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Um adulto e uma criança brincavam juntos à beira mar. A areia molhada de praia foi pingando e se acumulando no topo de um castelo pacientemente erguido grão a grão.
O filho perguntou ao pai: Ele vai desmoronar?

Quem sabe quando a opinião pública se fizer ouvir? Quando saírem do mundo virtual e filiarem-se às ruas? Ou quando entrarmos em alienação?

Não uma qualquer, refiro-me à catatonia aguda. Uma que nos impeça de considerar atos ilícitos como naturais.

Quem sabe um anestésico indolor que não nos faça enxergar o que acontece com os outros?

No País da hermenêutica fácil, qualquer um fala com propriedade nas plenárias. Ou, quem sabe ocorre algum milagre monocrático de final de ano?

O Congresso também pode reunir-se em sessões suplementares sem jetons para ler, em jograis, a Magna Carta? E então aprender a lição do Rei John, que em 1215, teceu sua ode civilizatória.

Segundo o Rei bretão igualdade perante a lei não é, nunca foi, metáfora poética. É o fundamento do legislador.

Quem sabe considerar que não faz sentido o Estado de Direito transformar-se no interminável Estado de Deveres? Que os escravos da joint venture Estado & funcionários é que merecem o descanso sabático, a desoneração, e o direito de voltar para casa vivos?

Que os partidos deixaram de fazer parte do metabolismo dos cidadãos para virar corpos estranhos. Que há uma diferença fundamental entre patriotas e nacionalistas? Entre os indignados por justiça e os coléricos contra ela?

Que os juízes, em seus leitos de morte, também terão suas consciências devassadas? Que os confiscadores serão, eles também, confiscados? Que quem aceita urnas inauditáveis será obrigado a aceitar candidatos idem?

Que a vida de um País não pode ser interrompida por sucessões de manchetes enganosas? Que as manchetes enganosas não refletem o estado de espírito de quem precisa de informações verdadeiras.

Que exceder funções é assinar um procurador geral em branco. Que não há mais quem acredite em justiça estratégica. De que as epifanias de Brasília não são as nossas.

De que a relativização levada ao paroxismo gerou para além das fake news, um fake world. Novas que se sucedem pagas com dinheiro que já foi público. E não há nenhuma solução que seja ao mesmo tempo rápida e indolor.

Que bandidos enraizaram sua moral por todas as plantações? E não queriam colher trigo. Nunca pensaram em gerar sementes saudáveis. Qualquer erva daninha dava voto, então por que a preocupação? O desejo por veneno é tão presente que os antídotos nem sequer estão sendo considerados.

O vislumbre e a expectativa de muitos é regredir a um Proto País, policialesco e intolerante. Por outro lado, a justiça passou por todas as provações e quem dirá, hoje, que nela se pode confiar?

O atual status quo não tem nada de espontâneo. Foi elaborado como plano C. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, no seio da ficção das garantias constitucionais que se chama “liberdade de expressão’ encontra-se censurado há 3.000 dias. A solução? Para não consentir usar a palavra “censura”recorreu-se à tarda decisão. Sob o manto de pedidos de golpe de vista.

Só eu me comovo quando a linguagem eclipsa a distorção? E referenda o que o consenso de magistrados e cúpulas decidiu que não pode ser dito? Que um terrorista não atende por outros nomes a não ser inimigo público da humanidade? Há uma guerra que, espremida dentro dos bastidores, faz vazar o mal feito e agora tinge a sociedade com desonras e confusão.

O torniquete está em sua penúltima volta, e o sangue pode parar de fluir a qualquer momento. As cidades estão pálidas, perdendo vitalidade para assassinos imunes. Sob gritos de socorro os cidadãos secam sob as duas mais violentas máquinas de tortura: descaso e impunidade.

O establishment fez sua escolha: o indefensável está solto e em plena campanha. Promete que ele e sua casta serão preservados junto com a garantia de foro para manter o patrimônio conquistado com o suor da dilapidação do erário.

E quem tolhe o populista que oprime? Quem interdita a omissão dos poderes? Pseudo heróis afirmam que o crime não é tudo: depende muito mais de quem o comete. O disparate é popular. A compaixão, seletiva. O abuso, consumado e bem divulgado nas redes.

A tiragem dos jornais lacrada pelos interesses. Fábricas de intenção de voto. Pesquisas direcionadas patrocinam o aumento da aprovação enquanto a lei eleitoral vive de recesso. O gesso expande-se contra a liberdade. Os jornalistas esmagados pelos patrocinadores.

Mas, calma leitor.

Talvez este não seja o fim da história como certa vez quis o acadêmico de Harvard, desmentido e reprovado a golpes do imprognosticável quando as torres vieram ao chão. Podemos desmentir tudo, por um único motivo: o imprevisível faz suas visitas regularmente. Revoluciona sem alarde, com a mais implacável simplicidade.

Como o médico que chega e, sem se intimidar com a pressão por medidas drásticas, apenas abre as janelas para arejar o quarto sufocante. Existem portões que são escancarados por ventos oblíquos, marés que transtornam encouraçados e gente com potencial para chacoalhar uma sociedade letárgica.

Salvar uma jovem democracia da morte súbita requer o Estadista que ainda não apareceu. Não será fácil, e decerto será longo, mas, às vezes, basta um caso. Um único caso tem potencial para remover qualquer paradigma (ou candidato) apodrecido na linha da história. O trilho está colocado, os vagões posicionados.

Mesmo sem maquinista a história costuma dirigir rápido e seus efeitos são mais efetivos que os discursos sobre ela. Em meio às instituições obsoletas guiadas pelo corporativismo, a entropia se acelera. Se vai ser locomotiva, trem bala, Maria Fumaça, ou apenas o colapso em todas as estações ninguém pode prever.

Por hora só há uma certeza, na disciplina engenharia de materiais existe um ponto crítico de desabamento, desencadeado por qualquer grão extra: é assim que, no percurso do tempo, muitos castelos não pararam em pé.

– Filho, viu? Acaba de desmoronar.
– Então de que adianta fazer se vai cair?
– Porque é assim mesmo, precisamos continuar.
Hesitante, o menino levanta e medita por alguns instantes antes de responder:
– Podemos começar outro?