo. Por outro lado, há uma incapacidade generalizada de interseções que favoreçam causas comuns. A resultante desta inação têm feito as instituições descerem ao descrédito. A manutenção de um governo com oposição sombra, vale dizer, que não se antecipa, limitando-se ao observatório  reativo e que caminha ao reboque das denúncias, facilita o trabalho de uma aliança que deveria gerenciar o País.  Quem governa precisa entender o ônus do desgaste, quem se opõe, o dever de explorar as falhas e apontar saídas republicanas. Quando nem uma coisa nem outra acontece, os fatos criam as fontes: as ruas. Só que ruas que não se organizam são avenidas franqueadas à violência e ao desatino. O resultado é a criação de uma zona franca de intolerância na era geral das incertezas e do mal estar. Barrar novos partidos é destruir o princípio da isonomia e mais um passo para enaltecer simbolicamente um cenário devastado,  enquanto nós, os atores da peça estamos sincera e justificadamente fartos.

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Blog Estadão – Memórias Bem Mais Póstumas

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA
LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS
Ao leitor

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e

consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem

leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na

verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um

Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado.

Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse

conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a

gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor

dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O

melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito

contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas

Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria

curioso, mas minimamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar,

fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas

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Memórias Bem Mais Póstumas

Tudo consumido, passado século e meia década, volto para dizer aos que esta é só uma penúltima comunicação antes que se suma de vez. E, sem constrangimento, peço aos leitores que esqueçam os autores, lembrem das obras.

O entendimento é retrospectivo e só agora pude realizar que não deveria ter confessado e registrado que um livro tenha uma escolha como, por exemplo, a de ser destinado para poucos. Nunca ousaria tanto elitismo, como foi o caso deste primeiro prólogo. Hoje, de onde escrevo posso estimar melhor:  um livro redigido para atrair o leitor pode apresentar evidentes vantagens. Mas os originais baseados em trabalho e autenticidade, ainda que não promovam glória, fama ou riqueza, confere ao autor a sensação, decerto injustificável, de algum dever cumprido. Isso é, melancolia, galhofa e experiência são insubmissas. Nem aí, nem aqui o cabresto lhes presta. O mundo, imagino, mudou, menos a sombra, a opinião e a risada.  A mensagem é que os finados, mesmo imortais, não mais reagem à picada do insulto, nem à alegria do elogio. Não é que tenhamos nos livrado dos críticos, nem atingido a equanimidade, nos falta um teco de presença de espírito.

Ainda Brás Cubas

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Arte é espírito

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Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Arte é espírito

Paulo Rosenbaum

Em recente discussão sobre o que significa a arte e as manifestações artísticas apareceu a expressão: o que isso te sugere? Pensando nisso, é possível perceber a arte como análoga ao funcionamento da psique, do espírito?

Assim como a arte sugere, emula, cogita ou denota, o espírito constrói suas criações. A arte é talvez a mais elevada função do espírito, acima até mesmo das funções consideradas nobres pelas várias tradições religiosas. A palavra arte, segundo Lalande, comporta “dois sentidos simetricamente inversos, a partir da mesma raiz”. O termo grego tekhné pode significar ambas, técnica ou arte.

O que mais nos interessa para esta discussão talvez seja a expressão artifex: o homem que encarna uma ideia (para fins práticos ou ideais). E o dicionário filosófico cota Cassiodone: a lógica é uma ciência ou uma arte?

A arte pode ser uma técnica, uma razão, um método e um modo de fazer. Mas a arte também pode ser considerada a manifestação através da qual mais nos aproximamos do sagrado. Trata-se de criação lato sensu. Diferentemente dos sonhos e dos enredos reagrupados por vestígios diurnos e inspirações psíquicas diversas conscientes e inconscientes — o artista transforma (pois conforma) uma ideia. Converte uma sensação, intuição ou lampejo em um texto, música, coreografia, peça teatral, desenho, invento, escultura, ou desdobra numa outra inspiração. Todos estes gêneros e tantos outros não têm a função de nos converter ao ponto de vista do autor.

Quanto mais o artista mergulha em seu esboço e trabalho, mais impregna o suporte com sua intensidade e metabolismo: isso significa que o artesão embebe de espirito sua criação. Daí o caráter universal da manifestação artística. Os cavalos tridimensionais da caverna de Chauvet (cerca de 30 mil anos) não ficam a dever para qualquer artista moderno ou contemporâneo. Quanto mais aberta e abrangente for uma criação, mais capacidade terá para nos deslocar para um lugar diferente do qual estávamos antes de viver aquela experiência.

Movimentar-nos para outro plano é o que a arte, incluindo a dialógica, pode nos proporcionar de mais significativo. Ao entrar no lugar do outro demos um passo à integração. Misturamo-nos com o coletivo, sem abolir as idiossincrasias, base de nossas constituições únicas.

Neste sentido, a experiência do artista precede e transcende a técnica, ainda que dela nunca possa se desligar se realmente deseja que sua obra, assim como a formatação dada a ela, alcance as pessoas. Isso significa que há uma potência inata para criar e que todos podem fazer alguma coisa nova usando a imaginação. Se Aristóteles estiver certo ao afirmar que a alma pensa através de imagens, temos a desesperada missão de explorá-las ao máximo.

Todos devem exercer a capacidade criativa — neste sentido o processo criativo poderia ser classificado como um órgão funcional. Criar é retirar a potência de onde nada existia. Possivelmente é uma forma inteligente para dissipar uma das maldições do mundo: o lugar-comum, as cópias, as reproduções.

A ruptura com o mundo de modelos e moldes preestabelecidos torna a arte uma inspiração para que possamos cuidar da principal invenção disponível que é a nossa própria vida. Não necessariamente, muito menos todo tempo, as manifestações da arte têm força, verdade, originalidade e caráter estético para que o autor possa ser reconhecido, “bom” ou “grande”. E daí?  Não é isso que importa. Mas, sim, a capacidade que alguém tem para se expressar com autenticidade e o que aquilo pode representar para o outro e principalmente para o próprio sujeito. Uma trajetória de alivio, saúde e permanência. Quem dera a política voltasse aos trilhos da arte e, trocando de lugar, se reinventasse.

 http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/09/26/arte-e-espirito-2/

  

Impulsos que pairam

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Alguém apresentou um interessante painel colorido referente à recente votação do STF sobre os Embargos Infringentes. Ele demonstrava graficamente a guerra de twiters entre os que eram a favor e contra a decisão da corte. O clima esquentou muito e se transformou numa batalha sem grande poesia. Logo as redes repercutiram: apareceram pessoas lamentando por que tanta celeuma? O que justifica a intensificação das hostilidades? Denota bem o estado das coisas no País. A falência da crítica e a asfixia do diálogo. Atos impulsivos pairam sobre todos nós. Uma análise preliminar sobre os julgamentos instantâneos, é que a web não só permite, como convida, aguça e endossa o ímpeto para opinar. Uma hipótese a ser comprovada adiante é que a ação da escrita numa rede gigante, vale-tudo e interativa, excita o automatismo. Isso significa que a frente do teclado e diante de algum assunto no qual estamos levemente convictos, decidimos nos expressar na lata, explosivamente. Muitas vezes, vale dizer a maioria, abolindo uma análise autocrítica, deixando de esmiuçar a fonte de onde bebemos a informação. O resto vira detalhe: involuntariamente podemos estar caluniando, fazendo platéia para meias verdades ou só repassando más interpretações. No caso de um post, e-mail ou in box recém emitido, quando o tal exame autocritico chega, vem tardio. Ai, só mesmo o pedido de desculpas, o remorso ou o “que se dane”. Nesse caso é correr para mergulhar nas brigas. Isso significa que as opiniões colocadas no ciberspace, via de regra, obedecem uma vontade quase instintiva, semi-irreflexiva. Não chega a ser fluxo de consciência, mas quase. Não é fortuito que as pessoas tenham brigado e se agredido mais online. Que as discordâncias instantâneas – que em outro contexto (num bar, ao vivo, ou numa conversa intima poderiam ser intercorrências sem importância) – passem a gerar cadeias de mal estar.

Para ler mais e comentar

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/impulsos-que-pairam-sobre-nos/

 

 

Dia da Árvore

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159a palavra a aparecer no Gênesis, a primeira referencia histórica literária aparece na “Morte do Rei Artur”

Vegetal lenhoso cujo caule chamado tronco só se ramifica bem acima do nível do solo (Século XIII)  do latim arbor –óris. Arvorar (Século XV). Provavelmente do latim arborare, alberare, guarnecer árvores a nave

Fontes:

Ronai, Paulo, Dicionário Etimológico da língua portuguesa, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982

Nascentes, Antenor. Dicionário Etimológico da língua portuguesa. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1932

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Do justo à razão da justiça

Um julgamento não é um acerto de contas, mas uma acareação interpretativa entre leis e aqueles que as desafiam. Seu caráter é simbólico, mas também punitivo e pedagógico. Em meio às prateleiras dos museus de processos, já foi possível escrutinar acertos, imprecisão, sabedoria, parcialidade, erudição, distorção, esclarecimento e conflito de interesse. Já o justo é outra história. Sobrevive de critérios diversos: reintegra o perdido, restaura a liberdade dos inocentes, sacia a sede dos injustiçados, redime traídos, compensa humilhados e talvez sua missão mais significativa: protege o cidadão do próprio Estado. O justo é flexível, enquanto o rigor jurídico pode algemar. Por outro lado, como é perigoso abolir a técnica para contar só com a consciência; formula-se um veredito seduzido pelo mais forte,  favorece-se o mais fraco ou cria-se a média com o aplauso das massas. Quando o caso se situa no campo dos governantes, ex governantes, ou gente economicamente potente, tudo é mais problemático.

Para ler mais

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Competição e extinção

Competição e extinção
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Jornal do BrasilQuinta-feira, 19 de Setembro de 2013

 

Não é só pelo aumento estatístico das taxas de suicídios verificados no mundo, especialmente depois da crise econômica de 2008 – segundo estudo publicado recentemente no British Medical Journal, 5000 pessoas a mais do que o esperado tiraram a própria vida em 2009 – nem pelos crescentes aumentos dos índices de violência urbana e doméstica, mas pela natureza cada vez mais corrente e vulgar com que o trágico nos rodeia. O aumento da velocidade das informações é apenas um fator na perigosa estrada inacabada.

A frieza com que a ciência trata os números não decorre de uma crueldade especial da estatística e da matemática, mas necessidade se não de pensar aspectos incompreensíveis da realidade pelo menos tentar explicita-los à nossa própria percepção.

Especialistas se dividem na análise destes fenômenos. A maioria avalia que se trata de um contexto especifico que gera e mistura elementos de pressão social com a tendência cada vez mais forte de replicar uma coletividade com comportamentos individualistas e competitivos – o sustentáculo de nossa organização cultural – e que a hiper segmentação social criaria nos grandes centros urbanos ilhas de isolamento e penínsulas de insatisfação. Mas será mesmo a solidão o elemento determinante? Pode haver solidão com, sem, e apesar de gente em volta. Pode haver apartamento mesmo nos compartilhamentos e pode haver diálogo mesmo quando não temos alguém perto.

O psicanalista Joel Birman publicou contundente artigo no Jornal O Estado De São Paulo abrindo boa discussão sobre a relação entre os estados depressivos e a exigência e pressão por performance nos sujeitos das sociedades neste contexto do fim da pós modernidade. O que criamos foi uma corrida extravagante e insana. Um cotidiano que privilegia o consumo e enaltece a busca da distração como categoria de sucesso, e portanto significando que aí está o “bem viver”. Frustrados, com a impossibilidade de uma ou ambas dessas premissas nirvanicas, nos restaria o ostracismo das ilhas de posse e o exílio da bem aventurança do entretenimento. O resultado nos faz mergulhar, todos, em uma espécie de abismo de difícil nomeação. Nele, a tônica essencial, e portanto a única saída pareceria ser medicalização da subjetividade ou recorrer à resignação extemporânea que nos torne aptos a estornar as mazelas no fim do dia. Busca-se tratamento para infelicidade e angustia quando se há alguma enfermidade ela está na crise de sentido. O sofrimento é uma trinca interna e é ela que responde pelo ilusão de que a extinção é preferível à vida. E a pulsão de morte, ardilosa, pode funcionar ao modo de epidemia, infelizmente.

Os tratamentos podem ou não funcionar e a resignação, alcança, no máximo, fazermos encarar a existência miúda como um bônus de consolação por nossa inépcia difusa. O preço pela inoperância em gerar renda, status e lazer é não poder ter uma vida com significado. Isso significa, não ter amigos, não poder contar com eles, pois tudo indicaria que aqueles que existem provavelmente, não seriam confiáveis. Esta crise nas relações poderia estar diretamente relacionada com a sensação de que dar cabo da própria vida seria medida eficiente para reduzir a tensão a zero, conforme a hipótese de Canguilhen.

Inútil dizer que isso não é eficiência. Enquanto isso janelas, venenos, armas brancas e de fogo vivem sendo usadas como instrumentos para as últimas deliberações de uma pessoa.

A busca por uma sociedade que faça sentido é a busca mesma do sujeito que se enxergue, o que faz, com quem faz e para que faz.

É abandonar os manuais, escancarar as teorias da vida e orientar-se pela totalidade de sintomas e sinais de nosso desejos e aspirações, integradores de nossos sonhos, que guiam nossa intuição e coração. Talvez não haja nenhuma saída fácil para quem acha que nada mais faz sentido. Apenas faze-los saber, que não há fim do mundo, enquanto ele puder contar consigo, e, portanto, gente para conversar.

Competição e extinção

Desate o empate

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Desate, o empate

Reis tombados, xeque-mate

Torne crível, como todo jogo inesquecível!

Xadrez_no_SupremoVIVFhttp://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/

Curva da justiça

O que sairá deste último voto não é o inesperado. No país do carnaval o que realmente surpreenderia seria uma guinada magnífica, uma meia bicicleta que pegasse o goleiro de calças curtas.

Não resta a menor dúvida, somos mesmo um bando de leigos. Mas ainda podemos reconhecer quando estamos perto de cerol: linha perigosa que se faz com cacos de vidro moído. Esticada, está prestes a separar de golpe a técnica do sentido. Justo ou não, o trabalho de anos recaiu nas mãos de uma só pessoa. Ele terá o poder de selar destinos e, aos olhos de milhões, redesenhar a concepção de ética. O decano que decidirá foi aquele que usou as palavras mais articuladas, precisas e enfáticas para se referir aqueles que tentaram sequestrar o Estado, monopoliza-lo ideologicamente para depois reduzi-lo a um parque temático partidário.

Alguém disse que não se importa com o que os jornais dirão amanhã. Mas não estará aí, precisamente, um dos equívocos sobre a representatividade de um poder republicano, o mais importante dentre todos? Ninguém precisa ter medo da mídia. As manchetes não são nem vilãs nem heroínas, apenas estampam o que, as vezes, não se pode enxergar do lado de lá dos gabinetes blindados.

O que os jornais dirão na próxima semana? Que somos um país alegre porque pessoas foram condenadas? Ou que somos uma nação em luto porque réus se safaram por decurso de prazo, leniência ou falseamento, mesmo que involuntário, das regras do jogo?

Para ler mais

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Desrazão do perdão

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

11/09 às 18h05 – Atualizada em 11/09 às 18h27

Desrazão do perdão

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Teremos valores inatos? Será a ética um deles? Um exemplo de como os critérios na atual construção social podem ser voláteis é que, por exemplo, a competição entre as pessoas é desejável. Isto é, é aceitável mencionar que “vença o melhor”, aquele que tem talento, ou “o mais dotado de habilidades” . Quem faz mais ganha mais. Mas, surpreendentemente, a verificação empírica deste axioma não passa da esquina. Não é mais pelo trabalho, nem pelo número de horas extras, nem mesmo a relação fiel que alguém tem com a  empresa ou local no qual trabalha. O que define hoje tudo é a network. O poder da rede de influências é que permite que a pessoa tenha mais ou menos oportunidades, e as vantagens da relação com o poder são óbvias. Trata-se, portanto, de uma meritocracia viciada.

Um filósofo que aborde o sentido da ética pode ser interpretado como moralista e, portanto, corre o risco de perder sua credibilidade. Entretanto, sob a vigência do atual contrato social, a ética passa a ser um valor flexível e mutável como outro qualquer. Foi assim que os consensos entre as nações acordaram que armas químicas estariam extirpadas do arsenal militar.

Historicamente, as temíveis “armas de destruição em massa” deveriam ser banidas, já que infligiam as leis éticas da guerra, escritas na célebre convenção de Genebra. Mas, se há uma ética para a guerra, deveria haver uma que regulamentasse a paz. E ela deveria prevalecer sobre as demais. Por outro lado, se dependesse dos pacifistas que não avaliam os contextos, ninguém teria enfrentado Adolf e suas máquinas de triturar partículas, povos inteiros teriam sido exterminados na África e muitas ditaduras estariam ainda em vigor pelo mundo.

As razões éticas para uma guerra? Defesa pessoal, ameaça a um povo ou grupo de pessoas, tirania de uns poucos exercida sobre muitos. Enfim, a razão será sempre pródiga em desdobrar o material para fundamentar justificativas para os tambores.

E quanto ao perdão? Há justificativas para que se perdoe alguém? Qualquer um? Todos? O perdão talvez seja o mais enigmático e deslocado dos atributos humanos. Nenhuma razão o alcança. Ele não se encaixa nas leis da evolução. Não se adequa aos exercícios de lógica. Não se adequa à teoria dos jogos, ele é, sim, frequentemente, confundido com ingenuidade religiosa.

Portanto, é o sentido e o fenômeno que merecem, vale dizer, nos permitem um esboço de análise. Às vezes, decisões são difíceis, e há mais de uma resposta certa para a mesma pergunta. Uma guerra pode ser aética, suja, sangrenta e injusta, e muitas outras coisas, menos ilógica. Ela tem sido historicamente justificada, moralmente regulamentada, frequentemente exercida. Dizem que ela acontece quando se esgotaram os recursos. A incapacidade de dialogar, ou o risco de não promovê-la, representa um risco maior do que o contrário.

A guerra não faz sentido: a não ser em condições onde todas as escolhas pela paz falharam, e, neste caso, como a paz é uma qualidade mediada, a omissão recairá sobre os agentes humanos e suas instituições. As nações e suas agencias têm demonstrado prezar a burocracia, as relações comerciais e a política. Ao mesmo tempo subestima a construção de conceitos compartilháveis de pacificação. A paz não vem imposta, prensada ou imposta, ainda que possa fluir unilateralmente.

Os mesmos valores que permitem localizar o perdão como uma desrazão que ultrapassa o escopo lógico da natureza humana são aqueles que, paradoxalmente, podem nos salvar da destruição. Dar chance à paz é impor o desejo de fazer prevalecer o diálogo contra o silêncio do mundo.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/09/11/desrazao-do-perdao/