Biosemiótica e o Caramujistão (blog Estadão)

Parece que tudo, ou quase tudo, passa por nosso crivo interpretativo, mas e se não houver um crivo? Um sistema de notação que permita uma interpretação lógica?  No mínimo que respeite regras hermenêuticas consensuais? Por exemplo, aquelas que produziram um efeito colateral conhecido como civilização. E que até ontem nos permita extrair uma aproximação, a mais verdadeira possível, da realidade.

Cansado de discussões estéreis, desonestidade de intelectuais militantes e polêmicas de fundo de ateliê, e esgotados todos os argumentos de valor universal, parece que se quisermos preservar o bom humor e a saúde mental só nos resta trazer a discussão para o mundo analógico da ficção. Portanto, segue uma breve fábula. Como defesa antecipada é preciso dizer que aceitamos a classificação das espécies e a taxonomia, não temos preconceito algum contra qualquer reino animal, vegetal, mineral ou protista. Até mesmo tinha-se, remotamente, algum grau de empatia por este molusco gastrópode aquático, o planorbídeo, o qual, em linguagem popular, é mais conhecido como caramujo.

No campo científico da biosemiótica há uma pergunta essencial: como será que os outros seres vivos interpretam o mundo das representações humanas? Já que o significante é o objeto a ser interpretado e o significado sua interpretação, qual seria a avaliação que um caramujo faria diante das regras e convenções, como, por exemplo, um semáforo de trânsito? E quais seriam as consequências da distorção dessas regras dentro da própria comunidade de planorbídeos?

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Um caramujo que se achava inimputável encontra-se parado diante de um semáforo tentando entender o significado da oscilação das luzes. E acaba de receber uma mensagem: a colônia que ele liderou até a beira do abismo está ameaçada. Ele nega, mas intimamente sabe se sua responsabilidade pelo caos, consequência direta de suas decisões e escolhas erradas. Algumas propositais, mas não seguiram o roteiro que ele imaginou.

Agora ele e sua fiel equipe estão para receber uma resposta. Não são mísseis balísticos intercontinentais. São apenas salvaguardas do sistema e dos significados estabelecidos que, traídos, estavam reagindo contra os incontáveis abusos. Já que o caramujo chefe não conhecia nenhum abrigo nuclear ou convencional foi obrigado por puro instinto a se locomover de volta ao seu nicho original depois que o “fracasso lhe subiu a cabeça” como vaticinou Millôr Fernandes.

Fez isso, pois considerou que sua única chance de escapar seria misturar-se com seu próprio bando. Em sua pusilanimidade imaginou que uma cortina de fumaça venenosa lançada entre a multidão criaria a confusão e o medo propícios para acusar os outros por seus desvios. O molusco percebeu que só a aliança com outros como ele, moluscos incompetentes e venais o faria voltar a liderar a parcela de lesmas incautas. A suposta homogeneidade o protegeria das sanções iminentes e deixaria toda a comunidade em duvida sobre sua participação direta na destruição do Caramujistão. O papel de vítima sempre lhe caiu bem.

Atingindo a velocidade de lesma na freeway sua caravana prosseguiu rumo ao seu objetivo, e recorrentemente desobedecia — como se acostumou nos anos em que reinou absoluto  — todos os sinais e todas as regras. Conservava na memória como escapou dos primeiros desastres enquanto uma legião de outros caramujos submissos o seguiam sem perceber que ele os conduzia ao desfiladeiro. Muitas outras lesmas enxergaram que era uma peregrinação para a morte. Mas o grupo alfa acostumado ao domínio subliminar, alugava antenas especiais e aprenderam a emitir sinais de comunicação que produziam interferências sérias a ponto de embaralhar a percepção dos demais.

Muitos seguiam avançando seguindo o molusco alfa para chegar até o outro lado da represa em sua saga para restabelecer o nicho perdido. Seu sonho agora se reduzirá a um só: safar-se vivo e impune pelo desrespeito a todos os códigos vigentes na constituição do Caramujistão. “Não é bem desrespeito” argumentou o mais grandiloquente dos moluscos, ex-chefe da casa pessoal do chefe: “Aliás, nós nem assinamos esse constituição”. Tratava-se, segundo ele apenas de “considerar um raciocínio paralelo onde transgredir as normas contra tudo que está aí, é apenas um ato lícito de uma mente progressista que adotou uma compreensão paralela de mundo”.

Já o menos intelectual deles gritou aos demais palavras de comando e slogans e avisou que valia a pena o risco de se deslocar em área tão perigosa mesmo que cheia de outros artefatos ameaçadores com potencial esmagador. A caramujo fêmea chegou a considerar que se um companheiro lesma sucumbisse durante a travessia poderia ser até produtivo.  Já que eles afirmou, “vão ter que matar a gente” e será “com essa gosma que levantaremos a massa de moluscos alienados contra o imperialismo jurídico burguês’.

Os caramujos mais moderados que, no passado, já haviam se indisposto com o chefe — e por isso caíram em desgraça — tentaram, em vão, interceder para impedir que o inimputável planorbídeo convencesse sua legião a expandir o sacrifício da nação caramuja. Começaram a desconfiar que ele e os seus eram os únicos beneficiários da proposta de suicídio coletivo. Tribos de caramujos que orbitavam o poder, alimentando-se dos resíduos se sentiram culpadas pela vulnerabilidade do grupo e, por cumplicidade, tratavam de endossar o peculiar método filosófico adotado. Chegaram a fazer coro “que o caramujo alfa tinha compromisso e história”. Foi então que o pseudo alfa, sob os aplausos do séquito de moluscos hipnotizados, bradou sua inesquecível frase

“Eu sou o País” e “Sem mim, todo páreo é fraude”.

Foi quando um discreto caminhão betoneira com placas de Curitiba — cujo número não foi divulgado — passou nesse exato momento em baixa velocidade pela estrada. Acabou triturando involuntariamente aquela geração de lideres da comunidade de lesmas empastelando-as uma à uma contra o asfalto sob seus pneus aro 55 de 100 quilos cada.  Mesmo com o som das carapaças se quebrando o transito fluiu bem e seguiu imperturbável como se nada estivesse acontecendo.  Estranhamente, todas as lesmas saíram ilesas abandonando às pressas suas carapaças num estranho salve-se quem puder. A maioria da grande comunidade de caramujos que observava tudo atenta do outro lado da margem, sobreviveu. Passado o trauma todos relataram uma sensação similar: é como se tivessem acordado de um transe, com o pesadelo já terminado. Ninguém soube onde foram parar os restos de casca do molusco alfa, mas legistas encontraram suas antenas com nítidos sinais de adulteração. Até hoje, ninguém da comunidade de lesmas reclamou os restos. Circulam teorias conspiratórias de que ele vive disfarçado de uma outra ordem, a das teuthidias, num paraíso fiscal, sem acordo de extradição com a nação caramuja.

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A pele que nos divide – Poesia – 2018

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Acabamos de publicar o livro de poesias “A pele que nos Divide: Diáforas continentais”. São poesias que ficaram em estado de oficina por 30 anos. Junto estão alguns poemas em prosa que publiquei no blog Conto de Notícia (Estadão). O livro acaba de sair publicado pela simpática editora Quixote-Do coordenada pela eficiente Luciana Tanure e Thasia Medeiros com diagramação da Carolina Gischewsky.

Eu elaborei as ilustrações, fotografia de Silvia Fernanda Rosenbaum, a capa é de Marcelo Girard usando a imagem da obra da pintora paulistana Nilda Raw (óleo sobre 2017).

Contamos com as preciosas participações de Lyslei Nascimento que escreveu a orelha, a apresentação de Wander Melo Miranda, o prefácio do Fernando Paixão e o posfácio de Nelson Ascher.

O lançamento acontecerá depois do carnaval, em data a ser em breve comunicada. Os primeiros 50 exemplares são numerados e assinados.

Contatos para aquisição direto com a editora.

Espero que apreciem.

Paulo Rosenbaum

 

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A penúltima volta do torniquete (Blog Estadao)

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Um adulto e uma criança brincavam juntos à beira mar. A areia molhada de praia foi pingando e se acumulando no topo de um castelo pacientemente erguido grão a grão.
O filho perguntou ao pai: Ele vai desmoronar?

Quem sabe quando a opinião pública se fizer ouvir? Quando saírem do mundo virtual e filiarem-se às ruas? Ou quando entrarmos em alienação?

Não uma qualquer, refiro-me à catatonia aguda. Uma que nos impeça de considerar atos ilícitos como naturais.

Quem sabe um anestésico indolor que não nos faça enxergar o que acontece com os outros?

No País da hermenêutica fácil, qualquer um fala com propriedade nas plenárias. Ou, quem sabe ocorre algum milagre monocrático de final de ano?

O Congresso também pode reunir-se em sessões suplementares sem jetons para ler, em jograis, a Magna Carta? E então aprender a lição do Rei John, que em 1215, teceu sua ode civilizatória.

Segundo o Rei bretão igualdade perante a lei não é, nunca foi, metáfora poética. É o fundamento do legislador.

Quem sabe considerar que não faz sentido o Estado de Direito transformar-se no interminável Estado de Deveres? Que os escravos da joint venture Estado & funcionários é que merecem o descanso sabático, a desoneração, e o direito de voltar para casa vivos?

Que os partidos deixaram de fazer parte do metabolismo dos cidadãos para virar corpos estranhos. Que há uma diferença fundamental entre patriotas e nacionalistas? Entre os indignados por justiça e os coléricos contra ela?

Que os juízes, em seus leitos de morte, também terão suas consciências devassadas? Que os confiscadores serão, eles também, confiscados? Que quem aceita urnas inauditáveis será obrigado a aceitar candidatos idem?

Que a vida de um País não pode ser interrompida por sucessões de manchetes enganosas? Que as manchetes enganosas não refletem o estado de espírito de quem precisa de informações verdadeiras.

Que exceder funções é assinar um procurador geral em branco. Que não há mais quem acredite em justiça estratégica. De que as epifanias de Brasília não são as nossas.

De que a relativização levada ao paroxismo gerou para além das fake news, um fake world. Novas que se sucedem pagas com dinheiro que já foi público. E não há nenhuma solução que seja ao mesmo tempo rápida e indolor.

Que bandidos enraizaram sua moral por todas as plantações? E não queriam colher trigo. Nunca pensaram em gerar sementes saudáveis. Qualquer erva daninha dava voto, então por que a preocupação? O desejo por veneno é tão presente que os antídotos nem sequer estão sendo considerados.

O vislumbre e a expectativa de muitos é regredir a um Proto País, policialesco e intolerante. Por outro lado, a justiça passou por todas as provações e quem dirá, hoje, que nela se pode confiar?

O atual status quo não tem nada de espontâneo. Foi elaborado como plano C. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, no seio da ficção das garantias constitucionais que se chama “liberdade de expressão’ encontra-se censurado há 3.000 dias. A solução? Para não consentir usar a palavra “censura”recorreu-se à tarda decisão. Sob o manto de pedidos de golpe de vista.

Só eu me comovo quando a linguagem eclipsa a distorção? E referenda o que o consenso de magistrados e cúpulas decidiu que não pode ser dito? Que um terrorista não atende por outros nomes a não ser inimigo público da humanidade? Há uma guerra que, espremida dentro dos bastidores, faz vazar o mal feito e agora tinge a sociedade com desonras e confusão.

O torniquete está em sua penúltima volta, e o sangue pode parar de fluir a qualquer momento. As cidades estão pálidas, perdendo vitalidade para assassinos imunes. Sob gritos de socorro os cidadãos secam sob as duas mais violentas máquinas de tortura: descaso e impunidade.

O establishment fez sua escolha: o indefensável está solto e em plena campanha. Promete que ele e sua casta serão preservados junto com a garantia de foro para manter o patrimônio conquistado com o suor da dilapidação do erário.

E quem tolhe o populista que oprime? Quem interdita a omissão dos poderes? Pseudo heróis afirmam que o crime não é tudo: depende muito mais de quem o comete. O disparate é popular. A compaixão, seletiva. O abuso, consumado e bem divulgado nas redes.

A tiragem dos jornais lacrada pelos interesses. Fábricas de intenção de voto. Pesquisas direcionadas patrocinam o aumento da aprovação enquanto a lei eleitoral vive de recesso. O gesso expande-se contra a liberdade. Os jornalistas esmagados pelos patrocinadores.

Mas, calma leitor.

Talvez este não seja o fim da história como certa vez quis o acadêmico de Harvard, desmentido e reprovado a golpes do imprognosticável quando as torres vieram ao chão. Podemos desmentir tudo, por um único motivo: o imprevisível faz suas visitas regularmente. Revoluciona sem alarde, com a mais implacável simplicidade.

Como o médico que chega e, sem se intimidar com a pressão por medidas drásticas, apenas abre as janelas para arejar o quarto sufocante. Existem portões que são escancarados por ventos oblíquos, marés que transtornam encouraçados e gente com potencial para chacoalhar uma sociedade letárgica.

Salvar uma jovem democracia da morte súbita requer o Estadista que ainda não apareceu. Não será fácil, e decerto será longo, mas, às vezes, basta um caso. Um único caso tem potencial para remover qualquer paradigma (ou candidato) apodrecido na linha da história. O trilho está colocado, os vagões posicionados.

Mesmo sem maquinista a história costuma dirigir rápido e seus efeitos são mais efetivos que os discursos sobre ela. Em meio às instituições obsoletas guiadas pelo corporativismo, a entropia se acelera. Se vai ser locomotiva, trem bala, Maria Fumaça, ou apenas o colapso em todas as estações ninguém pode prever.

Por hora só há uma certeza, na disciplina engenharia de materiais existe um ponto crítico de desabamento, desencadeado por qualquer grão extra: é assim que, no percurso do tempo, muitos castelos não pararam em pé.

– Filho, viu? Acaba de desmoronar.
– Então de que adianta fazer se vai cair?
– Porque é assim mesmo, precisamos continuar.
Hesitante, o menino levanta e medita por alguns instantes antes de responder:
– Podemos começar outro?

A Inconcebível Jerusalém (Blog Estadão)

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07 Dezembro 2017 | 09h52

(…)vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo”

Jorge Luis Borges, O Aleph

Tradução Flávio José Cardozo

Não se trata de profecia, nem das miríades de referencias que citam a cidade. E não é só que ela não pode ser monopolizada, seria impossível faze-lo. Destarte é a capital, a Capital de Israel. Cidade Capital para a fronteira das culturas. Hoje um pertencimento foi reconhecido. Não se trata de fulanizar, tanto faz se foi esse Donald ou um outro. É o ato político que se revela interessante. Independentemente do estatuto político, Jerusalém, sempre foi um porto de significados. E para além dos simbolismos atribuídos, ela é, no imaginário dos povos, um dos centros do mundo. O que importa portanto não é a mudança de embaixada, não são as trincheiras, mas observar a convivência entre as tribos. Como morada de pontos múltiplos foi fundada sobre uma pedra. E se sua paz não é feita de pedaços, nem suas muralhas construídas por sedimentos, seu ponto sagrado não se reduz aos últimos vestígios do Templo, no Muro ou no Domo. Todo núcleo está em seus habitantes.

Jerusalém, o ponto mais conflagrado da história humana transcende seus traçados arqueológicos. Jerusalém urbe, contém a vitalidade de um ponto entre todos os pontos, e, como no Aleph de Borges acumula os mundos que ainda não estão descritos. É preciso ter a experiência, vivência e o tato empírico para poder opinar. Não é preciso acreditar, quem caminhar entre suas pedras constata. Suas inflexões são judaicas, mas também drusas, armênias, muçulmanas, cristãs, beduínas e etíopes. Difícil ver um espalhamento tão amplo, uma difusão tão díspar, uma incoerência tão organizada.  Jerusalém é um parque sem homogeneidades. Nunca a cidadania teve um viés tão naturalmente cosmopolita. Um retrato das subdivisões e das uniões instáveis. Um instantâneo eterno de guerra e paz, e principalmente, paradoxo a céu aberto.

E mesmo que não tivessem a amplitude que insistimos em atribuir a ela, sua autodeterminação como território antecede conflitos, colonizações e invasões. Jerusalém, a cidade mais destruída e reconstruída da cartografia, foi também a inspiração da poesia de Isaías e Ezequiel, Torquato Tasso e Willian Blake.

Ao contrário dos alardeamentos jornalísticos das agencias internacionais não será Jerusalém reconhecida como capital a barreira à paz. Ela a personifica. Modular o convívio e superar o vício da disputa é deixar-se levar, através das moradas e dos encontros. Seculares e religiosos, árabes ou judeus, cientistas e místicos, ímpios ou santos. A legislação é passageira, a vida que circula nas ruas, definitiva. Pois quem vive ali?

Não são os capacetes azuis da ONU, os diplomatas, ou os adidos militares. A literatura e a história ali concentrada transcende Washington e Moscou. E, infelizmente, compromissos, culpas e desafios pecuniários ainda não permitiram que se conceba os direitos de Israel a não ser com salvaguardas imorais.

Do ponto de vista estético, nada se compara em densidade e variedades cromáticas.

Quem frequentou seus mercados e testemunhou seu trafego caótico?

Em meio à omissão geral e o silêncio dos jornais a intolerância que cresce contra as minorias pode encontrar respostas mais criativas do que preservar um status quo que já se revelou moribundo. A mudança de uma embaixada tem valor para além do simbólico. Trata-se, antes, de uma exortação para vislumbrar a saída. Conteste-se, mas admita-se: é a renovação que saúda a novidade. Um lance que força a resolução do impasse. O estatuto final da cidade poderá ser sempre incerto, mas ela, a cidade, decerto, nos sobreviverá. A decisão autocrática não é mágica, apenas move uma peça do tabuleiro viciado, bem melhor do que esperar que os dados resolvam dar as caras.

O senso comum da envelhecida diplomacia ainda não percebeu. De todos ou de ninguém ela só deve ser cuidada por quem enaltece o acúmulo de culturas.  Quiçá os homens consigam sentir o Aleph e, para além das ruínas, enxergar o extraordinário universo da cidade fincada entre Ocidente e o Oriente, a inconcebível Jerusalém.

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A razão que nos destrói (blog Estadão)

Há um metabolismo que nos percorre as artérias por fora. Paralelo aos corpos. Há um modo de ver as coisas que não é discutível. Que nos impõe seu fluxo pelo ritmo aflitivo com que anda. Pela dor que vem em salvas. Pelo eclipse das passagens. E para que? O alcance da vida sem mundo interno vinga-se das certezas precárias. Por isso, e só por isso, o dia precisa de deslizes, de pequenas amnésias, de traumas curativos, de excentricidades regulares. E não, não são só as ofensas da irracionalidade que precisam de combate. Há uma razão que nos destrói. As avalanches psíquicas da Terra não justificam o encolhimento das impressões. Nem a hipertrofia do mundo objetivo contra a arte e os artistas. Ou a síntese da matéria contra o análise dos romances.   Seria isso se o senso comum não tivesse a priori definido o que devemos ou não sentir, se a ordenação prática não tivesse imposto limites à imaginação. Estamos sem  horizonte e não é só por falta de lideres. Nem porque esta safra de estadistas não nos diz mais nada. Ou porque os magistrados nos mostraram dosimetrias maniqueístas. Estamos sós, mas não é essa a dificuldade. O trágico é não conseguir assumir que nos isolamos das responsabilidades, pelos atalhos que nos enfiamos, pelos desvios que nunca enfrentamos. A culpa, não é da nossa civilização, nem da cultura que forjamos. Se há uma, culpa, deve ser exclusiva e intransigentemente individual. Mas sonhamos acordados com um principio do prazer assoprando: isso nunca acabará. É só ao outro que podemos contar nossas histórias.  Só um outro para poder ouvir que não temos direito à paralisia. Nem nos é dado ficar à mercê dos governos, dos tiranos ou das prisões de antanho. Exigiríamos mais de nós mesmos se soubéssemos que tudo termina, já, agora, neste instante? Se o varejo das relações sumir teremos só atestado mais um isolamento. Nossa vida impregnada com a obsessão terminal. Nosso impacto mínimo na galáxia. Nossa irrelevante missão no cosmos em qualquer coletivo que se imagine. Mas, e se antes soubermos que há uma fala, um argumento e uma mão que nos desfragmenta? Que nos segura e sustenta sobre o abismo e seus resumos? Que nos apoia quando nem sonhávamos com amparo. Seremos sempre atentos aquelas sombras que nos iludiram, mas não aprendemos a reconhecer a escuridão que as escondia. Por isso há um dedo que dirige – invisível que seja — os apontamentos dos destinos. As desatenções com que singramos os caminhos. O esquecimento do fim e da morte com vinho. Estamos a um só passo de saber que nosso lugar nunca foi este, e mesmo assim, contra tudo e contra todas as evidencias, persistimos na esperança.  Esperança de que tanto a salvação como o completo extravio não nos expulse da condição humana. E que, perder-se no afeto, não é muito distinto que encontrar-se com a redenção. Alguma delas.

Nação em transe e o risco de acertar (blog Estadão)

Nação em transe e o risco de acertar

Paulo Rosenbaum

06 Outubro 2017 | 10h11

 

Qual é o significado de estar à deriva? Quais as analogias possíveis entre um transatlântico e o Brasil? Um barco pode ir adiante, ceder ao extravio. Uma belonave, encontrar o Rochedo, o Farol ou encalhar numa praia deserta sem nunca aportar. O que faremos com um País que parece não se encontrar em lugar algum? De um Estado que age à revelia das pessoas? Que humilha a opinião publica. Será um problema de identidade ou de escrúpulos? De orfandade política ou submissão aos critérios malucos? Seremos uma sociedade inauditavel? Foi a economia que nos cegou para todo o resto? Que nau é essa, que ruma acéfala? Qual tipo de embarcação transita com passageiros apavorados e que sonham apenas com dias menos sobressaltados? E dai que a bolsa subiu se os dividendos morais desceram ao inconcebível? Não é que um País de mandatários inidôneos — ativos ou passivos — pode ser governado adequadamente. Acontece que agora a náusea fina e o enjoo permanente vem assolando incessantemente. Estamos à beira do brejo, com um Paranoá de vantagem, mas calma, ainda não transitou em julgado. Eis que vemos a justiça como uma miragem deformada, com cadeiras elétricas no pedestal.

A justiça que deveria coincidir conosco ainda não examinou as necessidades elementares da sociedade. A justiça prescinde do povo e ao que ele aspira. Compreende-se o desprezo, afinal qual Estado precisa de seu povo passado o período eleitoral? A justiça perdeu-se na forma da norma. E o sentido, mais uma vez, teve que ser sacrificado pelo juízo.
Recém descobrimos que foi lá, na fábrica de heróis, que os vilões foram faturados. Heróis especializados na reforma alheia. Olímpicos ou ordinários trata-se de política de terra espoliada. E, mais uma vez, e de novo, voltamos à lentidão seletiva da justiça. Por sua vez, é ela, a justiça, que guarda potencial para incendiar os cidadãos com a coragem. Daqueles que não temem se expor para sustar a sangria provocada pela facas da inércia. Da vida doada por outrem. Da honra que se esfacelou contra postes indicados. Que tomaram o poder com aval do capital. Dos litigantes mudos que desistiram dos ressarcimentos. Da cassação da voz dos assassinados a sangue frio. Ressentimentos incoesos vem e vão enquanto a sessão senado vai sendo reprisada à tortura. Jagunços veementes em suas retóricas dedicadas ao despiste. Está é uma Nação em transe?

Era.

O crime não compensa, só foi sendo assimilado como tradição. É natural que as organizações criminosas sejam autorreferentes. As regras valem pelo fio da navalha. Hoje vigente, amanha quem sabe, diferente? Duram um átimo, conforme a balança adulterada, o empréstimo estatal subsidiado, o imposto desviado. Não é consolo, mas eles ainda não acordaram para o pesadelo que os espera. Não há nenhuma chance de viver e ser agraciado enquanto teu irmão está cercado por fuzis ou milícias. Enquanto crianças habitam celas de perversos, e seguranças descontentes incineram creches. Se a missão das víboras tem sido produzir veneno, a única ação digna será buscar antídotos.

Eles trabalham com mandingas, nós exigimos ciência. E agora, o que me dizem? Que estamos todos cansados de tudo? De que estaríamos reduzidos a duas soluções: banho de ditadores ou juízes legisladores. Quem sabe um tirano avulso que saiba tratar as ratazanas? Que estamos no fim da estrada e o estado policial nos agraciará com suas mordaças e sombras? Essa é a pior hora para descansar. É o momento para escândalos públicos. De urrar forte contra a tentação da censura. É o timing para convocar ruas que esvaziem palácios. É verdade que, as vezes, temos que nos resignar com o maniqueísmo: a escolha simples entre o beneficio da duvida e os malefícios (reais) das certezas. Se há mesmo um lado bom da polarização, do entrechoque permanente, das colisões frequentes é que, sem alarde, nota-se que brota um subproduto inesperado: uma população de pragmáticos e não ideológicos independentes.

Um autor contemporâneo acaba de propor : basta de eleições – para ele estatisticamente a fonte de quase toda desgraça e corrupção – que tal escolher através de sorteio, as pessoas que nos governam? Para ele, teríamos mais chances. É claro que gera desconfiança mas há pelo menos uma vantagem: colocar toda culpa no lance dos dados. Imagino que, teimosos, insistiremos mais um tanto nesse empirismo eleitoral inventado pelos gregos — ir errando até correr o risco de, um dia, acertar.

Um aiatolá nuclear em SP (blog Estadão)

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.

As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo

Viver a Remo (blog Estadão)

Crédito foto – Sergio Prieto (que com sua equipe Samu – hexacampeã brasileira e vice campeã mundial categoria sprint RIO 2014)

Onze kilometros, remando. Remar é sobre-impulsionar, deslocar-se em ritmo, selecionar aguas e intuir a derrota final da inércia. Os remos transformam a percepção do tempo, revelam a variedade das pás instintivas, e, num momento, eles já se tornaram os únicos instrumentos disponíveis para alterar toda direção. Desviar a rota é mover-se em lemes improvisados. Em seis com ou doze sem, uma canoa é desafio para flutuadores. A embarcação que nos move numa adaptação vigorosa e imprecisa. O destino está bem ali para nos dissolver a resistência.  Cada margem é a ultrapassagem do que deixamos para trás. Quem rema sabe que o sinal da eficácia está no movimentos dos corpos, na equipe que vaga junta. Colaboração autonômica e instintiva. Um time vertebral que age como organismo. Sem o conjunto nada seria assim. A marcha, regida como orquestra cadencia a alternância das águas, mini marés, propulsões seguidas de relaxamento. A progressão deixa seu rastro fantasma na superfície. Um fio dissipável. Fibras exatas de carbono se alternam com remadas precisas com madeiras empunhadas. Se o pulso é individual, o pulsar, pertence ao grupo. O reino dos deslocamentos é um império de ondas passadas. De ultrapassagens simbólicas e emparelhamentos sem cronômetros. Quanto aos corações, é a união de bombas ativas que constroem fins comum. O treino sob o sol desrepresa a represa.  Torna-a uma só continuidade com a cidade ao fundo. A liberdade é um atributo indistinguível, só reconhecida sob o peso dos céus abertos e dos espaços sem fronteiras e delimitações. A canoa, uma arca de sobreviventes, deslizou sobre o terreno e a instabilidade fez seu serviço. Contra o estado estável, o universo poderia ser dividido entre as atividades que rivalizam com o mundo e aquelas que o complementam sem grandes pretensões.

Se houvesse uma síntese, a experiência com a canoa viria, unida a todas as embarcações — aquáticas terrestres e áreas — seria nos devolver à esperança de viver sob a natureza em espaços abertos. Remando.

Um Aiatolá nuclear em SP (blog Estadão)

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.

As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) Blog Estadão

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Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina)

Paulo Rosenbaum

24 Maio 2017 | 09h40

Ninguém sabe qual será o desfecho para mais um episódio de anomia institucional. No entanto existem aspectos clínico epidemiológicos que ajudam a compreender o processo político nativo e esta quadra maligna a qual hoje tentamos atravessar.

Um deles é o conceito de redução de dano. O viciado em heroína — uma droga elaborada a partir da resina das sementes da papoula e que provoca adição das mais cruéis e letais — não pode ser privado abruptamente de toda droga sob o risco de apresentar um quadro dramático conhecido como síndrome de abstinência. Pode levar o sujeito à euforia, depressão, sintomas graves, podendo até progredir ao colapso, distúrbios neurológicos, cárdio-circulatórios incluindo um não desprezível risco de morte.

O que se faz nestes casos? Tenta-se substituir a heroína por outra substância, a  metadona, Também um poderoso opiáceo, igualmente narcótica, porém com repercussões clinicas muito menos graves e que permite, em alguns casos, manejar a situação por algum período. Quando bem sucedido, será possível retirar gradativamente ou diminuir de forma significativa a droga.

Antes de julgar e apenar este texto como maniqueísta ou pró partidário, a leitura atenta deve provar exatamente o contrário. Trata-se de fria análise diante de um quadro clínico grave onde toda decisão será difícil e até mesmo constrangedora, pois se trata, não mais das facilidades binárias de escolher entre o bom e o ruim, mas distinguir entre o mal e o péssimo.

Pois bem, o atual governo equivaleria à metadona em inicio de tratamento, enquanto a administração lulo-petista atuava e vem atuando de modo similar à heroína, e caso persistisse, mataria o paciente por overdose.

Isso precisaria ser amplamente compreendido pelos promotores e juízes sob pena de condenar o paciente, a nossa “Republica Federativa” à morte ou a uma prisão perpétua à revelia.

Outro conceito médico pertinente aqueles que querem sabotar as garantias constitucionais para fazer justiça é o aforismo herdado do hipocratismo “primun non nocere” cuja tradução seria “em primeiro lugar, não causar dano”, provavelmente ignorados pela procuradoria. Ainda outro aspecto clínico que os doutores em questão desconhecem é que nem sempre deve-se buscar a máxima imunidade, as patologias autoimunes estão aí para demonstrar isto, já que “máxima” pode significar desregular pelo excesso. Não tenhamos ilusões, o Estado clinico da República é de máxima gravidade, de UTI mesmo, e seja lá qual for o entorpecente, estamos todos intoxicados com as imagens, áudios maquiados e o exercício de uma hermenêutica de qualidade duvidosa, mazelas às quais estamos sendo impiedosamente expostos. Merecemos ou não algum tipo de salário adicional de insalubridade?

Pode-se recorrer à medicina mais uma vez para construir outra analogia. A homeostase é um fenômeno  clínico   insinuado pelo fundador da homeopatia Samuel Hahnemann, comprovado pelo pai da medicina  experimental Claude Bernard ,e finalmente desenvolvido como tese pelo médico norte americano Walter Cannon, o qual cunhou o termo que em conjunto com suas pesquisas lhe rendeu um premio Nobel de medicina. Este fenômeno se presta a explicar as condições estáveis que o organismo precisa ter para conseguir manter o equilíbrio das funções corporais. Ele é quase equivalente à saúde e seus mecanismos adaptativos que executam muitas diante de um meio altamente instável, uma admirável atividade com a finalidade de preservar a harmonia entre aparelhos e sistemas orgânicos.

Isso significa que, mesmo num momento de alta turbulência, a sociedade também pode ser comparável aos sistemas orgânicos e deve encontrará meios de reagir/adaptar-se às turbulências naturais (moléstias e epidemias)  ou artificiais (armadilhas frutos de messianismo jurídico) . Os mecanismos de defesa podem sobrevir através de crises febris, eliminações violentas, sintomas agudos ou insidiosos. Alguns sintomas amedrontam, mas eles significam resposta, vale dizer, que o paciente está imunologicamente hígido e em plena mobilização das forças da sua vitalidade.  Mesmo assim, pode não ser suficiente, ele pode precisar de novo impulso para sair do estado defensivo e enfrentar aqueles agentes agressores, ou no caso da nossa analogia  pessoas ou partidos que desrespeitem a constituição. Como sempre, existem os piores que — aqueles que por exemplo sequer a assinaram — como é o caso do governo anterior e de seus partidos terceirizados.

Sem conseguir a estabilidade homeostasica, o prognóstico é mais ou menos previsível, desceremos a um quadro séptico generalizado, a tal infecção sistêmica.

Ninguém é ingênuo o suficiente para atribuir a vastidão da crise como responsabilidade única de Lula, PT e seus apoiadores, mas é evidente que, sob o discurso ideológico populista estes ativamente fermentaram o imbróglio, para que a massa danosa crescesse de forma descontrolada. Para, enfim, criar um banquete corrupto de proporções épicas, talvez sem parâmetros comparativos com outros escândalos da história política-policial mundial. Cálculos grosseiros indicam mais dinheiro desviado do povo brasileiro nos últimos 13 anos do que aquele empregado, por exemplo, no plano Marshall para reconstrução da Europa no pós  guerra.

Ninguém está mais digerindo o ativismo jurídico ou a lentidão voluntária com que os impasses estão sendo cozidos no vapor do caos. Antes que o grande vomito jorre até a boca e a anomia torne-se a política oficial, seria desejável costurar uma união cívica também sem precedentes. Agora é chegada a hora da legitima defesa e o único consenso possível que resta em nossa débil resistência é encurralar aqueles (incluindo instituições aparelhadas) que dominaram o Estado para desmonta-lo. Ou será melhor esperar a incineração sentados?