E se hoje acordássemos ninguém? Nem ilhas nem continentes, religiosos, materialistas ou céticos. E se não nos dividíssemos entre nacionalistas, anarquistas ou fundamentalistas? E se não fôssemos cabos eleitorais das guerras, candidatos ou nações? E se não houvesse mundo algum? E se não estivéssemos separados por fronteiras? E se os países fossem mais que mercados? As pessoas mais que contribuintes? E se considerássemos que ninguém é traidor ou aliado? E se a paz não precisasse de transfusões? E se não precisássemos defender ou atacar? E se nem as utopias correspondessem à realidade? Não por serem beatificas, ideais, finais. Porque a terra não finda. Porque não há Armagedon, apocalipse ou término para o que mal começou. A menos que passemos a adorar a ideia. A menos que os homens passem a viver por nada. E se a vida não estivesse concentrada na sobrevivência? E se ela estivesse entre todos e espalhada? Se recuperasse o significado? Tingiria outros universos? Alcançaria outros estágios de energia? E se os papeis dos jornais formassem pontes? A se a mídia instruísse? E se negássemos todos os marcos? Todas as datações? E se os símbolos criassem comunidades? E se as datas recusassem reduções? E se o tempo não fosse marcado por eventos religiosos, revolução francesa, 100 anos da primeira guerra mundial? E se o Big Bang não mantivesse a expansão? E se não reduzíssemos tudo à nada? E se respeitássemos a singularidade? E se hoje fosse o aniversario do cosmos? E se a gravidade fosse suspensa? E se o sol descesse, a supernova decantasse e a anã ganhasse um azul? E se agora, neste segundo, zerássemos tudo? Assim mesmo, do nada. E se a fissão nuclear ficasse obsoleta? E se o marco zero fosse absoluto? Nada de políticos: imagino oxigenação, ressignificação dos ofícios humanos, fim das tramas. E se passássemos a contar tudo de novo? A história recontada, nova. Outra história. Quando foi a última vez que sentamos e conversamos? E se fosse essa a primeira vez que ouvíssemos nossas vozes? E se nascêssemos?