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O retorno do bumerangue

Paulo Rosenbaum

24 abril 2015 | 15:27

metafora

Eu vou bem e você? Faz tempo. Senta ai. É verdade, perto das eleições tive que te bloquear. Eu sinto também. Mas não me arrependo. Não tenho respostas, só perguntas. Você pode até dizer que não, mas eu sei. Lembro de cada um dos aforismos: era o “nunca antes na história”, depois vieram “só nós fizemos”, e depois aquela fileira de slogans. Agora vocês nem disfarçam mais.

Dúvida? Então vou fazer esse papel para ti. Sabe por que? Vão forçar os blogs pagos para comentar o de sempre. As mesmas velhas ladainhas contra o partido. Vocês são incansáveis, mas sabe quem vos dobrará? Não, não espero nada da realidade. Quem está dando o troco não é o Congresso, não são as ruas, são as metáforas obsedantes que vocês deram vida. Sim, explico. Sabe aquelas ilusões criadas? Lembra das promessas impagáveis? O sonho à granel? Da campanha eleitoral desconstrutiva? Pois foram elas que estão assombrando o poder num espetacular retorno do bumerangue. Pois é, são elas que estão agarrando suas canelas. Fantasmas podem ser imponderáveis mas, por um estranho capricho, cobram ingressos mais caros. Pessoalmente não creio em assombração, mas acredito em inflação, desatino, despreparo, e em massa falida que vai rolando até gerar o déficit universal. Sem querer ser insistente: um dia, não precisa ser agora, você vai me dizer como é que se quebra uma empresa com monopólio do petróleo. Não tem nada de pirraça. Chame de curiosidade metafísica.

Quer ir por tópicos? Vamos lá. Histeria anti comunista. É mesmo uma reatividade infeliz. Concordo que entramos numa cultura incomoda: o senso comum de mau gosto. Mas o que me dizes da redação estúpida nos fóruns da esquerda conservadora? O que vocês ainda não entenderam é que justiça social não é mais monopólio da agenda socialista. Qualquer cidadão esclarecido reconhecerá isso. Reconciliação nacional? Só depois que vocês pularem do barco. E já passou da hora. Venham todos de cara limpa e aí veremos se rola um diálogo. Já há um consenso: nenhuma reconciliação virá através de vocês. Aliás, se tiver que vir, nascerá à revelia do poder. Será um destes efeitos colaterais inesperados. Em pelo menos um aspecto vocês estão de parabéns. Curioso? Conseguiram uma façanha: reunificar a sociedade contra um projeto totalitário.

Ingratidão e falta de reconhecimento da nova classe média? Pense de outra forma: o povo aceita ser humilhado, ofendido, pisoteado, jogado às feras, tripudiado e esquecido. Vá ás ruas e me desminta sem fazer gracinha. A sociedade, esta entidade abstrata, pode ser passiva, pacata, alegre mas tem o seguinte, não tolera ser sabotada, muito menos instrumentalizada. Ela não tem essa percepção? Vai nessa! Até os gênios do marketing político vão jogar a toalha quando o produto estiver prestes a perder o prazo de validade. Quando apodrece, costumam sumir. Moralismo? Demagogia? Chame como quiser, eu já apelidei de índice de volatilidade do eleitor.

Sabotagem, como se sabe, é especialidade dos agentes tiranos que abundam à esquerda e à direita. E a enganação útil pode também vir do centro. O importante aqui é conhecer a índole do sabotador, ele age por vingança. Neste caderno de teses de agora, por exemplo. Me explica o que é que é aquilo? Nota-se que vocês não aproveitam a parte boa do envelhecimento.

Eu também li aquela matéria. Bom saber que nem você concorda. De cara, intui o desproposito. É evidente que a maioria dos insatisfeitos não é do “tea party dos trópicos”. Qualquer análise sem contexto acaba virando fofoca. O que eles são? Sei lá, chame-os de chimarrão quente, massa difusa, matéria escura sem etiqueta.

Dos dois lados há sempre gente falando bobagem, grupelhos nostálgicos e vingativos, milícias que querem desforra. Mas a maioria está cruzando os braços, e não é por greve. É uma atitude nova, típica dos observadores. De gente que perdeu a paciência, mas não o bom senso. Enquanto vocês apostam na reincidência e nos truques manjados a maioria está parando para pensar.

Impeachment? Se há lei para impedi-la de continuar, por que não usa-la? Se não há, a quem interessa criminalizar quem se opõe ao poder? Ontem todos os canais estavam mostrando uma ofensiva midiática do partido. Vocês ainda apostam cegamente no poder da propaganda. Só esqueceram que o meio é a mensagem. O que chega para as pessoas não é o desejado, mas o meio pelo qual vocês tentaram a persuasão. A mensagem se perdeu pelo caminho. Sobra a mentiras, ardis, estratagemas, e maracutaias.

Ok, podemos mudar de assunto. Se vamos jogar fora o que vocês fizeram pelo País? De forma alguma, tchê! Mas os acertos não apagam as pegadas. O corolário de equívocos de vocês já virou marca registrada. É herança maldita contra terra arrasada.

Só que isso aqui ainda é uma República.

Por favor, dá para abaixar o tom? Aceito a desculpa. Percebe? Essa arrogância inflamada não faz sentido. Ninguém fica feliz – ou não deveria ficar – com tanta gente enroscada, presa e processada. Mas esse é o salário do abuso. Se ao menos fossem aprendizes mais discretos. Se abandonassem o projeto da pátria homogênea e da hegemonia partidária.

Ideário da burguesia? Céus! Senhor, um desafio: saia agora às ruas e veja se a insatisfação está confinada. Veja se está delimitada a uma classe social. Saia e veja quantos estão fazendo as contas do que estão perdendo com a volta dos espíritos descontrolados que vocês libertaram das catracas: inflação, estagnação, insegurança, desatino fiscal.

Saia e constate quantos se arrependeram. O que se deve fazer? Comecei este papo mandando a real: eu nunca disse que tinha uma solução. Se pede conselho eu resumiria num só item: façam autocritica e mudem. Sem ela, não há conversação.

De dentro desta grande instituição asilar controlada pela ideologia, o fanatismo e a convicção, a realidade está sendo obrigada a dormir do lado de fora. Está sugerindo que a saída é o aeroporto? Posso te afirmar que já ouvi, não faz muito, essa mesmíssima ameaça. Mas somos como a mula teimosa. Não vamos desistir do Brasil. Não que não seja tentador. Percebemos que persistir é a única forma de dar um cansaço no delírio de proveta que vocês pariram. Passar bem você também.

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