• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Eis o Rascunho ( Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Rascunhar: “fazer um esboço” XVI, Do cast Rascuñar. Rascunho XVII.  Do cast Rascuño. ( Cunha, Antonio G. Dicionário Etimológico)

O filosofo vaticinou a era: a do desaparecimento dos rascunhos. De fato, pareciam mortos, moribundos. Os note books, i-pads, processadores de texto, laptops e enfim os i-phones com seus aplicativos e parafernálias parecem tê-lo sepultado sem as devidas honras. Também descobriríamos — como acabamos de ouvir do Ministério Público — a face sinistra dos rascunhos. A mandatária que deveria ter usado os canais apropriados como instrumentos legais para manter os assuntos sigilosos do Governo usava rascunhos para acobertar a pilhagem do Estado. Evidentemente as páginas não oficiais já foram usadas na forma de bilhetinhos para encomendar assassinatos, geração de intrigas, lista de inimigos, obstrução à justiça, crimes comuns e outras morbidades políticas.

Mas o mais importante talvez não esteja, ainda que inestimável para discernimento, no caráter policial dos rascunhos. É que, sem eles, seriamos privados de notas em cadernos de campo, poemas rabiscados em guardanapos, ideias esboçadas em folhas avulsas com e sem pauta, anotações marginais em livros e versões prototipais muitas vezes surpreendentes. Tudo isso estaria perdido nos lixões.

Nos conformaríamos em ler somente as teses prontinhas, livros acabados, edições bem cuidadas, sem erros, sem lacunas, e principalmente sem atos falhos. Não perceberíamos tão bem  as metáforas obsedantes que perseguem a cabeça dos escritores, os equívocos depois reprocessados dos ensaístas, a permanente incerteza dos pesquisadores. Sem os rascunhos, não teríamos os cadernos de Darwin, os escritos secretos de Newton, as anotações de Gauguin, os desenhos criptográficos de Da Vinci, as duas preciosas versões do Grande Sertões de Guimarães Rosa (visite-os na impressionante Brasiliana Usp) ou os diários de Kafka.  A extinção do rascunho pode ter sido um golpe letal no que Carlo Guizburg certa vez nomeou como paradigma indiciário. Ele nos conta que a elucidação de autoria de obras nas pinturas nas antigas galerias italianas — levada adiante através de uma metodologia proposta pelo médico forense Morelli e usada por Freud — estaria mais nos pequenos detalhes quase inimitáveis do que no “jeitão”, ou seja na tipicidade do óleo sobre tela. Tanto o  falsificador como o imitador esmeravam-se em copiar o estilo, vale dizer o estereótipo, e raramente se preocupavam com minúcias como sombra, brilho dos olhos, unhas, disposição das sobrancelhas.  Tivéssemos só tipografias limpinhas e impecáveis desconheceríamos livros com anotações e desenhos rabiscados dentro e fora do texto. Um dos mais recentes e importantes achados foi feito por George Koppelman e Daniel Wechsler e publicado sob o título “Shakespeare’s Beehive” (Colméia de Shakespeare) — ainda inédito em português — quando encontraram num depósito leiloado no Canadá um impressionante dicionário, o “Alviare” de 1580, com prováveis anotações manuscritas de Shakespeare.

A verdade é que, sem os rascunhos, estaríamos condenados à indesejável utopia que Jorge Luis Borges chamou de “la pagina de la perfeccion“. Ela não existe, mas não é que a pasteurização das edições tornou isso quase possível. Os exemplares saem já prontos, triplamente revisados. A indústria editorial e seus agentes esforçaram-se para torná-los inquestionáveis, assépticos, e sua higienização virou o símbolo de um produto quase perfeito.

Mas e se quiséssemos conhecer não só o item acabado? E se disséssemos que gostaríamos de saber mais das etapas, do processo mental de elaboração, de como os originais emergiam de forma bruta das cabeças dos autores? E se precisássemos de uma visão panorâmica das palavras desencaminhadas, das ideias perdidas, dos extravios  iniciáticos de cada artista? Seria uma imperdoável indiscrição? Uma curiosidade ilícita? Ou a inquietude intelectual nos autorizaria a investigar as referencias culturais que afinal nos forjou até o limite? E se a chave para entender a história realmente estivesse nos detalhes, nas omissões voluntárias, nos textos descartados ou destruídos nas lareiras e trituradoras de papel? Sem o rascunho estaríamos todos cegos aos devaneios, aos atalhos descartados, à intimidade desconhecida, à faceta oculta da imaginação.

De toda forma parece que O Rascunho insiste em sobreviver. E é por essa notável e contra-intuitiva persistência que recomendo a leitura e assinatura de um importante e resiliente Jornal de Literatura publicado desde 2000 em Curitiba chamado exatamente de “Rascunho”, eis uma amostra : http://rascunho.com.br/o-direito-ao-silencio/.

PS- Acabo de salvar este texto como rascunho.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eis-o-rascunho/

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Esgotamento do Sonambulismo (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Esgotamento do sonambulismo

19 Agosto 2017 | 11h37

Você prometeu, sem tragédias, nem pés de guerra, que seriamos únicos e coesos. Eu te ouvi bem? Você nos disse que estávamos juntos, atentos, que migrávamos aos poucos à transição, e mais, que ela seria suave. Que a cura faria uma curva em nossa direção, que não perceberíamos o crescimento das marés ou o falso modelo das performances. Onde está o istmo que nos guiaria até o afeto, aos dias inteiros, aos pátios de obras únicas? Nada disso vimos. Testemunhamos destinos inconsequentes, não como liberdade, não como a escrita de nomes intensos, mas com prisões informais, togas incompletas, pavimentos injustos, e, enfim, um País sem diretriz. Você prometeu a paz, e nos desarmou a esperança. Deveríamos dispersar os palácios vitalícios e agora enxergamos cúpulas de hospícios. Tua lentidão concedeu pactos, sem honrar os atos. Percebo que estivemos voluntariamente inaptos. Que para teu deleite, nos cegamos. E para que? Nos diga para que? Pelo teu triunfo? Para nos varrer do mundo?  Mas eis que, hoje, senhor, acordamos mais cedo. Hoje, cresce o consenso. Tua versão de democracia sufoca. A explicação de liberdade expirou. E o que querias? Remanescentes, nosso calor sobrevive, para outro verão.

Uma dança destilou a terra, que novíssima, nos fez aprender. Somos uma antecipação improvável. E o que você não concebeu aconteceu: ultrapassamos os marcos, desfizemos a ditadura estática do destino. Para o perplexo, criamos uma alegoria contra intuitiva, inusitada até para as gerações fracas. A explosão da qual falamos é espontânea. As cartas formaram castelos sem reis. Não quer ouvir-nos? Pois mais uma profecia: eis a era do esgotamento do sonambulismo. Quando todos, ao mesmo tempo, descobrirem que tuas criticas eram auto elogios. Por isso, prometemos, não falaremos mais de ti. Teu reino, inculto, é um passado apagável. O nosso? Está sendo esculpido nas letras. No movimento dos parques. Nos passos largos da areia molhada. Por isso, as peças de malabarismo, obsoletas, já caíram. A opressão, desativada. Se já houve felicidade, fixou-se na memória. E, só por isso, agora, é o impossível que se comprova, chegou a hora

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/esgotamento-do-sonambulismo/

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Mutação do Poder (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Escravos do Estado

Marcham, lado a lado

Entre slogans e partidos

Enquanto nós, feridos

Circundamos o abismo

Das jogadas e subsídios

Do reacionário ao judiciário

Dos governos e seus petardos

Fundos públicos e comícios

Para eles, somos bastardos

E, à revelia, sustentamos a usurpação

Até que, pisoteada, a democracia

Assumirá a conspiração

Refluíra, perdendo a inspiração,

Concedendo vigas à tirania

Até o novo encontrar outra direção

Abolindo a polaridade obscura

A ruína branca será, enfim, dissipada

Os intermináveis anos de tortura

Do pesadelo, acordaremos na madrugada

Mas em tempo, e já fora da ditadura

Conscientes dos disfarces da hegemonia

Da malandragem, dos ardis e da censura

A política descerá ao ponto de ebulição

Defenestrando mediocridades

Até que a completa mutação

Se fará ouvir pelas vielas, ruas e cidades

Uma imensa poeira será desfeita

E diálogos retornarão  sem persuasão

Destruindo o núcleo duro da cultura

Que impregnava de fervor as ideologias

Até que confessem todos os sofismas

Desvelando a falsificação do saber

Para enfim fazer ceder

O acesso do justo ao poder

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Mutaçção do Poder (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Escravos do Estado

Marcham, lado a lado

Entre slogans e partidos

Enquanto nós, feridos

Circundamos o abismo

Das jogadas e subsídios

Do reacionário ao judiciário

Dos governos e seus petardos

Fundos públicos e comícios

Para eles, somos bastardos

E, à revelia, sustentamos a usurpação

Até que, pisoteada, a democracia

Assumirá a conspiração

Refluíra, perdendo a inspiração,

Concedendo vigas à tirania

Até o novo encontrar outra direção

Abolindo a polaridade obscura

A ruína branca será, enfim, dissipada

Os intermináveis anos de tortura

Do pesadelo, acordaremos na madrugada

Mas em tempo, e já fora da ditadura

Conscientes dos disfarces da hegemonia

Da malandragem, dos ardis e da censura

A política descerá ao ponto de ebulição

Defenestrando mediocridades

Até que a completa mutação

Se fará ouvir pelas vielas, ruas e cidades

Uma imensa poeira será desfeita

E diálogos retornarão  sem persuasão

Destruindo o núcleo duro da cultura

Que impregnava de fervor as ideologias

Até que confessem todos os sofismas

Desvelando a falsificação do saber

Para enfim fazer ceder

O acesso do justo ao poder

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Nenhum homem é uma ilha? (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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“No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main;

if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were,

as well as if a manor of thy friends or of thine own were; any man’s death diminishes me, because

I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”

John Donne (meditation 17)

“Nenhum homem é uma ilha” diz o poema de John Donne.

Mas, às vezes, é assim que nos sentimos. Já passou do tempo. A proporção de forças díspares vem sendo discutida. O Conselho de Segurança falou, tá falado. Mas a abstração de teoremas desaparecem na extensão das coisas terrenas. Serve para Gaza, Ucrânia, França, América Latina, Rússia, Sudão, Cuba ou Taiwan. Não importa a latitude. Nada do que se passa parece razoável. Como dizer sem confessar ser parte do problema? Mas é literal: compartilhamos o mesmíssimo barco. A desproporcionalidade, a injustiça e o abandono estão na ignorância. As pessoas não odeiam País A, B ou C, elas só não sabem o significado de cada um deles. Como toda luta contra forças talhadas pela obscuridade só podemos golpear o ar. A batalha pelo ciberspace, mais plástica, mais rápida, mais mentirosa. O verdadeiro conflito protegido pelos bastidores: Qatar e Turquia Versus Egito e Arábia Saudita. A mídia desfigura reputações, e a retratação, tardia, só refaz superfícies.  É tão difícil assim entender que ser contra a guerra não significa abdicar da obrigação de se defender? Para a maioria parece que sim, trata-se portanto de uma compreensão seletiva da realidade. Ainda bem que nunca levei fé em maiorias. Mas é claro que Israel é um caso a parte: a legítima defesa criminalizada. O contexto, abortado. Para deslegitimar testemunharam-se desvios, da razão, da civilização. Na lógica dos mísseis todos os alvos se tornaram legítimos. A rotação da esfera entrou no lado escuro, sombra e escatologia. Chamem como quiserem, mas não existe choque entre civilizações. Há vácuo. Ele estacionou entre culturas. Ilhados e sem reparo à vista, ninguém ainda acordou para o fim da tolerância. Para bem além do antissemitismo, a guerra rola contra todos. O que explicaria cristãos carbonizados, budistas enforcados, xiitas mutilados e minorias esmagadas? O fetichismo do Isis? A sobrenatural leniência do ocidente? A silenciosa opressão chinesa? O fantasma de uma KGB mundial no neoczarismo de Putin? Sem muita cerimônia, tendências extremas se reagruparam no calor das oportunidades. Neonazistas respiram, separatistas picotam, jihadistas comandam, xenófofos enxotam. Não basta a complexidade da vida, agora seremos colonizados por demandas que nem escolhemos? A ideologia doutrinaria se uniu aos conservadores pragmáticos. Velhos comunistas, veteranos fascistas e ideologias de antanho entraram em acordo. E por aqui? Tanto faz sininhos, peter pans, ou o exército do capitão gancho: a violência fixou-se como linguagem. Junho negro, molotovs e partidos de ação direta. É bem provável que tenhamos que financiar campanhas e pólvora com dinheiro público. E as jurisdições não alcançam as aberrações. Mereciam condenação por burrice e infração única: colaboraram para que incríveis manifestações pacíficas dessem em nada. Nem erudição nem populismo tem respostas. Os intelectuais emudeceram na ciclotimia, alimentados com subsídios do Estado. Nenhuma fonte é mais confiável. Uma geração dividida entre subserviência e radicalismo. A critica torturada sob a positividade das convicções. A vingança virá com o centralismo partidário, revival de soviets ou golpes de Estado. Com a anomia cultivada, a censura branda vige. Nem bancos podem mais dizer o que pensam. Enfim consenso. Todos se juntam quando o alvo são as liberdades. Eleitas como o grande perigo para o projeto. Esquerda e direita se uniram num complô contra os continentes.

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Já vimos o suficiente (o bias da Mídia contra Israel na cobertura dos conflitos) (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Já vimos o suficiente, certo? Agora já podemos nos posicionar. Não restam muitas opções. Façam suas escolhas: a favor ou contra. Esqueçam as infinitas gradações. Borrem o contexto. A dicotomia simplória é só um exemplo de como o diálogo está moribundo. Mas há algo para bem além desse fenômeno. A instantaneidade das cenas são tão céleres como os julgamentos sumários. E vem contribuindo para web linchamentos, que, com alguma frequência transpiram para o mundo real. Foi o caso recente da dona de casa assassinada pela turba incendiada pelas falsas informações. Mais acesso às informações incrementa da intolerância? Não há algo errado nesta equação? A qualidade faz diferença. O que só faz aumentar a responsabilidade dos jornalistas e blogueiros. Formadores de opinião tem poder, inclusive para propagar distorções. No anonimato e sem sanções impregna-se o ciberspace com fotos falsas, conclusões  equivocadas e generalizações improváveis. Colher informações do rescaldo das redes sociais sem verificar a matriz da informação, pode ser desastroso. E qual o papel dos insufladores na atual epidemia de intolerância? O que significa dar voz para pregadores da violência? O que fazem, além de acirrar ânimos, aguçar paixões e induzir à beligerância? O que acontece nas guerras já não é suficiente?

O problema ético atualíssimo é a cobertura jornalística dos conflitos no Oriente Médio. A marcação cerrada com Israel chama a atenção. Dilemas morais e conflitos estão democraticamente distribuídos pelo mundo e não só no oriente médio. Uma guerra é sempre, lato sensu, um álibi universal. Inflando falsas polêmicas, a chancelaria do Brasil, comandada pelo PT, se posicionou ideologicamente a favor de um dos lados, um jornal abriu espaço para que um colunista pouco articulado pregasse o fim de um País e as Tvs hegemônicas impuseram a versão que mais lhes convém. Com tantos estímulos, verificou-se significativo aumento de ataques antissemitas pelo mundo, e, por aqui, uma inédita hostilidade contra a comunidade judaica. Cabe um paralelo com a violência no Brasil (mais de 50.000 mortos em 2013) onde, numa incrível inversão, há mais preocupação com os criminosos, do que com aqueles que sofrem com suas ações, vale dizer os cidadãos. Como se os primeiros fossem assunto do Estado e os demais, ora, os demais que se virem. Quando um absurdo destes é naturalizado, a tendência é que seja incorporado pela opinião pública. Tudo isso cabe na agenda do marxismo reacionário que adotou, nos termos de Fareed Zacharia, a democracia iliberal.

Se há excesso de um exército, que se denuncie esse excesso. Mas o que fazer quando quem ataca não pode ser convertido ao processo dialógico?  Nas palavras de um conhecido pacifista, o escritor israelense Amos Óz, o que você faria se seu vizinho disparasse uma metralhadora contra você e sua família, segurando um bebe no colo? Fujo da angústia e, a cada foguete, preciso me esconder. Eu me envergonho. Mas não pelo direito que um País têm de legitimamente defender sua população, e sim pela absoluta falta de criatividade de quem dirige as populações, a ONU, a diplomacia internacional. Faltam Estadistas, porém o déficit é, sobretudo, de imaginação. Existem sinais de que ela pode ter entrado em recesso.

É difícil aceitar que ninguém tenha desenvolvido uma tecnologia de paz. Um vale do silício do armistício. Uma startup da solução negociada. Ao mesmo tempo, não queremos morrer. Queremos ser equânimes. Nossos cérebros reptilianos nos convencem que se alguém deve sobreviver, somos nós. Não é decisão, ponderação moral ou tirocínio. Segundo o epistemólogo Georges Canguilhén, para os suicidas, tirar a própria vida é um recurso cujo objetivo seria reduzir a tensão à zero. É um equivoco sem volta pois, junto com a tensão, sacrificam a vida. Nós, os conformados, afundamos as cabeças nos travesseiros. Dormimos até que o sangue estanque. Para surpresa de muitos o antissionismo se fundiu ao antissemitismo e está bem mais vivo do que supunha nossa vã paranoia. Pela anômala repetição histórica dos surtos de judeofobia na história, somos obrigados a indagar: estamos diante de um problema de origem transcendental? O judeu, agora cidadão do mundo como outro qualquer, é culpado por não ser mais o bode indefeso preferencial a ser expiado? Talvez não seja nada disso. Quando o mundo, de tempos em tempos, submerge em tensão, os disfarces caem por terra, e os preconceitos, libertados, vingam-se da civilização. Não foi preciso muito esforço. Nunca foram necessários grandes pretextos para condenar Israel e judeus. Hoje há algo bem mais assustador: o entrondoso silêncio da maioria.

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E se hoje acordássemos ninguém? (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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E se hoje acordássemos ninguém? Nem ilhas nem continentes, religiosos, materialistas ou céticos. E se não nos dividíssemos entre nacionalistas, anarquistas ou fundamentalistas? E se não fôssemos cabos eleitorais das guerras, candidatos ou nações? E se não houvesse mundo algum? E se não estivéssemos separados por fronteiras? E se os países fossem mais que mercados? As pessoas mais que contribuintes? E se considerássemos que ninguém é traidor ou aliado? E se a paz não precisasse de transfusões? E se não precisássemos defender ou atacar? E se nem as utopias correspondessem à realidade? Não por serem beatificas, ideais, finais. Porque a terra não finda. Porque não há Armagedon, apocalipse ou término para o que mal começou. A menos que passemos a adorar a ideia. A menos que os homens passem a viver por nada. E se a vida não estivesse concentrada na sobrevivência? E se ela estivesse entre todos e espalhada? Se recuperasse o significado? Tingiria outros universos? Alcançaria outros estágios de energia? E se os papeis dos jornais formassem pontes? A se a mídia instruísse? E se negássemos todos os marcos? Todas as datações? E se os símbolos criassem comunidades? E se as datas recusassem reduções? E se o tempo não fosse marcado por eventos religiosos, revolução francesa, 100 anos da primeira guerra mundial? E se o Big Bang não mantivesse a expansão? E se não reduzíssemos tudo à nada? E se respeitássemos a singularidade? E se hoje fosse o aniversario do cosmos? E se a gravidade fosse suspensa? E se o sol descesse, a supernova decantasse e a anã ganhasse um azul? E se agora, neste segundo, zerássemos tudo? Assim mesmo, do nada. E se a fissão nuclear ficasse obsoleta? E se o marco zero fosse absoluto? Nada de políticos: imagino oxigenação, ressignificação dos ofícios humanos, fim das tramas. E se passássemos a contar tudo de novo? A história recontada, nova. Outra história. Quando foi a última vez que sentamos e conversamos? E se fosse essa a primeira vez que ouvíssemos nossas vozes? E se nascêssemos?

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/e-se-acordassemos-ninguem/

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Compre curtidas (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Compre curtidas

Paulo Rosenbaum

segunda-feira 08/09/14

Já faz algum tempo que o “compre curtidas” oferece serviços. Alguém descobriu que oferecer o conforto do apreço virtual pago é um grande negócio. A tabela de preços, antecipo, não têm pechincha. Uma curtida talvez signifique mais que a aquisição do apreço, pode estar no aplicativo narcisista que criamos. Numa sociedade autorreferente, a valorização está […]

Já faz algum tempo que o “compre curtidas” oferece serviços. Alguém descobriu que oferecer o conforto do apreço virtual pago é um grande negócio. Na tabela de preços, antecipo, não têm pechincha. Uma curtida talvez signifique mais que a aquisição do apreço, pode estar no aplicativo narcisista que criamos. Numa sociedade autorreferente, a valorização está em que os outros endossem nosso próprio umbigo. Que graça poderia ter apreciar uma foto, post, ou filme só para nosso deleite? Por isso, compungidos a compartilhar, fazemos as honras, esperando aval. Delegamos o ônus do julgamento das nossas preferências ao mundo externo. Mesmo que essa escolha acabe sendo debitada da conta de nossa autenticidade. Para que o espectador encampe minha proposta, aceitamos concessões que sacrificam a única mensagem que faria sentido transmitir, e morro como original. É mais do que não ter graça, passa a não ter significado fazer a descoberta, se essa não for, imediatamente, comunicada a outrem. O imediatamente não é fortuito, a temporalidade cobra um papel fundamental nos vínculos virtuais. Trata-se de uma espécie de comportamento simbiótico instantâneo. Vale dizer, precisamos que reconheçam que nossa auto referencia é não só válida, como a autenticação do nosso gosto. Ainda que o gosto pessoal possa a vir a ser descartado como não essencial. O importante é agradar as massas. O exemplo abaixo, pode não ilustrar isso diretamente, mas serve como reflexão.

Um conhecido escritor, por pressão de sua assessoria de imprensa, negociou num pacote de 10.000 curtidas com garantia de aproximadamente 500 comentários. Inicialmente, vibrou com os números que fariam inveja aos amigos, despertariam curiosidade nos editores e o mais importante: novos leitores. O segredo garantido, já que ninguém costuma desconfiar de inflação. Pois a euforia durou pouco, o desgosto um tanto mais. Não porque os comentários não tivessem alguma pertinência, o oposto. No meio daqueles assalariados do discurso, mercenários uniformizados para jogar conversa fora, havia gente com talento. Talvez, considerou, gente tão desesperada como ele. Descobriram que nossa era não remunera inteligência, muito menos composição de textos não especializados. Assim, o que era para ser uma capitalização triunfal, sob a artificialidade para projetar o autor à fama, tornou-se contraproducente. Como se sabe, purismo e ideologia sempre foram inimigos da vida prática. E ninguém mais duvida, a ética inferniza os negócios. O comércio, que transforma o espontâneo e amigos virtuais em vil mercadoria, gerou grave bloqueio criativo. Finalmente, o escritor, parcialmente refeito, se animou em responder cada comentário. Foi quando vislumbrou a saída, não para o fluxo de consciência, mas para o fluxo de caixa. Abandonando a poesia e o romance, passou a oferecer serviços pagos nas redes sociais. Ganhou folego, abandonou a aspiração de ser imortal. Trabalha hoje para um candidato ao senado, redigindo discursos para o horário eleitoral e sumiu das redes sociais.

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Interditada (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Livros publicados, Na Mídia

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Tags

A Pele que nos divide- Diáforas Continentais, poesia

Interditada

Paulo Rosenbaum

14 novembro 2014 | 12:49

vozvozXX

Tua voz,

tua voz

não será auditada

Tua voz,

sem vez

Tua voz,

sem voto,

Tua voz,

 ouvida adiante

Tua voz,

junto ao ruído do cometa,

Tua voz,

não mais te pertence

Tua voz,

que era a nossa

Tua voz,

tão calada

Tua voz,

que pedia liberdade,

acaba de ser interditada.

Tags: censura, controle da mídia, Controle dos jornais, poesia

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Intuição para uma jovem democracia (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Intuição para uma jovem democracia

Paulo Rosenbaum

05 janeiro 2015 | 21:55

prismasXX

Nos dias turvos que atravessamos, o mais recente artigo de FHC no Estadão, atestou um raro exemplo de lucidez. Ao mesmo tempo, resta uma lacuna que mereceria ser melhor examinada. As sociedades contemporâneas emanam incontáveis matizes de ideários e crenças políticas. Em muitas análises de nossa esdrúxula situação, desaparecem as sutilezas dialéticas, e as nuances da diversidade se reduzem ao preto e branco. É como se os lados se limitassem à duas forças antagônicas, que, num contraponto tanto permanente como conveniente, lutam pelo poder.

Há sinais claros, na linguagem e nas narrativas, que comprovam a insuficiência da taxionomia esquerda – direita. A palavra centro, pervertida e esgarçada pelo fisiologismo de praxe, também deixou de ser relevante. Como se fosse razoável resumir à duas forças o que existe de vivo como protagonismo político no País. É necessário aceitar que nem todas as causas progressistas são justas e boa parte das conservadoras pode não fazer mais sentido. Não é preciso erudição sociológica para entender que é preciso assumir: falta à oposição a coragem de se declarar independente. Essa seria a grande novidade, o verdadeiramente contemporâneo sugerido pelo artigo do ex presidente.

Por outro lado, quem ousa não se alinhar a nenhum dos dois lados, está, automaticamente, sentenciado ao exílio. O exílio de filiação doutrinária, a orfandade intelectual. Esse grupo imenso — desconfio de significava parcela da população — vem sendo arrastado a um lugar sem nome: o limbo político. É como se por falta de pedigree, organização ou confissão doutrinária, não merecessem espaço, partido ou atenção por parte da classe política. São também ignorados por parte dos intelectuais que preferem sustentar seu status quo diante do poder.

Este lapso de nomenclatura não têm nada de fortuito. A desatenção significa condenar amplas parcelas da população à invisibilidade. Notem que, até hoje, as massas que acorreram às ruas em junho de 2013 não foram devidamente classificadas. Penetras nas teses sociopolíticas, os intrusos não estavam em nenhum script.

Trata-se, lá e agora, de uma multidão cada vez mais expressiva que pretende julgar o mérito das propostas e não de onde elas vêm ou qual viés doutrinário carregam. Portanto existe algo muito mais importante do que esquerda retrógrada e direita golpista. É neste entre, um interregno pouquíssimo explorado, que se encontra a maior parte de gente desencantada. Pessoas que demandam mudanças imediatas. Pessoas impacientes, sedentas por orientação e ações que interrompam o ciclo de desmandos e violações sistemáticas das regras do jogo. Podem ser exigentes e pragmáticas, mas isso não as transforma automaticamente em radicais não democratas. É compreensível que generalizem sua aversão aos políticos, pois são grupos não articulados, que operam na base da indignação sem foco. Aguardam Estadistas que tenham a maleabilidade para compreender que um mundo ideologicamente coeso tornou-se inviável, que a liberdade não pode ser negociada e que é preciso ocupar os espaços para evitar governos com perfil totalitário.

A sociedade multilateral intuiu o perigo. Ela mesma precisa usar as brechas do sistema político para preservar os direitos e obriga-los a descer à ação. Só uma força diagonal, que julgue ideias com autonomia e que não se comporte como bloco ideológico, partido hegemônico ou seita pode prover a união para tirar, enquanto é tempo, nossa jovem democracia do sufoco.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/intuicao-para-uma-jovem-democracia/

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