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Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Arte é espírito

Paulo Rosenbaum

Em recente discussão sobre o que significa a arte e as manifestações artísticas apareceu a expressão: o que isso te sugere? Pensando nisso, é possível perceber a arte como análoga ao funcionamento da psique, do espírito?

Assim como a arte sugere, emula, cogita ou denota, o espírito constrói suas criações. A arte é talvez a mais elevada função do espírito, acima até mesmo das funções consideradas nobres pelas várias tradições religiosas. A palavra arte, segundo Lalande, comporta “dois sentidos simetricamente inversos, a partir da mesma raiz”. O termo grego tekhné pode significar ambas, técnica ou arte.

O que mais nos interessa para esta discussão talvez seja a expressão artifex: o homem que encarna uma ideia (para fins práticos ou ideais). E o dicionário filosófico cota Cassiodone: a lógica é uma ciência ou uma arte?

A arte pode ser uma técnica, uma razão, um método e um modo de fazer. Mas a arte também pode ser considerada a manifestação através da qual mais nos aproximamos do sagrado. Trata-se de criação lato sensu. Diferentemente dos sonhos e dos enredos reagrupados por vestígios diurnos e inspirações psíquicas diversas conscientes e inconscientes — o artista transforma (pois conforma) uma ideia. Converte uma sensação, intuição ou lampejo em um texto, música, coreografia, peça teatral, desenho, invento, escultura, ou desdobra numa outra inspiração. Todos estes gêneros e tantos outros não têm a função de nos converter ao ponto de vista do autor.

Quanto mais o artista mergulha em seu esboço e trabalho, mais impregna o suporte com sua intensidade e metabolismo: isso significa que o artesão embebe de espirito sua criação. Daí o caráter universal da manifestação artística. Os cavalos tridimensionais da caverna de Chauvet (cerca de 30 mil anos) não ficam a dever para qualquer artista moderno ou contemporâneo. Quanto mais aberta e abrangente for uma criação, mais capacidade terá para nos deslocar para um lugar diferente do qual estávamos antes de viver aquela experiência.

Movimentar-nos para outro plano é o que a arte, incluindo a dialógica, pode nos proporcionar de mais significativo. Ao entrar no lugar do outro demos um passo à integração. Misturamo-nos com o coletivo, sem abolir as idiossincrasias, base de nossas constituições únicas.

Neste sentido, a experiência do artista precede e transcende a técnica, ainda que dela nunca possa se desligar se realmente deseja que sua obra, assim como a formatação dada a ela, alcance as pessoas. Isso significa que há uma potência inata para criar e que todos podem fazer alguma coisa nova usando a imaginação. Se Aristóteles estiver certo ao afirmar que a alma pensa através de imagens, temos a desesperada missão de explorá-las ao máximo.

Todos devem exercer a capacidade criativa — neste sentido o processo criativo poderia ser classificado como um órgão funcional. Criar é retirar a potência de onde nada existia. Possivelmente é uma forma inteligente para dissipar uma das maldições do mundo: o lugar-comum, as cópias, as reproduções.

A ruptura com o mundo de modelos e moldes preestabelecidos torna a arte uma inspiração para que possamos cuidar da principal invenção disponível que é a nossa própria vida. Não necessariamente, muito menos todo tempo, as manifestações da arte têm força, verdade, originalidade e caráter estético para que o autor possa ser reconhecido, “bom” ou “grande”. E daí?  Não é isso que importa. Mas, sim, a capacidade que alguém tem para se expressar com autenticidade e o que aquilo pode representar para o outro e principalmente para o próprio sujeito. Uma trajetória de alivio, saúde e permanência. Quem dera a política voltasse aos trilhos da arte e, trocando de lugar, se reinventasse.

 http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/09/26/arte-e-espirito-2/