• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos de Categoria: Artigos

Somos todos judeus? (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Somos todos judeus?

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2015 | 15:52

supermassacre

Escrevo sob forte emoção. Sim, agora está confirmado. Era mesmo o supermercado kosher, judaico, e agora me dizem, a inteligência confessou: não existem lobos solitários. Quatro ficaram sem vida. Deve ser porque alcateias separadas agem melhor. E me pergunto partilhamos o mesmo mundo. E alguém por favor responda, qual mundo considera recuperável pessoas que usam sua liberdade para eliminar a dos demais? Então é uma guerra, conflito armado e como responsabilizar a omissão do Estado?  Já não era tragédia anunciada? Esta já passou, a próxima? Como se elegem alvos? Quando se reconhece que uma epidemia de terror não é só evento mimético?

Ocultos ou não em suas consciências, há quem entenda perfeitamente o que se passa. Agora que não é a liberdade de expressão, seria o que? A supressão dos outros. Era para ser assim? Como se identifica o terror? Desconfio que se considerem seres especiais. Ele perguntou na porta da mercearia judaica “você sabe quem eu sou, não?”. Não, não sabemos? Provocar a morte é tomada como passe livre para um mundo melhor. E quem vos ensinou isso? Nenhuma religião ensina ou não deveria ensinar. Os meus amigos acadêmicos acabam de me dizer que a culpa é da xenofobia, do passado colonial, das guerras inacabadas, da culpa judaica. Não discordo completamente, mas, no caso judaico, qual seria a culpa? A ancestral, a atual, a futura? Israel? Em disfarce, um justificacionismo intelectual vergonhoso. O alinhamento ideológico com a barbárie, ainda que atenuado por interpretações históricas criativas.

O discurso do ódio e o incitamento – ativo ou passivo — parece ter uma só direção e ele não conhece ascendência, descendência, idade ou classe social. Trata-se de um mundo forjado no triunfo, disso já sabíamos. Mas há algo novo aqui. E isso explica a perplexidade. Desconhecíamos um princípio narcísico de morte. Por quem serão lembrados? Pela auto extinção? O heroísmo tem enfim novo perfil. Valores como covardia e perversidade são valores neutros, interpretados como parte do martírio exigido. A mancha biográfica transforma-se em distinção. Entre milhões pacíficos eles e seus incontáveis cumplices e co-autores coroam-se como os novos ícones.

Você ainda quer explicar? Esqueça, e não me venha com mas, apesar de, ou considerando bem.

Falo, mas saibam que sou forçado à contenção. Em nossos dias a sátira é perigosa, expor a injustiça pode virar crime e a espontaneidade pode custar caro. Pressinto que não deveria perguntar mas já que a verdade não pode conhecer prudência, – mesmo assim faço.

O mundo agora assumirá a próxima tarja?

 “somos todos judeus”.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/somos-todos-judeus/

Tags: lobos solitários, massacre no supermercado kosher, somos todos judeus?

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Minha folia é você (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Na Mídia

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Minha folia é você

Paulo Rosenbaum

13 fevereiro 2015 | 13:35

folia

Minha folia é você

Minha folia é você

No momento,  fica

Não prometo nada

E se disserem sosseguem,

Negaremos

A folia transita num violino

Compromissadamente perdido

Comprovadamente visível

Concomitantemente relapso

A folia está nas nuvens,

Nas milhas náuticas

Nos pulsos indomáveis

Que esquecem tudo, juntos

Num particular anticarnaval

Nesse mar sem muros

Na fome da entrega

Toda e qualquer latitude

Deita folia em teu corpo.

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Palavras e sentido: austeridade

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Palavras e sentido: austeridade

 

Austeridade, palavra horripilante. Pensem bem. Do jeito que vem sendo tratada, com a meteórica familiaridade com que ela agora varre a zona do euro, poder-se-ia pensar que se trata de palavrão, desordem psíquica minor ou até um pacote de maldades embrulhado para presente em dias de estiagem latino americana. Somos forçados a lançar as 3 concepções analógicas de austeridade para tentar compreender como um termo, que há pouco tinha como significado rigor, integro e ascetismo tenha tomado caminhos tão inusitados. Na vertente ascetismo é que ela assume o caráter que os neófitos partidos europeus — admiradores de Chávez e dos regimes latino americanos —  tentam imprimir ao termo. nesta modalidade mortificação, flagelo e penitência, são algumas das implicações verbais do termo.

Claro que na vertente rigor, ela poderia tender à severidade e daí para virga férrea, mordaça, despotismo, arbitrariedade, usurpação, dobrar a cerviz à escravidão e violência. Mas entre o catoniano e o reizete, entre o sultão e missongo há, vale dizer, deveria haver, outros espaços de significados para a palavra. É ai que entra a outra acepção da austeridade, a probidade. Nela encontramos os elementos que fizeram dela o significado com o qual até ontem concebíamos sob nosso torturado senso comum: compostura, homo antiqua fide, barbas honradas, veracidade, pundonor, têmpera, equidade e consciência.

Descobrimos enfim que a trajetória da virtude à vicissitude, que parecia longa e interminável, não é. O tempo é que dita o ritmo dos signos da linguagem e com ele a própria vida. As palavras enfim valem menos ou mais? Talvez valham apenas outra coisa. Numa mutação vertiginosa, significados pulam entre os galhos de florestas que, como estrelas remotas, sequer existem. Os políticos podem estar se defendendo de seus hiatos proposicionais, de suas repetições inócuas, mas sobretudo de sua incapacidade de impedir a privatização do bem comum.

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Ódio e política pueril (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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 Ódio e política pueril

Paulo Rosenbaum

15 março 2015 | 00:33

panelasXX

A burguesia petista e coxinhas de panela vem construindo cenas sem paralelos na extensa história do patético. Alguns se perguntam de onde provém todo esse ódio e intolerância? As fontes são inesgotáveis, mas, como se sabe, sob a traição política, a cólera fica quase indomável. Os mitômanos podem não saber, mas é assim que instigam a grande ferida. No imaginário social, nenhum redentor se atreveria a enganar a boa fé. A infeliz fala recente de quem nos presidi emprestou do seu mentor a tese de “esgotamento do modelo”. Ela pode ser traduzida de outra forma: não confiem demais em quem vos fala. Com a quase extinção dos bodes expiatórios críveis, não há mais a quem culpar. O crack de 29 não colou e a elite branca racista pode ser simultaneamente a classe média morena reacionária. O petróleo, privatizado pelo consórcio. O Estado foi ficando cada vez menos republicano. Os poderes, embaralhados e fatiados. Taxas de ruim/péssimo ameaçam extrapolar os gráficos. É evidente que a sociedade deve estar errada. Como estamos diante de uma administração avessa à crítica, toda chiadeira parece exaltar a convicção no sentido contrário. Não resta a menor dúvida de que a equação se inverteu: doravante, se tudo der certo, a sociedade é quem deverá servir à Pátria.

Os traços de esgotamento estão por toda parte. Há sinais, signos e símbolos de que uma grande inviabilidade persistirá. Mesmo endossando a recusa ao catastrofismo, ninguém tem mais o direito de ficar peneirando mel. O laços de contra e a favor vão se estreitando, até não se saber mais quem é quem. Vai ficando difícil manter a honestidade intelectual e, ao mesmo tempo, apontar para direita ou esquerda. A complexidade social sempre superou a capacidade de apreensão analítica. Recorrer à luta de classes ou golpe militar revela o viés: estamos num sistema de notação maniqueísta. O anarco-marxismo e o atraso fanático escancaram a face pueril de nossas práticas políticas. Daí o emboloramento, a incoerência, o desatino programático. A anemia em líderes razoáveis. No malabarismo impossível, a maioria luta para exigir (e exigir-se) uma fidelidade ideológica que não mais existe.

Defende Cunha aliado, detesta Dilma malcriada. A favor de Calheiros com aversão ao procurador. O exército alternativo convocado para conter o golpe que, onírico, viria a calhar para salvar o projeto. “Viva a Petrobras” dizia Gabrielli em Salvador à frente de militantes com carteira assinada. Na CPI, na TV ou nas coletivas as falas, a retórica, o discurso, a impostação, a mímica, a gestalt de mais esse simulacro de verdade. Verdade? Decerto subjetiva, uma aporia sujeita à interpretações. Ninguém negará que mesmo um conceito pouco palpável exigiria contornos mínimos de realidade.

E com quem podemos contar?  Intelectuais subsidiados pelo partido? Blogs financiados por fundos partidários? Oposição encalacrada? Institutos de pesquisa controlados pelo poder? Para onde se olha enxerga-se as marcas da hegemonia. A doença se alastra. É que a colonização tem pressa. Se houvesse um manual de bons modos para além do conselho de ética e da controladoria geral da união, a manifestação deveria não só ser pacífica, mas solene. Agora não se trata de festa democrática, revanchismo ou enfrentamento. É a maturidade e o solene que podem encampar a seriedade do momento. A eleição passou. Inútil tentar culpar quem nos meteu nessa. Se há algo para aproveitar em uma marcha adulta é recobrar a consciência de uma saída.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/odio-e-politica-pueril/

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Yom Hashoah (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) 

Yom_HashoahIII_

Mais uma vez você vem falar  do Shoah?

E mais uma vez somos obrigados a ouvir?

Quer esquecer essa história? Seria bem melhor para todos.

Admita, você não compreendeu: se esqueço, desapareço. Se você esquecer, desapareceremos todos.

Não como pessoa, ninguém evapora como espírito, não se somem com as marés, não desintegramos como barrancos em inundações

Costumamos evaporar quando não fazemos mais sentido, mas existem ebulições prematuras. Se quiséssemos, viveríamos pelos segundos. E, se nossa contagem viesse numa outra unidade? Uma que desprezasse o tempo e redescobrisse outros ritmos.

Impressão minha? Seu sorriso mudou?

Não, não é capricho. Nada de apologias, nacionalismos, nem cumplicidade neurótica. Bastaria ter sabido que existi, a única exigência de toda memória.

Por que insisto em fixar-me em tuas lembranças?

Nada pessoal, não vivo por vingança. Permite uma intimidade? Num dos campos senti: toda memória está vinculada à história. Entende? Nós somos assustadores.

Não, isso também não é para evocar sua consciência, despertar a Misericórdia. Você sabe tão bem quanto eu que a pena é uma nostalgia sem objeto, uma culpa sem noção do mal.

Exato. Como você, também não me comovo facilmente.  De acordo, detestáveis aqueles que se constringem sem levantar da cadeira, ridículos os que se movem sob a indignação remota.

O meu ponto?

Exijo que a dor, essa dor, suba junto com o vapor que nos destruiu, Faço questão que mortalha alguma seja reverenciada. Que os números tatuados se transformem numa álgebra benigna.

Agora pode sentir? Captou meu estado?

Tento de outra forma: isso não tem a ver com religião, nem raças, etnias, partidos ou, classes sociais. Céus, crianças estão cercadas: judias, árabes, negras e caucasianas.

A natureza dos genocídios?

Permanecerá tão misteriosa como a gravidade. Com autorias indeterminadas: da Europa à Grécia, da Armênia à Síria, da Ruanda ao Iraque, da Bósnia ao Sudão, do passado ao futuro.

Viu? O assustador nunca esteve fora ou distante. É preciso repetir: nós somos assustadores. Todo holocausto é um adiamento, uma fusão sem fim, um negócio movido por manivelas humanas.

Agora você chora? Só que ainda não terminei.

Precisei  vagar entre livros, em meio aos escombros e também nas paisagens intactas da natureza remanescente. Precisei viajar desafiando bósons, sob asteroides que carreavam água. Precisei ouvir lamentos de cada povo e elemento só para poder te ver. Precisei superar a ignorância, suportar a decadência. Precisei desviar dos fornos e gazes. Precisei contornar escravos e tiranos.  E mesmo chegando a estes confins de mundo, enfrentando provável arrependimento, reuni forças para te dizer que o homem pode ser diferente. Que se abandonarmos a vida reativa, a ação tem chance de prevalecer. Uma tradição como a vossa merece sobreviver se disser de novo, um novo.

A outra escolha? Resignar-se à repetição. Nesse caso, nem com todo esforço mudaremos a insignificância ou escaparemos dos  sustos.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-indeterminavel-sentido-da-evaporacao/

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O retorno do bumerangue (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O retorno do bumerangue

Paulo Rosenbaum

24 abril 2015 | 15:27

metafora

Eu vou bem e você? Faz tempo. Senta ai. É verdade, perto das eleições tive que te bloquear. Eu sinto também. Mas não me arrependo. Não tenho respostas, só perguntas. Você pode até dizer que não, mas eu sei. Lembro de cada um dos aforismos: era o “nunca antes na história”, depois vieram “só nós fizemos”, e depois aquela fileira de slogans. Agora vocês nem disfarçam mais.

Dúvida? Então vou fazer esse papel para ti. Sabe por que? Vão forçar os blogs pagos para comentar o de sempre. As  mesmas velhas ladainhas contra o partido. Vocês são incansáveis, mas sabe quem vos dobrará? Não, não espero nada da realidade. Quem está dando o troco não é o Congresso, não são as ruas,  são as metáforas obsedantes que vocês deram vida. Sim, explico. Sabe aquelas ilusões criadas? Lembra das promessas impagáveis? O sonho à granel? Da campanha eleitoral desconstrutiva? Pois foram elas que estão assombrando o poder num espetacular retorno do bumerangue. Pois é, são elas que estão agarrando suas canelas. Fantasmas podem ser imponderáveis mas, por um estranho capricho, cobram ingressos mais caros. Pessoalmente não creio em assombração, mas acredito em inflação, desatino, despreparo, e em massa falida que vai rolando até gerar o déficit universal. Sem querer ser insistente: um dia, não precisa ser agora, você vai me dizer como é que se quebra uma empresa com monopólio do petróleo. Não tem nada de pirraça. Chame de curiosidade metafísica.

Quer ir por tópicos? Vamos lá. Histeria anti comunista. É mesmo uma reatividade infeliz. Concordo que entramos numa cultura incomoda: o senso comum de mau gosto. Mas o que me dizes da redação estúpida nos fóruns da esquerda conservadora? O que vocês ainda não entenderam é que justiça social não é mais monopólio da agenda socialista. Qualquer cidadão esclarecido reconhecerá isso. Reconciliação nacional? Só depois que vocês pularem do barco. E já passou da hora. Venham todos de cara limpa e aí veremos se rola um diálogo. Já há um consenso: nenhuma reconciliação virá através de vocês. Aliás, se tiver que vir, nascerá à revelia do poder. Será um destes efeitos colaterais inesperados. Em pelo menos um aspecto vocês estão de parabéns. Curioso? Conseguiram uma façanha: reunificar a sociedade contra um projeto totalitário.

Ingratidão e falta de reconhecimento da nova classe média? Pense de outra forma: o povo aceita ser humilhado, ofendido, pisoteado, jogado às feras, tripudiado e esquecido. Vá ás ruas e me desminta sem fazer gracinha. A sociedade, esta entidade abstrata, pode ser passiva, pacata, alegre mas tem o seguinte, não tolera ser sabotada, muito menos instrumentalizada. Ela não tem essa percepção? Vai nessa! Até os gênios do marketing político vão jogar a toalha quando o produto estiver prestes a perder o prazo de validade. Quando apodrece, costumam sumir. Moralismo? Demagogia? Chame como quiser, eu já apelidei de  índice de volatilidade do eleitor.

Sabotagem, como se sabe, é especialidade dos agentes tiranos que abundam à esquerda e à direita. E a enganação útil pode também vir do centro. O importante aqui é conhecer a índole do sabotador, ele age por vingança. Neste caderno de teses de agora, por exemplo. Me explica o que é que é aquilo? Nota-se que vocês não aproveitam a parte boa do envelhecimento.

Eu também li aquela matéria.  Bom saber que nem você concorda. De cara, intui o desproposito. É evidente que a maioria dos insatisfeitos não é do “tea party dos trópicos”. Qualquer análise sem contexto acaba virando fofoca. O que eles são? Sei lá, chame-os de chimarrão quente, massa difusa, matéria escura sem etiqueta.

Dos dois lados há sempre gente falando bobagem, grupelhos nostálgicos e vingativos, milícias que querem desforra. Mas a maioria está cruzando os braços, e não é por greve. É uma atitude nova, típica dos observadores. De gente que perdeu a paciência, mas não o bom senso. Enquanto vocês apostam na reincidência e nos truques manjados a maioria está parando para pensar.

Impeachment? Se há lei para impedi-la de continuar, por que não usa-la? Se não há, a quem interessa criminalizar quem se opõe ao poder? Ontem todos os canais estavam mostrando uma ofensiva midiática do partido. Vocês ainda apostam cegamente no poder da propaganda. Só esqueceram que o meio é a mensagem. O que chega para as pessoas não é o desejado, mas o meio pelo qual vocês tentaram a persuasão. A mensagem se perdeu pelo caminho. Sobra a mentiras, ardis, estratagemas, e maracutaias.

Ok, podemos mudar de assunto. Se vamos jogar fora o que vocês fizeram pelo País? De forma alguma, tchê! Mas os acertos não apagam as pegadas. O corolário de equívocos de vocês já virou marca registrada. É herança maldita contra terra arrasada.

Só que isso aqui ainda é uma República.

Por favor, dá para abaixar o tom? Aceito a desculpa. Percebe? Essa arrogância inflamada não faz sentido. Ninguém fica feliz – ou não deveria ficar – com tanta gente enroscada, presa e processada. Mas esse é o salário do abuso. Se ao menos fossem aprendizes mais discretos. Se abandonassem o projeto da pátria homogênea e da hegemonia partidária.

Ideário da burguesia? Céus! Senhor, um desafio: saia agora às ruas e veja se a insatisfação está confinada. Veja se está delimitada a uma classe social. Saia e veja quantos estão fazendo as contas do que estão perdendo com a volta dos espíritos descontrolados que vocês libertaram das catracas: inflação, estagnação, insegurança, desatino fiscal.

Saia e constate quantos se arrependeram. O que se deve fazer? Comecei este papo mandando a real: eu nunca disse que  tinha uma solução. Se pede conselho eu resumiria num só item: façam autocritica e mudem. Sem ela, não há conversação.

De dentro desta grande instituição asilar controlada pela ideologia, o fanatismo e a convicção, a realidade está sendo obrigada a  dormir do lado de fora. Está sugerindo que a saída é o aeroporto? Posso te afirmar que já ouvi, não faz muito, essa mesmíssima ameaça. Mas somos como a mula teimosa. Não vamos desistir do Brasil. Não que não seja tentador. Percebemos que persistir é a única forma de dar um cansaço no delírio de proveta que vocês pariram. Passar bem você também.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-retorno-do-bumerangue/

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Brasil sem bula (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Comentários desativados em Brasil sem bula (Estadão)

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Trabalho de analista político não é fácil. Parece até que há toda uma arquitetura forjada para ludibriar os intérpretes. Nos noticiários das últimas semanas foi o  partido governista quem girou a outra volta no parafuso espanado. As forças pró e contra ajuste fiscal, uma espécie de versão dos trópicos de movimentos a favor e contra a austeridade, entraram em choque. O problema é que a democracia vai ficando cada vez refém da propaganda. O marketing político, como prefere ser conhecido, é uma viga bem mais potente do que os comerciais de carreira. Do modo como as eleições e a busca pelo eleitor têm se configurado, o que interessa não é debate, conteúdo, ou consistência: a imagem é tudo. Pois, em última análise, o financiamento dos partidos, principal origem dos desvios, a mais primitiva fonte de corrupção, ocorre para custear as multimilionárias campanhas e benesses associadas ao voto.

Agora, constrangidos por escândalos e pela gestão nociva, clamam por diálogo. Na partilha maniqueísta a tática consiste em embaralhar autores com vítimas. Foi assim que surgiu a obra prima, uma neo versão do lulinha paz e amor:  “tem gente que nos odeia” mas, “nós vamos continuar amando”! No mínimo, uma impressionante contribuição para compreender a natureza dos crimes passionais. Em política, a sinceridade não é constitutiva, só que seriedade é vital. Muito mais urgente do que interlocução insistem em investir na divisão da sociedade. O maquiador geral da nação precisava bolar um jeito de mostrar quão probo é o partido. Numa brevíssima análise do discurso dos programas eleitorais a orientação do marqueteiro não poderia ter sido mais clara: eleger algozes externos e apontar para o inimigo oculto.

Quem é que não sabe que sem o ajuste o País declinará mais rapidamente e mais agudamente? Todos compreenderam que a tríade, política econômica, cosmiatria fiscal criativa e os custos da reeleição — patrocinados pelo maior programa de expropriação de estatais do mundo – foi a responsável pelo sarabulho. A maioria sabe que a sangria — recurso recentemente reabilitado na medicina — não será, neste caso, uma terapêutica curativa. Muitos sabem até o óbvio: numa República o que estrangula o governo hoje, enforcará a população logo adiante.

No programa gratuito o ritual manjado: sob o velho apelo emocional as falas foram, ao mesmo tempo, contra a terceirização, apontando porém um conluio do aliado PMDB com a oposição como verdadeiros articuladores do ajuste fiscal. Todos sabem quem é que precisa desesperadamente de credibilidade internacional.  Ousadia é contagiante. Ainda tiveram tempo de insinuar que eles são a verdadeira oposição “contra tudo que está aí”. Simultaneamente, declarou-se apoio à personagem Dilma enquanto faziam ressalvas ao seu plano de governo. Convictos que ninguém iria detectar o paradoxo, vieram novos ataques: as vicissitudes do País é culpa dos pessimistas, dos retrógrados, da elite, da classe média, do operariado ingrato. Na peça publicitária ainda ouvimos que os condenados que recentemente receberam por parte da direção desagravos em praça pública, serão expulsos. Nunca antes na história deste País a esperteza esteve tão concentrada num só horário nobre. Há quem considere “falta de educação” fazer uso do panelaço enquanto representantes do poder exercitam suas laringes. Difícil julgar falta de educação em meio à corrosão da linguagem como instrumento da verdade.

Uma surpresa pode estar reservada aos políticos. Há na sociedade uma maturidade política difusa rondando, e é uma estupidez inibi-la com as habituais etiquetas depreciativas de tendências políticas. Na verdade, tanto faz. Neste sentido, algo está em deslocamento. Têm cabido ao ministro da fazenda costurar verdadeiros pactos de Estado para além dos mesquinharias partidárias. E, para surpresa geral da nação, por mais oblíquas que sejam as reais motivações, coube ao velho PMDB e ao presidente do Congresso representar a oposição. Vai entender.

Como o Brasil não vem com bula, é fácil confundir o que é tratamento com efeitos colaterais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/brasil-sem-bula/

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Brasil sem bula (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Trabalho de analista político não é fácil. Parece até que há toda uma arquitetura forjada para ludibriar os intérpretes. Nos noticiários das últimas semanas foi o  partido governista quem girou a outra volta no parafuso espanado. As forças pró e contra ajuste fiscal, uma espécie de versão dos trópicos de movimentos a favor e contra a austeridade, entraram em choque. O problema é que a democracia vai ficando cada vez refém da propaganda. O marketing político, como prefere ser conhecido, é uma viga bem mais potente do que os comerciais de carreira. Do modo como as eleições e a busca pelo eleitor têm se configurado, o que interessa não é debate, conteúdo, ou consistência: a imagem é tudo. Pois, em última análise, o financiamento dos partidos, principal origem dos desvios, a mais primitiva fonte de corrupção, ocorre para custear as multimilionárias campanhas e benesses associadas ao voto.

Agora, constrangidos por escândalos e pela gestão nociva, clamam por diálogo. Na partilha maniqueísta a tática consiste em embaralhar autores com vítimas. Foi assim que surgiu a obra prima, uma neo versão do lulinha paz e amor:  “tem gente que nos odeia” mas, “nós vamos continuar amando”! No mínimo, uma impressionante contribuição para compreender a natureza dos crimes passionais. Em política, a sinceridade não é constitutiva, só que seriedade é vital. Muito mais urgente do que interlocução insistem em investir na divisão da sociedade. O maquiador geral da nação precisava bolar um jeito de mostrar quão probo é o partido. Numa brevíssima análise do discurso dos programas eleitorais a orientação do marqueteiro não poderia ter sido mais clara: eleger algozes externos e apontar para o inimigo oculto.

Quem é que não sabe que sem o ajuste o País declinará mais rapidamente e mais agudamente? Todos compreenderam que a tríade, política econômica, cosmiatria fiscal criativa e os custos da reeleição — patrocinados pelo maior programa de expropriação de estatais do mundo – foi a responsável pelo sarabulho. A maioria sabe que a sangria — recurso recentemente reabilitado na medicina — não será, neste caso, uma terapêutica curativa. Muitos sabem até o óbvio: numa República o que estrangula o governo hoje, enforcará a população logo adiante.

No programa gratuito o ritual manjado: sob o velho apelo emocional as falas foram, ao mesmo tempo, contra a terceirização, apontando porém um conluio do aliado PMDB com a oposição como verdadeiros articuladores do ajuste fiscal. Todos sabem quem é que precisa desesperadamente de credibilidade internacional.  Ousadia é contagiante. Ainda tiveram tempo de insinuar que eles são a verdadeira oposição “contra tudo que está aí”. Simultaneamente, declarou-se apoio à personagem Dilma enquanto faziam ressalvas ao seu plano de governo. Convictos que ninguém iria detectar o paradoxo, vieram novos ataques: as vicissitudes do País é culpa dos pessimistas, dos retrógrados, da elite, da classe média, do operariado ingrato. Na peça publicitária ainda ouvimos que os condenados que recentemente receberam por parte da direção desagravos em praça pública, serão expulsos. Nunca antes na história deste País a esperteza esteve tão concentrada num só horário nobre. Há quem considere “falta de educação” fazer uso do panelaço enquanto representantes do poder exercitam suas laringes. Difícil julgar falta de educação em meio à corrosão da linguagem como instrumento da verdade.

Uma surpresa pode estar reservada aos políticos. Há na sociedade uma maturidade política difusa rondando, e é uma estupidez inibi-la com as habituais etiquetas depreciativas de tendências políticas. Na verdade, tanto faz. Neste sentido, algo está em deslocamento. Têm cabido ao ministro da fazenda costurar verdadeiros pactos de Estado para além dos mesquinharias partidárias. E, para surpresa geral da nação, por mais oblíquas que sejam as reais motivações, coube ao velho PMDB e ao presidente do Congresso representar a oposição. Vai entender.

Como o Brasil não vem com bula, é fácil confundir o que é tratamento com efeitos colaterais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/brasil-sem-bula/

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Nossa mãe comum (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Primeiro pense em suas características analógicas: extensa, viva, ativa e acolhedora. Depois, expanda a imaginação: causa, nascença, processão, proveniência, principio, elemento, objeto, razão, respeito, matriz, manancial gênese geradora, sementeira, primum mobile, vera causa, principio fontanal, causa final, teta, embriogenia, embrião, rebento, germe, plúmula, étimo, núcleo, raiz, levantar, engendrar, criar, desbrolhar, induzir, inspirar, criar, influir, motivar, proporcionar, fecundação, infundir.

O próximo passo natural seria tomar maternidade como efeito: parto, rebento, primícias, criatura, sóbole, ceifa, colheita, safra, messe, seara, aroma, derivar, emanar, hereditário, profetício, fontanal, fruto, ninhada, infante, descendentes.

Uma, antecedente constante, a outra, consequência constante. Há uma mãe para além da vida que gera. Mais abrangente, mais dispersa, e muito mais preocupada que as suas, as nossas e as vossas. Há uma mãe que mesmo não sendo mãe, provê acima de todos os limites e para todos os gêneros.

Uma mãe que não é só revivescente e regeneradora. A progenitora que inexaurível, nos nomeia desde o imemorial. A mais multípara dentre todas. Aquela que mais ramifica e cujo terreno não infindo e sem margens, exala a perpetuação.

Uma mãe, cuja obra prima é um produto coletivo e indeterminado. E, dentro da infinidade de pólens erráticos e lençóis freáticos, recicla as gerações subsequentes.

A mãe de todas as mães é só uma natureza negligenciada. A galáxia máxima. A forma gestacional. Cores que mudam e transmigram. Ocupa o mundo sublunar, o uranorama, o cariz do céu.

Tua é a gravidade presente e teu domínio se estende à própria Terra. Às custas de bilhões de anos cresceste e fizeste crescer neste mundo transitório: acaso dos dados ou um plano ignoto? No conjunto de vidas que te povoa, a máxima soma, nosso bioma. E é em teu seio e superfície que, através das gradações progressivas, todos permanecemos.

Tuas filhas e filhos, herdeiros longínquos desse ventre ininterrupto ainda te desconhecem. Te tomam como entidade distante e autônoma. Ainda não notaram a sucessão: as criaturas que cuidam de quem lhes deu origem. Tua natureza amazona e misteriosa, mostra o acabamento e o capricho com que o feminino se ocupa em todos os recantos.

A mãe natureza não tem ciúmes: saúda todas que, como ela, destinam-se a originar e cuidar. Para as mães ativas e aposentadas, vaidosas e hippies, as únicas e as coletivas, as filósofas e as pragmáticas, as que nunca mais veremos, as que já foram e as que estão chegando, as amáveis e as severas, as sozinhas, as que jamais criaram, as que não puderam cuidar, as que se perderam e as que se isolaram, aquelas que nunca conceberam, as que mudaram e aquelas que visitamos hoje.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/mae-comum/

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Sabiam, mas não tragaram (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Sabiam, mas não tragaram.

Paulo Rosenbaum

12 maio 2015 | 10:04

sabiamXXXXpng

—O plano, perfeito, as circunstâncias, ideais, a resistência, mínima, o apetite, máximo. Então senhores há algum enigma aqui, o que pode ter dado errado?

(batidas de lápis contra mesa de vidro)

—O produto senhor, o produto. Encareceu demais.

-–Mas como é que pode? Então paguem! O que estão esperando? Esvaziem os fundos, torrem as reservas, façam o que for preciso. O que? Por que essa cara?
—É que…deveríamos ter aprendido, não funciona, nunca funcionou.
— Mas como é que você ousa? Que tal pedir desconto? Abatimento? E se for no atacado?

(limpeza de garganta ineficaz) (ruídos indecifráveis, sugestivos de lamentos)

– Não dá. Precisamos aprender com a história chefe.
— Você ouviu isso? O que ele está me dizendo?

(murros secos, seguido de gemido contido)

 

— A realidade companheiro: só a realidade (suspiros) Simplesmente não deu, ninguém pode comprar a sociedade inteira.

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