Terror do opressor (Estadão)

Terror do opressor (1977)

16 março 2016 | 10:09

 

Lava-te agora com o precioso cânhamo

Do teu poderoso homicídio

Tão forte a gosma da corrupção

Que jamais enxaguará teu extermínio.

Se censurar foi o teu meio

E conceder-nos matança

Foi a tua redundância.

Não haverá um só meio

Que não conheça a revolta, o centeio.

Explodindo teu glutão palácio

Ferveremos tua condolência

Abençoando-te com uma tortura sem violência.

O abuso nas tuas insígnias

Não é a estampa do horror,

Mas a forma como compeles dor.

E teus fiéis servos perpetuam

Tua doutrina mundana

Imprimindo uma consciência tirana.

Faremos ainda com que cantes

A infinidade de nossos levantes.

E a tirania da tua democracia

Farás apenas com que murmures

– Sim, o poder com sangue tecia,

Mas nada é eterno pelo tempo que dure.

Quando assim vier-nos, então

Teu submisso pedido de clemência,

Enlouqueceremos de euforia, demência.

Finalizaremos teu sepulcro com pó,

E te embalsaremos

Não com a glória de um faraó

Mas com a solenidade que temos.

Conservaríamos viva a tua alma,

Para que cada um expurgue o termo

Na tua imagem, o que foi teu governo.

(Poesia da Coletânea “Diáforas Continentais”, 1977)

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Masurpial na Orla (Estadão)

Marsupial na Orla

Demorei muito. Já em Copacabana, achei que dava para parar de saltar. Os habitantes locais são muito simpáticos. Será que o pessoal pensa que fiz todo percurso na raça? Como o uber está proibido na cidade, tivemos que pegar táxi e veiculo leve sobre trilhos. Mesmo acompanhado do Phil, meu adestrador, as pessoas me olhavam desconfiadas. Pensa, ninguém sentou nem perto. Claro que me sentia discriminado, mas já me acostumei, vida animal é assim mesmo.

Queria uma treta, mas acredite, não havia vivalma disposta ao boxe. Será que eles sabem? Que sou amador e vim de longe? Vim nada, fui convocado às pressas. Nosso continente é maravilhoso, mas quando cheguei, perdi todo o fôlego. Que lugar: “a mais bela vila do mundo” como já escreveram explicou o Phil durante o nosso voo. Lugar lindo, mas em segundos, já percebemos que devia ser mesmo muito perigoso. Será que eles também tem crocodilos escondidos que aparecem de repente e comem pessoas?

Nenhum companheiro de espécie por perto, nem no zoo. Pensei cá com minha bolsa “você está sozinho nessa”. Foi quando resolveram me levar para me refrescar na orla. Sentei num banco bem do lado da estátua. Um humano magrinho de óculos, um poeta disseram ao Phil. Foi lá que pensei pela primeira vez: o que faz um prefeito? E ele nos chamou para o que? Me serviram uma taça na famosa confeitaria do forte e eu sai bêbado com todo aquele açúcar. Estava quase na hora da nossa audiência.

É claro que eu não queríamos nos atrasar. Pedido formal de desculpas para um símbolo nacional não é todo dia. Ainda mais como representante de uma espécie que tem um nome como o meu. Na verdade, “can-gu-ru” nunca foi o verdadeiro. Foi apelido, mas colou na hora. Decorei a história. Foi o seguinte: meu nome surgiu quando o capitão James Cook, o viajante, nos viu e perguntou ao guia aborígene: “o que é isso?”, e o tradutor verteu a pergunta para a língua nativa dos Guugu Yimidhirr. O guia, em dúvida, repetiu a pergunta algo como “não compreendo” ou “o que foi que ele disse?”. Quase ninguém sabe, mas foi assim que acabei batizado. Não consultei ancestrais para saber se a história procede, mas sempre ouvi que lendas não precisam da verdade.

Cheguei na portaria para o encontro com o chefe deles, e já nos deram um crachá. “Aguenta irmão, o homem ainda não chegou”. O porteiro deu uma piscadinha e quando perdeu o medo chegou mais perto do Phil e disse: lá na sua terra, já ouviram as gravações? Não entendi e ele me pediu para esperar e começou a rodar a conversa no smartphone. Ele começou a traduzir, mas eu nem precisava. Aquelas vozes, céus. Era entre dois chefes conversando. Já tinha ouvido Phil explicar que “políticos” são como “adestradores dos humanos”. Não sei quanto a ele, mas percebi que era roubada. Vozes são tudo para nós. Como se sabe, a linguagem dos animais é outra história, mas ninguém sabe do alcance do nosso ecletismo. Podemos não ter vocabulário, mas se há alguém que capta intenções somos nós. E eu pude sentir que aquilo era o que Phil chamou de “barra pesada”.

Esperei um bobeada do Phil, e me soltei da coleira. Apesar dos gritos de desespero cai fora. Pulei como nunca, achei a Vila e desviei de todos aqueles canos e fios. Voltei tremendo e me encolhi na minha confortável jaula. É verdade, ia sentir falta da delegação e ficaria sem assistir as lutas de boxe. Que os jogos deem certo, mas nunca senti tanta pena de humanos com esses seus horríveis adestradores. E o pior é que soube que eles é quem escolhem. Estranho, não? Can-gu-ru?

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O Árbitro do Sentido (Estadão)

O Árbitro do Sentido

Num belo dia estamos no limiar do que parece ser um equívoco, porém, reconsidere, poderia ser muito pior. Para além dos gags linguísticos e dos reducionismos que o senso comum tem nos pregado no horário de TV subsidiada, estamos observando uma repetição. Uma a mais.

Olhando pelo lado estritamente analítico, nunca fomos tão anacrônicos. Mas, ao mesmo tempo, estamos reagrupando informações para alterar o ritmo do tempo, do qual antes éramos apenas expectadores passivos. Estamos vivendo em uma dimensão que não controlamos bem. Ainda. Pode ser um enorme entanglement effect (efeito de entrelaçamento) em que nós afetamos e somos afetados tal qual as partículas de luz, mesmo separadas, sofrem efeitos similares. Mas também pode ser algum outro fenômeno, desconhecido. Um destes que ninguém diagnostica.

Nosso solo comum é, decerto, maior do que tudo que nos distancia. Para pensar no jantar deste domingo: enquanto a política esfacela relações, quem provoca a secessão e as dissidências, reina incólume. Ainda assim vingar-se não é a resposta: jamais chegaríamos ao primeiro culpado. Enquanto isso inocentes precisam ser protegidos.

Não importa mais de que lado do espectro ideológico as pessoas vivem. O vital subsiste na preservação de algum senso de justiça, e o império do justo não é, nunca foi, a guerra.

A priori, só a paz significa muito. Mesmo nos cantões e nos ringues onde todos vociferam promessas e ameaças é a vontade de sentido que merece ser preservada. É o olhar de cuidado com quem não conta com nada.

E nós? Contamos com o que? Que o Estado faça o que jamais conseguimos aplicar em nossas experiências individuais.? A urna é apenas um símbolo amorfo. O verdadeiro manual é interno e o resultado poderá ser enfim nos reconhecer como povo. Se hoje isso não é possível, o dia chegará. Inexorável. São as ações ordinárias que nos levariam a algum senso de unidade. Quem sabe a tolerância pudesse recomeçar com a autoconsciência despertada por eventos mínimos. E assim, aqueles que defendem o humanismo, os reformadores íntimos dos outros, não exercitariam sua fiscalização sobre os demais.

Não sabes do que estou a dizer?

Pois vamos de outro modo: vote por sentido. Vote, impiedosamente, mas vote. Vote em mediações. Vote por conciliações. Vote por você — estamos cercados, uns pelos outros. Vote contra a opressão. Vote numa justiça que antecede nomes. Vote sem culto à personalidade. Vote no que é claro e distinto. Vote na ciência que amplie a vida. Vote na tradição que tem lugar no mundo. E vote também no progresso que não destitua o que já foi compreendido. Vote na civilização. Vote considerando parâmetros mais altos daqueles que estão disponíveis. Aproveite e não vote neles, nem nos outros. Vote no convosco. Vote na transparência que comunica. Vote na presença. Vote nos sons que ainda estão por nascer. Vote na ninfa. Vote em quem irá te acompanhar. Vote no que é transição. Vote no fluxo de consciência. Vote e eleja hermenêuticas que protejam. Vote em minorias. Vote no interesse público. Vote contra o desvio de função. Vote por um e por todos. Vote rebaixando a aflição. Vote na urna que amplia teu alcance. Vote na verdade que paira sem saber se aterrissa. Vote contra o refrão. Vote sem levar em conta os slogans. Vote longe das manadas. Vote no interno. Vote para sufocar a mentira acumulada. Vote desconfiando de quem sofisma. Vote abstraindo o carisma. Vote abandonando a supremacia. Vote na intensidade da igualdade. Vote em equidade de oportunidades, nunca de resultados. Vote pelo rodízio de poder. Vote em cores primárias. Vote em estado de liberdade. Vote olhando para além das muralhas. Vote olhando as crianças. Vote enxugando as lágrimas. Vote esquecendo comandos. Vote para resgatar a cidadania. Vote dissolvendo boatos. Vote menosprezando pesquisas. Vote com a noção de processo. Vote sabendo que já é história. Vote como se fosses um juiz imparcial diante de um impasse centra. Vote sob a viseira do passado. Vote como se houvesse um futuro. Vote em um presente.

E se mesmo assim tudo parecer/estiver perdido, vote sabendo que você é o árbitro do sentido.

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Imprescindíveis, como textos (Estadão)

Em muitas regiões do País e do mundo as pessoas vivem em função das marés. A maré baixa e a maré alta representam visita aos bancos de areia, praias e ilhas temporárias, navegabilidade fácil ou encalhe, múltiplas perspectivas de aproveitamento do tempo, do turismo, lentidão ou velocidade, enfim do ritmo de vida. A ritmicidade ditada pelas circunstâncias da natureza foram sendo deixadas de lado pelos habitantes das urbes. Ao menos assim eles pensam. Mas isso não passa de negação da nossa tempera biológica, toda ela regada por ciclos determinados por noite e dia, fases lunares, incidência solar, oscilações barométricas e outros fenomenos cósmicos. A astrobiologia e a cosmobiologia nos regulam e aos nossos corpos, apesar de, na maior parte do tempo, não sermos capazes de detectar a extensão destas influências. O surpreendente é que elas não nos afetam de forma homogêna, mas sim de acordo com características idissincrasicas.

Apesar das turbulências externas comuns as marés internas nos sacodem de um lado para o outro. A partir de causas  gerais cada um responde de uma forma. Claro que a ciência nos aponta as causas fisiológicas das instabilidades humorais.  A secreção de hormonios que estabelecem aquilo que conhecemos como ritmo circadiano — o timing que determina nosso ciclo de sono e vigilia de acordo com a atividade da pequena e vital glândula chamada de supra renal. Os oceanos de dentro nos movem como embarcações, empurrando e ondulando nossos estados anímicos, através de encontrões n’agua, solavancos internos, salinidade excessiva, paisagens curtas e panoramas desoladores.

Com efeito, toda esta turbulência acaba nos arremessando ao campo dos marinheiros experientes, e, as vezes. lançam o navio todo contra terrenos acidentados. Naufrágios nunca são inesperados. É quando percebemos o inexorável: estamos sempre sujeitos a uma natureza interior que interage, interfere e modifica de volta o meio exterior. No entanto, o mais notável, é que mesmo sob a influência de todos estes fenomenos coletivos, a resposta é sempre individual.

É só aparentemente desolador que nossa solidão acabe sendo a única estabilidade que conheceremos em profundidade. E mesmo nos mergulhos coletivos, nas comemorações sociais, dentro dos grandes aglomerados, nos grupos familiares, nas confraternizações universais da cidadania, o que perdura é uma respiração, única, irrepetível:  a sua, a de cada um.

A solidão é, portanto, a única melancolia justificável. A única característica que acompanha essencial e inapelavelmente todo sujeito. Do berço ao sepulcro. Do começo até o último fim. Independentemente dos estremecimentos relacionais, das estradas vicinais estreitas, dos mangues hostis, dos cardumes que fluem pela correnteza. E da natureza, que segue alheia e sem nenhum senso de responsabilidade ou de obrigação.

Notem que o astrolábio afetivo do navegante fixa-se sempre sob o patamar do afastamento. A verdadeira roda da fortuna gira, em direção à impossibilidade de futuro. E segue distante dos homens que vivem buscando egregoras, fazem alianças para fixar rotinas de convívio, e, desesperadamente, buscam alimentar a fantasia para sentir que, mesmo distante, estão próximos da humanidade, protegidos do isolamento. De algum modo, um dos sonhos mais vulgares é que sempre estaremos cercados por alguém. É compreensível que se alimente tal ilusão, assim como é essencial — conforme nos apontou Ersnt Becker — negar a morte para seguir adiante.

Nosso impeto imaginário foi adiante, nos arrastou ao ponto de achar que somos ou seremos compreendidos. Trata-se da quimera mais astuta já inventada. Mesmo assim, não devemos nos cegar ao leitmotiv que nos empurrou até o presente. E esta perspectiva é, inegavelmente, um mérito exclusivo da literatura. É ela que nos informa que só há uma forma perfeita de utilizar as palavras, como já escrevera Paul Ricoeur. Portanto, se ficar provado que não somos ou nunca fomos essenciais para ninguém, assim como as palavras, permanecemos imprescindíveis, como textos.

Alguém há de nos ler.

O ano em que vivemos em função do fim (Estadão)

O ano no qual vivemos em função do fim.

Não foram só efemérides. Considerem que os tempos são relativos às espécies, Uma libélula vive seis meses, uma abelha um, a mosca doméstica 15 dias, um efemeróptero já na vida adulta, em média, um dia. Num Universo que estima-se tenha 5,3 bilhões de anos, o ciclo que se encerra hoje é apenas mais um. Arbitrário, como todas as decisões culturais. Entretanto, há uma outra linha que interpenetra as unidades que o mensuram. Isso significa que, talvez, o fim do ano possa se misturar com os começos e que os términos não sejam apenas reles finalizações simbólicas.

Por isso, este não foi um ano que apreciamos, nem sequer o vivemos, pode-se dizer que existimos apesar dele. Notem que, como nunca, a espera pelo passagem de um ano para o outro encontra-se anormalmente ampliada, sensorialmente alterada mesmo. Aos milhares pessoas estão afirmando nas redes sociais que o “tempo não passa” que os “365 dias viraram 500” e que “nunca espararam tanto pelo fim do ano”.

Ora, se o tempo é uma constante, por que o incosciente coletivo grita a mesma coisa? Por que o tempo fixou-se num estado de animação suspensa?

Relógios atômicos comprovaram a teoria de que quanto mais alto estamos — por exemplo numa montanha — mais rápido o tempo passa. Einstein previu que o fluxo de tempo pode passar mais lenta ou rapidamente por sofrer dilatação em função da gravidade de um corpo macíco que gera tal distorcão na equação espaço/tempo — o que teoricamente nos permitirá, um dia, viajar através dele.

Arrisco escrever que nossa aflição sobre o tempo orbita outra esfera, ainda que a metáfora do alto e do baixo venha a calhar. Visto de um angulo único este foi um ano repleto de atipias, sempre com baixíssimas expectativas em todas as esferas. Experimentamos inédita sequencia de anomalias institucionais. Uma gangorra psiquica que poucos povos em democracias liberais recentemente experimentaram  com tamanha intensidade.

Se consideramos o tempo psicológico nota-se então o que poderíamos chamar de constrição cronológica. Carregada de angústia incompletas. De tensões não objetivadas, as piores. Então sofremos pelo acumulo? Do que sentimos antes e depois de cada uma das decisões sem critério daqueles que deveriam comandar o País? Governos paralisados por um anestésico de lenta infusão? Como conseguimos sobreviver sob a enxurrada de contradições? Que tal viver sem saber se a República existiria no dia seguinte? Oprimidos por uma crise economica sem precedentes? As ameaças diárias de violência? Os dossies de gaveta? As tentativas de assassinato, e os mais de 60 mil bem sucedidos? Os endossos e retrocessos da corte? O País sob ameaça de um Estado Policial? Uma oposição mimética, que nunca fez oposição? Intelectuais que se curvaram ao Poder? A autocritica interditada nas Universidades? A mídia impactada por novas formas de comunicação? O império do senso comum subjugando os diálogos? Consensos impostos? A incapacidade das forças moderadas? Uma legião de fanáticos à espreita para obstruir qualquer reconstrução? A derrota previsível de um regime corrupto e faccioso? Ou a oscilação entre medo e esperança num próximo mandato?

É como se vivessemos numa baixada, e a cratera, uma depressão escavada por inimterruptas inepcias.

Pois, independentemente de onde te leve a reflexão política e ideológica, cultural ou religiosa, o problema do tempo, neste ano, decerto transcenderá teu dilema filosófico. O tempo originalmente uma escala de referencia geral, exigirá, sobretudo, transformar-se em unidade pessoal.

Daqui para a frente teremos que exceder o momento para nos dirigir à corrente de impressões do aqui agora. Eliminar a nostalgia antecipada e lidar de um outro modo com as torturas do passado. Reter a idealização para ficar na torcida do possível. Talvez o que torne interessante viver em tempos assim é seguir, e ainda que por coação aprender que nossas perspectivas não devem mais estar limitadas pelas expectativas.

Não mais.

O tão aspirado nunca mais. (Estadão)

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O tão aspirado “nunca mais”

Já que podemos evocar a memória de acordo com nosso desejo, preferimos dispensar as tragédias, a morte e a destruição. Segundo os biólogos evolucionistas trata-se de uma adaptação. Não suportaríamos ter que conviver com o amontoado de frustrações, negativas, impedimentos, injustiças, o mal feito, o espúrio, o inacabado, a imperfeição, o desprezo, as circunstâncias constrangedoras, os desvios, a insuficiência, as urdiduras da perfídia, o triunfo da malignidade. Mas, e se um pouco de dor, de luto e de sofrimento funcionasse como um antídoto para toda essa mania?  E se conseguissemos nos colocar, no sentido de transferencia absoluta, no lugar do outro? E se ficássemos entregues — que seja uma vez ao ano — à memória dos mal sucedidos, dos perdedores, dos sofredores, da silente agonia dos sem voz, dos invisíveis?

Apontar e erigir monumentos às vitimas do mal feito é uma forma de fixar o insuportável em nossa tendencia à negação.

Um regime político pode exterminar de muitas formas, a mais eficaz contudo — e a história prova a tese — é através do populismo e do culto à personalidade. Exemplo atual é o perfil daqueles que nos prometeram justiça, igualdade de oportunidades e bem estar e, em apenas 13 anos, nos entregaram o País falido. A deseleição ocorre quando há mais deméritos no oponente do que méritos no rival. Foi apenas um espasmo de legítima defesa em meio à inércia, à falta de articulação, à inexistencia de oposição, e hoje, perplexos, nem nos perguntamos mais o que pensar daqueles que persistiriam no erro. Hoje representados por quem torce e milita contra. Evidentemente, para além da habitual desonestidade intelectual, trata-se de histeria anti-republicana, sobretudo guiada pelo velho e cansativo ranço ideológico.

O dia H é o dia da memória das vítimas do holocausto, mas poderia ser expandido para outras vítimas, igualmente criminosas, como as pessoas incineradas na Boite Kiss, nos arrastados em Mariana, em Brumadinho, em Teresópolis, em Angra, nas demais encostas abandonadas do Brasil, nos viadutos que despencam, nas passarelas precárias, nos trilhões sepultados em obras inexistentes. E, também, de todos os extermínios pequenos, médios ou grandes. Aqueles que confiam no Estado todo protetor ainda não sabem que há, bem aqui entre nós uma loucura muito particular: ela impede a compreensão do valor da vida. Nesta insanidade obnubiladora movida à matéria e arrogância está o germe do terror.

Não é só do terrorista comum, estes inimigos da humanidade, que preferem que a causa preceda a sobrevivência e o bem estar. Mas também, e principalmente, o usurpador, aquele que amadurece no trono e não quer mais larga-lo, dos tiranos que se escondem sob slogans e verbetes de ocasião. Se há culpa? Sim acumulada. Sim retida nos decretos. De vários partidos e instituições. Nos alvarás. Nas leis. Exato, assim como as leis raciais de Nuremberg, as vezes o crime tem chancela oficial, é do Governo que passa a usurpar o Estado.

Na Alemanha nacional socialista também foi assim. As legiões que acreditam em correntes ideológicas acima do pensar, da direita à esquerda, ainda existem. Geralmente são aqueles que prometem resgatar nações e promovem genocídios. Contam com o descaso, acreditam na amnésia induzida. Apoiam-se no esquecimento e na prescrição. Sabem que a qualquer momento podem queimar livros, perseguir minorias, mas especialmente imaginam que o sufragio lhes da o direito de pulverizar a memória. Em suas agendas já está registrado: “as manchetes se calam em três semanas”.  Mal sabem que a memória contém um compartimento secreto. A “segunda mente” na definição de Charcot. E ela é surpreendente, capaz de desaguar seu manancial quando menos se espera.

Freud em seu polêmico livro “Moisés e o Monoteísmo” conta que o que mais o impressionou no povo judeu era uma espécie de persistência quase irracional diante das adversidades. Cita o famoso caso de um dos sábios talmúdicos. Enquanto o Templo de Jerusalém ardia em chamas incinerado pelo exército romano, e quase um milhão de vidas haviam sido ceifadas pela espada, foi ter com o temível governador geral da Judeia que sonhava exterminar os judeus e fundar Aelia Capitolina. Vários tentaram dissuadi-lo da empreitada que poderia lhe custar  a vida. Inúltil. Ele seguiu e foi para até o tirano pedir autorização para transferir seus estudos para um outro local. Ora, por que? Perguntava-se o intrigado médico. Seguir adiante. Alguns chamam de pragmatismo. Outros classificariam de estoicismo patológico. Porém, ao fim e ao cabo, poderia apenas simbolizar um apesar de tudo, apesar de todos, escolher-se vida.

Pois esse espírito afirma que a humanidade pode seguir até um lugar onde cada um poderá ter tempo para se estudar, para sempre.

Quiça assim, e só assim, o tão aspirado “nunca mais” superará o eterno retorno.

Geração de Neurônios Mortos (Estadão)

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Roubo no pomar acidental
Na barraca oriental hermafrodita
Rito ideológico (sextenal)
Fina cor,
papoula dourada.

Ri,
das flores maléficas.
Ri,
do inexistente denunciado.

Homicídio no lento sono, paradas curtas,
infinita dedução
Já, ali,
onde as mãos rolavam

o incêndio das aversões continentais!

Haverá outro código para a Medicina?(Estadão)

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Haverá outro código para a Medicina ?*

10 de abril – data de nascimento de Samuel Hahnemann

O que é um código? Pode ser uma coleção metódica e sistemática de leis, uma coleção de regras sistemáticas de procedimento e conduta, ou um sistema de sinais secretos ou convencionais usados no comércio e na literatura. O título deste livro insinua que pode haver mais de uma compreensão para a medicina, pode haver mais de um código de procedimento e conduta para compreeender saúde e enfermidade. E um não exclue necessariamente o outro. Vários códigos podem conviver e ser simultâneamente usados, sem que um tenha supremacia sobre o outro.

O público que consome livros científicos conhece pouco de medicina preventiva e tem noções muito vagas sobre as medicinas integrativas.  O conceito popular é de que a prevenção não é solução e de que uma medicina menos invasiva como as técnicas das medicinas integrativas pairam aspectos polêmicos. A verdade é que a grande maioria deste público as conhecem apenas superficialmente. Poucos a conhecem como uma medicina que cuida de sujeitos. Outros, não têm a menor idéia de sua abrangente capacidade de atuação que vai dos doentes com patologias severas às pessoas com problemas clínicos sem diagnóstico definido. Enfim que a prevenção pode atuar no indefinível estado chamado de “mal estar”. Este “mal estar” (illness) indevidamente pouco valorizado, também é muito importante na medicina pois aparece muito antes de que a patologia (disease), a doença propriamente dita se organize e apareça na forma de sinais e sintomas. O que menos gente sabe ainda é que a homeopatia interfere em todas estas áreas levando em consideração também o estado de saúde.

E por que o grande público sabe tão pouco sobre ela ou a conhece de forma tão estereotipada?

A homeopatia por exemplo é uma medicina sobrevivente. As provas são sua longa permanência na adversidade e sua lenta, porém sustentada expansão. As referências são escassas em todo tipo de mídia, especialmente quanto aos seus aspectos efetivamente mais interessantes. A omissão crônica do verdadeiro alcance da homeopatia também explica e justifica sua baixa visibilidade.

A homeopatia pode ser definida como um sistema terapêutico de interferência médica baseada em similitude e observação clínica que usa a individualização dos sintomas como sua principal fonte de conhecimento. Trata-se de uma prática médica que ouve estórias, acolhe narrativas e interpreta biografias.Não é fortuito que estejam nascendo movimentos como “Medicina Baseada em Narrativas”, “Medicina sem Pressa”, “Medicina Baseada em Empatia”, “Hermenêutica Médica”

Em “Céu Subterrâneo”,  (romance publicado em 2016 pela editora Perspectiva) trago uma referencia da “História dos Animais” de Aristóteles. Numa determinada passagem ele escreve sobre a memória. Por um erro de interpretação conhecemos a famosa versão de que o homem seria racional em oposição aos animais que estariam descritos como irracionais. Para o filósofo no entanto, a verdadeira distinção seria outra, e está em outra passagem deste mesmo livro: o que nos diferencia dos outros animais não seria a possibilidade de raciocinar pois é evidente que os animais também o fazem. Para o pensador, a grande distinção estaria na capacidade humana para evocar a memória conforme sua vontade. E narra-la.

Cito isso para lembrar que Prof. Walter E. Maffei, importante pesquisador e neuropatologista brasileiro e um dos meus principais mestres. Maffei ilustrava uma de suas aulas na Faculdade de Medicina projetando imagens de gatos. Por que? Afirmava, com razão, que aqueles que tinham as predisposições alérgicas despertada por alguma idiossincrasia, poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança” desta experiência. Não seria necessária a presença física de um gato, poderia bastar imaginar à exposição a algum alergeno que não estivesse presente para “excitar” instantaneamente um quadro alérgico. A lembrança de alguém que apresenta sensibilidade ao pelo deste animal poderia desencadear um início de manifestação alérgica. Esse exemplo evidencia pelos menos duas coisas, a incrível sensibilidade do psiquismo e o papel da memoria em nossa saúde.

Muitos aspectos permanecem misteriosos na clínica. Não é incomum que os pacientes desenvolvam estranhas e desconhecidas sensibilidades aos produtos farmaceuticos e alimentícios mais comuns. Ou sujeitos que sentem súbito mal estar quando terremotos estavam para ocorrer a milhares de quilometros dali. Sabemos que muitas pessoas tem perturbações cardio-circulatórias e respiratórias antes e durante os fenomenos climáticos. Existem vários relatos de pressentimentos e sintomas inexplicáveis que normalmente não seriam relevantes para uma aplicação da técnica de tratamento, mas extremamente importantes para compreensão da história clínica de alguns individuos.

Não se trata de um fenomeno religioso ou de uma mistificação. Temos que recordar que, para a genuína investigação científica sempre existirão mais perguntas do que respostas.

O homem não é mero contemplador, de seu habitat ou de seu sistema de tratamento médico. Como todo ser vivo pertence ao ecosistema. O tempo todo age sobre ele e ao mesmo tempo sofre múltiplas influências do meio no qual habita. A meteorobiologia, uma disciplina, nos ensina o poder das meiopragias sobre os seres. Quando aumentam as manchas solares ocorrem ciclos epidemicos de doenças na Terra, as influências climáticas, barométricas e da poluição atmosférica sobre os estados de saúde são clinicamente evidentes.

Também não é infrequente que médicos sejam pegos de surpresa com o que aprendem das experiencias pessoais dos pacientes, de suas sensibilidades e caracteristicas individuais. Estar atento a estes aspectos não se limita a quem pratica qualquer modalidade de terapeutica integrativa, mas a todos que se dedicam a tarefa de cuidar da saúde dos seres humanos e dos animais.

Costumamos dizer que não há mentira em clínica. O que um paciente sente não pode ser julgado no campo estrito da verdade ou da mentira. Para atestar se um sintoma é falso ou verdadeiro não basta fazer uma investigação clínica que confirme ou não a patologia. Todos os sintomas são, de uma forma ou de outra, verdadeiros, pois mesmo as fantasias, delírios e as interpretações fazem parte integrante dos problemas dos sujeitos enfermos.

Médicos, ou qualquer profissional das práticas de saúde precisam ser treinados para acolher o que cada pessoa percebe de anomalo ou estranho no funcionamento de seus órgãos e em sua própria vida. Tudo que o paciente informa deveria ser relevante para o medico cuidador, independentemente da correlação que este estabeleça com alguma enfermidade específica. Isso vale para o generalista e o especialista, para o clinico e o cirurgião.

No mundo todo cresce uma tendência cientifica: passa a ser cada vez mais importante individualizar as doenças. Como toda uma tradição médica vitalista pensava, includindo o próprio Samuel Hahnemann é preciso saber como cada doença impacta a saúde de cada pessoa, pois cada um tem uma forma particular de desenvolve-la e de voltar a ficar saudável. Esta diretriz, preocupação constante de muitos medicos vitalistas na história da medicina, pode fazer toda a diferença.

E não só nos resultados diretos, mas em todo processo de adoecimento, convalescença e recuperação. Como lidar com o desconforto? As vezes, um tratamento pode ser dolorido e provocar sofrimento. Para a pessoa enferma é muito importante a assistência, o suporte e a presença de quem cuida. Portanto um aspecto vital de qualquer tratamento é a qualidade do cuidado que o profissional dispensa ao enfermo.

Pode-se encontrar referencias bibliograficas sobre todas as reflexões e informações. Estas reflexões são fruto de décadas de observação e testemunhos da clínica médica nos últimos 30 anos. O presente texto que o leitor tem nas mãos, ou na tela, é uma condensação de um livro, hoje esgotado, que transformei em e-book sob o título “O outro código da medicina”.

As vezes as pessoas perguntam por que diante de sua eficácia e abrangência clinica — especialmente na atenção primária à saúde e na prevenção e tratamento das moléstias crônicas — como se explica que a homeopatia nunca tenha se universalizado como forma de atendimento? Há anos a Organização Mundial de Saúde recomenda as medicinas tradicionais. Uma publicação recente da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard[1] recomendou o uso de homeopatia nos sistemas de atenção primária à saúde. No Brasil, o SUS teve várias tentativas de ampliar o uso de práticas integrativas. Recentemente, a Suiça organizou uma consulta popular e a homeopatia finalmente entrou como opção terapeutica no sistema público de saúde. Sabe-se que ela já foi reintroduzida no curriculo de escolas de medicina nos EUA. Na Alemanha, além de popular, a homeopatia e as medicinas integrativas tem larga aceitação pelos medicos e também é usada por grande porcentagem de clínicos e especialistas como tratamento complementar. Entretanto o fato persiste: por que nunca conseguiram se universalizar como práticas médicas. Importante tentar responder por que.

São muitos fatores concorrendo simultâneamente. O primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa que sejam financiados pelo Estado e independentes da pressão dos poderosos lobbies que comandam a indústria farmaceutica. Sem prover estes centros autonomos de pesquisa com recursos e capacidade política para determinar a prioridade das pesquisas todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica dos dividendos das fábricas e sob o controle de oligopolios farmaco-industriais conforme sugeriu ainda no início do século XX o historiador da medicina Henri Sigerist. Não há nenhuma tese conspiratória ou anti-capitalista nesta observação, apenas elementar constatação de fatos. É importante reconhecer os muitos avanços das tecnologias médicas e o papel da indústria farmacêutica, ainda que isso não a transforme em um símbolo de benemerência. E é também justo que se pergunte: por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo como a de medicamentos homeopáticos que conta com centenas de milhões de consumidores?

Um dos problemas para os interesses mercantis na produção de medicamentos está no fato de que, por exemplo, as substâncias medicinais homeopáticas não têm patente, isso é, constituem um bem público. Trata-se portanto de um conjunto de medicamentos que foram incorporados ao patrimonio da humanidade, já que nenhuma indústria ou indivíduo detém os direitos de propriedade dessas substâncias. Isso significa que sobre estes fármacos não incidem royalties. Exatamente isso que você acaba de ler: nenhuma substância usada nos fármacos empregados na homeopatia possui domínio de patente. Isso explica seu relativo baixo custo. E também explica a quantidade desproporcional de ataques dirigidos contra ela e sua relativa incapacidade de responder a eles com pesquisas subsidiadas.

Evidentemente existem outras dificuldades: a natureza sectária de parte do establishment das medicinas integrativas. Numa compreensível atitude defensiva que emergiu contra as décadas de acusações de ineficácia das doses ultradiluídas, existe neste meio relutancia em fazer a autocrítica necessária para se antecipar e apontar suas próprias deficiências, lacunas e limites de atuação.

Existem praticantes que insistem numa lógica autosuficiente que clama para a medicina integrativa uma emancipação total das demais racionalidades. E também existem aqueles que aceitam abrir mão da teoria que organiza e confere alguma consistência teórica para o método. Porém para qualquer medicina de inspiração vitalista não se pode resumir os benefícios apenas ao “resultado clinico pontual”, e sim ao conunto de potenciais benefícios para a totalidade da pessoa enferma.

O dilema é compreensível: se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, por outro, ela precisa em parte assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando em se estabelecer, tanto na prática privada como no setor publico, pois não consegue nem evidenciar claramente sua performance clínica, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. Um impasse, que no caso específico da homeopatia, dura quase dois séculos.

O erro fundamental está numa certa recusa inconsciente destas correntes em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades contemporâneas é sua penetração na cultura através das pesquisas academicas e da discussão com a sociedade. Somente esse pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapeutica pautada no uso dos semelhantes.

Sofisticada, porque pretende, inclusive, retomar um assunto dos mais importantes, e, ao mesmo tempo uma das questões científicas mais negligenciadas da medicina: ainda são raras e escassas pesquisas sobre o como as pessoas se curam.

Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa médica que discutem criticamente a validade dos protocolos padrões. O cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos tem sofrido questionamentos. E uma boa parcela dos pesquisadores já leva cada vez mais a sério o fenomeno chamado superdiagnóstico[2].

As medicinas integrativas devem ser apresentadas não só como alternativas – com todas as suas conotações contra-culturais — mas como um processo que dialoga ao mesmo tempo com a ciências naturais como com as várias áreas das humanidades como a antropologia, filosofia e psicologia. Ao mesmo tempo, precisa ser mais enfática em sua proposta: estabelecer bases teóricas próprias para uma medicina do sujeito emancipada, por exemplo, das teorias psicanalíticas e das mistificações. Portanto, ela deveria ocupar o centro da discussão das ciências humanas com as ciências biológicas.

Temos tempo. Sejamos todos pacientes, a discussão está apenas começando.

[1]A Escola de Saúde Pública de Harvard e o Hospital Beth Israel, afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard publicaram recentemente os resultados de um estudo conduzido por Michelle Dossett, MD, PhD e colaboradores incluindo o expert em placebo  Ted Kaptchuk, OMD onde concluem que os estudos conduzidos usando a homeopatia “sugerem potencial beneficio para a saúde publica como redução de uso desnecessário de antibioticoterapia, redução de custos para tratar de algumas doenças do trato respiratório melhora nas depressões relacionadas ao período do pós menopausa, melhora os resultados na saúde de indivíduos com moléstias crônicas e controle de doenças epidêmicas como por exemplo a epidemia de leptospirose em Cuba”

Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Dossett ML, Davis RB, Kaptchuk TJ, Yeh GY. Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Am J Public Health. 2016 Apr; 106(4):743-5.

*O outro Código da Medicina (e-book kindle)

[2] Overdiagnosed – cuja tradução poderia se aproximar de “superdiagnósticado”. Caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiarios e atribuir importância exagerada aos disturbios clínicos que talvez não mercessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis”. O custo orgânico e psiquico de determinados procedimentos terapêuticos são simplesmente elevados demais para os pacientes.

A incrível história de uma obsolescência induzida (Blog Estadão)

Nilda Raw – Técnica Mista sobre tela (2016)

A democracia’ o governo do povo, para o povo, pelo povo. Esse é o padrão, o slogan que todos nós fomos treinados a aceitar quando a palavra mágica DEMOCRACIA surge na testeira do jornal, tela do I pad ou no screen dos celulares, certo?Poís algo muito plástico pode estar acontecendo com o conceito neste exato minuto. E não é apenas um mimetismo provisório, de ocasião, é mesmo um caso de mutação. A democracia pode não mais ser definida pelo sentido original que costumavamos atribuir à palavra. A ruptura é ampla e decreta, além de antecipar a instabilidade sobre o futuro próximo. O significante deslocou-se do significado dando origem às metamorfoses que passaram a servir muitos interesses, menos a quem mais interessa, a saber, a multidão, os beneficiados anônimos. Massas habitualmente magnetizadas pelo populismo ou desatentas a ponto de aceitar que se casse silenciosamente o único artício de voz que lhes resta. Refiro-me aos habitantes das democracias que, a despeito de votações, referendos e sufragios, não tem seus desejos atendidos. Observem apenas — sem julgar o mérito da questão — a escolha dos ingleses pelo Brexit (e as subsequentes sabotagens da Casa dos Lords) , as eleições recentes no EUA e Brasil (e a histeria aprioristica generalizada) , a insatisfação crescente com Macron e Merkel (e as inssurreições semi anárquicas especialmente em Paris), e enfim o vergonhoso silencioso silêncio sobre as ditaduras de Maduro e Ortega.

E por que?

Os alodemocratas, estas lideranças inovadores e criativas deram um jeito de não atender as demandas populares em seus países sob as mais diferentes alegações. Por exemplo, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, conhecido ideólogo de inspiração marxista, recentemente revelou sua grandiloquente síntese: “vivemos em sociedades politicamente democráticas, mas socialmente fascistas”. Exatamente: o sistema é perfeito, quem não presta são os povos. A justificativa cultuada por quem se alinha com este sistema de notação é incrível: sem modéstia recorre-se ao mais puro maniqueísmo instrumental ideologicamente engessado para afirmar que tudo que não for progressista é inferior ou simplesmente “mau”. Não é uma peça original: em função do estado de desinformação dos enormes contingentes de seres incultos contumazes, desconhecedores crônicos, eleitores inabeis e politicamente manipulados eles costumam declarar em manchetes e artigos:  “mais desta vez vocês escolheram errado”. Assim grita o establishment para enfim profetizar

— “Não se preocupem, nós retificaremos vossas decisões”.

Enganados, iludidos e sem conhecimento de causa os eleitores, claro, elegeram um péssimo caminho, quando o que conviria seria mesmo é a boa e velha meta que o establishment decretou. Atenção: a terapêutica do sistema não é só o bem personificado na Terra, é o único viável. O único que serviria para prosseguir com o projeto original, ainda que ninguém saiba bem o que seria isso. A ludopatia do socialismo utópico do “quase acerto”? O capitalismo de Estado que se orgulha de poder funcionar prescindindo de sujeitos livres? Portanto, o ingrediente chave para negar o que a maioria realmente deseja e expressa através dos votos parece estar se tornando um padrão. Ele se utiliza também de uma espécie de justificacionismo que encontrou quase perfeita universalização no aforismo do Pelé. Lá atrás, o Rei do Futebol afirmara que o “povo não estava preparado para votar”, antecipando que nunca esteve, nem estará. Mas já que precisamos manter a gestalt há quem ainda o justifique pois afinal foram gestões consecutivas do partido dos trabalhadores que nos trouxeram até o abismo atual, abismo que a deseleição corrigiu apenas parcialmente, uma vez que as forças, vale dizer, as torcidas organizadas derrotadas, a inabilidade do governo aprendiz e o neutralismo instrumental ainda formam um conjunto impagável. Impagável,  porém épico: ele se expressa através do coro nonsense:”tomara que dê errado”.

Apesar do montante de irracionalidades, a democracia seguiria oscilante rumo a sua teleologia maior, conseguir acomodar os conflitos, assegurar segurança com liberdade e prover o bem estar da maior parte dos cidadãos de uma nação. Entretanto, a aristocracia residual em união fisiológica absoluta com parte da elite intelectual deliberou que o rumo deve, prudentemente, ignorar a opinião pública. Ou induzia-la a acreditar nos dogmas por persuasão sistemática. A outra fórmula teria sido arquitetada pelo conjunto de intelectuais e mentes brilhantes, apoiada por consensos censitários invioláveis e sustentada pelo longo histórico da tradição de instituições corporativas. Foi assim que a fragmentação do poder foi sendo instaurada na República através dos perigosos e inflamatórios jogos de justiça. Atenção, pois não se trata mais da independencia de poderes. É outra coisa que está em cima do tabuleiro: dados lançados numa mesa sem o conhecimento público. O jogo de bastidores, de onde os escritórios do Poder centralizado emanam suas estratégias. E onde os segredos do “todos contra todos” são cultuados e desenvolvidos. É assim que, da direita à esquerda, vem crescendo a indústria de intolerantes, terroristas avulsos com alcatéias digitais, além de novos e velhos bodes expiatórios, tendo sempre como arquétipo obcessivo os judeus.

O ponto nodal para adrestrar as massas incautas é definir o quantun de consciência necessária para traçar o próprio destino um “povo” (um eufemismo para distinguir as massas dos bem pensantes) precisa ter para ter suas decisões chanceladas e, quem sabe, ter o direito de traçar o próprio destino.A alternativa é ter a emancipação e a liberdade canceladas e, para isso, inventar um neologismo qualquer.

Que tal Alodemocracia esclarecida?

 

 

ttps://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-incrivel-historia-de-uma-obsolescencia-induzida/

O tão aspirado”nunca mais” (Blog Estadão)

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Já que podemos evocar a memória de acordo com nosso desejo, preferimos dispensar as tragédias, a morte e a destruição. Segundo os biólogos evolucionistas trata-se de uma adaptação. Não suportaríamos ter que conviver com o amontoado de frustrações, negativas, impedimentos, injustiças, o mal feito, o espúrio, o inacabado, a imperfeição, o desprezo, as circunstâncias constrangedoras, os desvios, a insuficiência, as urdiduras da perfídia, o triunfo da malignidade. Mas, e se um pouco de dor, de luto e de sofrimento funcionasse como um antídoto para toda essa mania?  E se conseguissemos nos colocar, no sentido de transferencia absoluta, no lugar do outro? E se ficássemos entregues — que seja uma vez ao ano — à memória dos mal sucedidos, dos perdedores, dos sofredores, da silente agonia dos sem voz, dos invisíveis?

Apontar e erigir monumentos às vitimas do mal feito é uma forma de fixar o insuportável em nossa tendencia à negação.

Um regime político pode exterminar de muitas formas, a mais eficaz contudo — e a história prova a tese — é através do populismo e do culto à personalidade. Exemplo atual é o perfil daqueles que nos prometeram justiça, igualdade de oportunidades e bem estar e, em apenas 13 anos, nos entregaram o País falido. Uma deseleição ocorre quando há mais deméritos no regime viciado do que méritos no rival. Foi apenas um espasmo de legítima defesa em meio à inércia, à falta de articulação, à inexistencia de oposição, e hoje, perplexos, nem nos perguntamos mais o que pensar daqueles que persistiriam no erro. Hoje representados por quem torce e milita contra. Evidentemente, para além da habitual desonestidade intelectual, trata-se de histeria anti-republicana, sobretudo guiada pelo velho e cansativo ranço ideológico.

O dia H é o dia da memória das vítimas do holocausto, mas poderia ser expandido para outras vítimas, igualmente criminosas, como as pessoas incineradas na Boite Kiss, nos arrastados em Mariana, em Brumadinho, em Teresópolis, em Angra, nas demais encostas abandonadas do Brasil, nos viadutos que despencam, nas passarelas precárias, nos trilhões sepultados em obras inexistentes. E, também, de todos os extermínios pequenos, médios ou grandes. Aqueles que confiam no Estado todo protetor ainda não sabem que há, bem aqui entre nós uma loucura muito particular: ela impede a compreensão do valor da vida. Nesta insanidade obnubiladora movida à matéria e arrogância está o germe do terror.

Não é só do terrorista comum, estes inimigos da humanidade, que preferem que a causa preceda a sobrevivência e o bem estar. Mas também, e principalmente, o usurpador, aquele que amadurece no trono e não quer mais larga-lo, dos tiranos que se escondem sob slogans e verbetes de ocasião. Se há culpa? Sim acumulada. Sim retida nos decretos. De vários partidos e instituições. Nos alvarás. Nas leis. Exato, assim como as leis raciais de Nuremberg, as vezes o crime tem chancela oficial, é do Governo que passa a usurpar o Estado.

Na Alemanha nacional socialista também foi assim. As legiões que acreditam em correntes ideológicas acima do pensar, da direita à esquerda, ainda existem. Geralmente são aqueles que prometem resgatar nações e promovem genocídios. Contam com o descaso, acreditam na amnésia induzida. Essa  é a estratégia que recriou o vergonhoso e pandemico antissemitismo de nossos dias. Apoiam-se no esquecimento e na prescrição. Sabem que a qualquer momento podem queimar livros, perseguir minorias, mas especialmente imaginam que o sufragio lhes da o direito de pulverizar a memória.  Em suas agendas já está registrado: “as manchetes se calam em três semanas”.  Mal sabem que a memória contém um compartimento secreto. A “segunda mente” na definição de Charcot. E ela é surpreendente, capaz de desaguar seu manancial quando menos se espera.

Freud em seu polêmico livro “Moisés e o Monoteísmo” conta que o que mais o impressionou no povo judeu era uma espécie de persistência quase irracional diante das adversidades. Cita o famoso caso de um dos sábios talmúdicos. Enquanto o Templo de Jerusalém ardia em chamas incinerado pelo exército romano, e quase um milhão de vidas haviam sido ceifadas pela espada, foi ter com o temível governador geral da Judeia que sonhava exterminar os judeus e fundar Aelia Capitolina. Vários tentaram dissuadi-lo da empreitada que poderia lhe custar  a vida. Inútil. Ele seguiu e foi para até o tirano pedir autorização para transferir seus estudos para um outro local. Ora, por que? Perguntava-se o intrigado médico. Seguir adiante. Alguns chamam de pragmatismo. Outros classificariam de estoicismo patológico. Porém, ao fim e ao cabo, poderia apenas simbolizar um apesar de tudo, apesar de todos: escolhe-se vida.

Pois esse espírito afirma que a humanidade pode seguir até um lugar onde cada um poderá ter tempo para se estudar, para sempre.

Quiça assim, e só assim, o tão aspirado “nunca mais” superará o mito do eterno retorno.