A máscara do establishment

A máscara do establishment

Paulo Rosenbaum

17 março 2016 | 08:42

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto chapa fria, mas não lutei contra o autoritarismo, junto com a família, para testemunhar isso. Entendia e compreendia a neutralidade de tantos. Também tenho amigos e ex-amigos que se calaram com medo de ofender quem ainda acreditava no projeto que ultraja a República. No entanto, ao contrario deles, não só é nosso dever criticar o Poder, como é previsível que, num futuro não muito distante, a maioria reconhecerá o equívoco. Mais do que isso, irão admitir, inclusive, que se o petismo degenerado tivesse sucesso na implementação do golpe totalitário, todos correriam risco, risco de nem poder mais emitir suas opiniões. Depois de obstaculizar a justiça, a liberdade seria o próximo alvo. Isso já seria um grande motivo para contestá-los, ou não? Hoje parece distante, mas, na época, estávamos todos colados, bem ao lado de uma ardilosa opressão silenciosa. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, a probidade em público, a canalhice privada, as migalhas ofertadas, o populismo que subsidia, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas consciência de que o predomínio é ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. O contraditório pode ser respeitado, a bizarra defesa de um Estado movido pelo crime, não. Aqueles que persistem em endossar perderão o rótulo de sonhadores, e já não podem ser poupados. Para obstruir, é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, o juiz Moro teve razões de sobra para cercar-se de evidencias forenses. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no registro do crime? Que o legalizou em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Seu poder ceifado. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave a posse do sítio, triplex ou objetos. Se a acusação fosse clara, a fraude seria usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, ainda podem sangrar, a ferida seguirá contaminada. Contra um gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes, podem ser ouvidas à distância. Sabem o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso? Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar, se acham no direito de persistir. Com aval de intelectuais comprometidos. Poderia ser um escândalo, mas trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento a burguesia e amordaçou a sociedade. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu discordâncias. Afinal, dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O veneno triunfou, por algum tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, tem seu espelho. Do outro lado comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E combustões se propagam. Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação idealista, hoje esvaziada de sentido, nem mesmo eles podem ignorar: de fato, o establishment hoje luta pela causa: causa própria.

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Tags: blog conto de notícias, grampos, ilegalidade e ilegitimidade, máscara do establishment, o que é justo?, realidade

O mínimo que nos une (blog Estadão)

O mínimo que nos une.

Paulo Rosenbaum

13 março 2016 | 13:10

 

Eu poderia me afundar na neutralidade. Há anos faço isso. Não gosto de concentração, de aglomeração e tenho surtos de claustrofobia., Mas hoje não. Hoje um sentido de agrupamento me invadiu sem dar aviso. Caminhei quase automaticamente. Cheguei ao núcleo e lá me vi cercado de pessoas com as quais não tinha afinidades. Meu esforço era buscar qualquer identidade, parecia impossível. Continuei andando. O palco era o mesmo, o asfalto tenso com pedidos dispares, sem foco. Mas havia uma, comum à maioria. Queriam mudar. Exigiam o fim do pesadelo. Foi quando ergui o celular para captar a multidão que levei um cutucão. Era Irma, a amiga perdida, uma das melhores, que me bloqueou lá atrás, quando os escândalos começaram. Todo mundo sabe, os contatos nas redes sociais são voláteis. Com Irma era diferente, uma amiga de infância. 26 anos de contato interrompidos pela estranha devoção ao partido.

–Você, aqui? Enfatizei meu espanto.

— Só vim dar uma olhada.

— E o que me diz?

–É a direita, sempre a direita.

— Vamos começar de novo?

— Não, é só você admitir

— Admitir o que?

— Que traiu a causa.

— Minha causa é a sua causa, e de toda essa gente.

— A minha não! Ela limpou a boca.

— Qual é a sua?

— Você está careca de saber. Justiça social, decência, o fim de toda essa bagunça

— Irma, é o que quase todos querem. Dá uma parada, sinta a realidade.

Ela olha em volta e retorna um olhar negativo

— Bando de burgueses!

— Posso dizer bando de cidadãos!

— Não acredito, esqueceu das aulas?

— Fui além. Também fiz questão de desaprender livros

— Bem que me falaram, você cedeu: virou um deles.

— “Um deles”? Somos todos “um deles”

— Nada. Eu não! Ela ameaçou se afastar.

— Amiga, demorou, mas percebi: eles não eram republicanos. Não finja não ver o jogo que eles fingem não jogar.

— Aff. Não embarco nessa.

— É fácil, tirei os óculos e ajustei a lente.

— Ok. O que me diz de todos os intelectuais? A maioria fechou com o governo.

— Não é mais unanimidade e você sabe tão bem quanto eu que eles nunca tiveram bom gosto.

— Gosto? Por favor…

— Faz o seguinte, que tal confiar mais na experiência do que na sua inteligência?

— Não dá, eu ainda tinha um fiapo de esperança

— Tenha. Olha isso! E apontei para todos ali.

— Estou vendo e isso só reforça o que eu já tinha concluído.

— O que Irma?

— Que somos incompatíveis.

— E o que faremos?

— Cada um fica na sua.

— Abandonar o ideal e ficarmos com o mínimo que nos une?

Ela deu de ombros e foi se afastando, mas deu tempo para gritar

— Tem certeza?

Ela só virou o pescoço e usou a mão em concha para falar de volta

— Vou te desbloquear.

E foi desaparecendo, acenando de costas um longo tchau.

Me afastei da multidão para analisar a conversa. Desbloquear pode ter sido um sinal. Sinal de uma união possível e não ideal. De que o diálogo poderia voltar a fluir. De que uma democracia nunca é perfeita, comporta contrários e não anula ninguém. Que a incompatibilidade era uma espécie de cortina de fumaça de uma fogueira que nenhum de nós dois criou.

Me voltei em direção à gigantesca massa de gente e lá me entreguei ao êxtase. O êxtase do pertencimento.

 

Novíssima República (blog Estadão)

 

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Novíssima República

Acredita-se que o primeiro passo para o surgimento de uma nova cultura deve ser ajusta-la à linguagem. Na linguagem de Gramsci, fonte de inspiração para fundamentalistas locais, a tática é promover o que ele classificava como “hegemonia cultural”. Todas as correntes políticas, com maior ou menor domínio teórico, buscaram essa perspectiva. Para conquistar o sucesso nessa empreitada seria vital o domínio do sistema educacional. Encaixa-lo, perverte-lo e impingi-lo para viabilizar o projeto. O modelo ajudou muitos tiranos conseguirem que sociedades inteiras fossem submetidas ao arbítrio, mesmo quando se imaginavam livres da ameaça. Foi assim que depois da queda do muro de Berlim a palavra “comunismo” foi sendo apagada dos partidos e discursos. É assim também com outras expressões como “antissionismo”, atualmente usada consensualmente por esquerda e direita para escamotear a judeofobia, associada ao comprometido termo antissemitismo, também fazem parte destes deslocamentos estratégicos para ocultar termos desgastados perante a opinião publica. Neste sentido, recomendo a leitura do artigo de Roger Cohen do NYT, “Um antissemitismo da esquerda” traduzida e reproduzida neste Estadão. (http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,um-antissemitismo-de-esquerda,10000020266)

A palavra “impostos” é outra que tende a ser suprimida dos léxicos para dar lugar a “contribuição”. Afinal, contribuir, além de soar melhor, reveste-se da aura de espontaneidade participativa com que o Estado precisa contar para enfiar a mão no bolso dos contribuintes. O famoso conceito de Marx  “luta de classes” também foi se dissipando no caldo ralo de expressões como “justiça social” e “isonomia econômica”. “Nós e eles” substituiu com maestria o”ricos contra pobres” pois, sob o manto do sujeito indefinido “nós e eles” podem ser quaisquer agentes sociais, além de sugerir uma proximidade empática com o “nós” contra um distanciamento calculista do “eles”. Substituir terminologias e conservar, na maioria das vezes, o mesmíssimo conceito; para muitas dessas dissonâncias, dá-se o nome equivoco de politicamente correto.

Assim, no Brasil atual, também existem concepções que são muito peculiares ao universo lulopetista e a todos aqueles que vem se destacando na defesa desse governo terminal. Contornar expressões que impactam o senso comum, distorcer condições e contextos e coloca-las sob suspeita é uma espécie de exercício de engano sistemático. Esse é o plano B, já que quase todas as apostas autocráticas malograram enquanto o partido afunda no mal feito movediço gerado pelo desejo de poder. O abuso destes recursos, que adulteram o sentido, e distorcem os procedimentos democráticos se tornaram a estratégia predominante da atual gestão federal: apropriação indébita está sujeita a neo conotação “projeto social”. É possível que liberdade de expressão passe a significar controle da imprensa com censura. Democracia deve ser sinônimo de hegemonia do partido. Todos são iguais perante a lei parece ter sido igualado a “companheiros investigados merecem inimputabilidade ou ministério”. Condução coercitiva pode significar violação do Estado Democrático de Direito. Investigação parece ser sinônimo de abandono da presunção de inocência. E finalmente a grande sacada: seguir a constituição é golpe.

Quando lamurias generalizadas fazem o coro de que nos faltam lideranças criveis, estamos apenas endossando a busca inconsciente por personalidades magnânimas, quando já deveria estar evidente o desastre quando se trata de idolatrar caudilhos populistas, elegendo seus satélites e postes. O hiato de poder que temos pela frente é temerário, mas, comparado com o status da ocupação atual, que venha o vácuo. Apenas a maturidade da própria sociedade proporcionaria o nascimento de lideranças consistentes e não personalistas. Em 13 anos a confiança cedeu lugar a um brutal ceticismo, onde a palavra dos que nos governam não tem mais nenhum valor, salvo uma interpretação reversa. A passagem da indução subliminar para a explicitação da beligerância por parte daqueles que estão prestes a deixar o poder não deveria nos espantar. Espantoso mesmo é a passividade com que a aceitamos. De forma irreversível, e contra a marcha do autoritarismo que quase nos empareda por inteiro, as instituições avançam junto com a população.  Se os agrupamentos intolerantes desejam levar a estratégica às ultimas consequências terão que re-pactuar toda a linguagem. Sugiro que publiquem um glossário próprio, para uso exclusivo entre quatro paredes, dentro e fora dos bivaques que frequentam. O importante é que depois de todas as dores deste prolongado parto, o próximo domingo está prestes a dar a luz. Nascerá forte e será uma menina, Novíssima República.

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Working Class Hero (Blog Estadão)

 

04 março 2016 | 13:51

“Working class hero is something to be”

John Lennon

E agora Luiz? Você estava tranquilo. Nós não. Continuamos apreensivos. Volte aqui e converse. Também discordo. O momento não é de comemoração. Nesse momento, o trágico tem mais vigor que a esperança. Por favor, pode responder? Quem é herói da classe trabalhadora? Você? Lech Walesa? Não há nada muito claro? Por isso mesmo pergunto, suas prerrogativas são infalíveis? Nem heróis estão acima da lei. Talvez nem mesmo existam heróis. E mesmo que algum sobrevivesse, você poderia ter sido banido. Talvez um detalhe te interesse. Heróis são menos lembrados do que vilões. Você já parou para considerar? Não, de jeito nenhum, não é tarde, nunca foi tarde. Ninguém está te pedindo para voltar a ser o que o seu marketing ou os carismáticos te assopraram durante todos esses anos. Por um segundo pense nas pessoas traídas. Ou, quem sabe, mude o foco: observe quem está sofrendo mais. Não, não são só teus ex eleitores. Eu sei, eu sei, é só ligar a TV. De fato, ainda existem aqueles que te defendem. Isso, com unhas e dentes. Pense como o símbolo que você já foi. Uma parte sua, essa do símbolo, poderia estar a salvo, preservada. Não, não tem nada a ver com delação. Qual? Aquela que um homem simples, desculpe, tem razão, não se pode reduzir a isso. Correto. Um trabalhador. Então prossigo. Um trabalhador ter conquistado tanto apoio e estimulado o orgulho de milhões de outros. Messias do povo? Não, isso sempre foi exagero. E por sinal o Sr. não revolucionou nada. Poderia ter feito, mas não fez. Assim admito, a expressão “promovido algum bem” soa mais modesta. Sim, e por que não? Reconheço, é claro. Mas entenda, não é mais suficiente. Sua trajetória foi tortuosa, e, além disso, sua atitude Sr., contribuiu para nos levar a isso. O Sr., com a ajuda do seu partido nos forçou a uma inédita degradação. Não se trata dessa crise econômica. Por favor, agora estamos só nos dois. Não é externa, nem rápida. Passageira? Também não. O que preciso confessar é que ninguém queria a decadência. Ninguém queria mesmo é que a polícia e o judiciário ditassem os rumos. Certo? A oposição também precisa levar um pito. Vai levar. Qual seria então a degradação? Na cultura, nos costumes, no enaltecimento da ignorância. No País mais superficial e melancólico. O Sr. merece do bom e do melhor? Quem não merece? Engano seu. Não é moralismo burguês. Isso se chama “desejo de civilização” e não, nem adianta consultar o advogado. Sabe por que não está no código penal? Porque este é um desejo do espírito. Isso é mais uma evidencia do seu costume de desviar. Não está vendo nada de errado em ter recebido tanto em troca? Isso seria até perdoável. O que não seria? Romper a democracia e coagir o Estado. Perdão, isso não tem desculpa. Sua postura, caro, nos custou muito mais do que o saque da Petrobrás, do BNDES e dos fundos de pensão, que podem falir ou ser saneados. Prezado, entenda o seguinte: culto a personalidade costuma não dar certo. Sua ambição em ser maior do que o República nos custou a fragmentação da nação. Não, nem pensar, não vou parar agora. Os lados estão preparados, assim como o ambiente: a mini guerra civil agenciada dos devotos contra a convicção maniqueísta do outro. De que lado estou? De nenhum, ou melhor do lado de um outro tipo de Estado e de um outro padrão de democracia. Seu assessor concordou em irmos até o fim. Adaptar-se é uma coisa, apologia do crime outra. Seus porta-vozes, aquelas pessoas que, desesperadas, se sentiram na orfandade com seu exemplo? Sim, então por que no lugar de virar a mesa o Sr. não pensa por um minuto na República?

Ela sangra, mas por enquanto o torniquete bem aplicado resolve.

Ainda dá tempo. Ainda dá. Ainda.

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O dever de desobedecer (Blog Estadão)

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O dever de desobedecer

Paulo Rosenbaum

25 fevereiro 2016 | 01:01

Podemos dizer que estamos sujeitos. No sentido da sujeição, imposição, vale dizer, vivemos à revelia da cidadania. Não acho que se deva comemorar prisões, mas quando se trata deste mercador de ilusões, que através dos truques de marketing, astúcia predadora e conselhos perversos nos enfiou nessa enrascada, a justiça propicia alguma atmosfera de paz efêmera. No entanto, o maior delito não é bem aquele pelo qual ele e seus amigos estão sendo citados. O elemento mais sinistro deste magnífico crime foi usar sua capacidade para promover um estelionato transnacional, provavelmente sem precedentes na história política moderna. A criatividade pode sim ser maligna. Isso se encaixa perfeitamente no espírito de ausência que se espalhou pela sociedade de forma generalizada. A gravidade da situação onde o subsolo do País cede sem que ninguém pareça se alarmar, merece ser mensurada. Testemunhamos a indiferença. As catarses ainda consentidas pelo poder como a indignação virtual — entre apitos, panelas e hostilização pública selvagem — simplesmente não mexem com a estrutura modelada pelo erro, que continua relativamente intacta. Trata-se de um estoicismo induzido pela reiteração, pelo convicta prática de excedente de transgressões. Ou quem ainda não sabe que o Mensalão coexistiu com a Petrolão, que atua simultaneamente com os desvios dos Fundos de Pensão, que coincide com os empréstimos suspeitos do BNDES, que opera junto com os repasses fantasmagóricos para as ditaduras amigas.

Admita-se que o que os move é incompreensível para nós. Nós que achamos que usurpar o poder é bem mais grave do que ilícitos comuns. Nós que poderíamos até aceitar justificativas, jamais o cinismo. Nós que esperávamos zelo com o bem estar e com a coisa pública. Nenhuma política é feita por santos e rejeitar o moralismo puritano é tão importante quanto resistir ao Estado gangster. Mesmo porque a corrupção justifica o Estado policial, que justifica o poder que corrompe. Porém, enquanto estamos aqui discutindo a engrenagem que garantiu ao Partido o controle do Estado e de suas instituições, as verbas oriundas dos desvios continuaram a fluir e a subsidiar o projeto.

Regaram eleições, caprichos pessoais e pagaram apoios. Simplesmente ainda não estamos totalmente conscientes da temporalidade desse processo. Não é passado. Isso os coloca hoje, agora, neste instante, em pleno controle de praticamente todas as instâncias cívicas públicas, da cultura às mídias. No planalto viciado não há espaço para outros, o sol é um oligopólio para alinhados, uma matinê entre amigos, com ingresso grátis para todos afinados com o desejo de hegemonia. Como pode uma democracia se defender se os mecanismos que a salvaguardam estão nitidamente obstaculizados? A divisão não está mais entre democracia instável e autoritarismo, mas, com a independência dos poderes comprometida, a escolha se restringirá entre instabilidade passageira e anomia prolongada. Trair a sociedade não é mais um escândalo. Na incrível ausência patológica de auto critica, na positividade dogmática, na nostalgia de uma revolução que nunca procedeu, os defensores deste governo escolhem morte à capitulação. Sobreviver a ruína requer deixar-se levar pela queda: ainda que se sabia que preveniria fraturas graves, cair sem resistir é uma arte pouco frequentada. Muitos tentam compreender este fenômeno, mas suas raízes já excederam a racionalidade. O esforço poderia nos remeter ao campo da psicopatologia, mas nem esta consegue amparar uma tese sólida quando se trata da devoção com que os enganos são cultuados por aqui. Para eles admitir erros parece significar a derrocada da existência. Sacrificar a República no lugar de assumir a inépcia para governar pode ter se transformado num desporto, praticado ao ar livre, na delinquência solitária de um palácio, ou até mesmo dentro de uma cela. Podemos até arcar com as custas, mas o preço da liberdade deles não consegue mais garantir submissão. É quando desobedecer passa a ser dever.

As informações e opiniões expressas neste blog são de responsabilidade única do autor.

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Por uma cultura não perversa (blog estadão)

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Por uma cultura não perversa

Paulo Rosenbaum

17 fevereiro 2016 | 21:09

Não é o caso de ser contra ou anti. É preciso assumir: uma cultura não perversa é um ponto fora da curva. Ou não estamos todos em um estado a beira da saturação? A  intolerância é uma arma escura. O perverso não é aquele que se defende ou ataca, tanto faz se governo ou oposição, mas é aquele que força a prerrogativa de uma razão desligada do mundo, alienada dos compromissos com o além do si mesmo. O perverso é aquele que, não contente em ser hegemônico, desqualifica o mundo, dobra a realidade, invade a imaginação e reifica o mito para infiltra-lo na cultura. E assim coagi-la a todo preço e custo.

Como afirmou Carl  Gustav Jung, não são os homens que estão doentes, os deuses e suas mitologias que ficaram dementes. A política é apenas a face aparente dessa deterioração. Não estamos ouvindo as formulações do senso comum despejadas nas redes e escoadas pelas ruas? Com paus, máscaras e pedras? Aquelas que acionam as mais inespecíficas condições genéricas, quando a única esperança recairia na reafirmação do sujeito, o único com potencia para resgatar a sociedade?

Sim, ouvimos tua indignação, toleramos a indelicadeza, ouvimos teu enojamento seletivo e, agora, é preciso confessar, só conseguiremos respirar sob outro diapasão. Só se vê modelos esgotados em repetições circulares. Múltiplos exauridos e descerrados. Numa sincronia apática é como se todos os originais tivessem ensurdecido ao mesmo tempo. Como se as novidades não pudessem mais circular. Mas a norma do relógio é disparar, à revelia de nossa desatenção. Por que permitir que nos arrastem através dos vingadores anônimos? Prefiro que refaçam suas próprias penas e, ao custo das consciências, ressarçam o que nos subtraíram. Numa democracia principiante, quando uma mentira lava a outra e não há mais forças emancipadas, poder-se-ia especular sobre a subsistência e até mesmo duvidar se testemunharemos ou não um futuro saudável.

Em nossa insuportável ingenuidade a separação dos poderes seria a garantia das liberdades individuais. Quem iria supor que um lacre gigante estabeleceria tremenda co-dependencia no lugar de autonomia?  Co-autoria no lugar da reafirmação de identidades e funções. As exceções não conseguem mais suprir a norma. E é essa mutação que vem submetendo a Republica a ponto de torna-la irreconhecível. É como se mudássemos para uma chave que já nada abre. E, uma vez escolhida, ninguém mais pudesse se arrepender por ter sufragado um projeto tão nocivo e abrangente. Curiosa essa exceção. Os criminosos podem merecer perdão, os acontecimentos do destino podem exigir reparo, e até um pequeno deslize na calçada pode resultar em ressarcimento pelo administrador do território. Mas o sistema parece já ter escolhido seu lado: prefere proteger o opressor à vítima. O Estado tornou-se perigosamente autosuficiente e descolado do suporte. A ponto de descartar seus súditos? Exagero? Um espírito subjacente pode até vir a ser e no final mudar tudo. Os indícios não são estes, pelo contrário, o que torna nossa desconfiança cada vez mais procedente. E se assim fizeram para desconstruir o mínimo já conquistado? E se orquestraram para desmanchar o apelo civilizatório? Não será agora, nem imediatamente, mas uma hora teremos que responder: se não queremos ser Kiev nem Caracas, será preciso algum espírito de antecipação, ou capitulação.

Teatro do Opressor (blog Estadão)

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OpressãoXXX

Indique-me um, apenas um. Alguém que enxerga com clareza. Que distingue o rigor do emaranhado. Que não foi cego pelo excesso de interpretações. Quem se exaspera em uma democracia? Aqueles que governam? Quem fala tua língua? Quem ilude a montante? O jogo de cena chegou ao fim do tablado. Agora teremos que aceitar, de qualquer forma assumir: estamos rigorosamente sós. Sós, não porque não haja mais gente com a mesma sensação. Não porque estamos no mesmo espaço e sob o mesmo desamparo.  Sós, porque nossos dias estão sendo gastos num horizonte avesso à fusão. No planalto sem relevo. Na rota costurada por quem não se importa. Se as instituições subsistem é à nossa revelia. Se nunca nos arrependêssemos seria nosso dever e obrigação, perguntar: como deixamos chegar a este ponto? O silencio indica uma sociedade sem audição. Rendida ao berro crônico. Pois o recesso não é mais do parlamento, o clima é de cancelamento geral. Fomos apresentados para um outro carnaval. Não queremos mais ouvir, decerto nem ver. O que será que nos paralisou? Estreitamento, mesmo os mais entusiastas podem precisar conceder. A pátria, postergacionista, induziu alienação, revolta e submissão. Por isso não se enxerga mais meio do caminho. Qualquer trilha é precária, derrapante e insegura. As clareiras, rondam brasas. Os atalhos, tomados pelo reducionismo típico. Na performance do governo, a instalação provisória. Nós, civis amadores, gente que até esteve confiante, quer vencesse um ou outro, pouco importa, perdedor ou ganhador, iriam ambos, em nossa imperdoável ingenuidade, nos assegurar a vida. Mas a República, recém dilacerada, foi entregue à legião de anti ourives. Regressamos ao beco, de onde nunca pudermos sair. Uma quadra atacada pelos vícios da violência. Cercada pelo império do descuido. Sitiada pelos maestros do descompasso com seu orgulho sem sentido. Podemos ter falhado, decerto capitulamos impotentes frente à estupidez. Sem dúvida, alimentamos a anomia com nossa mania por desmentidos. “Não, eles não fariam isso”. “De forma alguma ousariam”. “São alarmismos, invenções e disparates, ninguém subjugaria todo o Estado”. Pois é por isso mesmo que persiste a esperança. O paradoxo não poderia ser mais brutal. Na aceleração de um blackout moral e no empuxo de um abandono sem precedentes, uma forma toma corpo. Sem nome e sem passado a responsabilidade pessoal, irrigada pelo colapso, pleiteia espaço inédito. Em meio aos disparates e às buzinas acabaremos reencontrando a voz que sufocáramos. Uma resposta aos enganos. Aprendizado doloroso, ética parece discurso desqualificador. Será portanto um carnaval único, reconstituído a partir da incompletude das cinzas. O trajeto não será longo, na verdade, seguirá breve. Da paralisia à alegria, o bloco partirá rumo ao desconhecido. Se alguém ainda se preocupa com os solavancos basta levantar do trem para enxergar o que já deixamos para trás. É pouco provável que alguém se arrependa. E, mesmo que sim, o destino, que não costuma ser revisionista, decretará o recomeço. Trilhos não faltam.

Reblog – A Dor merece nosso constrangimento

A Dor merece nosso constrangimento

Paulo Rosenbaum
Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro presidencial nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.
 
São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.
 
A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.
“Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana”
 
Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?
 
Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.
 
Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.
 
Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe. Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.
 
Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos terá status de lei.
“Podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Mas crematórios, não”
 
Na hora dos massacres a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.
 
Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.
 
Publicado no Jornal do Brasil em 2013

Cronologia de erratas (Blog Estadão)

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Cronologia de erratas

Paulo Rosenbaum

25 janeiro 2016 | 10:31

Onde se lê “Ela fica”, leia-se “Ele vive”. Onde se “Ele vive” leia-se “o golpe foi vosso”. Onde se lê “vosso” leia-se “o que é isso companheiro?” Onde “se lê  “companheiro?” leia-se “não morderemos tua isca”” onde se lê “isca” leia-se “ninguém vai melar” Onde se lê “melar” leia-se “o que está em curso não tem mais volta” Onde se lê “não tem volta” leia-se “e não é ressentimento”. Onde se lê ressentimento leia-se “a justiça persiste”. Onde se lê “justiça” leia-se “nas democracias, o fim de ciclo não é vingança”, onde se lê “fim de ciclo” leia-se “ninguém é intocável”.

Mas imporemos particularidades: onde se lê “ninguém é intocável’, leia-se também “toda tragédia tem um sentido, a regeneração é dolorosa”. Mas se a esperança surpreende é porque brota do desespero. A oposição seremos nós. Como a história não comporta nem “nunca antes” nem “para sempre”, podemos estar testemunhando a maturidade: a renuncia ao vício em heróis e vilões.

Então talvez agora seja possível, ainda que improvável, que da mais dissimulada opacidade nasça uma transparência difusa.

 

Política não se discute (blog Estadão)

Política não se discute.

Paulo Rosenbaum

20 janeiro 2016 | 13:13

Não_se_discuteX_

Bom dia, para onde vamos?

Bom dia, toca lá para o centro por favor.

Tem um caminho da sua preferência?

Marginal, a faixa do centro está sempre livre!

Isso ai não posso discutir.

Perdão?

O senhor falou de marginal, faixa do centro livre.

Exato!

Prefeito proibiu assuntos polêmicos.

Que?

Não podemos dar trela para os assuntos políticos.

O Sr. esta bem? Estou falando de transito!

Começa assim, depois ninguém sabe onde vai parar

Céus!

Religião também não pode.

Isso é piada.

Humor pode!

Filho, dirija, prometo que fico em silêncio.

O Sr. é fiscal?

Fiscal?

Dizem que colocaram espiões.

(Sussurra e faz mímica indicando ausculta no veiculo)

Chegamos a isso!

O Sr. me desculpe! Olha aqui.

O que é isso?

O cardápio de assuntos permitidos.

Cardápio?

Desses podemos falar, escolha um.

(murmúrios inespecíficos)

Então este aqui. (suspiros) Já ouviu falar do “Os Lusíadas”?

Literatura? Infelizmente não entendo nada.

Então este aqui!

Bom. Esse é a melhor coisa para fugir desses políticos.

Receita de bolo?

Receita de bolo!

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/politica-nao-se-discute/