Nao há como ser a favor!

Nao há como ser  a favor! A favor de que? A vida é suficientemente caótica para ele mesma pedir ou conceder favores. A benevolencia que vem fácil, flue fácil. O bondade é dura, deve ser exigente, e nao pode aceitar qualquer coisa. Amadurecer significa resistir, opor-se à sedução. Nesse caso sinto que qualquer concessão será o começo daqueles fins que todos nós conhecemos ou ouvimos falar. A flexibilidade, se houver, deve ser o arpão que derruba o diapasão. Ainda não peguei nada, mas continuo os disparos. 

Um busca do tempo perdido com James Joyce

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Há, digo, deveria haver, algo intermediário entre a erudição academica — poesia e romance, isso é, aqueles produzidos por professores de literatura e críticos — e a “coisa média” que agrada tanto a cultura popista: a própria literatura, especialmente, mas não exclusivamente quem nem foi lido por justificacionismos compreensíveis como “nunca ouvi falar”. A invisibilidade, custo a me convencer, pode chegar a ser uma virtude!

Para a recente pseudo polemica entre Rabbit e Joyce ofereço o texto de abertura de Michel Butor no esclarecedor “Joyce e o Romance Moderno”

“Numa passagem frequentemente citada de Gambara, Balzac nos oferece o seguinte diálogo:

“–Beethoven está superado pela nova escola diz desdenhosamente o compositor de romanças.
–Ele ainda nem foi compreendido, diz o conde, como poderia estar superado? ”

Talvez, voce ouça dizer que a arte de Joyce está “superada” pela arte de uma nova escola do romance e que, por conseguinte, não há mais necessidade de lê-la. Que alívio! Era bem grande!.”

Emancipação sem adaptação: a vez dos perdedores!

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Emancipação sem adaptação: a vez dos perdedores!

O julgamento do mensalão (agora que os advogados censores do PT querem impedir a palavra ela passa a ser a única que merece menção) vem despertando paixões e discussões. Talvez o mais importante esteja sendo a oportunidade para discutir a desigualdade dos cidadãos perante a lei.

A opinião pública não espera que o embate principal deste julgamento fique entre técnica jurídica e discursos empolados. O verdadeiro jogo está sendo jogado nos vestiários, entre uma documentadíssima e consistente ação cívica versus um novo triunfo da onipotência do Estado contra seus cidadãos.

Adivinhem quem tem mais força?

Numa cultura de ganhadores leva quem tem mais cacife enquanto a igualdade morre todos os dias no documento constitucional. Mesmo assim, às vezes, vale a pena apostar no azarão e apreciar como os fracos podem surpreender.

Os políticos, cúmplices e funcionários do Estado estão acima da população. O fenômeno é mundial e nada novo: não somos iguais. Era exatamente a lógica dos fundadores das Olimpíadas. Na velha Grécia de 2.500 anos atrás, a democracia não só previa como considerava imprescindível a lógica escravocrata. Para entender talvez tenhamos que retroceder à época em que a espécie humana engatinhava.

Para Darwin, a travessia histórica da evolução das espécies culminava em sistemas progressivos de adaptação. Os mais adaptados sobrevivem e triunfam para procriar e prevalecer sobre os demais. Os outros…bem os outros são os outros, quem mandou não seguir a cartilha? Dois séculos depois, para além dos estereótipos, achados científicos mostraram que, do ponto de vista biológico, as espécies continuam evoluindo.

Finalmente chegamos à nossa contemporaneidade atípica onde a pergunta muda de direção: o que significa evolução para além da biologia?

Ficamos impressionados pela força, velocidade, e agilidade e respectivos
records e medalhas, enaltecidos por locutores dos feitos olímpicos.
A luta do atleta contra seus próprios limites faz do ouro
devida recompensa. Daí virá pódio, hino, superação triunfal,
glória e os contratos de publicidade.

Nesta lógica, a cultura do vencedor representa no mundo prático,
a bandeira da evolução.

A atmosfera pop que hora nos governa pensa poder esnobar a cultura,
e escarnecer da opinião pública, assim como o político sem méritos
se imagina o marco zero da nação. Mais comum que seja só o zero.

Como nada é linear se houve um ganhador é porque muitos, necessariamente, perderam.
Ter isso em mente é amadurecer. O que está em jogo hoje é uma espécie de repetição do momento histórico de eclosão da contracultura. Ali uma geração atormentada diante da mesmice dos modelos políticos, guerras e desesperança, resolveu virar a mesa e criar um front pacifista e anti establishment. O novo apareceu e os hippies se inscreveram na história. Não só os valores eram contestados, mas a vida ela mesma se voltava para existir fora dos cânones estipulados na mídia, pelos políticos e a moral da época.

Hoje vivemos condições análogas aquelas dos anos 60, a mesma desesperança, o mesmo ceticismo, a mesma dualidade estúpida entre ideologias envelhecidas. Tudo agravado pela crise financeira mundial e o embrutecimento dos valores éticos.

Há uma aspiração de retomada das tradições espirituais – precocemente descartadas pelos esclarecimentos científicos – assim como uma sensação generalizada de que algo precisa mudar se quisermos uma versão melhorada deste mundo. Nada de polir o discurso introduzindo a frase mágica “em nome das próximas gerações”. Tudo é para nós mesmos, aqui e agora. Chegou a hora de chocar, radicalizar para assumir certa marginalidade, de preferência que nos faça redescobrir a honra da dissonância, da oposição e da discórdia.

Sem estabelecer essa urgência, a inércia vencerá a necessidade e, mais uma vez, o conformismo será a desculpa para a mesmice que nos assola. Talvez devamos começar desobedecendo a critérios de vitória aos quais fomos condenados, e que, sob a batuta da educação formal, virou doutrinação social. Como o sentido da vitória se esgota chegou a vez dos perdedores. Muito provavelmente, teremos que redescobrir sozinhos o valor das tradições às quais pertencemos e reafirmar que não só há valor na derrota e na depressão nossa de cada dia, como elas são as maiores responsáveis pelo amadurecimento que nos fará gritar o “não” e desadaptar-se.

Emancipação é se insurgir contra os destinos previamente traçados por outros, em nosso nome. Por isso mesmo, para uma filosofia libertadora só há um sentido, obrigatório, o da contra mão.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Autor de “A Verdade Lançada ao solo (Ed. Record)”

Paulorosenbaum.wordpress.com

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Vale tudo, torcer e arbitrar 

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Vale tudo, torcer e arbitrar

Em carreira meteórica o vale tudo se transformou no esporte mais popular no mundo. Dizem que superará o futebol. Sem julgamentos e longe das prospecções morais cabíveis, o vale-tudo é um perfeito símbolo dos nosso tempos.

Mas o vale tudo, que mudou de nome, se espalhou por toda parte. O símbolo do vale tudo é que as regras hoje favorecem o predador, quem cria o fato, o mais rico ou os milhões de “você sabe com quem está falando?”. Nesta nova versão da lei do mais forte isso equivale dar passagem para quem dá mais porrada, quem tem o joelho mais pontiagudo, e quem se adaptou melhor ao Coliseu das competições. A competição, dizem, tem sido o combustível do progresso.

Nos jogos temos que escolher um lado, e para escolhe-lo temos que torcer. Pouca importa que seja Fla-Flu, Gre-Nal Cor-San, olimpíadas, megasena ou a novela das 8, o fato é que todo mundo torce por alguma coisa.

Ouviu-se dizer que Dilma torce para que os acusados da “ação penal 470” sejam absolvidos. O PT torce para que seus candidatos não saiam prejudicados já que o projeto original continua. Isso já com a sociedade “avisada” de que se o julgamento for “político” a Central Sindical paralisará o país. Os réus, incluindo o acusado de ser co-mentor do esquema, torcem para que seus nomes pulem de réus para o hall dos mártires injustiçados. Os intelectuais de partido torcem para que tudo passe rápido a fim de que ninguém mais lhes cobre o silencio indevido. Os marquetólogos torcem pela grande borracha na mídia (já que a mordaça desta vez não colou). Os jornais sensacionalistas torcem por furos que escapem dos autos do processo, enquanto os advogados de defesa por brechas jurídicas e meios de desqualificar os consistentes relatórios do procurador geral. Os promotores torcem para que eles não as enxerguem. O homem comum torce para que se de um basta no assunto, de preferencia com alguma consequência que ele possa entender (80% das pessoas desconhece o significado do “mensalão”).

A oposição encurralada torce para que o processo não respingue sobre suas hostes. A imprensa paga pelo Estado pode se dar ao luxo de torcer discretamente enquanto, bem alimentada, ela cuida da guerra de dossiês. Os partidos nanicos torcem por sobras: com mais pressão da mídia, barganhas são trunfo extra nas negociações do horário eleitoral. O PMDB torce para ser esquecido e assim permanecer o mesmo: indefenestrável dreno no pescoço do Estado.

Os juízes torcem para que suas análises técnicas não sejam deturpadas. Para os apaixonados por causas, bem para esses não há mesmo muita saída. No julgamento mais relevante da história republicana qualquer condenação será tomada como golpismo conservador, toda absolvição, obrigação histórica.

Para nossa sorte a opinião publica brasileira é muito mais complexa do que as previsões do poder.

Como se vê estamos todos enrolados em bandeiras especialmente naquelas que não conseguimos enxergar.

Pois esse é o ponto mais perigoso na estrada da democracia.

Quando um arbitro julga ele não deve ser parte interessada e a isso convencionou-se chamar de ”conflito de interesse” Pois rapidamente um dos ministros superou o drama de consciência, tomou partido, e escolheu arbitrar. O problema, nesse caso, não está em como julgará, mas o equilíbrio de sua avaliação. O auto-julgamento requer um prumo milimétrico, instrumento para poucos, na balança entre legalidade e moralidade, lealdade e dever. A divisão é sutil, o impacto gigantesco. Agora é tarde, mas a análise deveria começar lá atrás quando o problema foi gerado, numa legislação equívoca, que prevê indicação de Juízes a partir dos lobbies e interesses do executivo.

Na cadeira magistral, especialmente instalada bem longe dali, repousa incólume a cabeça-mãe de todos os estratagemas adotados. Ela é a única que não torce porque para torcer seria necessário qualquer dúvida da vitória. E ela pensa que já ganhou. Está mais do certa que fez o que precisava fazer e que é assim que se governa (dai o pavor que a liberdade tem dos homens de convicção!) Estas certezas provem da crença em sua estrela, afinal seria muito improvável que alguém que comandou a deixasse cair. Esta cabeça não torce pela verdade, ela seria insuportável. Sem os dogmas, a verdade desabaria sob o peso de sua comprometida coroa.

Ainda que muitos ali sejam réus confessos, ninguém tem autoridade suficiente para lançar a primeira pedra, mesmo que pareçam muito distantes do arrependimento. Os críticos e gente onde a palavra ética ainda tem valor prático torcem por punições, os pragmáticos pela repatriação do dinheiro público desviado do Banco do Brasil. Aqueles que amam a Republica e a liberdade acima das causas, torcem pela pedagogia simbólica das eventuais penalidades, para ultrapassar o castigo e alcançar a reeducação. Vale dizer, afasta-los de vez da coisa pública.

Mesmo que a justiça tarde, cabe enxergar o mérito antecipado e a inconteste vitória de toda sociedade nesse julgamento; isso mesmo que os cabeças saiam da sala do STF impunes. Um julgamento desta natureza, inconcebível há alguns anos atrás, é, hoje, notável avanço institucional, conforme reconheceram os editorialistas do ˜The Economist”.

O papel das pessoas é facilitar o nascimento daquilo que não é espontâneo ou óbvio numa sociedade. Nem tudo vale e assim como na indução aplicada num experimento científico, nossa prerrogativa é viabilizar os sentidos para as coisas.

A escada é alta, a direção incerta, mas o passo foi dado: um degrau rumo à justiça.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É Autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)
Paulorosenbaum.wordpress.com

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Castas à brasileira.

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Castas à brasileira

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

As histórias das pessoas sensibilizam não exatamente pela narrativa de como sofrem, mas como cada uma resiste ao sofrimento. Essa resistência (desisti de “resiliência” depois da apropriação indevida que a psiquiátrica fez do termo) já é uma forma de cura que, às vezes, transcende cuidados médicos. Pois vejam dois exemplos de problemas que misturam medicina, justiça e aberração. A lei é para todos, pois não? Somos iguais perante a legislação? Então por que uma moça negra, trabalhadora doméstica, de aproximadamente 35 anos que teve o pé direito amputado em função de um tumor maligno não consegue se aposentar, e outros conseguiram o benefício por terem perdido a unha num torno mecânico? É um problema de peritagem? De organização sindical? Da capacidade de tumultuar um posto do INSS? Por que a classe política tem foro especial enquanto o policial federal não conseguiu obter a tempo a escolta antes de ser fuzilado em Brasília? Por que até os juízes estão sendo acossados ao julgarem gente poderosa conforme convém ao poder? O demagógico não é comparar eventos aparentemente distantes como esses, mas fingir que não são pertinentes. Estão todos interacionados.

A reforma do Código Penal ainda em trâmite só é bem-vinda se vier com determinação da sociedade para modificar as condições de sua aplicabilidade e minimizar a separação das castas nacionais. O sistema de castas à brasileira é aquele que separa não pela etnia ou por um tribalismo metafísico mas por extratos de poder. Numa blitz policial, o cidadão liberado quis saber qual o motivo de ter sido tão desrespeitado durante a revista, e a resposta foi: “Agora a gente trata pobre e rico tudo igual”. Pois esse é o medo, a regra ficou clara, serão todos maltratados.

É impossível contemporizar e duro admitir: a web é um lixão aberto ao ciberspaco. Diverte, distrai e há até pérolas resgatáveis, mas constam como exceções à regra. A legislação mudará para tentar enquadrar os crimes virtuais, resta saber se funcionará. Circulam pelo esgoto eletrônico sideral, além das calúnias e golpes, textos e correntes que para serem classificados sob este rótulo precisariam melhorar muito. Algumas merecem resgate: pedidos de volta dos “bons tempos” do regime militar, mensalão como conspiração arquitetada pela CIA, volta da censura com controle da mídia, educação formal dispensável, vírus da Aids fabricado por laboratórios farmacêuticos (essa até que poderia ser crível, mas para outras patologias), a mudança do clima como invenção das indústrias de ar condicionado, de fato o bestialógico é assustador. Mas o que causa espanto é que aparentemente perdemos a virtude — nesta altura é o que é — da perplexidade. O saudoso Millôr dizia que imprensa é oposição, o resto é capitulação. Espanta ver quantos capitularam e se acomodaram nos braços do subsidio estatal.

Escandalizei-vos já.

Sim, o mensalão (desculpem, é força do hábito), vale dizer, a lógica por detrás da “ação penal 470” sobrevive Brasil afora, com seus impunes tentáculos cheios da grana fácil dos contribuintes, travestida de “liberação de verba”, “medidas provisórias” e “emendas parlamentares”. Só mesmo “trouxas legalistas” ainda acham que não vale a pena sucumbir aos dez por cento. Acontece que eles são a maioria da população. Mesmo com o beneficio da dúvida, diante de tantas injustiças não era para um país redemocratizado estar de ponta-cabeça antes de se aposentar? A justificativa corrente “mas isso tudo ocorria também em governos anteriores” perdeu o prazo de validade. Se de fato ocorria, o que estamos esperando para evitar a recorrência?

Temos 200 milhões de técnicos de futebol e talvez a metade disso de analistas políticos amadores. Muitos admitem o medo de fazer comentários críticos em público — como confidenciou o funcionário de uma universidade — porque poderiam dedurá-lo e lhe cortariam o ponto ou a bolsa. O patrulhamento já era uma realidade, a novidade é o monitoramento virtual.

Por que os intelectuais adotaram o silêncio defensivo como forma de não se comprometer com os esculachos na República? A omissão da crítica intelectual — nome correto: “constrangedora cooptação“ — passou do ponto. Esperava-se muito mais da inteligência nacional. As vozes ouvidas são tímidas e em sua maioria coro de enaltecimento à gestão federal, puxa-saquismo, no velho idioma. Como Arthur Schopenhauer pedira em sua época, uma comissão da verdade merecia ser constituída também para avaliar porque assuntos e pessoas realmente vitais passaram a ser irrelevantes, enquanto a superficialidade arrivista tornou-se hegemônica.

O amortecimento coletivo chegou ao insuportável e à beira do ponto de ebulição, agora terá que escolher de qual lado do abismo ficará.

A sociedade sairá triunfante porque, diante da parada dura que é o tamanho do fosso, ninguém mais pode se dar ao luxo de escolher errado.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”. (Ed. Record)

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Aos cumpridores de ordens

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Não diga, nem ouse, não resista,
a ordem está dada
e é essa!

e senhor,
não pense que abandonaram o mundo
ele é todo imperativo

e é na catraca das ordenações
que fazemos todos os obséquios para a morte

silencio é só desculpa
para que o universo surdo e curvo
se cale aos que mandam

a primeira alinea da pólvora é mate,

por isso, nossas mãos ainda tremem
sob a mira de gente obediente

Da coletânea “Diáforas Continentais”

Democracia, saúde, felicidade

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Democracia, saúde, felicidade.

Ao receber o importante premio americano de ciências humanas “Jonh W. Kluge”, que dividiu com nomes como Paul Ricoeur, FHC ao fazer seu discurso de agradecimento, introduziu uma questão relevante e acabou tocando numa área que transcende a sociologia.
Ao indicar que precisávamos encontrar um meio que “permita não só o aumento do PIB – mas também o aumento da felicidade nos países”, quiçá tenha se referido ao índice que aferisse a TF.
Vale dizer, taxa de felicidade.
Na pesquisa epidemiológica já existem em quantidades questionários de qualidade de vida em saúde que avaliam parâmetros psíquicos e tentam diagnosticar o status de felicidade das pessoas. Destarte, essa psicometria ainda é um instrumento precário, que requer ajustes. O certo é que ela tende a se universalizar e no futuro próximo se fará quase onipresente em qualquer avaliação clínica, dos atos cirúrgicos aos tratamentos ambulatoriais.
Por que?
É ela, a felicidade, que deveria direcionar o grau de impacto que tanto a vida como os tratamentos têm sobre as pessoas. Ou seja, para além da saúde objetiva, mensurada por testes laboratorais, anamnese e exames subjetivos será obrigatório examinar melhor o impacto eco-ambiental não só externo, mas especialmente dentro na inneresfera de cada cidadão.
A importância disso é obvia.
Um dos grandes adventos da democracia deveria ser promover a liberdade através da justiça social conjugada a uma vida que inclua e concilie solidariedade com bem estar de cada sujeito. E numa democracia real, a liberdade merece ser ingrediente presente em todas as instâncias.
Tal qual deveriam ser as escolhas em saúde. Seria obvio e provavelmente consensual que também nela teríamos o direito de poder escolher e opinar.
Temos assegurado o direito de escolha quando se trata de saúde?
Se a pergunta fosse colocada dessa maneira, saberíamos de antemão a resposta: não! Vale dizer que, pelo menos na área da saúde não há escolha possível.
Quando a pessoa busca atendimento em saúde e mais ainda, mas não exclusivamente na esfera pública, forçosamente terá que submeter-se ao esquema padrão e à hegemonia inquestionável da medicina standard.
As medicinas complementares estão praticamente fora do campo de escolha das pessoas e, essa decisão, sempre bom que os contribuintes saibam, é exclusivamente política. Os pacientes têm que se submeterem, necessariamente, as terapias caras e sofisticadas, e pior, muitas vezes sem necessidade.
Vale dizer, se há uma máquina de Ressonância Nuclear Magnética ociosa alguém precisará usá-la e justificar assim custos e investimentos, ainda que na maioria esmagadora dos casos uma boa anamnese também pudesse definir uma boa hipótese diagnóstica.
Reconhecidas e recomendadas pelas OMS as medicinas tradicionais e outras formas de agir terapeuticamente, são diretrizes que não vem sendo incorporadas pela maioria dos órgãos governamentais como alternativa aos enormes custos centralizados em atendimentos hospitalares. A ausência de opção para o cidadão como direito de escolha acarreta ônus extra e não somente aos usuários do sistema público de saúde, mas também, indiretamente, na prática privada.
Assim como criaram reservas de mercado para certos nichos na indústria e comércio, vigora no campo da saúde um tabelamento maquiado para não caracterizar truste. Numa recente prova de força a ANS caçou mais de 200 planos de saúde que vendiam, no afã incontrolável de caçar consumidores da classe C, sonhos de consumo impossíveis.
Os empreendedores dessa saúde mercadológica – agindo abertamente contra médicos e pacientes — também souberam se proteger e elegeram bolsões que garantem, sem muitos riscos, alta lucratividade. Com ou sem felicidade determinam as regras para seus conglomerados que vão dos planos de seguro saúde à indústria farmacêutica, passando pelos parques hospitalares e turismo terapêutico.
As medicinas complementares, práticas de custo muito menor e que privilegiam a atenção primária à saúde produziriam impacto altamente favorável se introduzidas macicamente no SUS e por extensão natural nos planos privados. Ela implica tanto diminuição de custos pela racionalização no uso dos medicamentos quanto menor consumo de procedimentos invasivos.
E apesar de contarmos com um instrumento importante como a política transgovernamental e apartidária que é a PNPICS (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares), todas são providencialmente colocadas à margem do ciclo produtivo dos sistemas industriais que hora regulam a saúde no Brasil.
Essa direção detectada não favorece nem uma boa pedagogia médica, nem a educação dos usuários, cada vez mais seduzidos pela idéia discutível de que a última palavra em medicina é sempre o novíssimo medicamento ou a terapêutica recém saída do forno.
O historiador de medicina Henri Sigerist, ainda na virada do século XX, sugeria que a única forma de verificação da segurança e real eficácia das terapêuticas seria que centros independentes de pesquisa pudessem controlar e distinguir o que realmente funciona sem prejudicar, daqueles procedimentos inócuos ou aparentemente eficazes mas altamente nocivos.
O Estado em dobradinha com o capitalismo selvagem nunca operou tão aberta e confortavelmente. Não sendo tão lucrativas, não fica difícil deduzir as razões do preterimento dos direitos sobre nossas escolhas.
Só uma opinião pública crítica e ativa pode modificar isso.
Nesse caso, a liberdade de escolha será um passo a mais no percurso até a felicidade.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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A Verdade Lançada ao Solo no portal InfoEscola

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Confira a nota que o portal deu sobre o livro de Paulo Rosenbaum:

InfoEscola

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Interregnos e preconceito de classe

Interregnos e preconceito de classe

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum+A-AImprimirPublicidade

Uma era terminou sem que outra surgisse. Isso pode ser chamado de hiato, mas também de interregno. Quando surge um vácuo no poder ou algo não está definido como poder. Mas poder é muito mais que o político eleitoral. Há poder na história e na cultura. E é esse que derruba o que outras forças não conseguem. Parece que ninguém se deu conta ou não leu o obituário da pós-modernidade e o vácuo de história que se criou com seu desaparecimento. O interregno é exatamente esta área de transição, vácuo, onde o que já era acabou e o que deveria nascer ainda não apareceu. Desapareceram utopias políticas, mas não sonhos megalomaníacos ou a tentação autoritária.

A revolução ciber-tecnológica e seus avanços mudaram radicalmente parâmetros de crença e comportamento, mas não se pode afirmar que se criou uma nova cultura. O efeito mais visível até aqui foi testemunhar aditos ao mundo virtual. Só como exemplo: cerca de 58% dos jovens afirmaram usar os fones para teclar mensagens de texto enquanto dirigem. No entanto, um tópico como “decência com a coisa pública” nem precisa mais de consenso. Aqui e alhures, são sempre os mesmos, — ou os da mesma família — os mesmos fatos, as mesmas Cpmis.

A decência, esse tema que foi tema dos principais tratados, dos mais renomados filósofos, nem mesmo é um valor a ser contemplado. A pulverização dos valores serviu bem ao desmonte das certezas conservadoras e para dar voz à dúvida contemporânea. E o resultado foi nos arremessar a um mundo de tal pluralidade, cuja abundância praticamente anula as chances de formação de qualquer paradigma. Não dá tempo. A impossibilidade de saber onde e com quem havia de se conhecer a verdade nos coloca todos juntos, cada vez mais perdidos. Não é ao dogma “verdade”, nem mesmo qualquer aspecto da verdade.

Nesse caso, nem matemática, nem estatísticas resolvem. Um dos desdobramentos tardios da morte de qualquer expectativa de que exista qualquer verdade foi o relaxamento com a perspectiva filosófica (o que também significa espiritual). O filósofo Roger Bastide já previa que o século 21 seria marcado pela volta das religiões e da busca interior. Sem ela, nós, “os comedores de feijão”, vivemos à mingua. Nosso único anfitrião no horizonte existencial tem sido o materialismo em suas várias modalidades. Ali, o expoente máximo tem sido o agressivo capitalismo selvagem, incluso o praticado pelo Estado.

Mas é claro que a política contemporânea dispensa filósofos, poetas ou sonhadores de qualquer espécie, jamais seria permitido que entrassem na festa para denunciar as arapucas que distribuíram em cima dos muros do país. Porém, há agora bons motivos para temê-los, já que o discurso ideológico assumiu terrível similaridade. Não é só nas fotos de grandes alianças que fica impossível distingui-los.

A propaganda eleitoral — prova indireta disso — tornou-se um campeonato involuntário no qual os candidatos vêm se esforçando para ver quem vai levantar o troféu do menos original. A propósito, quem vê a programação de péssimo nível da televisão pode atestar isso. A exploração do escândalo, das matérias apelativas, do enaltecimento do senso comum tem sido tão hegemônica que custa achar opções viáveis fora da TV paga, também nenhuma maravilha.

Muitas vezes, parte-se de um princípio equivocado quando se assume que a tentativa de trazer informações mais refinadas às pessoas que mudaram de patamar financeiro pode ser vista como colononialismo cultural ou preconceito de classe. Em outras palavras, significa que a nova classe C não precisa ou merece uma cultura ampla, acesso à literatura ou dramaturgia sofisticada, programas de debates ou jornalismo crítico. O que segundo o comando central ela merece é ser condenada a incrementar os elementos que já integram sua identidade. Nossa sorte é que o brasileiro comum parece ter nascido imunizado contra a mediocridade, e mesmo com todas as conspirações em curso ousa ser criativo. Pode operar a vida de acordo com uma malandragem do bem, o que torna tudo mais leve, quando o povo precisa se defender do Estado.

Não se pode prever muito em longo prazo, mas é provável que a mesmice terá seu fim decretado pelos mesmos com os quais a elite política mais conta no momento, a saber, aqueles que vão aos poucos percebendo que o grande golpe tem sido acorrentá-los ao endividamento sem fim.

Mas o pior será quando as massas descobrirem, deliberadamente, que, para consolidarem o projeto de poder, seria necessário manter a opinião pública do povo à margem da cultura, da informação de qualidade.

É graças a essa natureza que o que está aí encontra-se com os dias contados. Quando se vira a página, a mudança costuma vir sem alarde. Que ninguém se afobe, saberemos quando chegar.

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Vidraças da justiça e o Executivo redentor

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Vidraças da justiça e o Executivo redentor

O jato da FAB ultrapassou a barreira do som e estilhaçou as vidraças do STF. Foi um evento espetacular e chocante, mas se os símbolos ainda têm algo a dizer, é nossa obrigação debruçar sobre eles. Pois há um mundo onde nem tudo é casual e os fenômenos não são aleatórios. Pouco provável que tenha sido imperícia dos exímios pilotos.
Não defendo nenhuma hipótese mística ou paranormal: não pairam mais dúvidas de que concentração de energia é um fenômeno mensurável. A nanotecnologia e a microfísica contemporânea, já avançaram para demonstrar que, no jogo de íons, a matéria pode concentrar ou dispersar enormes quantidades de energia. E forças psíquicas entram com poder para afetar essa contabilidade.

Os transtornos foram relativamente pequenos, e, ainda bem, ninguém se feriu gravemente. Alguns ministros tiveram que se deslocar para prosseguir trabalhando.

Há unanimidade que os dois mandatos do PSDB e os dois e meio do PT promoveram significativos avanços sociais e a justiça ampliou suas perspectivas.

Mas a venda que recobre a estatua da justiça precisa de urgente restauro.

O ex-ministro poderoso que caiu fora de dois governos foi autorizado a recolher salários acumulados enquanto o caseiro que o denunciou está a ver navios, o poder de pressão e confisco do sistema financeiro sobre o cidadão comum aumentou desmesuradamente, os planos de saúde montaram verdadeiro esquema lesa-pacientes numa área sensível em que o cidadão é o bode expiatório preferencial. O contraste nessa área não poderia ser mais absoluto quando se imagina o plano de saúde vitalício assegurado para ex-parlamentares e ex-governantes.

Assim como há consenso sobre os tais avanços da sociedade, esboça-se uma percepção na opinião pública de que algo se deteriora no quesito direitos civis e equidade. Assim as áreas que vem dando nítidos sinais de retrocesso podem ainda estar no plano sutil, destarte estarmos diante de fatos gravíssimos. Claro que os índices de aprovação da atual administração ainda não refletem esse desgosto, pois a maioria vincula bom governo com poder de consumo e crédito fácil. Aí ficamos bem na fita, ainda que comprometidos no cinema de longo prazo.

A independência dos poderes, uma das bases da República democrática vêm sendo aos poucos substituída por um “executivo redentor” que insinua que os poderes legislativo e judiciário só servem para atrapalhar a performance daqueles que administram.

Não é nada fortuito que a corda aperte o pescoço exatamente na hora em que o processo do mensalão está para ser julgado depois de sete longos anos. Estamos diante de uma dupla forca. Todos sabem que o que está em jogo ali vai muito bem além da justiça tardia. Apesar de confiar na lisura e capacidade de discernimento dos meritíssimos, suspeita-se que pressões externas ao tribunal transbordem o que um ser humano pode suportar.

À boca pequena já circula a versão que alguém “já queimado” assumirá o crime e os outros estarão livres para prosseguir em suas carreiras, rumo às aspirações maiores da existência: o poder.

Isso é o que mais amedronta.

Uma impunidade dessa ordem e nesta escala produz efeitos históricos com amplas repercussões, inclusive biográficas. Caso saiam vitoriosos, explorarão as presumidas inocências como mais uma prova da conspiração cantando a derrota da “burguesia lacaia”.
Aos poucos, valores como honestidade, trabalho e esforço vão sendo ideologizados em banho-maria para serem transformados e servidos a la carte como “moralismo reacionário”. E como é fácil seduzir aqueles que não ousam pensar pelos próprios meios, teremos que nos conter diante de um eventual cala-boca dessa ordem de grandeza.
O atual governo tem sido pródigo nas mensagens dúbias e em produzir a desmoralização seletiva. Muitas vezes comprometendo a moderada e histórica boa atuação do Itamarati, se servem do Estado para colocar o país em situação embaraçosa perante a opinião pública mundial. Aproximação com ditadores, retórica anti norte-americana, a afoita intermediação fracassada para proteger a política militar atômica do Irã, e, por fim, a entrada relâmpago da Venezuela no Mercosul, exemplos desse oportunismo que vigora entre gaviões da política externa da Brasília atual.

Mas é claro que nenhum deles se manifestou quando Hugo Chavez despachou seu chanceler para convencer os militares paraguaios a desafiar a ordem institucional daquele país e ir contra a decisão do parlamento. Em outras palavras, o déspota venezuelano oferecia suporte para um golpe. Se faltaram chances para a ampla defesa de Lugo – e decerto faltaram – um crime não justifica outro, como diz o famoso aforismo.

Para o cidadão há o consolo de torcer. Assim como ontem vibramos todos por um título inédito para o Brasil, devemos usar a mesma energia para enviar força e coragem simbólica aos árbitros do país.

O que custa pensar no melhor?

Às vezes estragos na fachada induzem inesperadas reformas no prédio todo.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A verdade Lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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