• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Heráclito e a opacidade da justiça – Blog Estadão

26 segunda-feira mar 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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“o povo deve bater-se em defesa da lei, como se bate em defesa das muralhas”

Heráclito de Éfeso (séc VI-V A.E.C – fragmento 44)

Opaco – acampto, adiáfano, impérveo à luz, sombrio, turvo, escuro, nublado, fúmeo, fuliginoso, nubífero.

Entraram no mesmo rio diversas vezes, mas, desta vez, contrariando o filósofo, saíram como entraram, iguaizinhos. A defesa do poder para que o poder prossiga, incólume, com o endosso dessa escolta. Para estar completa, a legalidade precisa estar acompanhada de legitimidade. E, tal completude só se (re)conhece pelo exemplo. Pela experiência. O único check in que interessa, caras excelências, é entrar no espaço aéreo dos problemas do País e jogar luz sobre a carta constitucional. Mas, naquela que poderia ser vossa penúltima sessão, parece que o correio não encontrou o destinatário, e a carta, extraviada, ficou à deriva em alguma repartição pública obscura, esperando que uma liminar surgida por geração espontânea subisse à superfície do recinto. Milagroso, pois nao?

Assim como na sábia advertência de Freud de que “toda interpretação fora de análise é um agressão” todo teatralização fora dos palcos representa uma ameaça muito além das aparências. Diante de milhões de testemunhas a sociedade e a opinião pública — que já valiam pouco — foram devidamente ajustadas à sua leiga insignificância.  Enquadradas em uma jaula sem poder expressar a angústia da incerteza. Amordaçadas enquanto viam seus direitos escoarem sob os insultos indignos de uma luta corporativa não explicitada. O conflito de interesse foi abolido e ninguém foi avisado? O que se viu sim, foi que o juízo foi suspenso. O que se esperava da justiça é um pouco mais do que o protocolo e a aplicação mecânica das leis. Ficou patente que o Estado e a sociedade não tem proteção quando se trata de defensores que dominam o charme francofônico.

Afinal, punições deveriam estar atentas ao contexto, assim como os perdões, anistias e habeas corpus. O respeito à hierarquia precisa de um teto. Assim como um jurista requer um piso comum. E a decisão do colegiado exige um efeito vinculante com a moralidade pública. Acima da qual a obediência torna-se omissão, e a distorção, cumplicidade. A hermenêutica de ocasião é fruto de um pleno repleto de parcialidades ideológicas. E o valor das instituições está exatamente em suplantar a fulanização, esquecer, temporariamente, o individual para penetrar no campo dos interesses do conjunto de sujeitos. O gênero de sentimento que se gera no País quando um condenado é menos desigual que os demais está para bem além da perplexidade. O planalto central e seus recintos encastelados ignoram o que se passa nos demais relevos. Nenhum desce ao solo. Não acreditam em erosão. Não detectam o que percorre a alma do homem comum: a sensação de que as regras — contrariando o princípio cartesiano e toda herança iluminista — não podem ser aplicadas de acordo com critérios obscuros e indistintos.

Querem saber qual é o problema? Querem saber o que assola, melancolicamente, o homem comum? A ideia de que ele tem doravante algum dever para com um Estado que não lhe concede direitos. Ou, se concede, os arbitra com rigorosas imposições e pitadas de tirania. Um Estado que lhe caça a voz para empresta-la — com batedores oficiais remunerados pelo erário — a quem deveria tê-la perdido. É isso, prezada corte, que sente o homem comum. Não estamos a falar do militante médio. Ou do filiado graúdo do partido. Nem de um inimputável que parece ostentar as hastes para instrumentalizar marionetes infláveis. Falamos do povo, que com dificuldades, acha incompreensível — porque de fato é — que a alta magistratura exceda-se, justo ela que deveria ser o parâmetro da justa medida, da coisa imparcial, do meio termo em prol da vida das pessoas.

Sim, perfeitamente, sabemos que vocês não jogam para a grande plateia — destarte não deveriam jogar também à pequena — isso ficou claro. O que não ficou claro é por que a transparência virou um segredo de Estado? Um acordo de decisões monocráticas? Nem precisavam declarar, é evidente que os excelentíssimos não acham relevante a opinião pública.  Entretanto, pergunto se lhes ocorreu um detalhe importante, o qual, talvez, merecesse vossa atenção: a opacidade da justiça tende ou não a transforma-la em uma outra coisa?

E se essa coisa não for nem a justiça, nem o direito?  E se for apenas a aplicação das regras a uma conveniência política que sacrifica a paz social por um conluio que, já se vê,  não só  não cicatrizará como exporá a chaga a mais completa degeneração? Chega de sigilo. A vossa revelia todo enigma estará às claras. Aprendam que nada, literalmente nada, pode pressionar mais o homem comum do que a incerteza sobre sua liberdade.

Especialmente quando a liberdade de um significa prisão para os demais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia

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Terror do Opressor – Poema do livro “A Pele que nos Divide” – Blog Estadão

24 sábado mar 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Livros publicados

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Tags

A Pele que nos Divide, blog conto de noticia, poesia

Terror do opressor

Lava-te agora com o precioso cânhamo
Do teu poderoso homicídio
Tão forte a gosma da corrupção
Que jamais enxaguará teu extermínio.

Se censurar foi o teu meio
E conceder-nos matança
Foi a tua redundância.

Não haverá um só meio
Que não conheça a revolta, o centeio.

Explodindo teu glutão palácio
Ferveremos tua condolência
Abençoando-te com tortura sem violência

O abuso nas tuas insígnias
Não é a estampa do horror,
Mas a forma como compeles dor.

E teus fiéis servos perpetuam
Tua doutrina mundana
Imprimindo a consciência tirana.

Faremos ainda com que cantes
A infinidade de nossos levantes.

E a tirania da tua democracia
Farás apenas com que murmures
– Sim, o poder com sangue tecia,
Posto que nada é eterno pelo tempo que dure.

Quando assim, vier-nos então
Teu submisso pedido de clemência,
Enlouqueceremos de euforia, demência.
Finalizaremos teu sepulcro com pó,
E te embalsaremos
Não com a glória de um faraó
Mas com a solenidade que temos.

Conservaríamos viva a tua alma,
Para que cada um expurgue o termo
Na tua imagem, o que foi teu governo.

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O Poder Viciado (blog Estadão)

19 segunda-feira mar 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O PODER VICIADO

O poder viciado? Hoje ele tem uma prioridade. A única. Precisam escapar do juízo, dos jurados, dos julgamentos. Poderíamos inferir muitas coisas, discordar do uso abjeto com que os infortúnios são usados. Ficar indignados em detectar como a manipulação política nos direciona nas causas e consequências do trágico.

Mas, em nome da nitidez é bom que se diga, antes de tudo,  que a vereadora carioca, neste evento, foi vítima de um ato de terror.  Assim como todo transeunte, como os policiais, como os cidadãos que não puderam contar com ninguém e, agora, abandonados em suas sepulturas. É preciso suspender o juízo ideológico para declarar que nada justifica a morte de inocentes. E, ao mesmo tempo, tudo se justifica no combate contra aqueles que matam inocentes. Sim, inocentes. A maioria. Mas qual maioria? A maioria encontra-se submetida. A maioria está amarrada. A maioria está engessada pela inércia. Tolhida pelas explosões de informações contraditórias plantadas pela realidade, as naturais e as artificiais. Com todos os fuzis à mostra é preciso explicitar: sem expor a marca do cassino que representa — há mais de uma rede apostando pesado no “todos contra todos”.

Todo mundo sabe, a guerra é contra os civis, mais de 60.000 mortos por ano. Sete assassinatos por dia. Para além da epidemia de homicídios quem se importa com a dor individual? Quem só pensa no acerto de contas? Sob o prédio imponente da orla arrematado pelos graúdos e impunes chefes do crime, os mandantes controlam as câmeras com drones. Dominam completamente o ciclo malévolo que criaram. Trafico de influencia e desvio de função. Tempo de latência e pesquisas de opinião. Tudo se mistura num turbilhão de medo e confusão.

Aqueles que se dizem contra hegemônicos montam a escada para alcançar definitiva e permanentemente a hegemonia. Ninguém precisa supor isso. Não depende de interpretação. Eles confessam em suas timelines, em seus blogs, em seus programas partidários: é isso mesmo. Com a cabeça feita pelos psicofármacos das drogarias ou pelos fármacos sem patente, negociadas por um punhado de pacotes, que prometem vender a leveza perdida, afinal a grande demanda atual é anestesiar toda má consciência. A violência é o ópio do povo.

Estamos submissos a uma omissão programada e programática de um Estado abúlico. Por planos de sabotagem rabiscado em bilhetes. De uma pacificação que acabou como capitulação ao fuzilamento da sociedade. O Estado que não funciona é cúmplice. Os interesses sociais de quem deveria zelar pela sociedade há muito deixaram de ser direitos coletivos. É possível sentir na pele que o poder age a favor de quem demonstra força. De quem a exerce sem relutância. Com balas, com sangue frio, com a mira em punho, com truculência profissional, como usurpação das funções. Nas contundentes palavras de Viktor Frankel — psiquiatra sobrevivente do Shoah que fundou a corrente conhecida por logoterapia:

“O sistema político está comprometido porque o poder está nas mãos de minorias que usam o poder de forma indecente.  Só existem duas raças: a raça das pessoas decentes e a raça dos indecentes”.

Cedo ou tarde a decência terá que impor sua paz.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/poder-viciado/

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Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP

02 sexta-feira fev 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Resenha de Céu Subterrâneo no Jornal da USP (por Larissa Lopes)

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Home > Cultura > Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance
  • Cultura

– 28/03/2017

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por Larissa Lopes – Editorias: Cultura

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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

.
Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto…

Ver o post original 648 mais palavras

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Seis Milhões – Dia das vítimas do Holocausto

27 sábado jan 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.

posso senti-los
 sob meus pés,

regulares, como todas as descidas,

rítmicos como gelos.

intensos como arestas

No declive de gênero fantasiados de corporações 
nos trens improvisados,

como máquinas de extração enquanto metrificavam judeus

a IBM e a Krupp
 acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo
 não era noite ou fumaça

e de todos os dias,

o carrasco detinha 
os trilhos da proficiência

Não vi campos,
nem sinais de gritos, ou angústia das vítimas

senti cada parada
cada pequena que viveu nas cavernas preservadas nas coleções intactas
ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silêncio para o vapor da constância,

de quem preferiu as mãos
 que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos desacreditados

na sonolência de nossos

dedos ou nas qualidades extintas,

como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo,

mas a produção,

o apreço por resultados,

o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica será,

Aí temos o protocolo superado a experiência romântica

sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa

Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas 
alternam sons com acendimento

de vela perfiladas,

nas presenças sem sequência.
na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retêm 
o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros

Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo 
é para que essa perplexidade

gere totens 
e olhos sem braços

nos alcancem
 em noite de cristais, pogroms ou vidraças

nos nomes que esfacelem a realidade,

que, sem chances, observa 
a violência do descuido

Mas a noite, sim, anônima

Impõe a presença

Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado

Entupa de maturidade as nações

Achamos que, 
do tabuleiro de onde estiver, deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral

Somos um passado atento

Seis milhões nas curvas

Assistidos com a brutalidade da demora

O esquecimento do mundo

A carga excessiva

Que impressiona apenas
os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vítimas são eles)

Mesmo à distância do meio do atlântico

Estancaremos perto do nada

Só faz 70 anos

Os campos estavam nos libertando da vida

Enquanto a eugenia dos doutores 
do partido

Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão

Mas, para registros futuros jamais

o barômetro do céu agirá aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

 

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007

 

A Pele que nos divide

A Pele que nos divide Diáforas Continentais – Poesia (2018)

 

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/seis-milhoes-dia-das-vitimas-do-holocausto/

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Diatribe contra a distorção como método filosófico (Blog Estadão)

27 sábado jan 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A verdade é que não há uma pós verdade, assim como não existe uma má filosofia. Existem filosofias bem estruturadas, abrangentes, limitadas, algumas incompreensíveis ou de baixa consistência. Já se poder afirmar que aquilo que fazem todos os defensores do ex presidente usando punhos e sentimentalismo —  às vésperas de uma condenação — merece ser nomeado como um sistema filosófico. Poderíamos chama-lo de muitos nomes, mas o mais adequado seria enquadra-lo na categoria distorção.

O distorcionismo como sistema filosófico consiste na desqualificação sistemática de todos os argumentos da racionalidade vigente e substitui-los por um misto de teorias conspiratórias, culto à personalidade e apego messiânico. Outro item que não pode faltar ao método é manter sempre por perto um arsenal de pedras contra qualquer um que se insurja contra a ideologia da distorção. A técnica da distorção também inclui acusar o mundo de hostilidades e ódio, enquanto detém-se o monopólio da vingança e da disseminação da litigância.  É claro que não deixa de causar curiosidade qual tipo de mente é ainda hoje susceptível  à influência e submissão de um líder com as características do ex presidente Lula, hoje visivelmente perturbado e já tendo incorporado as suas vicissitudes a missão de salvador. Salvador de todos aqueles que exerceram conjuntamente o mal feito.

O distorcionismo contumaz tem como principio fundante a ideia de que se o seu argumento não for coincidente com o do seu oponente ele será vandalizado, desconstruído e boicotado. Especialmente nos meios em que existe o prevalece o controle tácito de filósofos militantes ou sindicalistas subsidiados. Há muito tempo a questão central deixou de ser a corrupção — tudo somado até aqui e sem incluir a caixa preta do BNDES, cerca de um trilhão — assim como a ética na política, outrora o principal slogan do partido. Partido que aliás relativizou de tal modo o aforismo, que construiu um verdadeiro universo hermenêutico paralelo com auxilio de magistrados com notório talento, para o legislativo atual.

Neste mundo especial e bizarro no qual o petismo tenta subsistir incólume, não foi doloroso nem difícil a associação natural, quase inercial,  às forças e pessoas que constituam o que tinha de mais atrasado no País. Isso foi feito com timing e estrtégia para logo depois, acusar os demais de conservadores decrépitos. Outro recurso muito utilizado é a ideia de que a prevaricação para acumulo pessoal é muito mais grave do que a o desvio de função do Estado. Ideia marota, que parece ter colado em parte da mídia, mas senhores, deveria ser auto evidente que a pilhagem da República para perverter a democracia é uma transgressão da ordem da traição, a outra apenas ação ordinária dos punguistas de praxe.

Recuso-me a chama-los todos estúpidos, pois há gente inteligente e culta entre aqueles que ainda suspiram ao ouvir o nome do líder.  Também refuto a tese de que existiria uma doença mental de base neuropsiquiátrica para aqueles que defendem e justificam todos esses anos nos quais fomos conduzidos por postes acéfalos.  Muitos analistas, perplexos, desistiram de encontrar uma solução lógica para o fenômeno. Entretanto, advogo outra explicação.

Precisamos aceitar que a raiz filosófica da distorção como método filosófico é de base afetiva. O apego, a paixão por defender por tanto tempo um projeto suicida e não republicano, a falta de critica e de autocritica, são elementos que denotam e reforçam essa hipótese. Mas, talvez a essência do projeto, aquele que ludibriou milhões por tanto tempo esteja exatamente em um fenômeno conhecido chamado de ‘quase acerto’.

Explico através do flagelo que é o vício em jogos.

O que atrai o viciado em jogos de azar é a perspectiva errônea de que ao final da rodada na roleta sairá vencedor, pois “quase deu certo”.  Quem estuda o tema — existem ambulatórios especializados para estas pessoas — já sabe que que a ilusão não é a de ganhar, mas de “quase ganhar”. É esta sensação de “quase acerto” que parece disparar o impulso de excitação neuro-sensorial destas pessoas a se lançarem em novas apostas. Não importa quantos salários foram comprometidos, quantas joias, casas penhoradas e patrimônios o sujeito já tenha deixado na mão dos donos destes cassinos. É, portanto, a ilusão, mas disfarçada de “esperança “, “fome zero” ou ‘país sem pobreza” que  estaria na raiz na defesa apaixonada e violenta dos projetos fracassados.

Pode dar errado milhões de vezes, mas isso não tem a menor importância. Os aditos costumam ser crentes resilientes. O desejo de acreditar é, portanto, muito maior do que as experiências empíricas que já cansaram de evidenciar a bancarrota.

Outro ponto caro ao distorcionismo é a cegueira seletiva. Ainda que toda sua vizinhança esteja desempregada é mais do que provável que isso possa ser  atribuído a algum fator circunstancial, de responsabilidade exógena, gerado por uma crise externa, o asteroide destruidor que se aproxima ou o desmatamento do Saara.  Desvios trilionários seriam obras tão ancestrais que ninguém poderia rastreá-los, portanto, ninguém deve ser acusado de nada.

Há, evidentemente, um problema de dosimetria. Recusando de pés juntos que o sequestro do Estado foi fruto de um plano ardiloso é sempre mais conveniente colocar a culpa nos demais. Horrorizados, os intelectuais orgânicos do lulupetismo recusam o que se diz nas redes sociais e apesar dos blogs clandestinos e dos ataques comprados e publicados nas revistas e jornais, acusam as redes de espalharem inverdades do senso comum.  O banner  que andou circulando por ai, “nunca tão poucos pilharam tanto de tanta gente” é dentre todos o mais odiado.

De que outro maneira justificar o comportamento de torcida sectária que apresentam? Ao abandonar a seara analítica os bem pensantes do partido caíram na armadilha, e agora apoiam abertamente demiurgos, que amanhã podem se voltar contra eles. Assim, o distorcionismo avança como um sistema de notação perverso, mas não ilógico, cuja finalidade é a conservação autocrática do poder. E caso não seja possível, o plano é impedir que outra sociedade exista, caso triunfe um modelo social que não é aquele que preconizam.

Neste funk do totalitarismo maquiado de luta social é que o discurso desta neofilosofia repousa. A democracia deveria se preocupar com o avanço de sistemas como esse? Talvez, mas se este ramo da filosofia cresceu sob a vigência dela, da democracia, só o seu aprofundamento poderia salva-la. Clamar sua destruição ou evocar histerias de ocasião não é a resposta que a maioria do povo que sonha com uma vida mais civilizada, aceita. Trata-se de um falso paradoxo explorado por quem quer também suprimi-la do outro lado com ações e respostas truculentas. Estamos então entre a zona cinzenta do populismo e o fio da navalha da opressão e já não se pode esperar que a inspiração para uma concertação geral brote nos gabinetes de Brasília.

Nem mesmo de pessoas que dominam as cúpulas das estruturas partidárias. A sociedade precisa formar um novíssimo consenso, excêntrico, de fora para dentro, à revelia do sistema. Consenso daquilo que não quer para o País. O que ela quer, caso passemos desta fase,  pode ser deixado para quando tivermos assegurado que a política deixe de lado os cassinos.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diatribes-contra-a-distorcao-como-sistema-filosofico/

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Biosemiótica e o Caramujistão (blog Estadão)

27 sábado jan 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Parece que tudo, ou quase tudo, passa por nosso crivo interpretativo, mas e se não houver um crivo? Um sistema de notação que permita uma interpretação lógica?  No mínimo que respeite regras hermenêuticas consensuais? Por exemplo, aquelas que produziram um efeito colateral conhecido como civilização. E que até ontem nos permita extrair uma aproximação, a mais verdadeira possível, da realidade.

Cansado de discussões estéreis, desonestidade de intelectuais militantes e polêmicas de fundo de ateliê, e esgotados todos os argumentos de valor universal, parece que se quisermos preservar o bom humor e a saúde mental só nos resta trazer a discussão para o mundo analógico da ficção. Portanto, segue uma breve fábula. Como defesa antecipada é preciso dizer que aceitamos a classificação das espécies e a taxonomia, não temos preconceito algum contra qualquer reino animal, vegetal, mineral ou protista. Até mesmo tinha-se, remotamente, algum grau de empatia por este molusco gastrópode aquático, o planorbídeo, o qual, em linguagem popular, é mais conhecido como caramujo.

No campo científico da biosemiótica há uma pergunta essencial: como será que os outros seres vivos interpretam o mundo das representações humanas? Já que o significante é o objeto a ser interpretado e o significado sua interpretação, qual seria a avaliação que um caramujo faria diante das regras e convenções, como, por exemplo, um semáforo de trânsito? E quais seriam as consequências da distorção dessas regras dentro da própria comunidade de planorbídeos?

*******************************************************************

Um caramujo que se achava inimputável encontra-se parado diante de um semáforo tentando entender o significado da oscilação das luzes. E acaba de receber uma mensagem: a colônia que ele liderou até a beira do abismo está ameaçada. Ele nega, mas intimamente sabe se sua responsabilidade pelo caos, consequência direta de suas decisões e escolhas erradas. Algumas propositais, mas não seguiram o roteiro que ele imaginou.

Agora ele e sua fiel equipe estão para receber uma resposta. Não são mísseis balísticos intercontinentais. São apenas salvaguardas do sistema e dos significados estabelecidos que, traídos, estavam reagindo contra os incontáveis abusos. Já que o caramujo chefe não conhecia nenhum abrigo nuclear ou convencional foi obrigado por puro instinto a se locomover de volta ao seu nicho original depois que o “fracasso lhe subiu a cabeça” como vaticinou Millôr Fernandes.

Fez isso, pois considerou que sua única chance de escapar seria misturar-se com seu próprio bando. Em sua pusilanimidade imaginou que uma cortina de fumaça venenosa lançada entre a multidão criaria a confusão e o medo propícios para acusar os outros por seus desvios. O molusco percebeu que só a aliança com outros como ele, moluscos incompetentes e venais o faria voltar a liderar a parcela de lesmas incautas. A suposta homogeneidade o protegeria das sanções iminentes e deixaria toda a comunidade em duvida sobre sua participação direta na destruição do Caramujistão. O papel de vítima sempre lhe caiu bem.

Atingindo a velocidade de lesma na freeway sua caravana prosseguiu rumo ao seu objetivo, e recorrentemente desobedecia — como se acostumou nos anos em que reinou absoluto  — todos os sinais e todas as regras. Conservava na memória como escapou dos primeiros desastres enquanto uma legião de outros caramujos submissos o seguiam sem perceber que ele os conduzia ao desfiladeiro. Muitas outras lesmas enxergaram que era uma peregrinação para a morte. Mas o grupo alfa acostumado ao domínio subliminar, alugava antenas especiais e aprenderam a emitir sinais de comunicação que produziam interferências sérias a ponto de embaralhar a percepção dos demais.

Muitos seguiam avançando seguindo o molusco alfa para chegar até o outro lado da represa em sua saga para restabelecer o nicho perdido. Seu sonho agora se reduzirá a um só: safar-se vivo e impune pelo desrespeito a todos os códigos vigentes na constituição do Caramujistão. “Não é bem desrespeito” argumentou o mais grandiloquente dos moluscos, ex-chefe da casa pessoal do chefe: “Aliás, nós nem assinamos esse constituição”. Tratava-se, segundo ele apenas de “considerar um raciocínio paralelo onde transgredir as normas contra tudo que está aí, é apenas um ato lícito de uma mente progressista que adotou uma compreensão paralela de mundo”.

Já o menos intelectual deles gritou aos demais palavras de comando e slogans e avisou que valia a pena o risco de se deslocar em área tão perigosa mesmo que cheia de outros artefatos ameaçadores com potencial esmagador. A caramujo fêmea chegou a considerar que se um companheiro lesma sucumbisse durante a travessia poderia ser até produtivo.  Já que eles afirmou, “vão ter que matar a gente” e será “com essa gosma que levantaremos a massa de moluscos alienados contra o imperialismo jurídico burguês’.

Os caramujos mais moderados que, no passado, já haviam se indisposto com o chefe — e por isso caíram em desgraça — tentaram, em vão, interceder para impedir que o inimputável planorbídeo convencesse sua legião a expandir o sacrifício da nação caramuja. Começaram a desconfiar que ele e os seus eram os únicos beneficiários da proposta de suicídio coletivo. Tribos de caramujos que orbitavam o poder, alimentando-se dos resíduos se sentiram culpadas pela vulnerabilidade do grupo e, por cumplicidade, tratavam de endossar o peculiar método filosófico adotado. Chegaram a fazer coro “que o caramujo alfa tinha compromisso e história”. Foi então que o pseudo alfa, sob os aplausos do séquito de moluscos hipnotizados, bradou sua inesquecível frase

“Eu sou o País” e “Sem mim, todo páreo é fraude”.

Foi quando um discreto caminhão betoneira com placas de Curitiba — cujo número não foi divulgado — passou nesse exato momento em baixa velocidade pela estrada. Acabou triturando involuntariamente aquela geração de lideres da comunidade de lesmas empastelando-as uma à uma contra o asfalto sob seus pneus aro 55 de 100 quilos cada.  Mesmo com o som das carapaças se quebrando o transito fluiu bem e seguiu imperturbável como se nada estivesse acontecendo.  Estranhamente, todas as lesmas saíram ilesas abandonando às pressas suas carapaças num estranho salve-se quem puder. A maioria da grande comunidade de caramujos que observava tudo atenta do outro lado da margem, sobreviveu. Passado o trauma todos relataram uma sensação similar: é como se tivessem acordado de um transe, com o pesadelo já terminado. Ninguém soube onde foram parar os restos de casca do molusco alfa, mas legistas encontraram suas antenas com nítidos sinais de adulteração. Até hoje, ninguém da comunidade de lesmas reclamou os restos. Circulam teorias conspiratórias de que ele vive disfarçado de uma outra ordem, a das teuthidias, num paraíso fiscal, sem acordo de extradição com a nação caramuja.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-biosemiotica-e-o-caramujistao/ ‎

 

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A pele que nos divide – Poesia – 2018

16 terça-feira jan 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Livros publicados

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A Pele que nos divide- Diáforas Continentais, Poesia Brasileira

Acabamos de publicar o livro de poesias “A pele que nos Divide: Diáforas continentais”. São poesias que ficaram em estado de oficina por 30 anos. Junto estão alguns poemas em prosa que publiquei no blog Conto de Notícia (Estadão). O livro acaba de sair publicado pela simpática editora Quixote-Do coordenada pela eficiente Luciana Tanure e Thasia Medeiros com diagramação da Carolina Gischewsky.

Eu elaborei as ilustrações, fotografia de Silvia Fernanda Rosenbaum, a capa é de Marcelo Girard usando a imagem da obra da pintora paulistana Nilda Raw (óleo sobre 2017).

Contamos com as preciosas participações de Lyslei Nascimento que escreveu a orelha, a apresentação de Wander Melo Miranda, o prefácio do Fernando Paixão e o posfácio de Nelson Ascher.

O lançamento acontecerá depois do carnaval, em data a ser em breve comunicada. Os primeiros 50 exemplares são numerados e assinados.

Contatos para aquisição direto com a editora.

Espero que apreciem.

Paulo Rosenbaum

 

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A penúltima volta do torniquete (Blog Estadao)

02 terça-feira jan 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Na Mídia

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castelos desmoronamento, censura ao Jornal O Estado de Sao Paulo, contodenoticia blog, eleiçoes 2018

Um adulto e uma criança brincavam juntos à beira mar. A areia molhada de praia foi pingando e se acumulando no topo de um castelo pacientemente erguido grão a grão.
O filho perguntou ao pai: Ele vai desmoronar?

Quem sabe quando a opinião pública se fizer ouvir? Quando saírem do mundo virtual e filiarem-se às ruas? Ou quando entrarmos em alienação?

Não uma qualquer, refiro-me à catatonia aguda. Uma que nos impeça de considerar atos ilícitos como naturais.

Quem sabe um anestésico indolor que não nos faça enxergar o que acontece com os outros?

No País da hermenêutica fácil, qualquer um fala com propriedade nas plenárias. Ou, quem sabe ocorre algum milagre monocrático de final de ano?

O Congresso também pode reunir-se em sessões suplementares sem jetons para ler, em jograis, a Magna Carta? E então aprender a lição do Rei John, que em 1215, teceu sua ode civilizatória.

Segundo o Rei bretão igualdade perante a lei não é, nunca foi, metáfora poética. É o fundamento do legislador.

Quem sabe considerar que não faz sentido o Estado de Direito transformar-se no interminável Estado de Deveres? Que os escravos da joint venture Estado & funcionários é que merecem o descanso sabático, a desoneração, e o direito de voltar para casa vivos?

Que os partidos deixaram de fazer parte do metabolismo dos cidadãos para virar corpos estranhos. Que há uma diferença fundamental entre patriotas e nacionalistas? Entre os indignados por justiça e os coléricos contra ela?

Que os juízes, em seus leitos de morte, também terão suas consciências devassadas? Que os confiscadores serão, eles também, confiscados? Que quem aceita urnas inauditáveis será obrigado a aceitar candidatos idem?

Que a vida de um País não pode ser interrompida por sucessões de manchetes enganosas? Que as manchetes enganosas não refletem o estado de espírito de quem precisa de informações verdadeiras.

Que exceder funções é assinar um procurador geral em branco. Que não há mais quem acredite em justiça estratégica. De que as epifanias de Brasília não são as nossas.

De que a relativização levada ao paroxismo gerou para além das fake news, um fake world. Novas que se sucedem pagas com dinheiro que já foi público. E não há nenhuma solução que seja ao mesmo tempo rápida e indolor.

Que bandidos enraizaram sua moral por todas as plantações? E não queriam colher trigo. Nunca pensaram em gerar sementes saudáveis. Qualquer erva daninha dava voto, então por que a preocupação? O desejo por veneno é tão presente que os antídotos nem sequer estão sendo considerados.

O vislumbre e a expectativa de muitos é regredir a um Proto País, policialesco e intolerante. Por outro lado, a justiça passou por todas as provações e quem dirá, hoje, que nela se pode confiar?

O atual status quo não tem nada de espontâneo. Foi elaborado como plano C. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, no seio da ficção das garantias constitucionais que se chama “liberdade de expressão’ encontra-se censurado há 3.000 dias. A solução? Para não consentir usar a palavra “censura”recorreu-se à tarda decisão. Sob o manto de pedidos de golpe de vista.

Só eu me comovo quando a linguagem eclipsa a distorção? E referenda o que o consenso de magistrados e cúpulas decidiu que não pode ser dito? Que um terrorista não atende por outros nomes a não ser inimigo público da humanidade? Há uma guerra que, espremida dentro dos bastidores, faz vazar o mal feito e agora tinge a sociedade com desonras e confusão.

O torniquete está em sua penúltima volta, e o sangue pode parar de fluir a qualquer momento. As cidades estão pálidas, perdendo vitalidade para assassinos imunes. Sob gritos de socorro os cidadãos secam sob as duas mais violentas máquinas de tortura: descaso e impunidade.

O establishment fez sua escolha: o indefensável está solto e em plena campanha. Promete que ele e sua casta serão preservados junto com a garantia de foro para manter o patrimônio conquistado com o suor da dilapidação do erário.

E quem tolhe o populista que oprime? Quem interdita a omissão dos poderes? Pseudo heróis afirmam que o crime não é tudo: depende muito mais de quem o comete. O disparate é popular. A compaixão, seletiva. O abuso, consumado e bem divulgado nas redes.

A tiragem dos jornais lacrada pelos interesses. Fábricas de intenção de voto. Pesquisas direcionadas patrocinam o aumento da aprovação enquanto a lei eleitoral vive de recesso. O gesso expande-se contra a liberdade. Os jornalistas esmagados pelos patrocinadores.

Mas, calma leitor.

Talvez este não seja o fim da história como certa vez quis o acadêmico de Harvard, desmentido e reprovado a golpes do imprognosticável quando as torres vieram ao chão. Podemos desmentir tudo, por um único motivo: o imprevisível faz suas visitas regularmente. Revoluciona sem alarde, com a mais implacável simplicidade.

Como o médico que chega e, sem se intimidar com a pressão por medidas drásticas, apenas abre as janelas para arejar o quarto sufocante. Existem portões que são escancarados por ventos oblíquos, marés que transtornam encouraçados e gente com potencial para chacoalhar uma sociedade letárgica.

Salvar uma jovem democracia da morte súbita requer o Estadista que ainda não apareceu. Não será fácil, e decerto será longo, mas, às vezes, basta um caso. Um único caso tem potencial para remover qualquer paradigma (ou candidato) apodrecido na linha da história. O trilho está colocado, os vagões posicionados.

Mesmo sem maquinista a história costuma dirigir rápido e seus efeitos são mais efetivos que os discursos sobre ela. Em meio às instituições obsoletas guiadas pelo corporativismo, a entropia se acelera. Se vai ser locomotiva, trem bala, Maria Fumaça, ou apenas o colapso em todas as estações ninguém pode prever.

Por hora só há uma certeza, na disciplina engenharia de materiais existe um ponto crítico de desabamento, desencadeado por qualquer grão extra: é assim que, no percurso do tempo, muitos castelos não pararam em pé.

– Filho, viu? Acaba de desmoronar.
– Então de que adianta fazer se vai cair?
– Porque é assim mesmo, precisamos continuar.
Hesitante, o menino levanta e medita por alguns instantes antes de responder:
– Podemos começar outro?

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A Inconcebível Jerusalém (Blog Estadão)

08 sexta-feira dez 2017

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Aleph, capital de Israel, embaixada em Jerusalem, Jerusalem, Jorge Luis Borges, Torquato Tasso

07 Dezembro 2017 | 09h52

(…)vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo”

Jorge Luis Borges, O Aleph

Tradução Flávio José Cardozo

Não se trata de profecia, nem das miríades de referencias que citam a cidade. E não é só que ela não pode ser monopolizada, seria impossível faze-lo. Destarte é a capital, a Capital de Israel. Cidade Capital para a fronteira das culturas. Hoje um pertencimento foi reconhecido. Não se trata de fulanizar, tanto faz se foi esse Donald ou um outro. É o ato político que se revela interessante. Independentemente do estatuto político, Jerusalém, sempre foi um porto de significados. E para além dos simbolismos atribuídos, ela é, no imaginário dos povos, um dos centros do mundo. O que importa portanto não é a mudança de embaixada, não são as trincheiras, mas observar a convivência entre as tribos. Como morada de pontos múltiplos foi fundada sobre uma pedra. E se sua paz não é feita de pedaços, nem suas muralhas construídas por sedimentos, seu ponto sagrado não se reduz aos últimos vestígios do Templo, no Muro ou no Domo. Todo núcleo está em seus habitantes.

Jerusalém, o ponto mais conflagrado da história humana transcende seus traçados arqueológicos. Jerusalém urbe, contém a vitalidade de um ponto entre todos os pontos, e, como no Aleph de Borges acumula os mundos que ainda não estão descritos. É preciso ter a experiência, vivência e o tato empírico para poder opinar. Não é preciso acreditar, quem caminhar entre suas pedras constata. Suas inflexões são judaicas, mas também drusas, armênias, muçulmanas, cristãs, beduínas e etíopes. Difícil ver um espalhamento tão amplo, uma difusão tão díspar, uma incoerência tão organizada.  Jerusalém é um parque sem homogeneidades. Nunca a cidadania teve um viés tão naturalmente cosmopolita. Um retrato das subdivisões e das uniões instáveis. Um instantâneo eterno de guerra e paz, e principalmente, paradoxo a céu aberto.

E mesmo que não tivessem a amplitude que insistimos em atribuir a ela, sua autodeterminação como território antecede conflitos, colonizações e invasões. Jerusalém, a cidade mais destruída e reconstruída da cartografia, foi também a inspiração da poesia de Isaías e Ezequiel, Torquato Tasso e Willian Blake.

Ao contrário dos alardeamentos jornalísticos das agencias internacionais não será Jerusalém reconhecida como capital a barreira à paz. Ela a personifica. Modular o convívio e superar o vício da disputa é deixar-se levar, através das moradas e dos encontros. Seculares e religiosos, árabes ou judeus, cientistas e místicos, ímpios ou santos. A legislação é passageira, a vida que circula nas ruas, definitiva. Pois quem vive ali?

Não são os capacetes azuis da ONU, os diplomatas, ou os adidos militares. A literatura e a história ali concentrada transcende Washington e Moscou. E, infelizmente, compromissos, culpas e desafios pecuniários ainda não permitiram que se conceba os direitos de Israel a não ser com salvaguardas imorais.

Do ponto de vista estético, nada se compara em densidade e variedades cromáticas.

Quem frequentou seus mercados e testemunhou seu trafego caótico?

Em meio à omissão geral e o silêncio dos jornais a intolerância que cresce contra as minorias pode encontrar respostas mais criativas do que preservar um status quo que já se revelou moribundo. A mudança de uma embaixada tem valor para além do simbólico. Trata-se, antes, de uma exortação para vislumbrar a saída. Conteste-se, mas admita-se: é a renovação que saúda a novidade. Um lance que força a resolução do impasse. O estatuto final da cidade poderá ser sempre incerto, mas ela, a cidade, decerto, nos sobreviverá. A decisão autocrática não é mágica, apenas move uma peça do tabuleiro viciado, bem melhor do que esperar que os dados resolvam dar as caras.

O senso comum da envelhecida diplomacia ainda não percebeu. De todos ou de ninguém ela só deve ser cuidada por quem enaltece o acúmulo de culturas.  Quiçá os homens consigam sentir o Aleph e, para além das ruínas, enxergar o extraordinário universo da cidade fincada entre Ocidente e o Oriente, a inconcebível Jerusalém.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-inconcebivel-jerusalem/

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