A verdade é que não há uma pós verdade, assim como não existe uma má filosofia. Existem filosofias bem estruturadas, abrangentes, limitadas, algumas incompreensíveis ou de baixa consistência. Já se poder afirmar que aquilo que fazem todos os defensores do ex presidente usando punhos e sentimentalismo —  às vésperas de uma condenação — merece ser nomeado como um sistema filosófico. Poderíamos chama-lo de muitos nomes, mas o mais adequado seria enquadra-lo na categoria distorção.

O distorcionismo como sistema filosófico consiste na desqualificação sistemática de todos os argumentos da racionalidade vigente e substitui-los por um misto de teorias conspiratórias, culto à personalidade e apego messiânico. Outro item que não pode faltar ao método é manter sempre por perto um arsenal de pedras contra qualquer um que se insurja contra a ideologia da distorção. A técnica da distorção também inclui acusar o mundo de hostilidades e ódio, enquanto detém-se o monopólio da vingança e da disseminação da litigância.  É claro que não deixa de causar curiosidade qual tipo de mente é ainda hoje susceptível  à influência e submissão de um líder com as características do ex presidente Lula, hoje visivelmente perturbado e já tendo incorporado as suas vicissitudes a missão de salvador. Salvador de todos aqueles que exerceram conjuntamente o mal feito.

O distorcionismo contumaz tem como principio fundante a ideia de que se o seu argumento não for coincidente com o do seu oponente ele será vandalizado, desconstruído e boicotado. Especialmente nos meios em que existe o prevalece o controle tácito de filósofos militantes ou sindicalistas subsidiados. Há muito tempo a questão central deixou de ser a corrupção — tudo somado até aqui e sem incluir a caixa preta do BNDES, cerca de um trilhão — assim como a ética na política, outrora o principal slogan do partido. Partido que aliás relativizou de tal modo o aforismo, que construiu um verdadeiro universo hermenêutico paralelo com auxilio de magistrados com notório talento, para o legislativo atual.

Neste mundo especial e bizarro no qual o petismo tenta subsistir incólume, não foi doloroso nem difícil a associação natural, quase inercial,  às forças e pessoas que constituam o que tinha de mais atrasado no País. Isso foi feito com timing e estrtégia para logo depois, acusar os demais de conservadores decrépitos. Outro recurso muito utilizado é a ideia de que a prevaricação para acumulo pessoal é muito mais grave do que a o desvio de função do Estado. Ideia marota, que parece ter colado em parte da mídia, mas senhores, deveria ser auto evidente que a pilhagem da República para perverter a democracia é uma transgressão da ordem da traição, a outra apenas ação ordinária dos punguistas de praxe.

Recuso-me a chama-los todos estúpidos, pois há gente inteligente e culta entre aqueles que ainda suspiram ao ouvir o nome do líder.  Também refuto a tese de que existiria uma doença mental de base neuropsiquiátrica para aqueles que defendem e justificam todos esses anos nos quais fomos conduzidos por postes acéfalos.  Muitos analistas, perplexos, desistiram de encontrar uma solução lógica para o fenômeno. Entretanto, advogo outra explicação.

Precisamos aceitar que a raiz filosófica da distorção como método filosófico é de base afetiva. O apego, a paixão por defender por tanto tempo um projeto suicida e não republicano, a falta de critica e de autocritica, são elementos que denotam e reforçam essa hipótese. Mas, talvez a essência do projeto, aquele que ludibriou milhões por tanto tempo esteja exatamente em um fenômeno conhecido chamado de ‘quase acerto’.

Explico através do flagelo que é o vício em jogos.

O que atrai o viciado em jogos de azar é a perspectiva errônea de que ao final da rodada na roleta sairá vencedor, pois “quase deu certo”.  Quem estuda o tema — existem ambulatórios especializados para estas pessoas — já sabe que que a ilusão não é a de ganhar, mas de “quase ganhar”. É esta sensação de “quase acerto” que parece disparar o impulso de excitação neuro-sensorial destas pessoas a se lançarem em novas apostas. Não importa quantos salários foram comprometidos, quantas joias, casas penhoradas e patrimônios o sujeito já tenha deixado na mão dos donos destes cassinos. É, portanto, a ilusão, mas disfarçada de “esperança “, “fome zero” ou ‘país sem pobreza” que  estaria na raiz na defesa apaixonada e violenta dos projetos fracassados.

Pode dar errado milhões de vezes, mas isso não tem a menor importância. Os aditos costumam ser crentes resilientes. O desejo de acreditar é, portanto, muito maior do que as experiências empíricas que já cansaram de evidenciar a bancarrota.

Outro ponto caro ao distorcionismo é a cegueira seletiva. Ainda que toda sua vizinhança esteja desempregada é mais do que provável que isso possa ser  atribuído a algum fator circunstancial, de responsabilidade exógena, gerado por uma crise externa, o asteroide destruidor que se aproxima ou o desmatamento do Saara.  Desvios trilionários seriam obras tão ancestrais que ninguém poderia rastreá-los, portanto, ninguém deve ser acusado de nada.

Há, evidentemente, um problema de dosimetria. Recusando de pés juntos que o sequestro do Estado foi fruto de um plano ardiloso é sempre mais conveniente colocar a culpa nos demais. Horrorizados, os intelectuais orgânicos do lulupetismo recusam o que se diz nas redes sociais e apesar dos blogs clandestinos e dos ataques comprados e publicados nas revistas e jornais, acusam as redes de espalharem inverdades do senso comum.  O banner  que andou circulando por ai, “nunca tão poucos pilharam tanto de tanta gente” é dentre todos o mais odiado.

De que outro maneira justificar o comportamento de torcida sectária que apresentam? Ao abandonar a seara analítica os bem pensantes do partido caíram na armadilha, e agora apoiam abertamente demiurgos, que amanhã podem se voltar contra eles. Assim, o distorcionismo avança como um sistema de notação perverso, mas não ilógico, cuja finalidade é a conservação autocrática do poder. E caso não seja possível, o plano é impedir que outra sociedade exista, caso triunfe um modelo social que não é aquele que preconizam.

Neste funk do totalitarismo maquiado de luta social é que o discurso desta neofilosofia repousa. A democracia deveria se preocupar com o avanço de sistemas como esse? Talvez, mas se este ramo da filosofia cresceu sob a vigência dela, da democracia, só o seu aprofundamento poderia salva-la. Clamar sua destruição ou evocar histerias de ocasião não é a resposta que a maioria do povo que sonha com uma vida mais civilizada, aceita. Trata-se de um falso paradoxo explorado por quem quer também suprimi-la do outro lado com ações e respostas truculentas. Estamos então entre a zona cinzenta do populismo e o fio da navalha da opressão e já não se pode esperar que a inspiração para uma concertação geral brote nos gabinetes de Brasília.

Nem mesmo de pessoas que dominam as cúpulas das estruturas partidárias. A sociedade precisa formar um novíssimo consenso, excêntrico, de fora para dentro, à revelia do sistema. Consenso daquilo que não quer para o País. O que ela quer, caso passemos desta fase,  pode ser deixado para quando tivermos assegurado que a política deixe de lado os cassinos.