Interregnos e preconceito de classe

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum+A-AImprimirPublicidade

Uma era terminou sem que outra surgisse. Isso pode ser chamado de hiato, mas também de interregno. Quando surge um vácuo no poder ou algo não está definido como poder. Mas poder é muito mais que o político eleitoral. Há poder na história e na cultura. E é esse que derruba o que outras forças não conseguem. Parece que ninguém se deu conta ou não leu o obituário da pós-modernidade e o vácuo de história que se criou com seu desaparecimento. O interregno é exatamente esta área de transição, vácuo, onde o que já era acabou e o que deveria nascer ainda não apareceu. Desapareceram utopias políticas, mas não sonhos megalomaníacos ou a tentação autoritária.

A revolução ciber-tecnológica e seus avanços mudaram radicalmente parâmetros de crença e comportamento, mas não se pode afirmar que se criou uma nova cultura. O efeito mais visível até aqui foi testemunhar aditos ao mundo virtual. Só como exemplo: cerca de 58% dos jovens afirmaram usar os fones para teclar mensagens de texto enquanto dirigem. No entanto, um tópico como “decência com a coisa pública” nem precisa mais de consenso. Aqui e alhures, são sempre os mesmos, — ou os da mesma família — os mesmos fatos, as mesmas Cpmis.

A decência, esse tema que foi tema dos principais tratados, dos mais renomados filósofos, nem mesmo é um valor a ser contemplado. A pulverização dos valores serviu bem ao desmonte das certezas conservadoras e para dar voz à dúvida contemporânea. E o resultado foi nos arremessar a um mundo de tal pluralidade, cuja abundância praticamente anula as chances de formação de qualquer paradigma. Não dá tempo. A impossibilidade de saber onde e com quem havia de se conhecer a verdade nos coloca todos juntos, cada vez mais perdidos. Não é ao dogma “verdade”, nem mesmo qualquer aspecto da verdade.

Nesse caso, nem matemática, nem estatísticas resolvem. Um dos desdobramentos tardios da morte de qualquer expectativa de que exista qualquer verdade foi o relaxamento com a perspectiva filosófica (o que também significa espiritual). O filósofo Roger Bastide já previa que o século 21 seria marcado pela volta das religiões e da busca interior. Sem ela, nós, “os comedores de feijão”, vivemos à mingua. Nosso único anfitrião no horizonte existencial tem sido o materialismo em suas várias modalidades. Ali, o expoente máximo tem sido o agressivo capitalismo selvagem, incluso o praticado pelo Estado.

Mas é claro que a política contemporânea dispensa filósofos, poetas ou sonhadores de qualquer espécie, jamais seria permitido que entrassem na festa para denunciar as arapucas que distribuíram em cima dos muros do país. Porém, há agora bons motivos para temê-los, já que o discurso ideológico assumiu terrível similaridade. Não é só nas fotos de grandes alianças que fica impossível distingui-los.

A propaganda eleitoral — prova indireta disso — tornou-se um campeonato involuntário no qual os candidatos vêm se esforçando para ver quem vai levantar o troféu do menos original. A propósito, quem vê a programação de péssimo nível da televisão pode atestar isso. A exploração do escândalo, das matérias apelativas, do enaltecimento do senso comum tem sido tão hegemônica que custa achar opções viáveis fora da TV paga, também nenhuma maravilha.

Muitas vezes, parte-se de um princípio equivocado quando se assume que a tentativa de trazer informações mais refinadas às pessoas que mudaram de patamar financeiro pode ser vista como colononialismo cultural ou preconceito de classe. Em outras palavras, significa que a nova classe C não precisa ou merece uma cultura ampla, acesso à literatura ou dramaturgia sofisticada, programas de debates ou jornalismo crítico. O que segundo o comando central ela merece é ser condenada a incrementar os elementos que já integram sua identidade. Nossa sorte é que o brasileiro comum parece ter nascido imunizado contra a mediocridade, e mesmo com todas as conspirações em curso ousa ser criativo. Pode operar a vida de acordo com uma malandragem do bem, o que torna tudo mais leve, quando o povo precisa se defender do Estado.

Não se pode prever muito em longo prazo, mas é provável que a mesmice terá seu fim decretado pelos mesmos com os quais a elite política mais conta no momento, a saber, aqueles que vão aos poucos percebendo que o grande golpe tem sido acorrentá-los ao endividamento sem fim.

Mas o pior será quando as massas descobrirem, deliberadamente, que, para consolidarem o projeto de poder, seria necessário manter a opinião pública do povo à margem da cultura, da informação de qualidade.

É graças a essa natureza que o que está aí encontra-se com os dias contados. Quando se vira a página, a mudança costuma vir sem alarde. Que ninguém se afobe, saberemos quando chegar.

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