Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP

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Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura

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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

Pessach para todos os êxodos do mundo (Blog Estadão)

O apego ao território pode ser doloroso. Transitar entre fronteiras nunca foi fácil. Um dia, pode ser preciso deixar tudo. Da tarde para a noite. Se o desterro é involuntário, o abandono pode ser voluntário. É o momento no qual todas as identidades são julgadas como uma só. Sabe-se da nebulosidade dos dias deixados para trás, da atmosfera que está adiante sem que ninguém possa prever nada. Renunciar às ancestrais marcas gravadas é deixar um inconfundível rastro de descontinuidade. O sonhos dos imigrantes não é similar aqueles dos nativos. O sonho do imigrante é abrigar-se da insuportável pressão que risca o solo.  Quem vai e quem fica? Sair de uma terra que não é sua é vagar na inconstância, não reconhecer as encostas, estranhar as margens, e num último passo, romper com as barreiras sanguíneas para estranhar as familiaridades. Desconhecer-se em lugares estrangeiros é migrar ao desconforto. Estranha-se o solo, cambia-se de margem e o mar fixa-se como a miragem ultrapassada. O percurso requer milagres, da natureza, dos outros homens, de um Deus que, mesmo invisível, costuma ser convocado para ações concretas. O primeiro Êxodo, já se intuía, não seria o último.

Vagar, parece, é errar em particularidades, o avesso das estabilidades. E o destino é um nômade sem líder.  Aquele que faz extraviar com o sorriso da convicção. Arriscar a sorte é rebelar-se contra o império do senso comum. É passar ao largo das opiniões formais, é destituir a eloquência, que, pasteurizada, muda o tom sem imaginação. O deserto te parece hostil? A areia te desmancha o passo? Este é o ponto em que se pode aceitar que, talvez, não haja mesmo escolha. É provável que toda trilha de vida contenha ao menos um êxodo. E a marcha dos milhões deslocados recomeça todos os dias. Ainda que nunca tenha havido uma cronologia para o exílio o que está garantido é a fração de um outro tempo. Quem é expulso precisa de refugio? Encontraremos uma trajetória até que cada um alcance uma Canaã pessoal? A terra prometida do singular? O mundo é um lugar tenso e nunca se sabe bem qual será a rotação das birutas. Mesmo assim, sob o chicote do tempo inacabado, continuamos na migração possível. Num parque que não nos informará a distância até o fim. Só os escravizados conhecem a opressão. E, mesmo eles, não detectam a tirania ou a mão que costuma redigir e escrever os decretos que revogam a liberdade.

Reféns da guerra autorenovada, estamos sendo substituídos por máquinas programadas para não sentir o tempo. O Oriente recusa-se a aceitar os artifícios de uma era que sonha apagar os pertencimentos. Como se todos os registros pudessem ser obsoletos. É então que as emancipações são canceladas. Viraríamos, resignados, coleções que jamais comportariam singularidades. A política mudaria para o acaso, e o afirmativo geraria simulacros de tolerância. Ou, a renúncia cansativa pelas derrotas ininterruptas. Por isso e para isso, a evolução nos impôs a memória. Genética ou não, eis a única força com potencial regenerador. Ai poderia estar a importância da mesa posta com lembranças.

O menu histórico é constituído por reais de sujeitos. Histórias com desdobramentos que, se implausíveis, preservariam a beleza do mundo. O convívio. O primeiro Êxodo, o do Egito, depois repetido no Shoah, apreciado de longe, deve funcionar hoje como inspiração para os povos forçados a atravessar desertos inacabados. Hoje, diante de gerações expostas a mais um ciclo de nebulosidade venenosa, restaria pedir perdão. Nem isso faremos. Estes amanhãs de erros antigos que os não Estadistas nos reservam como herança, podem requerer novas exigências antropológicas. O convívio precisará encontrar um novo significado.

Paradoxalmente, ao enxergar a fumaça que sopra contra a máscara da humanidade, poderemos antever outras conjugações. Desde que contenha o sopro que desloca os vícios da compreensão. Só a criatividade pode rodar a Terra para propor outras formas de vir a ser. Um novíssimo lugar para entender o valor do êxodo, de todos os êxodos do mundo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-para-todos-os-exodos-do-mundo/

Resenha do livro ” Céu Subterrâneo” no Jornal da USP

http://jornal.usp.br/cultura/busca-por-identidade-e-fuga-do-anonimato-e-tema-de-romance/

 

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura
Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

Meditativas 1 – (Blog Estadão)

O Presente instante,

recusa adiantes
Desafio de principiante,
A constância da presença

Demanda expressa insistência

Estar já, aqui,

pressupõe reter o momento
negar o automático

Livrar-se da primazia do acabado
Move o sentido, atento

É o nada anterior, flutuante
Mescla fresca de sensações

Absorve do murmúrio interior
O conjunto de fixações,
As percepções Ambulantes

Suspender juízos,
Selecionar imagens
Voos seletivos,
Paradas, instantes
Comandos ignorados

de costumes desconhecidos

E dominantes

Representar-se, intenso

renegar a pressa
Para aqui, inteiros
Lançados na luta,

a principio, perdida

conter a dispersão permanente

recusar a condição persistente

aquietar-nos os murmúrios

Até a resposta do Mergulho:

silencio ou barulho?
Preso no sonho
Das gaiolas imanentes
No forro da memória
Sopra, agora
Oscila, impermanente
Modula, afora

Embora o mundo
Imponha incondicional rendição
Que se fixe atenção
No existir sem imposição
Na Negação do estilo:

Notar, enfim, a distinção

colossal e discreta

entre efêmero e efemérides.

Processos e meta.

A Mentalidade Preventivista (blog Estadão)

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Era para ser um texto em homenagem ao aniversário desta cidade. Não deu. Pois lá se vão quatro anos do incêndio da boate Kiss e a tarda justiça ainda continua fazendo vítimas em série. Em homenagem às famílias, aos que não podem mais se defender da inépcia do Estado e para que — em algum futuro tremendamente remoto — tragédias anunciadas, disfarçadas de fatalidade, não voltem a ocorrer republico no blog, excepcionalmente, o texto “A Dor merece nosso Constrangimento”. Decerto que o imponderável, o imprognosticável,  a  incerteza e o absurdo são tanto perturbadores, como onipresentes na condição humana. Porém, isso não tem nada a ver com pane seca, falta de extintores, erros de cálculos em pontes e viadutos, falha na inteligência, justiça leniente, leis anacrônicas, cárceres inimagináveis, descaso com áreas de risco, e, finalmente, déficit de vigilância para cuidar que as instituições não sejam escravas das corporações.

Que a mentalidade preventivista se infiltre em quem governa. E, se não, — que as consequências desta falta crônica desabem sobre os omissos, mostrando que quem quer gozar do Poder, quem precisa do Poder, quem está obcecado por ele, tem a obrigação, moral ou criminal, pouco importa, de planejar e, sobretudo, a responsabilidade de antecipar acontecimentos.

 

A dor merece nosso constrangimento

 

Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.

Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?

Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.

Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.

Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe.

Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.

Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos conquistará status de lei.

Na hora dos massacres, a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.

Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record) e “Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva)

paulorosenbaum.wordpress

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Bauman e o impreciso ponto de sublimação – Blog Estadão

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Bauman e o impreciso ponto de sublimação

Não te disseram? Que havia mais de um ponto de fusão? Que a ebulição poderia ser adiada? Que há um estado que não é intermediário? Que tempos líquidos são outros? Aqueles que ainda não chegaram? Estamos juntos. Juntos, mas perdidos, entre um e outro mar. Mares que não fecham, que não criam, que apenas vivem, e, por isso, afastam as estações, arrastando invernos. Mares que não pensam, nem tomam desprezo como questão pessoal. Estamos sós neste fragmentado pátio de manobras. Como pianos sem cauda, melodias sem contrastes. Se há uma causa? Nossos destinos incertos desacertando as veias, o descompasso das margens, as beiradas. Hoje, navegamos pelo mesmo canal, tive a alegria da incerteza.

Foi quando acordei para o gondoleiro soando a voz:

“Oiiiiiiii”- Oiiiiii”

Era esse o aviso, ele vinha. Aqui, ou em Veneza, canais sobem e descem, nunca esvaziam. Canais mudam de sentido a cada instante. Em suas esquinas, colisões seriam certas e inevitáveis. Com as casas submersas ratos precisaram adaptar o instinto, nós, ainda roemos por vingança. Quando a sublimação perdeu-se na imprecisão e pulou o estado liquido, nossos olhos não puderam mais conversar. Você foi embora antes que eu pudesse te mostrar a instabilidade das águas, a sonoridade dos remos, a vacância da luz, as ondas insistentes, o deslocamento dos pontos fixos, a luz férrea dos cabelos, a qualidade dos vinhos e o ar suspenso.

Você sumiu antes que eu pudesse dizer uma palavra sobre o instável ponto da sublimação. Antes que eu pudesse retornar para jurar que há um valor sequer mencionado. Estamos diante do por do sol único, o por do sol da lua. Apenas ontem os cientistas confirmaram a autonomia do satélite. Só uns poucos desconfiavam: a Lua jamais fez parte da Terra. Se você tivesse ficado eu teria te mostrado como o mínimo contrapeso faz oscilar, como só os lábios alcançam o balanço. Não pense que não compreendo. Entendido: seu olhar despede-se a cada manhã. Sem que eu escape do instante, sem que eu te olhe a sós. Por que tuas mãos sempre apontavam para cima? Devo esperar o céu inteiro ou fazer descer teu palácio? Encomendar as cadeiras para tua dança ou molda-las ao teu convívio? Não sei se consigo enxergar tempos líquidos. Se o sociólogo compreendeu a generalização, o poeta escolheu exaltar o próprio de cada relação.

Não sei, nunca soube, devemos aceitar os sentidos comuns? Se a história é inconcebível, o que de especial dela escaparia? Qual a graça se o padronizado vencesse? Ou se vigorasse a rotina do cronometro? Ou o triunfo da constância? Nenhum autor convence. Por isso, doei um sopro ao vaporetto que me embalava pelo canal. Não é para provocar. É que só hoje senti: Veneza é um múltiplo distribuído pelo mundo. O mediterrâneo inteiro te deixaria surpresa, mas estar aqui muda tudo. Foi por isso, só por isso, que te deixei partir. Enxerguei em tua liberdade a chance de amar. E hoje, que todos os jornais assinam com tintas distantes, que as tipografias ameaçam parar, que os livros impressos narram o refluxo, e que o espirito parece se comportar com a extravagância das certezas, justo hoje, voltei para reafirmar: estamos vivos num outro presente. O vapor que você acaba de inalar é essa certeza. Só conto com ele para te prometer que, sem nada sólido à vista, renegaremos também o transitório.

Voto em transformar toda efeméride em ofício sagrado, e o presente, a sublime prova de nossa permanência.

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Silêncio dos órgãos – Blog Estadão

Conto de notícia

Blog

Conto de notícia

Crônica, política e derivações

Silêncio dos órgãos

Paulo Rosenbaum

14 Dezembro 2016 | 09h09


Sob a proteção do rei James I, Willian Harvey descobriu em 1628 a circulação do sangue em seu clássico “De Motus Cordis”— algum tempo depois de Miguel Servetus, que, sem protetores, foi queimado vivo pela santa inquisição e não sobreviveu para gozar a fama — as cidades se reorganizaram e foram arquitetonicamente dispostas de acordo com a função que o coração exercia. O principal distribuidor de sangue para o organismo – mas não único pois sabemos da rede auxiliar chamada de glomus — inspirou as transformações nas urbes.

De um ponto central saiam as várias vias, as quais, por sua vez, estabeleciam conexões e interligações, tais quais os vasos sanguíneos. A arquitetura copiava a fisiologia, a arte incorporava a natureza. Assim, não é nova a relação entre mudanças culturais e as descobertas da ciência.

As inovações científicas sempre influenciaram como a Polis e o próprio Estado deveriam funcionar. O filósofo e epistemólogo, professor da Sorbonne e sucessor  de Gaston Bachelard, Georges Canguilhem, definiu saúde com seu famoso aforismo de que um estado aproximado de cura seria representado pelo “silencio dos órgãos”. Isso significa que, quando o organismo está relativamente saudável e em homeostasia os órgãos não gritam, não fazem alarde dos sintomas, são discretos e protagonizam, sem grandes esforços, aquilo que devem fazer para assegurar a manutenção da vida. Para existir, os seres vivos não devem nota-los em seu funcionamento.

A garantia deste processo tem como resultado um admirável trabalho harmônico entre os órgãos e sistemas de modo que eles se auto regulam, numa notável interdependência e impressionante autonomia. Nem sempre esta maravilhosa perfeição perdura e nem sempre a saúde se processa durante a estabilidade. Crises podem ser benéficas para corrigir uma disfunção ou evidenciar uma deficiência ou super eficiência.

Enquanto isso, outros órgãos podem ser obrigados a se desdobrar para corrigir o equívoco dos vizinhos que não estão cumprindo seus papéis. São obrigados a tamponar a má atuação alheia, de sorte que ao “regular o desvio de função de um sistema que não está indo bem” o conjunto de outros sistemas mudam, se reconfiguram sempre com a finalidade última de preservar a vida.

Há, neste sentido, uma inteligência vital e solidária que age autonomicamente e em função do todo. Não é raro que o drama envolva sacrifícios em prol da preservação da vida.

Como Edgar Morin explicou, a diferença entre máquinas e organismo vivo é que se um dos componentes da máquina falha, ela pifa, por sua vez, uma unidade vital pode sobreviver mesmo quando um de seus componentes falha. Pois está acontecendo, neste momento.

Quando ocorre uma dor desmesurada, o aparelho neurológico “desliga” o sistema, de forma a preservar o corpo do colapso completo: a morte. Se há um comprometimento infeccioso no pulmão como, por exemplo, o bacilo da tuberculose, o sistema imunológico, não podendo destrui-lo completamente, encapsula-o e calcifica-o, de modo que o bacilo pode até permanecer vivo, porém torna-se inofensivo. E, a não ser que a resistência caia a ponto de desmanchar a defesa e libera-lo para fazer o estrago nos organismos susceptíveis, as pessoas podem conviver com o agente infeccioso sem necessariamente ficarem enfermas.

Estas analogias serviriam para construir paralelos entre o funcionamento do Estado e o Organismo. A primeira delas é que não cabe ao Estado o papel de reitor onipotente. Mas tampouco se trata da ideia reducionista de encolher o Estado ao mínimo. Isso não mudaria seu status quo, pelo menos não a ponto de torna-lo minimamente eficiente caso respeitasse a função para o qual foi designado. Isso é, se não extrapolasse suas atribuições, se não impusesse leis artificiais e se não legislasse em causa própria. Mas, principalmente se não se comportasse como um órgão desgarrado do corpo, correndo o risco de se tornar um antígeno e precipitar a temida reação auto-imune, quando o organismo passa a estranhar seus próprios componentes.

O Estado tem sido recriminado e pode passar à condição de moléstia, porque, em oposição ao conceito de “silêncio dos órgãos”, tem feito muito barulho por nada. Pois desta atuação equívoca só podem brotar instituições com os mesmos hábitos e tendências. Estado e Instituições muito barulhentas tendem a impor seus perturbadores decibéis aos tímpanos da sociedade.

O Estado brasileiro em particular, voluntariamente desorganizado por gestões caóticas — não satisfeito em nos acordar de madrugada com sobressaltos, foi perdendo a noção de conjunto. Passou a considerar que pode prescindir do convívio harmônico entre os poderes. E sob o endogenismo autocentrado de cada um destes poderes, clausulas constitucionais vão sendo abolidas ou reinterpretadas, para, em estranhas concessões hermenêuticas, adapta-las às conveniências do instante. Soluções de varejo podem funcionar, provisoriamente, até que o próximo imbróglio sobrevenha.

O agravante é que essa atuação equivoca do sistema político partidário está sendo exercida com plena noção de seu significado. Exatamente porque o fisiologismo político acordou, e sabe que, numa perspectiva de funcionamento integrado e eficiente, teria sua hegemonia minada. Veria ameaçada a menina dos olhos dos governantes: a centralização dos tributos. Atualmente taxas públicas extorsivas com dividendos privados vingativos.

O Estado, unido em desfavor da sociedade, defende-se com unhas e dentes porque sabe que não resistiria à inspeção atenta da razão. Uma análise independente mitigaria seu alcance e reforçaria a ideia de que os distritos deveriam ser prioridade. Um exame crítico evidenciaria como o sistema político atual se tornou anacrônico e de que a solução, não sendo o Estado policial, estaria no combate à ignorância.

É exatamente esse o temor que domina o Estado escandaloso. Encapsulado, o medo é de que descubramos que ele é bem menos necessário do que faz supor. De que, assim como a vida, nenhum órgão pode prescindir dos demais sem infligir danos permanentes à vitalidade. Para que possamos respirar, o Estado vai precisar silenciar. Ou, calar a boca.

Resenha do Livro Céu Subterrâneo -Por Lyslei Nascimento –

Resenha feita por Lyslei Nascimento sobre o livro “Céu Subterrâneo” de autoria de Paulo Rosenbaum.

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O romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. A pressa e o senso de imediatismo dirigem o olhar, o passo e o pensamento do leitor contemporâneo em meio a imagens desconexas, cada vez menos inteligíveis e cada vez mais alienantes. No entanto, amante das grandes narrativas e do exercício crítico que entende a literatura como uma forma de conhecimento, o que pode ser constatado desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor não se intimida diante desse cenário.

Seu romance, assim, apresenta um tema inquietante: tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, é preciso ressaltar, mas aquelas que estariam abaixo do nível do chão, como a memória e a identidade. Dessa maneira, Rosenbaum inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, ou seja, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas e níveis, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias. O convite à leitura é, portanto, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está sempre em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e também pelo leitor. Ambos se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto um quanto outro.

Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar Alan Poe, inclusive com a concepção do amigo Assis Beiras, à moda de um Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes, faz do personagem um Dr. Watson tropical e apontam para a narrativa de enigma que está sendo ali tramada.

Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna-se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que o personagem do romance Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar-se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como “O Jardim das delícias terrenas”, 1503–1515, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, deve ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras e delírios, criando dúvidas e minando as certezas totalitárias, inclusive do saber que está sendo disseminado. Tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e os dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando-lhe a visão perfeita, destaca-se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós-moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo.

“Narra-se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar?”. Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela imagem da fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação e leva com ele o leitor. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos esses fiéis, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento de Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

Também as cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. —“Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. —“Estamos pesquisando”, ele responde. Destaco, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural.

Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, das relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, das angústias e influências de textos e imagens que percebeu, leu, escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém – com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Sigmund Freud, por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, em O mal-estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá-lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar-se é, também, ferir-se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

Lyslei Nascimento é Professora de Literatura na Faculdade de Letras da UFMG

Resenha Céu Subterrâneo – Lyslei Nascimento (Blog Estadão)

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Uma resenha de Céu Subterrâneo por Lyslei Nascimento – (Publicado no Letras -Caderno C de Cultura e Literatura Judaica)

Paulo Rosenbaum

22 Novembro 2016 | 07h56

Escavar e ferir: escrita e arqueologia

Lyslei Nascimento[1]

O romance Céu subterrâneo, 2016, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. A pressa e o senso de imediatismo dirigem o olhar, o passo e o pensamento do leitor contemporâneo em meio a imagens desconexas, cada vez menos inteligíveis e cada vez mais alienantes. No entanto, amante das grandes narrativas e do exercício crítico que entende a literatura como uma forma de conhecimento, o que pode ser constatado desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor não se intimida diante desse cenário. Seu romance, assim, apresenta um tema inquietante: tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, é preciso ressaltar, mas aquelas que estariam abaixo do nível do chão, como a memória e a identidade. Dessa maneira, Rosenbaum inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, ou seja, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas e níveis, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias. O convite à leitura é, portanto, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está sempre em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e também pelo leitor. Ambos se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto um quanto outro.

Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar Alan Poe, inclusive com a concepção do amigo Assis Beiras, à moda de um Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes, faz do personagem um Dr. Watson tropical e apontam para a narrativa de enigma que está sendo ali tramada.

Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna-se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que o personagem do romance Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar-se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como “O Jardim das delícias terrenas”, 1503–1515, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, deve ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras e delírios, criando dúvidas e minando as certezas totalitárias, inclusive do saber que está sendo disseminado. Tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e os dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando-lhe a visão perfeita, destaca-se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós-moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo. “Narra-se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar?”. Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela imagem da fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação e leva com ele o leitor. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos esses fiéis, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento de Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

Também as cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. —“Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. —“Estamos pesquisando”, ele responde. Destaco, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural. Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, das relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, das angústias e influências de textos e imagens que percebeu, leu, escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém – com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Sigmund Freud, por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, em O mal-estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá-lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar-se é, também, ferir-se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

ROSENBAUM, Paulo. Céu subterrâneo. São Paulo: Perspectiva, 2016. 254p.

[1] Professora de Literatura na Faculdade de Letras da UFMG.

 

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/uma-resenha-de-ceu-subterraneo-por-lyslei-nascimento-caderno-c-de-cultura-e-literatura-judaica/