Dedicatórias (Blog Estadão)

Tags

, , ,

Dedicatórias

Paulo Rosenbaum

23 maio 2016 | 13:45

Ele costumava fazer dedicatórias rápidas, às vezes confusas, outras inspiradas, a maior parte das vezes, como a maioria dos escritores, limitava-se ao protocolar. Só depois do incidente passou a achar que lançamentos de livros deveriam ter outra concepção. Começando pelo título: “Noite de autógrafos” impunha um limite inadmissível ao evento. Primeiro, porque achava que um livro físico, sólido e tridimensional ainda era imbatível na categoria “a melhor invenção dos homens”. Depois passou a entender todo livro impresso como “matéria orgânica a ser decodificada”.

— O livro, sendo uma máquina de diálogos — já que é a interação do sujeito com outra imaginação — produz resultados imprevisíveis.

O episódio o convenceu que era preciso individualizar as mensagens. Precisava deixar uma mensagem pessoal nas páginas daqueles que enfrentavam as filas e, de quebra, estar atento à caligrafia. Achava indelicado, um verdadeiro insulto, ter que se guiar pelos papeizinhos que vinham ajeitados na página inicial com o nome das pessoas. Aquilo só servia para contornar o vexame da amnésia instantânea. Mas considerava que o constrangimento por esquecer o nome da pessoa não deveria ser maior do que não saber quase nada sobre ela. Por qual motivo um desconhecido não mereceria nossa máxima atenção? Ser gentil com estranhos deveria ser encarado como obrigação cívica. O sucesso da individualização, evidente demais para ser renegado. Especialmente numa sociedade que faz questão de massificar, para, depois, valorizar a exclusividade. A verdade é que ninguém mais fica satisfeito só com o tradicional e burocrático “um abraço”, seguido de assinatura e data. Os autores podem ter desenvolvido seus próprios estilos de assinar exemplares, mas ele, por uma dessas curiosas idiossincrasias, não se renderia à média alguma.

A inscrição num livro se aproximaria de um ritual. Sagrado ou profano, o rito não é só um cerimonial burocrático. Quem teria percebido a dimensão simbólica envolvida? Transferir a marca através da tinta para dar confirmação ao novíssimo proprietário! Uma dedicatória, portanto, nunca poderia ser análoga a um contrato, documento bancário ou reconhecimento de firma. Sua tentativa passou a ser captar, às vezes em segundos, por alguma idiossincrasia, particularidade, de qualquer forma, num instante, qualquer elemento pessoal de quem passasse em revista na fila. Mas, como dizia o poeta, tudo é risco. Naquela tarde rabiscou “O justo precede a justiça”. Mal sabia ele que o sujeito para quem escreveu a frase era alguém que, acabara de enfrentar um longo processo, e que, depois soube,  tomou aquela sentença como uma ofensa pessoal.

Os leitores podem não ter consciência, mas o autor/artista, diferentemente de outros profissionais liberais, assim que aceita ser publicado, deixa de ser dono do que produz. Copyrights na língua portuguesa, na era das digitalizações, não passa de um saldo credor sem efetividade. É, deste modo, que o livro foi se tornando um objeto cada vez mais errante, que vaga de mão em mão, de uma estante à outra, ou, então, fica aprisionado em depósitos até que alguém o acolha. Por isso, não se explica a arrogância descontextualizada, o orgulho intelectual e a superioridade imaginária que a maioria dos autores imagina ter sobre os outros mortais.  Já a imortalidade, domínio de outra esfera, nunca esteve garantida, nem para os acadêmicos.

Está mais do que na hora de inverter a honraria. Em prol do leitor.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/dedicatorias/

Céu Subterrâneo – Cultura Estadão

Paulo Rosenbaum lança livro ‘Céu Subterrâneo’ em São Paulo

Heverton Nascimento – O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 11h 33 – Atualizado: 16 Maio 2016 | 12h 22

“Céu Subterrâneo” tem a tradição judaica como pano de fundo e conta a história da busca de um intelectual por suas raízes

Blogueiro do Estadão, o escritor Paulo Rosenbaum lança em São Paulo, nesta terça-feira,17, o livro “Céu Subterrâneo”. Médico, pós-doutor em Ciência, poeta e romancista, Rosenbaum é também autor de “A verdade lançada ao Solo”, publicado em 2010.

O novo romance tem como pano de fundo o universo do judaísmo – se passa na cidade de Hebron, na Cisjordânia – e conta a história de um escritor que viaja para Israel em busca de suas raízes. O ‘herói acidental’ tem características particulares para tornar a leitura convidativa e cativamente.

O autor também publica crônicas e poesia no ‘Estadão’, no blog Conto de Notícia

Serviço

Lançamento: Livro ‘Céu Subterrâneo’, de Paulo Rosenbaum

Quando: terça-feira, 17 de maio, às 18h30

Local: Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Térreo da Loja – São Paulo

Spleen político (Blog Estadão)

Tags

, , , , , , , ,

Spleen político

Paulo Rosenbaum

15 maio 2016 | 18:19

Spleen – A Spongy gland above the kidney, supposed by the ancients to be the seat of anger and ill-humoured, melancholy in Skeat, W.W. Etymological Dictionary of the English Language. Oxford, 1882 

Num lugar distante, depois de uma intensa conflagração não violenta, que não era nem exceção nem golpe, uma epidemia de depressão assolou o País continental. Um tipo de distúrbio jamais detectado pela medicina. Reconhecendo a calamidade a Organização Mundial de Saúde classificou o fenômeno como “spleen político”. Como zumbis, pessoas e tribos sem filiação vagavam pelas ruas tentando encontrar algum código, pistas, de qualquer forma algum sistema de identidade que permitisse qualquer reagrupamento. Parecia impossível. Os grupos anti e a favor se insultavam mesmo tendo passado quase dois anos do embate que determinou a reclusão de boa parte da elite governante. As divisões eram perturbadoras. Havia gente contra e a favor da Cultura. Contra e a favor da Sociedade. Contra e a favor das Instituições. Sim à censura, contra e a favor da ditadura. O País chegou muito perto de ter o nível médio de inteligência rebaixado por uma agencia de classificação de risco psíquico.

As pessoas relatavam sintomas semelhantes e muitas sensações análogas. Um filósofo decidiu fazer o registro de suas entrevistas.  Os testes psicométricos informavam estranhos depoimentos:

— Qual é a sua sensação com a situação atual?

— É como ter tirado um peso enorme das costas, mas sem nenhum alivio.

Outras avaliavam o inverso:

— Agora sinto o peso sobre o qual as outras pessoas falavam. Ele migrou para mim.

— Elas se livraram de algo, que agora parece ter grudado na gente.

–Estou carregando um fardo estranho, só sei que não é meu.

Na análise da pesquisa, o comum entre elas é que os dois grupos, aparentemente antagônicos, não conseguiam enxergar saídas.

— O que sinto? Não consigo conversar com ninguém.

— A culpa é deles, as pessoas não conseguem mais conversar.

— Não quero falar com eles, o fanatismo é incurável.

— Eu me pergunto o que eles querem. Estão numa seita ou partido?

Na época, o coordenador das pesquisas, Terco Mora, arriscou um ensaio publicado em jornal de grande circulação:

“A falta de perspectiva se tornou tão intensa que o alivio por ter se livrado de uma tirania assemelhava-se ao de ter se livrado de uma patologia grave: ou seja mesmo livrando-se dela, sentimos que não houve ganho algum. Velhos clínicos discordariam, assim como no aforismo de Heráclito de Éfeso “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. Assim como nunca um corpo afetado por uma doença jamais tem restituição integral, a experiência de ter sido tiranizado e a redescoberta que só as ruas esvaziam palácios, marcará a memória coletiva. Apesar de muitos terem apostado na amnésia, prevejo que o País nunca mais será o mesmo. Para conservar sua feição essencial as Democracias precisam renunciar à toda tentação populista. Devíamos reconsiderar Descartes: Penso, logo não milito. Massas não costumam grudar umas às outras. Para unificar um País é preciso, antes, reduzirmo-nos às unidades.”

Antes da reviravolta, Terco foi preso e processado por um dos tribunais magnânimos. Viveu exilado em Fernando de Noronha, na época transformada em colônia penal. Anos depois da crise, foi reincorporado à Universidade. Promotor de diálogo, fundou o Ministério do Bem Estar, que presidiu até falecer. Os efeitos vieram depois, na forma de bônus imateriais. Sob sua gestão, o IDH do País teve inédito avanço e as transformações foram evidentes. Numa rara entrevista concedida para uma emissora de rádio de Brasília Terco resumiu o segredo que nos fez superar a atmosfera de spleen político:

— Suas pesquisas foram fundamentais para mudar o ambiente político, o Senhor poderia explicar qual é o mais importante indicador de felicidade?

— As relações entre as pessoas.

_____________________________________________________________________

Prezados amigos do blog e colegas jornalistas, convido todos para o lançamento do meu livro “Céu Subterrâneo” que acaba de ser editado pela editora Perspectiva. Trata-se de uma ficção escrita a partir de uma estadia em Israel e definido pela professora titular de literatura da USP Berta Waldmann, que assina a apresentação, como “Um Midrash brasileiro”. Também contei com a preciosa apresentação da Professora Lyslei Nascimento da UFMG que elaborou a orelha do livro. A lista de pessoas para agradecer é bastante extensa. Pretendo fazer isso pessoalmente. Então amigos, será dia 17/05 as 18:30 na livraria Cultura do Conjunto Nacional. Agradeço antecipadamente a quem puder vir, compartilhar e divulgar para outras pessoas. Um grande abraço, Paulo Rosenbaum

Convite - JPEG

 

Vaga, República, Vaga (Blog Estadão)

Vaga, Republica, Vaga

Paulo Rosenbaum

09 maio 2016 | 18:10

Reparem nos cargos, nos bigodes, na carga espessa de um regime em frangalhos. A única obsessão é preservar-se nas alturas de um gloria rota. Eis eminencia do grande espasmo, o final. O time que acelera sua força contra quem deveria estar protegido. O cinismo justaposto com o discurso das medidas excepcionais. O Traçado é curvo. As trapaças costumam atropelar quem enuncia a vitória previa. O jogo não está ganho,nunca. Mas quem é serio precisa assumir e propagar: as instituições funcionam. Mal. São capengas. Foram montadas em cima de um corpo em decomposição. Na contenda continua, o reparo pode ser o fim. A tentação é violenta, mas a loucura só exalta tiranos. Empodera quem aposta na anomia. Estamos numa poderosa antevéspera. O Pais declina de sua condição, pois gerar instabilidade era um imperativo para o projeto. Uma premissa para os artifícios da selva montada nos municípios. Quebrar o sistema, nos sonhos fanáticos, é poder brincar de “Pátria idealizada”. Montaram essa anti-civilização que atende pelo nome de projeto político. A política, não podendo mais ser assim chamada, constrói-se agora no plano de uma resistência sem cabeças. Numa horizontalidade amorfa, líderes insípidos e carismáticos sanguíneos usurparam os espaços regimentais.

Os apoiadores do regime se ocultam numa ignorância estudada. Quem gastou tinta e papel para escrever “fora Cunha” sabia muito bem o que queria. “Fora Cunha” agora significava “emaranhado agora”. E quem endossou o slogan anti cunha, sob o signo da exceção, também. Eis que os alvos, moveis, não mais comportam miras. Só há um transtorno, uma vítima, um exílio e um ostracismo: das pessoas que querem viver em paz num País que não oferece garantias mínimas à cidadania. Contra a arrogância e a platitude dos filósofos que bradam a má consciência, existe uma população esmagada, atreladas a conflitos e disputas que ela não escolheu, e, por isso, jamais as mereceria. O palco de arrelia é uma espécie de estágio final, a farra terminal, o suspiro do demiurgo. A tirania costuma eliminar um último dejeto, o mais abjeto e repulsivo, aquele que deflagra o contágio.

O que ninguém contava mesmo é com a vigília de uma multidão outrora dispersa. Ninguém previu a multiplicidade das pessoas que, por intuição, decodificou a psicologia de massas. Não foi através dos bem pensantes. Nem dos eruditos. Aliás, precisamos aprender a não contar com eles. Se algo está para acontecer foi por um mérito autodidata, o qual, por sequelas contínuas e arbitrariedades normativas pressionaram as respostas. Resposta que nasceu sob o embolo da luta pela sobrevivência. E quem gosta de se encostar nas definições fáceis como “direitistas”, “Moralistas” e “conservadores” pode perder o último fiapo de prestígio intelectual remanescente. A complexidade é arredia às etiquetas. Não se pode colar esteriótipos em 93% da população. A sublevação que ascende foi pelos insistentes atentados à justiça. Uma justiça que, lenta, naufraga pela sucessão de golpes abaixo da linha aceitável.

A calma é, neste momento, um antídoto invisível. Mas é a ela que devemos recorrer. Basta saber que o desespero costuma ser a efeméride dos desfechos. A antítese dos acordos. Os consensos em estilhaços correm à reboque dos conchavos regados à pré-datados. E, mais uma vez, assistimos, vulneráveis a República que Vaga. Mas o que define uma República senão aqueles que tornam viva? Que a preenchem? Não há mais soberania em lado nenhum. A mordaça contra a opinião pública pode vigorar por hora. Mas, é a história que enfim nos autoriza a comunicar. Temos todo tempo do mundo para fazer saber: nós os governados viemos para ficar.

Ainda gravaremos teu nome (blog Estadão)

Ainda gravaremos teu nome

Paulo Rosenbaum

22 abril 2016 | 12:58


Eu ouvi, mas admito, é possível que você não. O que ouço? Uma música nunca executada. Uma sequência de notas, sons instáveis, sem modulação. O melódico que não bloqueia, a voz que vêm pela raiz e transforma o destino. Que emociona sem dó. Ninguém ainda soube explica-la. Não sendo conquistável. Não se deixando apreender. Não sendo reconhecível, teria aparência indescritível. Alguém já disse: “a força de todos os homens e a leveza de nenhum”. Dizem que não ela pode ser reduzida, deduzida ou intuída. Para ela, não há relato único, nem simples. Autocrática, obedece apenas à própria experiência. Não se submete a ninguém a não ser ao próprio sujeito. Não expira. Não hesita. Não se dobra. Nunca pode ser compartilhada. Inquieta, a joia é arisca. Notável quando perdida, desvalorizada quando presente. Quem oprime, nunca a vislumbra. Não pode ser comprada, cooptada ou negociada. Afinal, não eram ricos contra pobres, minorias contra maiorias, nem educados contra ignorantes. Não há uma história natural de sua luta: afinal é costume que oprimidos não reconheçam o opressor como tal. Trata-se do inconfessável temor da emancipação. O desconhecimento aflitivo de um futuro que não prevê comando central. Mas os tiranos tem noção desse trunfo. Contam com ele. Beatificam-no.

O que desconhecem é a força dessa aspiração como necessidade vital. Demanda uma atmosfera que se estende ara além dos corpos. Detém a energia mítica daqueles que, em algum ponto do tempo, souberam. Fizeram e ouviram, nesta ordem.

Só mesmo num dia como hoje, as vésperas da travessia, onde escravos vão, por escolha, deixar a escravidão. Na noite que irão se inclinar como homens livres. Só hoje a liberdade pode nos envolver. À revelia do instante. Para isso, rogamos outro tempo. Um tempo do hoje. De máxima abertura. Da paz olvidada. Da cessação não mencionada.

Hoje, atravessaremos, e, só adiante, notaremos o percurso. O percurso à liberdade.

https://correio.usp.br/service/home/~/156dba5b6d4d51850f15ef56d1addd71.opus?auth=co&loc=pt_BR&id=335312&part=2 (mensagem sonora – copie e cole no seu browser)

 

 

O inexorável destino da arrogância (Blog Estadão)

O inexorável destino da arrogância

Paulo Rosenbaum

18 abril 2016 | 16:03

Não faz muito tempo. Na época vivíamos dias estranhos, torcíamos para que malandros destronassem sócios e ex-comparsas. Havia uma pseudo esquerda, que derrotada, chorava por uma antecipação nostálgica do que era só desejo de justiça social, aquela que nunca vigorou. Enquanto isso, uma direita obtusa comandava um espetáculo que nem lhe pertencia. Hoje, à distância do tempo, é difícil avaliar. Mas, a tragédia da experiência de poder daquele núcleo duro político, mesmo removido e posteriormente processado e preso, não mereceria comemoração. Açoitar a civilidade sem piedade costuma dar nisso. Somos forçados a escolhas que nem pedimos, nem entendemos. Mas é preciso impor particularidades. Não há normalidade alguma aceitar obstrução à justiça. Muitos diagnosticaram que aquele governo caiu pela soberba, o inexorável destino da arrogância.

Tudo começou há algumas décadas. Havia um sistema de castas. Políticos e personalidades tinham o que se chamava de “foro privilegiado” e os membros de um poder interferiam abertamente sobre os demais. A sociedade parecia hipnotizada pela culpa. Nenhum outro País ocidental tinha legislação tão benévola. Em nenhum outro rincão de mundo legislar em causa própria estava tão naturalizado. Todos diziam defender a democracia, que, como hoje sabemos, virou uma vaga noção polissêmica. Sem qualquer valor argumentativo. Ditadores e massas manipuladas os usavam abertamente para defender o que lhes conviesse. Somente em nossos dias soubemos também que nada teria sido fortuito. A brincadeira fiscal era um dos cernes do programa. O “exército industrial de burgueses desempregados” fazia parte essencial da arquitetura da desconstrução. Persistente e determinadamente a desorganização foi sendo sustentada e martelada nas cátedras, na mídia subsidiada, nas reuniões do Partido. Sob o lema já anacrônico na época — “destruir o sistema para reconstrui-los em outras bases” — as anti reformas eram impostas com tal facilidade que os agentes se diziam surpresos com a “mansidão incauta da maioria”. Os slogans se proliferavam para obstaculizar os debates. Com técnica e método tiveram êxito notável. Mitômanos e ingênuos, intelectuais e gente simples, era comum que todos aceitassem as armadilhas. Até que caíram na Rede. Bem que tentaram metamorfoses mudando de perfil, escondendo o currículo e a folha de serviços prestados. Alguns buscaram exílio, negados, pois não havia naqueles Países cláusulas de abrigo por crime comuns.

Alguém, a identidade correta sempre ficou indeterminada, teve a ideia inspirada em um velho livro. Penas alternativas não seriam suficientes para recuperar aquela parcela de políticos que cederam suas reputações aos crimes. Mesmo aqueles justificados como empréstimos para um bem maior. A cooptação e seu sinônimo mais conhecido, a corrupção tornava-se institucional. Era o preço a se pagar para fazer do jeito deles. Nas prisões comuns ou de segurança máxima ainda continuaram convictos em seus delitos. A pergunta que a sociedade se fazia à época era “por que a taxa de recuperação dessa gente é tão baixa?” Muito inferior do que a dos detentos comuns. Afinal, ali havia gente pouco educada, mas também aqueles que frequentaram escolas caras e pós graduados em grande centros do saber, nacionais e internacionais.  Estudos mostravam índices mínimos de recuperados e reintegrados à sociedade. Além disso, o cálculo para mantê-los permanentemente monitorados era um peso para o Estado. “As Cidades Reeducativas” surgiram como uma nova concepção. Só depois adotada por outros continentes. Nada mais dentro do espírito de uma nova formação do que condena-los a viver governados por eles mesmos. Estes presídios neo urbanos forjaram uma nova ideia de regeneração e um novíssimo conceito de reintegração social de agentes públicos. Banidos para sempre das funções administrativas para a sociedade, eram condenados a viver as vezes pela vida toda nestas cidades especiais. Gestores públicos devidamente protegidos, passaram a ser obrigados a estagiar lá. O objetivo era observar tudo que não deveria ser feito em gerenciamentos políticos. Um deles concedeu recentemente uma entrevista e sintetizou da seguinte maneira sua experiência: “Meu aprendizado lá foi ter percebido como eles enxergam a função do político. O surpreendente é que a maioria vê o Estado como um desvio de função. Me parece uma visão insanável. Falam sem parar. Repetem slogans incompreensíveis. Outros dedicam seus discursos à família mas não conseguem articular uma frase inteira. O mais estranho é que têm ideias preconcebidas sobre tudo e não aceitam outras formas de enxergar a administração pública. Um deles chegou a me dizer sem nenhum constrangimento — e isso me fez perceber quão perturbados eles ficaram nos anos nos quais reinaram — que “se a sociedade não pode existir do jeito que nós a concebemos, melhor que ela não exista”. Posso dizer que foi proveitoso e didático, só não piso mais ali, todos os estagiários voltaram com náuseas.”

Justiça em Transe (Blog Estadão)

Justiça em transe

Paulo Rosenbaum

06 abril 2016 | 13:09

“O poeta não tem nenhum poder, não pode remediar mal algum, somente é ouvido quando encomia o mundo, não porém, quando o apresenta como ele é na realidade”

Herman Broch – A Morte de Virgílio

Têm sido vertiginoso, discutível, duvidoso. A advogada explodiu em catarse. O professor de ética jurou que as instituições não estão funcionando na democracia não regulamentada. O jornalista acaba de modular, contundente e ao vivo, a voz de milhões. Futuro alvissareiro? Senhor, observai a faina no campo. Há uma justiça sagrada, na qual a lucidez é temporariamente abolida. Cede espaço ao transe. Para enxergar justiça não basta ciência e jurisprudência: é vital considerar o sentimento dos arredores. Por isso senhor, seria bom constatar que quando a cidadania se entrincheira, ela já foi perdida. O que pedíamos? Algo aparentado a uma visão panorâmica? Que pode até prescindir de líderes. Que sabe que o hiato é temporário. Uma profundidade que, sendo, ao mesmo tempo, inédita e sensível, nos dirigiria como conjunto. Que reagrupasse a fragmentação. Não é o que temos enxergado. O escudo que blinda os que governam não é promissor. Não preserva, enreda, não protege, insufla, não equaliza, perturba. A provocação que fazemos hoje não pode mais se pautar em vereditos isolados, sem contexto, pasteurizados. Não se trata de condenar o destino de muitos para indultar poucos. Nem de fechar as portas à defesa. A busca da paz não pode ser reconhecida até que o horizonte se expanda. Ninguém mais tolera constrições. A letra não merece superpor-se ao espírito das leis.  Não se organiza convívio de dentro das sombras. Nem a tolerância na miséria. Pedimos clareza senhor. É demais? Compreendo. Sim, as razões de Estado! Mas, e quando as razões do Estado vão contra as de toda sociedade. Paciência? O senhor é um devoto da técnica? Um escravo do dever?  Seu perfil é isento? O meu não. Meu partido é o da transparência. Por que então se fecharam na sala? Por que homens públicos tem encontros privados sobre assuntos públicos? Para nos ocultar? O que senhor? Não nos deve satisfação? Talvez. Mas e se não a pedíssemos? E se exigíssemos equidade. Como assim, projeto? Senhor, não endossamos projetos. As pessoas pedem muito pouco dos excelentíssimos e nobres. Não senhor. Dispensamos deferências, assim como regalias. A justiça, pergunto se o senhor já considerou, pode passar a respeitar consensos. Não, não o vosso. Mais de dois séculos foram necessários para que a divisão de poderes estivesse nas normas? A cidadania que chegou ao front Senhor, já pediu agua, não valas de guerra. O senhor pode enxergar o que o Poder está fazendo? Neste minuto? A apenas algumas quadras de vossas excelências? Aonde podem chegar? Difícil predizer não é mesmo? Com quais armas os defenderá? Não lhe parece abusivo? As fronteiras estão abertas Senhor, e nas nossas veias jorram um estranho calor. Portanto, já que a técnica e a ciência nos levaram ao beco, que tal mirar-se nas palavras do poeta? Não aprecia o gênero? Prefere o mistério? Eu já desconfiava. Só posso me despedir explicando: a última estrofe tem ritmo alucinante e uma melodia que a excelência jamais experimentou. Segure-se bem na poltrona, o senhor pode se surpreender.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/justica-em-transe/

 

 

 

 

O insanável preço da neutralidade (Blog Estadão)

Nem me perguntem como. Hoje, evitei a morte ou aprendi a morrer. O que ela representa a não ser o despejo da memória? O exato momento que isso aconteceu não é preciso. Já andava com o coração abalado. O triunfo do injusto não acerta a mente, não deprime a razão, não ofusca a matéria: exaure o sentimento. Foi quando percebi que o País submergiu em um drive in 4D. Tudo parece real, mas pisamos num palco de extensão desconhecida. Num vácuo do cogito. Não penso mais em esquerda e direita. Nem em progresso, principio conservador ou centro. Nada mais me prende ou me sustenta. Abandonei os argumentos. Não valem mais nada. Não são mais essenciais ao convívio.  Com o nazismo evocado, a falsidade ideológica foi holofotizada. A farsa se consolida como discurso. Como interpretação na boca de ex-idealistas, ou na hostilidade difusa. O passado pode não sustentar o futuro, é apenas hábil em perverter o presente. A verdade, foi sendo comprimida em 600 toques. Ou comprada com anúncios pagos à vista. Estamos igualmente perdidos, mas não podemos admitir o extravio generalizado. Não podemos confessar que o cadáver que acabam de solicitar é o embalsamado corpo da sociedade. Inconcebível, mas é possível supor. Os insepultos costumam voltar e pedir justiça. Em outras circunstâncias estaríamos todos juntos quando se trata de um crime. No mesmo pé. Tomando o pulso das coisas. Agindo como sujeitos de uma República. Mas, como todo projeto foi sitiado pela grandeza, estamos impedidos de dominar os fatos que se impuseram sobre nós. A realidade excedeu o onírico. O descontrole guiou-se por pauta própria. O estado policial desceu às diligências, e a realidade de campo tornou-se ingovernável. Poder não é governo. O dinheiro subsidia a política, que, por sua vez recusa-se a deixar o posto. O País que vá à breca. E nossos corações, enfim, se inclinaram ao conforto relativista. Numa cultura hegemônica quem pode falar e ser ouvido? Se a representação está equivocada, deveríamos nos submeter a quem? Aos caprichos do vento? Levados pelas roldanas dos fenômenos? Ou aceitar que o domínio deve mesmo ficar com quem teve maior habilidade para cooptar, corromper e monitorar os demais? Neste caso, a tabela registra 1 milhão para barrar e 400 mil para faltar. E então me permito entrar em estado de duvida.

Duvido da soberania popular, tanto quanto dos pleitos viciados. Duvido de arquivos vivos e dos queimados. Duvido de instituições que esperam o abismo para agir.

E não temos mais previsão. Nem para qual direção caminhar. Deixaremos a crise resolver a crise? Neste caso, qual seria nossa função? E se não quisermos mais ser coagidos a escolher? E se preferíssemos mudar tudo, de hora em hora? E se construíssemos uma representação sem ideologia?  E se escolhermos a equidistância segura dos dardos lançados a esmo? E se julgarmos que não devemos mais depositar nada para ninguém? E se os Sertões contivessem um conselho a ser seguido? A exaustão não é só uma escolha. Ela é o remorso da inação.

Posso, enfim, responder: renuncio.

Renuncio ao poder que discrimina. Renuncio ao contágio destrutivo. Ao tônus das ofensas. Ao desvios de finalidade. Aos postulados de vingança. As pulsões de morte vestidas como juramentos. Quando adiante alguém contar aos netos o que estamos vivenciando, que o façam antecipando: — Perdão. Provavelmente, não conseguirão entender, mas, caso sobrevivamos, ainda carregaremos o ônus da omissão. E pagaremos — em prestações nada suaves — o insanável preço da neutralidade.

A teia e o enredo (Blog Estadão)

“Nem sei mais se são os tempos ou os contra tempos. Sei que pago o preço, o preço do meu bem estar ter se fixado na contra mão de outros com excessivo poder. Processo histórico, preâmbulo revolucionário, estado estável insuportável? Estamos todos num só barco imaginando como e quando o mar nos dividirá. Mas, e se nos descobríssemos embarcações mais fortes daquelas à deriva? E se a constituição não fosse apenas um joguete hermenêutico nas bocas da corte? Não posso culpar ninguém. Minha decisão era só minha e atingiu um estado incontornável.  Mas há ou houve algum suporte coletivo que poderia ter evitado esse desfecho trágico? Até isso ficou para trás. Neste confinamento que já dura meses (nessa escuridão perdi a noção do tempo) essas são as últimas palavras de um juízo que, não tarda, será extinto, infelizmente pela violência, não da maioria que exigia ser emancipada, mas por força da truculência, da chantagem, do medo e das armas. Se alguém puder ter acesso a isso adiante afirmo que  não esmoreço, não esmorecerei. Se vou ser silenciado que seja diante deste protesto, cujo deslacre pertence ao futuro. Admito ter extrapolado limites em alguns momentos mas  ainda” (O bilhete termina abruptamente)

Esse bilhete manuscrito foi achado há apenas seis meses, enterrado na cela secreta número 13. Encontrado numa província ao Sul do Lago, deve ter sido escrito alguns dias antes da acusação de alta traição. Sua datação exata é imprecisa por conta dos incêndios que se seguiram aquilo que hoje conhecemos como o Verdadeiro Golpe. Na época, ainda era tática usada para confundir a opinião pública. Era prática comum daquela agremiação acusar de golpe as forças constitucionalistas, para, então aplicar sua própria modalidade de exceção. As forças da Usul e os blindados assumiram posições em vários estados da federação. Isso foi um pouco antes da caminhada dos 50 milhões, oficialmente a maior concentração pacifica de civis já registrada no planeta. No dia 08 de julho as tropas nacionais, em desavença, se viram frente a frente, contra e a favor do governo, já declarado ilegítimo por praticamente todas as instituições. A operação “Iludir-Frust” desencadeada pelo poder prestes a cair, foi marcada pelo silenciamento da mídia, suspensão dos direitos civis, e toque de recolher em cidades com mais de 100 mil habitantes. Ninguém respeitou. A ameaça de uma conflagração civil fratricida tornava-se eminente. No dia 09 de julho a ordem transmitida em castelhano e ouvida pelos dois lados para “bombardear las fuerzas contra-revolucionarias” deram o alerta e foram também desrespeitadas. Foi somente no dia 10 daquele mesmo julho, com o avanço de tanques e colunas de infantaria vinda das fronteiras do oeste e de cima que o exército de Trasio foi reunificado, e  ainda que salva de tiros e escaramuças tenham sido reportadas em várias localidades, assim como esporádicos choques entre civis, nenhuma gota de sangue foi derramada. Numa estranha e rápida reviravolta, menos de 36 horas a tropa, reunificada e a agressão externa foi rechaçada, e os invasores foram presos e escoltados para além dos limites da cordilheira.

Surpreende que tudo isso tenha chegado a este ponto e tenha acontecido numa escala e volume de desvios inimagináveis. Desde o fim da guerra fria não se testemunhava um Estado dominado por cúpula tão habilidosa na arte de deslegitimar a democracia. Tudo isso aconteceu um pouco antes dos anos 20. Trasio havia sido controlada por uma espécie de poder paralelo que instaurou políticas fiscais autodestrutivas. Praticamente todas as instituições precisaram ajoelhar-se diante do alcance e poder do Estado que prosperava sem oferecer praticamente nenhuma emancipação real — de renda ou autonomia — para seus súditos. Entretanto, como negócio privado dentro do Estado fora um plano considerado bem próximo da perfeição. Sem os acasos e imponderáveis que desfiaram a teia e o enredo, estima-se que talvez tivesse durado mais 50 anos.

Nesta primeira aula de História da Administração do século XXI, disciplina oferecida por esta Universidade em português e inglês, nosso objetivo não é o julgamento do passado, apenas oferecer elementos para interpretar o que realmente aconteceu em Trasio nos últimos 30 anos.

Sob um consenso nunca antes registrado na história contemporânea das nações, a caminhada teve inicio e apoio maciço. O governo, que já comemorava a vitória soube da reunificação das tropas e do avanço da FRP. O Poder foi sendo sitiado pelas multidões organizadas pela FRP (Forças da Resistência Pacifica) que fluíram de todas as regiões até a cidade de Ilia. Cercada, a cúpula tentou então destruir os documentos da “pasta L”, as mais graves evidências documentais, a essência do material incriminador. Em meio a situação ainda ouvia coros desestimulando a renuncia. Em seguida, a chefe, pessoalmente, tentou transporte junto às companhias de helicópteros. O objetivo de curtíssimo prazo era deixar o Altiplano para buscar exílio no País do meio, mas mesmo as embaixadas consideradas amigas foram instruídas a acionar suas secretarias eletrônicas. Como ninguém mais os atendesse, recorreram às milícias acampadas nos arredores do palácio quando se descobriu que as barracas já haviam sido abandonadas. Já que os motoristas e serviçais também haviam sumido, recorreram às bicicletas. Com disfarces improvisados chegaram até a Esplanada de Ilia, mas foram alcançados por populares antes de chegar ao aeroporto onde haviam combinado sequestrar um Boeing 727. Presos pelos civis foram entregues às tropas e seguiram diretamente para a província do Sul. Quando lá chegaram, com garantias de amplo direito de defesa, foram julgados e condenados por crimes contra a humanidade. A ex chefe saiu sob liberdade condicional em 2030 e alguns anos depois ainda tentou, em vão, se eleger vereadora de uma cidade pequena no extremo sul.O tal bilhete, perdido por quase 20 anos, e recém resgatado, ficou sob poder do novo Tribunal. Desde as reformas dos anos 30 que corrigiram quase todas as distorções ideológicas — do ensino à política —  foram inseridas importantes novas cláusulas para evitar a repetição de uma hegemonia quase perfeita que se instalou na distante República de Trasio. Radicais e populistas de direita e de esquerda foram varridos pelas urnas. Na nova constituição, itens pétreos foram instaladas como salvaguardas estritas contra qualquer tentativa de poder hegemônico. As instituições judiciárias agora poderiam se manter incólumes às pressões, e, protegidas de qualquer ativismo. Doravante, seriam eleitas a partir de listas elaboradas pelo próprio poder judiciário. O novíssimo congresso de Trasio também foi consequência direta daqueles dias turbulentos. Os empresários e suas mega corporações, então condenadas, tiveram que repatriar recursos e suas penas foram substituídas por serviços prestados ao Estado supervisionadas por comissões especiais eleitas pela sociedade. Com a reforma do sistema penal, prisões foram esvaziadas e a violência sofreu inédita diminuição. A infraestrutura que Trasio tem hoje, uma das mais eficientes do mundo, fora também um dividendo direto da ação dessa supervisão praticada por toda a sociedade. Com impostos diminutos, justos e descentralizados a sonegação passou a ser mínima. As disparidades sociais não apenas foram mitigadas como Trasio pulou à condição de 3a economia do mundo (e não a falsa sétima posição, alavancada por influencia do partido) com um planejamento original e completamente renovado.

O que acho? A renuncia poderia ter sido um último ato com alguma força e dignidade, e não de covardia. Imagino que vocês queiram saber o nome do autor do bilhete? Pois afirmo que hoje o nome não importa.  Depois de ser resgatado do cárcere de um porão na península próxima ao Lago Sudoeste, ele preferiu apartar-se da vida pública. Escolheu passar seus anos no convívio com a família ainda que seu nome continuasse por décadas na lista de prováveis candidatos à primeiro ministro. Nunca mais se ouviu falar do ex-chefe daquela República. Suspeita-se que, fugitivo, tenha conseguido deixar Trasio, e, sob uma plástica mal sucedida, mas suficientemente desfigurante, tenha vivido e morrido no anonimato numa distante província da Coreia do Norte.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-teia-e-o-enredo/

Vou te dizer o que é golpe: (blog Estadão)

Atual, especial para juristas que execram a justiça!

Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

Vou te dizer o que é golpe:

Paulo Rosenbaum

06 novembro 2014 | 17:54

vou_te_dizer_golpeXXjpg

O transe que tomou conta do país, longe do fim, agora decanta alguma clareza.  O da saturação. Notou que cada pedra do muro de Berlim, guardada como souvenir ou vendida em leilões on line, revela um significado que te escapa? Sinto não ter te convencido que não queremos mais controle. Que o Estado que te seduz não nos interessa. É o anti-desejo do mundo. Que recusamos menos liberdade, não importa o que você ofereça em troca? Se somos minoria? Até anteontem. Parece que teu consolo, e a de muitos outros, é diagnosticar  indignação como sintoma de direita. Calma. A insatisfação sem dono é um junho que ainda paira no ar. Nem progressista, nem conservador. Lembra que vocês criaram o ensaio “massas sem rumo”. A mesma que agora buscou respiro nas urnas. Que desafiou teus planos tiranos…

Ver o post original 299 mais palavras