Gunther grassa

Paulo Rosenbaum

14 abril 2015 | 09:31

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Para bem além do tambor*

Em 2012, o recém falecido escritor Gunther Grass publicou uma poesia abertamente antissemita, usando Israel como pano de fundo. Ninguém duvida que o ganhador do Nobel de 1989 tenha lá motivos para expor o país hebreu e adicionar seu nome à legião infame que dá credibilidade à intolerância que cresce pela Europa, e pelo mundo. Graças a campanha de demonização, comunidades judaicas inteiras vivem hoje cerceadas, sob constante ataque em várias cidades europeias. Notável que parte desse endosso subliminar tenha vindo da própria intelligentsia. Da extrema direita conhecíamos as proposições xenófobas. Mas hoje ela também se oculta na retórica daquilo que em dias nostálgicos, costumávamos conhecer como esquerda. O que restou das proposições que deram origem à defesa das minorias, da liberdade e da justiça sem tirania? Precisamos recuperar a memória: é verdade, houve um um dia uma esquerda democrática.

Hoje, rendida ao anacronismo baseado quase que exclusivamente na demonização anti-imperialista e na grandiloquência mais nostálgica que autocrítica. O apoio de intelectuais, inclusive nativos, e artistas europeus ao jihadismo, por exemplo – autojustificado como contra-propaganda ianque, não sobrevive à nenhuma análise séria. É da natureza da racionalização buscar meios para justificar impulsos inconscientes.

A pulsão atual está nua: é capaz de se alinhar com qualquer rebeldia que, por exemplo, pegue em armas contra colonizadores e supostos espoliadores da nação. Por isso mesmo, estampas racistas viraram rotina. O baú de infâmias, antes lacrado, rompeu nas mídias sociais e o fenômeno é mundial. Periodistas e articulistas continentais armam suas pistolas e diariamente disparam um tiro no próprio pé, bem no meio das redações.

O poder de persuasão dos escritores sempre foi superestimado, mas quando alguém empresta sua pena à causa, seja ela qual for, precisa assumir o risco de que a obra toda inscreve-se no tribunal histórico. O problema do julgamento da historia é o veredicto, sempre anunciado entre testemunhas sepultadas.

Gunther grassa e ele não está sozinho nessa vertente devidamente acomodada no manto anti-israelense. A ele aglutinaram-se nesses anos exércitos terroristas, pensadores marxistas, campus universitários e massas desinformadas. As vezes, recorre-se a fantasias diversionistas para atingir o alvo final. É decerto muito mais confortável ser identificado como obstinado antagonista do Estado hebreu, que caçador de judeus.

Dizem alguns que condenar um País não é, necessariamente, atacar seu povo, sua etnia ou a religião que professam os que ali habitam. Depende. Para o bem ou para o mal, Israel tem sido encaixado numa perspectiva de “pacote”. Mesmo considerando a existência de um milhão e meio de cidadãos árabes-israelenses, a condenação quase maciça da Mídia às ações governamentais daquele País (é preciso recordar que a hostilidade nunca cessou, mesmo quando o País era governado por uma coalização de centro esquerda) traz sempre uma única conotação, a de se trata afinal de um “país de judeus”. Pois é essa evocação subliminar, às vezes explicitada, que confere às críticas ao País o caráter de condenação coletiva do povo judaico. Não se pode sufocar a cronologia. Muito antes do massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo e das pessoas no supermercado Hipercasher, a campanha judeofóbica estava sendo propagada no continente. Pois, passada a comoção, ela persiste incólume.

O conflito israelo-palestino, enorme fonte de tensão, ainda assim somente um precário pano de fundo para a retomada da intolerância.  Os nazistas foram derrotados pelos países aliados, não o mito do judeu dominador. O ciclotimico resgate de mitologias destrutivas parece ser um motor sem interruptor.

O socialista Gunther passou décadas omitindo de sua biografia sua militância nazista na 10ª Panzerdivision Waffen-SS, pois, como admitiu depois, isso “prejudicaria a carreira”.  Se os sábios de Estocolmo apenas soubessem. De qualquer modo, o antissemita se associa ao seleto grupo de antecessores, como o poeta fascistófilo Erza Pound e até redatores contemporâneos como Tarek Ali. Não faz muito, o paquistanês analisou os desvios dos americanos e israelenses sem dar o menor contrapeso à belicosidade do regime iraniano, a sanha xenófoba de regimes islâmicos contra minorias cristãs e de outras etnias em vários países árabes, enfim escancarada com a grife midiática do estado islâmico. A desonestidade intelectual passa, necessariamente, pela seletividade com que se elegem os alvos.

Se o Estado de Israel comete erros – e decerto os comete – eles não devem ser separados do contexto que cercam as circunstâncias em que são cometidos, ainda que, para alguns deles, não deve haver complacência. Há uma amnésia programática que abandona o conceito de proporção e equivalência moral. O regime expansionista dos aiatolás, problema bem mais nocivo ao mundo, assim como o abandono do povo sírio à própria sorte, é que deveria pesar na consciência da diplomacia ocidental. O acordo nuclear poderia caracterizar um inédito avanço e seria mais significativo se forçasse o clero xiita a reconhecer Israel e interromper suas incursões violentas na região.

Uma estranha passividade hipnotizou a vida. O mundo, testemunha de explosões de intolerância e fanatismo não está interessado em refrear o empuxo de guerra entre os povos. Bastaria observar a calma que reina na naturalização das hostilidades como “choque de civilizações”. O “choque” que vai ganhando vida: eis a maior suspeita de nem sequer termos alcançado o estatuto de civilização.

A história já cansou de demonstrar o preço pago por omissões, desta vez pode não haver mais desconto para fornecedores.

*Artigo reescrito a partir de publicação original na revista Sibila, 09 abril de 2012

Gunther grassa