• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Mãe Comum (blog Estadão)

10 domingo maio 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Mother_ComumXX

Primeiro pense em suas características analógicas: extensa, viva, ativa e acolhedora. Depois, expanda a imaginação: causa, nascença, processão, proveniência, principio, elemento, objeto, razão, respeito, matriz, manancial gênese geradora, sementeira, primum mobile, vera causa, principio fontanal, causa final, teta, embriogenia, embrião, rebento, germe, plúmula, étimo, núcleo, raiz, levantar, engendrar, criar, desbrolhar, induzir, inspirar, criar, influir, motivar, proporcionar, fecundação, infundir.

O próximo passo natural seria tomar maternidade como efeito: parto, rebento, primícias, criatura, sóbole, ceifa, colheita, safra, messe, seara, aroma, derivar, emanar, hereditário, profetício, fontanal, fruto, ninhada, infante, descendentes.

Uma, antecedente constante, a outra, consequência constante. Há uma mãe para além da vida que gera. Mais abrangente, mais dispersa, e muito mais preocupada que as suas, as nossas e as vossas. Há uma mãe que mesmo não sendo mãe, provê acima de todos os limites e para todos os gêneros.

Uma mãe que não é só revivescente e regeneradora. A progenitora que inexaurível, nos nomeia desde o imemorial. A mais multípara dentre todas. Aquela que mais ramifica e cujo terreno não infindo e sem margens, exala a perpetuação.

Uma mãe, cuja obra prima é um produto coletivo e indeterminado. E, dentro da infinidade de pólens erráticos e lençóis freáticos, recicla as gerações subsequentes.

A mãe de todas as mães é só uma natureza negligenciada. A galáxia máxima. A forma gestacional. Cores que mudam e transmigram. Ocupa o mundo sublunar, o uranorama, o cariz do céu.

Tua é a gravidade presente e teu domínio se estende à própria Terra. Às custas de bilhões de anos cresceste e fizeste crescer neste mundo transitório: acaso dos dados ou um plano ignoto? No conjunto de vidas que te povoa, a máxima soma, nosso bioma. E é em teu seio e superfície que, através das gradações progressivas, todos permanecemos.

Tuas filhas e filhos, herdeiros longínquos desse ventre ininterrupto ainda te desconhecem. Te tomam como entidade distante e autônoma. Ainda não notaram a sucessão: as criaturas que cuidam de quem lhes deu origem. Tua natureza amazona misteriosa, mostra o acabamento e o capricho com que o feminino se ocupa em todos os recantos.

A mãe natureza não tem ciúmes: saúda todas que, como ela, destinam-se a originar e cuidar. Para as mães ativas e aposentadas, vaidosas e hippies, as únicas e as coletivas, as filósofas e as pragmáticas, as que nunca mais veremos, as que já foram e as que estão chegando, as amáveis e as severas, as sozinhas, as que jamais criaram, as que não puderam cuidar, as que se perderam e as que se isolaram, aquelas que nunca conceberam, as que mudaram e aquelas que visitamos hoje.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/mae-comum/

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Brasil sem bula ou Sarabulho e Ajuste (blog Estadão)

09 sábado maio 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Brasil sem bula

Paulo Rosenbaum

08 maio 2015 | 17:40

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Trabalho de analista político não é fácil. Parece até que há toda uma arquitetura forjada para ludibriar os intérpretes. Nos noticiários das últimas semanas foi o  partido governista quem girou a outra volta no parafuso espanado. As forças pró e contra ajuste fiscal, uma espécie de versão dos trópicos de movimentos a favor e contra a austeridade, entraram em choque. O problema é que a democracia vai ficando cada vez refém da propaganda. O marketing político, como prefere ser conhecido, é uma viga bem mais potente do que os comerciais de carreira. Do modo como as eleições e a busca pelo eleitor têm se configurado, o que interessa não é debate, conteúdo, ou consistência: a imagem é tudo. Pois, em última análise, o financiamento dos partidos, principal origem dos desvios, a mais primitiva fonte de corrupção, ocorre para custear as multimilionárias campanhas e benesses associadas ao voto.

Agora, constrangidos por escândalos e pela gestão nociva, clamam por diálogo. Na partilha maniqueísta a tática consiste em embaralhar autores com vítimas. Foi assim que surgiu a obra prima, uma neo versão do lulinha paz e amor:  “tem gente que nos odeia” mas, “nós vamos continuar amando”! No mínimo, uma impressionante contribuição para compreender a natureza dos crimes passionais. Em política, a sinceridade não é constitutiva, só que seriedade é vital. Muito mais urgente do que interlocução insistem em investir na divisão da sociedade. O maquiador geral da nação precisava bolar um jeito de mostrar quão probo é o partido. Numa brevíssima análise do discurso dos programas eleitorais a orientação do marqueteiro não poderia ter sido mais clara: eleger algozes externos e apontar para o inimigo oculto.

Quem é que não sabe que sem o ajuste o País declinará mais rapidamente e mais agudamente? Todos compreenderam que a tríade, política econômica, cosmiatria fiscal criativa e os custos da reeleição — patrocinados pelo maior programa de expropriação de estatais do mundo – foi a responsável pelo sarabulho. A maioria sabe que a sangria — recurso recentemente reabilitado na medicina — não será, neste caso, uma terapêutica curativa. Muitos sabem até o óbvio: numa República o que estrangula o governo hoje, enforcará a população logo adiante.

No programa gratuito o ritual manjado: sob o velho apelo emocional as falas foram, ao mesmo tempo, contra a terceirização, apontando porém um conluio do aliado PMDB com a oposição como verdadeiros articuladores do ajuste fiscal. Todos sabem quem é que precisa desesperadamente de credibilidade internacional.  Ousadia é contagiante. Ainda tiveram tempo de insinuar que eles são a verdadeira oposição “contra tudo que está aí”. Simultaneamente, declarou-se apoio à personagem Dilma enquanto faziam ressalvas ao seu plano de governo. Convictos que ninguém iria detectar o paradoxo, vieram novos ataques: as vicissitudes do País é culpa dos pessimistas, dos retrógrados, da elite, da classe média, do operariado ingrato. Na peça publicitária ainda ouvimos que os condenados que recentemente receberam por parte da direção desagravos em praça pública, serão expulsos. Nunca antes na história deste País a esperteza esteve tão concentrada num só horário nobre. Há quem considere “falta de educação” fazer uso do panelaço enquanto representantes do poder exercitam suas laringes. Difícil julgar falta de educação em meio à corrosão da linguagem como instrumento da verdade.

Uma surpresa pode estar reservada aos políticos. Há na sociedade uma maturidade política difusa rondando, e é uma estupidez inibi-la com as habituais etiquetas depreciativas de tendências políticas. Na verdade, tanto faz. Neste sentido, algo está em deslocamento. Têm cabido ao ministro da fazenda costurar verdadeiros pactos de Estado para além dos mesquinharias partidárias. E, para surpresa geral da nação, por mais oblíquas que sejam as reais motivações, coube ao velho PMDB e ao presidente do Congresso representar a oposição. Vai entender.

Como o Brasil não vem com bula, é fácil confundir o que é tratamento com efeitos colaterais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/brasil-sem-bula/

Tags: ajuste fiscal, autor e vítima, Brasil sem bula, marketing político, sarabulho e ajuste

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O retorno do bumerangue (blog Estadão)

24 sexta-feira abr 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Tags

esquerda conservadora, retorno do bumerangue

O retorno do bumerangue

Paulo Rosenbaum

24 abril 2015 | 15:27

metafora

Eu vou bem e você? Faz tempo. Senta ai. É verdade, perto das eleições tive que te bloquear. Eu sinto também. Mas não me arrependo. Não tenho respostas, só perguntas. Você pode até dizer que não, mas eu sei. Lembro de cada um dos aforismos: era o “nunca antes na história”, depois vieram “só nós fizemos”, e depois aquela fileira de slogans. Agora vocês nem disfarçam mais.

Dúvida? Então vou fazer esse papel para ti. Sabe por que? Vão forçar os blogs pagos para comentar o de sempre. As mesmas velhas ladainhas contra o partido. Vocês são incansáveis, mas sabe quem vos dobrará? Não, não espero nada da realidade. Quem está dando o troco não é o Congresso, não são as ruas, são as metáforas obsedantes que vocês deram vida. Sim, explico. Sabe aquelas ilusões criadas? Lembra das promessas impagáveis? O sonho à granel? Da campanha eleitoral desconstrutiva? Pois foram elas que estão assombrando o poder num espetacular retorno do bumerangue. Pois é, são elas que estão agarrando suas canelas. Fantasmas podem ser imponderáveis mas, por um estranho capricho, cobram ingressos mais caros. Pessoalmente não creio em assombração, mas acredito em inflação, desatino, despreparo, e em massa falida que vai rolando até gerar o déficit universal. Sem querer ser insistente: um dia, não precisa ser agora, você vai me dizer como é que se quebra uma empresa com monopólio do petróleo. Não tem nada de pirraça. Chame de curiosidade metafísica.

Quer ir por tópicos? Vamos lá. Histeria anti comunista. É mesmo uma reatividade infeliz. Concordo que entramos numa cultura incomoda: o senso comum de mau gosto. Mas o que me dizes da redação estúpida nos fóruns da esquerda conservadora? O que vocês ainda não entenderam é que justiça social não é mais monopólio da agenda socialista. Qualquer cidadão esclarecido reconhecerá isso. Reconciliação nacional? Só depois que vocês pularem do barco. E já passou da hora. Venham todos de cara limpa e aí veremos se rola um diálogo. Já há um consenso: nenhuma reconciliação virá através de vocês. Aliás, se tiver que vir, nascerá à revelia do poder. Será um destes efeitos colaterais inesperados. Em pelo menos um aspecto vocês estão de parabéns. Curioso? Conseguiram uma façanha: reunificar a sociedade contra um projeto totalitário.

Ingratidão e falta de reconhecimento da nova classe média? Pense de outra forma: o povo aceita ser humilhado, ofendido, pisoteado, jogado às feras, tripudiado e esquecido. Vá ás ruas e me desminta sem fazer gracinha. A sociedade, esta entidade abstrata, pode ser passiva, pacata, alegre mas tem o seguinte, não tolera ser sabotada, muito menos instrumentalizada. Ela não tem essa percepção? Vai nessa! Até os gênios do marketing político vão jogar a toalha quando o produto estiver prestes a perder o prazo de validade. Quando apodrece, costumam sumir. Moralismo? Demagogia? Chame como quiser, eu já apelidei de índice de volatilidade do eleitor.

Sabotagem, como se sabe, é especialidade dos agentes tiranos que abundam à esquerda e à direita. E a enganação útil pode também vir do centro. O importante aqui é conhecer a índole do sabotador, ele age por vingança. Neste caderno de teses de agora, por exemplo. Me explica o que é que é aquilo? Nota-se que vocês não aproveitam a parte boa do envelhecimento.

Eu também li aquela matéria. Bom saber que nem você concorda. De cara, intui o desproposito. É evidente que a maioria dos insatisfeitos não é do “tea party dos trópicos”. Qualquer análise sem contexto acaba virando fofoca. O que eles são? Sei lá, chame-os de chimarrão quente, massa difusa, matéria escura sem etiqueta.

Dos dois lados há sempre gente falando bobagem, grupelhos nostálgicos e vingativos, milícias que querem desforra. Mas a maioria está cruzando os braços, e não é por greve. É uma atitude nova, típica dos observadores. De gente que perdeu a paciência, mas não o bom senso. Enquanto vocês apostam na reincidência e nos truques manjados a maioria está parando para pensar.

Impeachment? Se há lei para impedi-la de continuar, por que não usa-la? Se não há, a quem interessa criminalizar quem se opõe ao poder? Ontem todos os canais estavam mostrando uma ofensiva midiática do partido. Vocês ainda apostam cegamente no poder da propaganda. Só esqueceram que o meio é a mensagem. O que chega para as pessoas não é o desejado, mas o meio pelo qual vocês tentaram a persuasão. A mensagem se perdeu pelo caminho. Sobra a mentiras, ardis, estratagemas, e maracutaias.

Ok, podemos mudar de assunto. Se vamos jogar fora o que vocês fizeram pelo País? De forma alguma, tchê! Mas os acertos não apagam as pegadas. O corolário de equívocos de vocês já virou marca registrada. É herança maldita contra terra arrasada.

Só que isso aqui ainda é uma República.

Por favor, dá para abaixar o tom? Aceito a desculpa. Percebe? Essa arrogância inflamada não faz sentido. Ninguém fica feliz – ou não deveria ficar – com tanta gente enroscada, presa e processada. Mas esse é o salário do abuso. Se ao menos fossem aprendizes mais discretos. Se abandonassem o projeto da pátria homogênea e da hegemonia partidária.

Ideário da burguesia? Céus! Senhor, um desafio: saia agora às ruas e veja se a insatisfação está confinada. Veja se está delimitada a uma classe social. Saia e veja quantos estão fazendo as contas do que estão perdendo com a volta dos espíritos descontrolados que vocês libertaram das catracas: inflação, estagnação, insegurança, desatino fiscal.

Saia e constate quantos se arrependeram. O que se deve fazer? Comecei este papo mandando a real: eu nunca disse que tinha uma solução. Se pede conselho eu resumiria num só item: façam autocritica e mudem. Sem ela, não há conversação.

De dentro desta grande instituição asilar controlada pela ideologia, o fanatismo e a convicção, a realidade está sendo obrigada a dormir do lado de fora. Está sugerindo que a saída é o aeroporto? Posso te afirmar que já ouvi, não faz muito, essa mesmíssima ameaça. Mas somos como a mula teimosa. Não vamos desistir do Brasil. Não que não seja tentador. Percebemos que persistir é a única forma de dar um cansaço no delírio de proveta que vocês pariram. Passar bem você também.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-retorno-do-bumerangue/

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Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) (Blog Estadão)

16 quinta-feira abr 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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holocausto

Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) 

Yom_HashoahIII_

Mais uma vez você vem falar  do Shoah?

E mais uma vez somos obrigados a ouvir?

Quer esquecer essa história? Seria bem melhor para todos.

Admita, você não compreendeu: se esqueço, desapareço. Se você esquecer, desapareceremos todos.

Não como pessoa, ninguém evapora como espírito, não se somem com as marés, não desintegramos como barrancos em inundações

Costumamos evaporar quando não fazemos mais sentido, mas existem ebulições prematuras. Se quiséssemos, viveríamos pelos segundos. E, se nossa contagem viesse numa outra unidade? Uma que desprezasse o tempo e redescobrisse outros ritmos.

Impressão minha? Seu sorriso mudou?

Não, não é capricho. Nada de apologias, nacionalismos, nem cumplicidade neurótica. Bastaria ter sabido que existi, a única exigência de toda memória.

Por que insisto em fixar-me em tuas lembranças?

Nada pessoal, não vivo por vingança. Permite uma intimidade? Num dos campos senti: toda memória está vinculada à história. Entende? Nós somos assustadores.

Não, isso também não é para evocar sua consciência, despertar a Misericórdia. Você sabe tão bem quanto eu que a pena é uma nostalgia sem objeto, uma culpa sem noção do mal.

Exato. Como você, também não me comovo facilmente.  De acordo, detestáveis aqueles que se constringem sem levantar da cadeira, ridículos os que se movem sob a indignação remota.

O meu ponto?

Exijo que a dor, essa dor, suba junto com o vapor que nos destruiu, Faço questão que mortalha alguma seja reverenciada. Que os números tatuados se transformem numa álgebra benigna.

Agora pode sentir? Captou meu estado?

Tento de outra forma: isso não tem a ver com religião, nem raças, etnias, partidos ou, classes sociais. Céus, crianças estão cercadas: judias, árabes, negras e caucasianas.

A natureza dos genocídios?

Permanecerá tão misteriosa como a gravidade. Com autorias indeterminadas: da Europa à Grécia, da Armênia à Síria, da Ruanda ao Iraque, da Bósnia ao Sudão, do passado ao futuro.

Viu? O assustador nunca esteve fora ou distante. É preciso repetir: nós somos assustadores. Todo holocausto é um adiamento, uma fusão sem fim, um negócio movido por manivelas humanas.

Agora você chora? Só que ainda não terminei.

Precisei  vagar entre livros, em meio aos escombros e também nas paisagens intactas da natureza remanescente. Precisei viajar desafiando bósons, sob asteroides que carreavam água. Precisei ouvir lamentos de cada povo e elemento só para poder te ver. Precisei superar a ignorância, suportar a decadência. Precisei desviar dos fornos e gazes. Precisei contornar escravos e tiranos.  E mesmo chegando a estes confins de mundo, enfrentando provável arrependimento, reuni forças para te dizer que o homem pode ser diferente. Que se abandonarmos a vida reativa, a ação tem chance de prevalecer. Uma tradição como a vossa merece sobreviver se disser de novo, um novo.

A outra escolha? Resignar-se à repetição. Nesse caso, nem com todo esforço mudaremos a insignificância ou escaparemos da perplexidade.

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Para bem além do Tambor (blog Estadão)

14 terça-feira abr 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Gunther grassa

Paulo Rosenbaum

14 abril 2015 | 09:31

guntIII

Para bem além do tambor*

Em 2012, o recém falecido escritor Gunther Grass publicou uma poesia abertamente antissemita, usando Israel como pano de fundo. Ninguém duvida que o ganhador do Nobel de 1989 tenha lá motivos para expor o país hebreu e adicionar seu nome à legião infame que dá credibilidade à intolerância que cresce pela Europa, e pelo mundo. Graças a campanha de demonização, comunidades judaicas inteiras vivem hoje cerceadas, sob constante ataque em várias cidades europeias. Notável que parte desse endosso subliminar tenha vindo da própria intelligentsia. Da extrema direita conhecíamos as proposições xenófobas. Mas hoje ela também se oculta na retórica daquilo que em dias nostálgicos, costumávamos conhecer como esquerda. O que restou das proposições que deram origem à defesa das minorias, da liberdade e da justiça sem tirania? Precisamos recuperar a memória: é verdade, houve um um dia uma esquerda democrática.

Hoje, rendida ao anacronismo baseado quase que exclusivamente na demonização anti-imperialista e na grandiloquência mais nostálgica que autocrítica. O apoio de intelectuais, inclusive nativos, e artistas europeus ao jihadismo, por exemplo – autojustificado como contra-propaganda ianque, não sobrevive à nenhuma análise séria. É da natureza da racionalização buscar meios para justificar impulsos inconscientes.

A pulsão atual está nua: é capaz de se alinhar com qualquer rebeldia que, por exemplo, pegue em armas contra colonizadores e supostos espoliadores da nação. Por isso mesmo, estampas racistas viraram rotina. O baú de infâmias, antes lacrado, rompeu nas mídias sociais e o fenômeno é mundial. Periodistas e articulistas continentais armam suas pistolas e diariamente disparam um tiro no próprio pé, bem no meio das redações.

O poder de persuasão dos escritores sempre foi superestimado, mas quando alguém empresta sua pena à causa, seja ela qual for, precisa assumir o risco de que a obra toda inscreve-se no tribunal histórico. O problema do julgamento da historia é o veredicto, sempre anunciado entre testemunhas sepultadas.

Gunther grassa e ele não está sozinho nessa vertente devidamente acomodada no manto anti-israelense. A ele aglutinaram-se nesses anos exércitos terroristas, pensadores marxistas, campus universitários e massas desinformadas. As vezes, recorre-se a fantasias diversionistas para atingir o alvo final. É decerto muito mais confortável ser identificado como obstinado antagonista do Estado hebreu, que caçador de judeus.

Dizem alguns que condenar um País não é, necessariamente, atacar seu povo, sua etnia ou a religião que professam os que ali habitam. Depende. Para o bem ou para o mal, Israel tem sido encaixado numa perspectiva de “pacote”. Mesmo considerando a existência de um milhão e meio de cidadãos árabes-israelenses, a condenação quase maciça da Mídia às ações governamentais daquele País (é preciso recordar que a hostilidade nunca cessou, mesmo quando o País era governado por uma coalização de centro esquerda) traz sempre uma única conotação, a de se trata afinal de um “país de judeus”. Pois é essa evocação subliminar, às vezes explicitada, que confere às críticas ao País o caráter de condenação coletiva do povo judaico. Não se pode sufocar a cronologia. Muito antes do massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo e das pessoas no supermercado Hipercasher, a campanha judeofóbica estava sendo propagada no continente. Pois, passada a comoção, ela persiste incólume.

O conflito israelo-palestino, enorme fonte de tensão, ainda assim somente um precário pano de fundo para a retomada da intolerância.  Os nazistas foram derrotados pelos países aliados, não o mito do judeu dominador. O ciclotimico resgate de mitologias destrutivas parece ser um motor sem interruptor.

O socialista Gunther passou décadas omitindo de sua biografia sua militância nazista na 10ª Panzerdivision Waffen-SS, pois, como admitiu depois, isso “prejudicaria a carreira”.  Se os sábios de Estocolmo apenas soubessem. De qualquer modo, o antissemita se associa ao seleto grupo de antecessores, como o poeta fascistófilo Erza Pound e até redatores contemporâneos como Tarek Ali. Não faz muito, o paquistanês analisou os desvios dos americanos e israelenses sem dar o menor contrapeso à belicosidade do regime iraniano, a sanha xenófoba de regimes islâmicos contra minorias cristãs e de outras etnias em vários países árabes, enfim escancarada com a grife midiática do estado islâmico. A desonestidade intelectual passa, necessariamente, pela seletividade com que se elegem os alvos.

Se o Estado de Israel comete erros – e decerto os comete – eles não devem ser separados do contexto que cercam as circunstâncias em que são cometidos, ainda que, para alguns deles, não deve haver complacência. Há uma amnésia programática que abandona o conceito de proporção e equivalência moral. O regime expansionista dos aiatolás, problema bem mais nocivo ao mundo, assim como o abandono do povo sírio à própria sorte, é que deveria pesar na consciência da diplomacia ocidental. O acordo nuclear poderia caracterizar um inédito avanço e seria mais significativo se forçasse o clero xiita a reconhecer Israel e interromper suas incursões violentas na região.

Uma estranha passividade hipnotizou a vida. O mundo, testemunha de explosões de intolerância e fanatismo não está interessado em refrear o empuxo de guerra entre os povos. Bastaria observar a calma que reina na naturalização das hostilidades como “choque de civilizações”. O “choque” que vai ganhando vida: eis a maior suspeita de nem sequer termos alcançado o estatuto de civilização.

A história já cansou de demonstrar o preço pago por omissões, desta vez pode não haver mais desconto para fornecedores.

*Artigo reescrito a partir de publicação original na revista Sibila, 09 abril de 2012

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/gunther-grassa/

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Pessach e Páscoa : libertem as idiossincrasias (blog Estadão)

07 terça-feira abr 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

Paulo Rosenbaum

03 abril 2015 | 17:19

Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

idiossincrasiaII

Alguns dias são mais díspares que outros. Hoje é um deles. Reparem nos poetas alienados, nas alegrias infundadas, nos sonhos para um final.

Nossa única constância vive de travessias infindas, na carne esquecida, nas mortes mitigadas, na resistência das cascas de ovos sem fim, num mundo sem rugidos nem gemidos.

Abram alas: precisamos de espaço, ideologias e seus mentores que esperem, enfim nossa vez de passar. Nós merecemos dizer o que queremos, exigir o que desejamos, mostrar ao que viemos. A passagem pode não ter beira nem margem, pode não acrescentar beleza nem coragem. Tudo passa, limbo e muro, enquanto a vida insiste, futuro.

Se sobrou qualquer significado para as tradições? Recobrar sentidos que pedem expressão, presença de símbolos que isolam certezas. Hoje é dia ideal para cabeças feitas, desfeitas. Mesas postas na nova ordem. Sequencias sem…

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Pessach e Páscoa : libertem as idiossincrasias (blog Estadão)

03 sexta-feira abr 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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idiossincrasias, Páscoa, pessach

Paulo Rosenbaum

03 abril 2015 | 17:19

Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

idiossincrasiaII

Alguns dias são mais díspares que outros. Hoje é um deles. Reparem nos poetas alienados, nas alegrias infundadas, nos sonhos para um final.

Nossa única constância vive de travessias infindas, na carne esquecida, nas mortes mitigadas, na resistência das cascas de ovos sem fim, num mundo sem rugidos nem gemidos.

Abram alas: precisamos de espaço, ideologias e seus mentores que esperem, enfim nossa vez de passar. Nós merecemos dizer o que queremos, exigir o que desejamos, mostrar ao que viemos. A passagem pode não ter beira nem margem, pode não acrescentar beleza nem coragem. Tudo passa, limbo e muro, enquanto a vida insiste, futuro.

Se sobrou qualquer significado para as tradições? Recobrar sentidos que pedem expressão, presença de símbolos que isolam certezas. Hoje é dia ideal para cabeças feitas, desfeitas. Mesas postas na nova ordem. Sequencias sem ritual, formas sem apego, ritmos sem hiatos. Religiões e não religiões. As idiossincrasias são sagradas,  são elas que podem nos restituir a união.

Na paz permanentemente adiada, acordos podem ser pesadelos.  E desacordos são lá uma alternativa? Hoje é o dia no qual as regras foram abolidas, réguas desprezadas, tréguas assimiladas. Nenhuma paz será derradeira mesmo que todos os sonhos sejam roubados por guerras rejeitadas.

O dia cuja passagem tornou-se permanente. No qual presidentes falam baixo, juízes benévolos, juízos perfeitos. Na travessia, a infância dos homens transformou nossas retinas para sempre. Apagou-se o fosco do céu. Impeliu brilho aos confins. Para que o Cosmos ajeitasse as coisas eis o dia da leniência abstrata. Da pax correlata. Da vigência temporária. Da flexibilidade originária. Coacervados mudos e algas falantes, evolução errante. Campos que alimentam as raças.  Animais mutantes e homens persistentes.

Hoje, dia das faunas mistas. Das concretudes explicitas. Das mulheres sem dono. Dos radicais enjaulados. Da democracia para espíritos. Da incontinência dos libertários. Das conchas radiofônicas. Da velhice jovial. De palcos cordiais. Da derrota do inevitável.

Hoje, a tragédia foi abolida. Desvelada a calçada até a utopia, suspendam toda política. A razão da liberdade invadiu toda análise. Eis o dia em que a casa arderá com convívios. A noite da refeição direta. Diante da uva transformadora. O dia da interlocução como único valor. O momento da síntese Eterna.

Não importa como acordaremos: este é o dia.

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Apaguem a história (blog Estadão)

29 domingo mar 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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antiamericanismo, apaguem a história, bullying de Estado, genocidio, kgb, Plano Marshall, Stalin

Apaguem a história

Paulo Rosenbaum

20 março 2015 | 19:22

polifonia

Podem comparar a vontade, não tem comparação. Este é um Pais único numa crise única, momento idem. Não é bem que não haja diálogo, enfim solicitado. Nunca é tarde, mas é preciso remover a mordaça dos interlocutores e passar a uma estratégia pouco praticada: dar voz e ouvidos.

Ficamos ouvindo as medidas que saneariam o mal feito. A boa vontade termina quando a sensação chega: fica evidente que continua sendo culpa dos outros. A saber, nossa. A humildade é — deveria ser — uma medida contra narcísica. Incompatível com quem sempre começa as frases na primeira pessoa “eu”. Quando começo a sentir pena do cenário patético a indignação é revigorada com as imagens de abandono dos que não podem se defender. Não só dos mais pobres, mas de todas as classes que foram iludidas pelo perfil, a pálida sombra. Concluo que foi a aversão do regime ao fundamento da democracia — a polifonia — que nos trouxe até a intolerancia, à mesquinhez, ao abismo de conclusões instantâneas.

Essa administração federal foi incapaz de aprender na carne a abrir mão do projeto hegemônico. Alguém acaba de me falar que numa grande Universidade paulista, alunos defenderam abertamente o direito dos carrascos do estado islâmico. Isso diz tudo. Outorgado o direito, a concessão inclui eliminar quem se opuser.  E por acaso estes estudantes não tem um tutor? Alguém que os guie à reflexão? Para que servem mestres? Neste caso, o titular da pasta é autor de comentários à obra de Bakunin, admira Stalin e carrega no chaveiro a foto do caudilho latino americano. E o País que o professor venera está em pé de guerra. Como no famoso filme de Peter Sellers conscientes do inexorável fracasso, apostam numa recompensa análoga ao plano Marshall. Não deveria nos espantar. Monologo e hegemonia são tandens. Movimentos correlatos como o minucioso trabalho da KGB e outros tantos aparatos repressivos que apagavam das fotos históricas aqueles que caiam em desgraça. A técnica atual evoluiu para seleção bibliográfica rigorosamente revisada pelo partido.

E por que tanta perplexidade com a história e os Museus sendo eleitos alvos preferenciais de militantes genocidas? Os extremos detestam a história e seus efeitos. Eles se incomodam muito quando deparam com a insignificância de suas convicções. Não admitem que haja um acervo de ideias superadas.  Não suportando observar outras fases da civilização, agem sob a curadoria do martelo. Não concebem a existência de processos. E o mais importante: não admitem perguntas. Pelo menos não as inconvenientes.  E um museu é um lugar de incertezas. De busca por respostas. Reúne uma síntese que nunca chega a um fim. Para a civilização a dúvida faz sentido, para quem odeia o ocidente e suas instituições é uma ameaça. Cabeças fanáticas não tem espaço para o inacabado.

Para que pensar muito?  No fundo, são parentes próximos da literatura de auto ajuda: tudo mastigado ou nada feito. A intolerância é um sintoma de esgotamento da cultura. A truculência máxima, da inépcia política. E o caos, sinal de que já houve, em algum ponto, algo diferente. A cultura que passou a exigir um Estado onipresente impôs, ao mesmo tempo, a retirada progressiva das responsabilidades individuais. Mais um aceno para o retrocesso: uma nova era patriarcal sem patriarcas. A ressurreição dos populistas pelo mundo não deixa de ser um dos dividendos deste notável contexto. As eleições tornaram-se álibis perfeitos para abusos. O voto, o escudo que os referenda. A denúncia excessiva é amnésica. O caudal de bullying de Estado é verificado como epidemia de injustiças contra o cidadão. O menu de desmandos variado apresenta da perseguição fiscal à terceirização de pelotões.  A intimidação é o legado mais evidente de uma Pátria que desistiu da educação por fundos partidários e um punhado de slogans de campanha.

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Terrorismo à revelia (blog Estadão)

29 domingo mar 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A Verdade Lançada ao Solo, co piloto Lufthansa, terrorismo à revelia

Terrorismo à revelia

Paulo Rosenbaum

29 março 2015 | 12:49

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Andreas, o que foi que você fez? Que rosto é esse? Quem foram seus médicos? Alguém cuidou? O que lhe falaram? Quais drogas lhe prescreveram? Uma daquelas que borram os contornos da realidade? Quem foram seus interlocutores? Entrar para a história! Com qual perfil? Crises existenciais? Todos nós, todo bendito dia. Bilhões de ciclotímicos, bipolares e borderlines escaparam das fronteiras da psiquiatria. É que não são mais semanas em cada estágio. Podemos mudar a cada minuto. As moléstias recusam inércia e se readaptam. Acompanham os tempos. Passamos de um polo a outro sem a menor cerimônia. Na velocidade das redes. No 4G.  Fama ou desgraça encontram-se ao alcance de qualquer digitador hábil.

É compreensível que a celeridade das oscilações acompanhem a era. A dúvida poderia nos salvar, improvável por nossa retrospectiva. É que não costumamos dar crédito para oportunidades. Já lemos isso antes: “mal estar na civilização”. O que deveríamos ter aprendido? Não eleger alvos randomicamente. É inaceitável que o mal – esqueça rótulos e reduções caricatas — tenha assumido existência autônoma. Ou a autodeterminação de alguém pode coincidir com a eliminação da nossa?

José Ortega y Gasset escreveu: a vida é puro acontecimento. E nós, quem somos? Uma família humana com suas tradições, insígnias e símbolos? Oráculos de lutos antecipados? Espaços destinados aos vínculos provisórios? Somos agregados ou participamos da essência? Qual sua família e qual a minha? Não respiramos juntos e fundo? Não nos conhecemos ao mesmo tempo? Não percorremos trajetórias análogas? O que esperar de uma sociedade cada vez menos compassiva e sem poder de agregação? Lobos solitários ou alcateias dispersas? Vivemos dias obscuros, mas não inéditos. Nas palavras cada vez mais ásperas, a audição foi ficando surda. Nem as vozes que imploram, importam.

Você não abriu a porta. Só sua respiração refratária estava audível. Você saiu da vida e entrou para a história. Temos suicidas com jurisprudência análoga. Se qualquer biografia pode ser interpretada de muitos modos, na sua, só uma coisa parece certa: façanha sem significado.

Sempre achei que determinação peremptória, convicções e certezas absolutas cheiravam abismo. Vacilar e duvidar transformaram-se em valores párias. Rebaixados da virtude à vicissitude. A perplexidade deveria ter gerado ao menos um consenso: mesmo o idiota mais resoluto precisa aprender recusar projetos estúpidos. Enfim turvamos a fronteira entre terrorismo à revelia e terrorismo explicito. E por falar nisso, em meio à guerra civil subnotificada, epidemia de homicidas e cooptação de pessoas para atividades genocidas o que o Congresso Nacional espera para formatar uma legislação sobre o tema? O direito à vida não deveria preceder qualquer outro assunto? Mais uma vez ultrapassamos o anacronismo, estacionamos à beira do ridículo.

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Ódio e política pueril – blog Estadão

15 domingo mar 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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ódio e política pueril, burguesia lulopetista, complexidade social, coxinhas de panela, honestidade intelectual, imaginário social, protestos dia 15 de março, traição política

Ódio e política pueril

Paulo Rosenbaum

15 março 2015 | 00:33

panelasXX

A burguesia petista e coxinhas de panela vem construindo cenas sem paralelos na extensa história do patético. Alguns se perguntam de onde provém todo esse ódio e intolerância? As fontes são inesgotáveis, mas, como se sabe, sob a traição política, a cólera fica quase indomável. Os mitômanos podem não saber, mas é assim que instigam a grande ferida. No imaginário social, nenhum redentor se atreveria a enganar a boa fé. A infeliz fala recente de quem nos presidi emprestou do seu mentor a tese de “esgotamento do modelo”. Ela pode ser traduzida de outra forma: não confiem demais em quem vos fala. Com a quase extinção dos bodes expiatórios críveis, não há mais a quem culpar. O crack de 29 não colou e a elite branca racista pode ser simultaneamente a classe média morena reacionária. O petróleo, privatizado pelo consórcio. O Estado foi ficando cada vez menos republicano. Os poderes, embaralhados e fatiados. Taxas de ruim/péssimo ameaçam extrapolar os gráficos. É evidente que a sociedade deve estar errada. Como estamos diante de uma administração avessa à crítica, toda chiadeira parece exaltar a convicção no sentido contrário. Não resta a menor dúvida de que a equação se inverteu: doravante, se tudo der certo, a sociedade é quem deverá servir à Pátria.

Os traços de esgotamento estão por toda parte. Há sinais, signos e símbolos de que uma grande inviabilidade persistirá. Mesmo endossando a recusa ao catastrofismo, ninguém tem mais o direito de ficar peneirando mel. O laços de contra e a favor vão se estreitando, até não se saber mais quem é quem. Vai ficando difícil manter a honestidade intelectual e, ao mesmo tempo, apontar para direita ou esquerda. A complexidade social sempre superou a capacidade de apreensão analítica. Recorrer à luta de classes ou golpe militar revela o viés: estamos num sistema de notação maniqueísta. O anarco-marxismo e o atraso fanático escancaram a face pueril de nossas práticas políticas. Daí o emboloramento, a incoerência, o desatino programático. A anemia em líderes razoáveis. No malabarismo impossível, a maioria luta para exigir (e exigir-se) uma fidelidade ideológica que não mais existe.

Defende Cunha aliado, detesta Dilma malcriada. A favor de Calheiros com aversão ao procurador. O exército alternativo convocado para conter o golpe que, onírico, viria a calhar para salvar o projeto. “Viva a Petrobras” dizia Gabrielli em Salvador à frente de militantes com carteira assinada. Na CPI, na TV ou nas coletivas as falas, a retórica, o discurso, a impostação, a mímica, a gestalt de mais esse simulacro de verdade. Verdade? Decerto subjetiva, uma aporia sujeita à interpretações. Ninguém negará que mesmo um conceito pouco palpável exigiria contornos mínimos de realidade.

E com quem podemos contar?  Intelectuais subsidiados pelo partido? Blogs financiados por fundos partidários? Oposição encalacrada? Institutos de pesquisa controlados pelo poder? Para onde se olha enxerga-se as marcas da hegemonia. A doença se alastra. É que a colonização tem pressa. Se houvesse um manual de bons modos para além do conselho de ética e da controladoria geral da união, a manifestação deveria não só ser pacífica, mas solene. Agora não se trata de festa democrática, revanchismo ou enfrentamento. É a maturidade e o solene que podem encampar a seriedade do momento. A eleição passou. Inútil tentar culpar quem nos meteu nessa. Se há algo para aproveitar em uma marcha adulta é recobrar a consciência de uma saída.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/odio-e-politica-pueril/

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