Cabeça de eleitor e eficiencia excessiva

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Cabeça de eleitor e eficiência excessiva

Desde a fundação da democracia grega um mistério perdura: o que afinal se passa na cabeça do eleitor?

Não se pode prever como cada um vota, mas hoje em dia existem rastreamentos — tracking eles chamam — que capturam tendências e movimentos eleitorais com irritante precisão. Como será que conseguem? Como sondam mentes tão oscilantes e indecisas? Certo, há voto consolidado, fiado e até o cabresto de transferência: uma espécie de aberração moderna que induz o eleitor a votar em quem alguém indica.

Temos uma presidente e agora ex-ministros que querem o posto. Pode até ser que um ou outro estivesse preparado para a função, mas por que sempre aparentam desconforto? Lembram muito aqueles marionetes que gostariam de se livrar dos ventríloquos mas já esqueceram como é a própria voz. As vezes, o único mérito foi ter sido ungido pelo chefe e convencido pela claque de robôs. Depois é que chega a dificuldade em se manter nas próprias pernas e a indisfarçável e humilhante co-dependencia do criador. Desta vez o preço do apoio foi a cabeça de Ana de Hollanda, autosuficiente demais.

Recentemente economistas da Universidade Cambridge sentenciaram o capitalismo como o melhor sistema econômico inventado pelo homem. A ressalva é que é importante: não estão se referindo ao capitalismo dos últimos 30 anos. Esse capitalismo recente, chamado de ”acionário”, é feito para beneficiar uma parcela mínima das pessoas. Financista, protecionista e autorreferente ele faz parte de uma corruptela, um desencaminhamento do pensamento econômico. E assim é porque o que o regula não é a busca por sistemas de produção que se retroalimentam. O que o capitalismo da globalização busca é a satisfação do capital de curtíssimo prazo, a verdadeira obsessão dos acionistas de tempo real.

Retomando ideias de Richard Stone, premio Nobel de economia de 1984, suspeita-se que estamos sendo vítimas de excesso de eficiência. Sim é isso mesmo! Em outras palavras seria preciso colocar “areia” na engrenagem do sistema para que este freasse o ritmo frenético. A ideia é boa, senão revolucionária, porque vai no contrafluxo das ordens do dia: alta lucratividade, eficácia, azeitamento da máquina, em uma frase, mais de tudo.

Em resumo, é como se fosse necessário uma moderação que interrompa o excesso de imediatismo. Já que ele se revelou um monstro fora de controle. Como se precisássemos saber menos para deixar que o tempo ajeite as coisas antes de muda-las à toque de terabites por segundo.

A analogia com o corpo também faz sentido. Se a cada oscilação metabólica fizéssemos intervenções, muito provavelmente não duraríamos até o fim da adolescência. Numa sociedade inundada por informações on-line aumenta o perigo do intempestivo.

É preciso deixar que opere uma lei pouco conhecida – inclusive por parte da tecnomedicina — chamada de autoregulação. Conceito em decadência já que temos a ilusão de que é o instante que nos coloca no topo do observatório.

O que isso tem a ver com a primeira parte do artigo? É numa era como essa onde se requer máxima eficácia como premissa de sucesso que nos acomodamos com a exigência dos imediatismos políticos.

Controle a inflação gerando mais déficit público. Aumente o consumo sem desenvolver serviços e infraestrutura. Deixe que a segurança pública colapse. Ressuscite a máxima do “centrão”: é dando que se recebe. São as regras de ouro no manual do mau gestor. Aderir aquele que promete mais vantagens no curtíssimo prazo. É assim que votamos guiados pelo estomago, orientados pela náusea, e as vezes só para impedir que lá cheguem aqueles que nos parecem repulsivos. O eleitor vive com a corda no pescoço e com as mãos sobre o nariz.

A maior parte daqueles que deveriam nos representar perdem ou já perderam as marcas de identidade. Viraram personas, máscaras públicas descartáveis que usam a cada quatro anos. Farsa que teve inicio nas leis de exceção do regime militar e que se prolonga neste prólogo de democracia.

O problema é que haveria formas para escolher com menos inexatidão nossos representantes. Como câmeras abertas 24 horas em cima dos candidatos seriam politicamente inviáveis, a outra perspectiva seria propor debates surpresa. Sem regras previamente conhecidas dos assessores. Escolhido um ambiente inusitado teriam que mostrar quem são e como pensam apartados de seus progenitores políticos. Para a maioria deles seria um desastre. Infortúnio de uns, sorte de todos nós!

Esta obrigação à autenticidade seria uma data memorável: o dia da libertação do eleitor.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

Das heranças, narcisismos e ópio eleitoral

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Das heranças, narcisismos e ópio eleitoral.

O Rei Salomão já sabia, a vaidade é um osso duro. Ela pode se transformar num problema insolúvel, o narcisismo. E diante dos espelhos, aqueles que gozam de poder conseguem os melhores closes, acima dos demais mortais.

É universal, o poder obscurece a crítica. De qual outro modo constatar que cada líder – do síndico de prédio ao presidente — se acha o rei da cocada preta. Os avanços desde a redemocratização – projeto longe de estar consolidado – vão sendo enterrados pela enxurrada de acusações mútuas. Normal a troca de farpas, anormal é levá-la a sério.

A verdade incômoda é que sem FHC não haveria Lula. Sem o plano real não existiria estabilização e sem ela não viveríamos o ciclo atual. Mesmo não sendo tudo isso, parece unanimidade que o país melhorou do ponto de vista econômico. Tomara que a bolha perdure.

Estas duas últimas administrações federais são tão codependente e, de certa forma, integram um projeto de continuidade involuntário. O PSDB pode ter errado e continua errando, agora como oposição. Se houver insistência neste caminho — o desacertada opção em não enfrentar com força a popularidade do lulismo, a oposição terá dias ainda mais difíceis. E o preço desta afasia é que deixa o caminho aberto para grupelhos barulhentos que vociferam, apostando na paralisia do País.

O mérito do artigo de FHC que gerou a reação da presidente foi ter condensado numa única frase o pesado diagnóstico: a gula petista por hegemonia. Não é de agora. Isso vem lá de longe. O velho Brizola já sabia. Todos que acreditaram no partido refundado anunciado por Tarso Genro depois do escândalo do mensalão viram que nem uma só viga subiu. Não foram só as alianças espúrias e o desmantelamento do discurso da ética, que veio junto com a queda livre do hoje incomodo conceito. É a recusa em admitir os erros, seguindo o exemplo do chefe, tornou-se tática coletiva. O notável nessa convicta estratégia mitômana é a desqualificação da autocrítica, um dos poucos métodos para o aperfeiçoamento político.

Há um resultado prático que emerge da guerra insana entre o PSDB e o PT: elas catapultam oportunistas que surfam na perplexidade do eleitorado. O atual líder das pesquisas em São Paulo é uma espécie de prova empírica de que isso é bem real. Há uma crise de credibilidade generalizada que traz o eleitor para a mesma descrença do torcedor quando descobre que o jogador tem um seguro bilionário das pernas. Ninguém mais faz nada pela causa nem sua a camisa por altruísmo. Vamos encarar, essa é uma sociedade de consumo.

O doping não é proibido nas práticas esportivas? Pois o TSE poderia passar a entender marketing e propaganda política, do modo como estão atualmente dispostos, como tentativa de dopar e viciar eleitores. Assessores cochichando qual é a melhor forma de tergiversar, é o ópio infundido. A última palavra em falta de escrúpulos é o uso das mães como laranjas para favorecer os projetos políticos de governadores e ex-ministros. Até a mãe no meio eles colocam! O resultado geral é um ilusionismo, profissionalmente realizado, que destrói a possibilidade do eleitor discernir onde está e mesmo se há qualquer autenticidade nos candidatos.

Precisamos de novidades, não exatamente de caras novas. Aqui e ali esperanças correm por fora e o eleitor, diferentemente dos políticos profissionais, precisa exercer a critica na hora de votar e colocar mais exigência em suas escolhas. Temos que estudar o catálogo e riscar os supérfluos do menu. Vai sobrar quase nada.

Como estamos em uma sociedade segmentada e ainda não temos o voto distrital temos que nos contentar com segmentação dos votos. Cada um deve escolher candidatos de acordo com preocupações locais e que afetam diretamente sua comunidade. Alguém que transita entre literatura e medicina, por exemplo, escolheria prefeitos e vereadores que se preocupassem com a saúde das cidades. Isso é, que se propusessem junto com a população e demais partidos, torná-las mais habitáveis e acolhedoras. Claro que isso passaria pelos temas do meio ambiente e cultura, além das propostas práticas e criativas para dar ênfase a atenção primária à saúde incluindo técnicas e práticas integrativas (o que excluiria de cara os candidatos que querem solucionar tudo com hospitais).

Se quiser amadurecer a democracia, diferentemente dos bons vinhos, precisa ser agitada, exposta às intempéries e até mesmo surrada. Sem isso, vai para o vinagre.

Prefiro a utopia branda de John Lennon. Imaginem se funciona!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/06/herancas-narcisismos-e-opio-eleitoral/
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Atitude política e recusa ao jogo político 

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Agosto de 2012

Sociedade Aberta

Coisas da Política Hoje às 06h16

Atitude política e recusa ao jogo político
Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

Há muito a nação não se debruçava sobre uma causa! Virou legítima metáfora obsedante, comparável aos grandes pleitos eleitorais, jogos de futebol e festas populares. A esquerda que há pouco denunciava alianças espúrias abusa da sopa que condenou. A direita adotou o discurso da ex-esquerda, versão piorada, como se isso fosse possível. Se o leitor pensou em teatro, está este mais para a dramaturgia do absurdo. Por isso mesmo, a difícil missão é explicar para as pessoas qual é a verdadeira natureza do político. Ela não existe, talvez nem eles mesmos saibam, ou de tão multifacetada precisamos abdicar e nos render à duvidosa generalização do senso comum de que ”político não presta”. Essa é, aliás, a raiz psicogênica do mensalão. Quando lá atrás Lula fez o diagnóstico dos “picaretas” que habitavam a Câmara Federal, ele já anteviu a terapêutica: compre-os!

Não saberia dizer muito sobre os veredictos proferidos, mas a hermenêutica afirma que podemos aprender muito com os processos e a sua linguagem. As pessoas têm preferido a alienação ao engajamento, e dá para entender perfeitamente por quê. O homo politicus tem sido uma espécie de anti-herói. Estamos todos fartos deles, e o fenômeno sociológico é mundial.

É nessa atmosfera que idealizamos quem será aquele que pode resistir ao poder, fama, prestígio e dinheiro que deles fluem? Será mesmo que existe um sujeito com esta envergadura, com desapego, capacidade de ser republicano, e, se preciso for, ir ao sacrifício enquanto todos parecem sucumbir? Martha já cedeu às promessas ardilosas! Terá trocado toda indignação por um lugar de vice na chapa pura do PT para 2014?

O fato é que com um panorama destes, sem renovação, somos obrigados a examinar a natureza íntima do político. Nada de vasculhar sua vida pessoal, mas suas motivações. Não que a democracia não acabe nos facultando esse direito, principalmente quando os candidatos,querendo trazer a intimidade “favorável”, se apresentam-se como “exemplares pais de família” ou sob o infalível “de origem humilde”, sem contar a barbárie de enaltecer a ignorância como uma espécie de honraria digna de louvor.

Apesar da atenção do TSE, ainda se compram votos no Brasil. Pode ser com oferta de transporte de ônibus no interior do agreste, mas pode ser pela TV, emulando bilhetes grátis e benesses infindáveis insinuadas aos sufragistas apoiadores. A mídia nos deve uma contracampanha para explicar aos desinformados que isso aí sai do bolso dos próprios cidadãos contribuintes. Esse paternalismo primitivo ainda é a forma de sedução que funciona e o grande Guia compreendeu isso com maestria, mas não se condena para sempre um povo à puerilidade. Uma hora as fraldas caem, a merenda não satisfaz, os dentes vão querer mais do que leite. A fissura de verdade é por serviços públicos de qualidade, educação e trabalho, não de bolsas engana-trouxas e esmola para incautos.

Pois é nessa atmosfera que a opinião publica, insignificante, omissa e sofrida enxergou no juiz negro, arredio e com semblante de promotor, uma espécie de resistência heroica. Joaquim Barbosa, aquele de quem se dizia, aos sussurros, que “jogava para a plateia”, emerge do tribunal como uma das raras e expressivas figuras da República que encarna não exatamente a figura de herói — afinal, a vaidade é um componente importante para a vida pública — mas a de um sujeito que esbraveja ante a cooptação, às maledicências da boca pequena, o conluio civilizado das mesas gigantes de escritórios poderosos. Sempre preferi advogados aos juízes e promotores, mas, desta vez, é preciso render-se à homenagem.

O juiz que se dobra na capa não tem muito a esconder, e ainda consegue ser claro, especialmente autêntico, característica que, desvalorizada, caiu no descrédito: ele não dissimula. Vai na contramão do coaching pregado por headhunters quando orientam seus pupilos: sejam estudadamente espontâneos!

Joaquim Barbosa simplesmente não consegue deixar sua transparência de lado. E sua oposição à acomodação, à civilidade sem brilho, cria na corte aquilo de que mais precisamos neste momento: o conflito justo, a reação à norma, um ponto de desvio que cede ao impulso e à legítima estupefação. Uma oposição à máquina de moer acoplada à Brasília.

Barbosa gera admiração exatamente por sua atitude política de recusar o jogo político. Ele deverá perder, poderá perder, certamente perderá! E com ele, todos nós um pouco. O que ganha alguém que não se deixa dominar e se insurge às cooptações políticas? Nada!

Terá apenas preservado a vela orgulhosa, aquela que confia no próprio brilho. Considerando a exiguidade das nossas vidas, a história passa a ser o juiz mais formidável já inventado.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (ed. Record)

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Ideologia, quero uma para esquecer

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Coisas da Política

25/08 às 06h05

Ideologia, quero uma para esquecer

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

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Em seu tempo o filósofo grego Sócrates falava de uma juventude sem valores, perdida e apática, que parecia somente se importar com o imediato e buscar o caminho das facilidades. Como se vê, abundam exemplos na história de que estamos nos repetindo.Quando Cazuza formulou sua famosa letra no álbum Ideologia, vocalizou e capturou perfeitamente o arquétipo de uma geração. A ruína do socialismo, a crise das religiões e a truculência capitalista nos lançaram no mesmo vazio com que filósofos, como Pascal e Nietzsche, já se deparavam em suas respectivas épocas.

A reação ao monstruoso vazio foi tardia. Duas décadas depois ela chegou explosiva com o ressurgimento da história, que apenas e astuciosamente hibernava para desespero dos teóricos de Harvard. O terror, o retorno selvagem das tradições religiosas como armas e o acirramento no entorno das ideologias, infelizmente não nos trouxe uma nova Renascença, como se esperava.

A bancarrota sucessiva de guias fáceis, diretrizes mentais e líderes duvidosos nos obrigou à busca de atalhos para conseguir sobreviver ao deserto. Esta aridez chegou à política. Que os leitores me desmintam, mas isso só vale para quem puder ouvir o programa eleitoral gratuito até o fim. Lá há de tudo, mas predominam vozes estudadas, promessas vagas idênticas, e a solidária ausência de sinceridade para com o eleitor.

As sessões diante da TV justiça também não parecem ser solução, muito menos com a mensagem subliminar de que a partir dali “passaremos o país a limpo”. Deveríamos, isso sim, começar a ficar preocupados com o discurso moralista dos que nada devem. A sede por punição e a sanha pela impunidade acabam se anulando e, pior, retiram o mérito do processo — que importa mais do que o resultado — já que a questão em jogo transcende eventuais condenações e absolvições. Mas, e se a moda pega? Lembram-se dos fiscais do Sarney? E se houver a tal onda moralizadora que apanhe e queime todos nós na ratoeira das transgressões? Quem sobraria do lado de fora do caldeirão dogmático? Será um pouco entediante, sobretudo estranho, observar da jaula os poucos felizardos a gozar de liberdade. Um julgamento só deveria ser espetacularizado assim se a discussão, pedagógica, ficasse centralizada nos conceitos de verdade e justiça.

Será que existe uma ética da esperança? Fosse eu filósofo com algum poder, começaria com o pedido de condenação sumária da convicção. Para ela, não caberia habeas corpus, suspensão da pena ou direito a outras instâncias. Homens de convicção são aqueles que, de antemão, já bateram os martelos por toda a vida em todos os assuntos. Opinião formada, cabeça feita, não é assim que eles se apresentam? Homens de convicção podem cometer crimes para, em seguida, indultarem-se. Para eles, é tudo preto no branco, certo ou errado, isso ou aquilo. Para estas almas resolutas nascidas sob o signo da certeza absoluta e da causa, não existem zonas cinzentas.

A ética da esperança teria como inciso primeiro do parágrafo único a regra que nenhum outro código teve coragem ou vergonha para estabelecer: somos tão falíveis e tão pouco autoconscientes que é provável que aqueles a quem julgamos com tanta sabedoria todos os dias, às dezenas, sejam melhores que nós.

Se não dermos invertidas corajosas à lógica da razão, quais chances teremos para mudar qualquer coisa? Muitas mudanças na humanidade começaram com pequenas inversões de sinal. Em geral, oposta aos gritos da maioria. Se pensarmos bem, em matéria de ousadia, precisamos mais do raro do que do comum. Atravessamos o século 19 e o 20 com as duas guerras mais sangrentas da história e chegamos ao século 21 sem nenhuma garantia de que esses erros não se repetirão. Será que não há nenhuma tomada de rédea à vista? Só assim o destino não teria meta pré-fixada, como acontece no planejamento de vendas e mercados futuros.

A quase única resposta para esta prisão chamada ideologia é assumi-la como um parasita que tenta nos convencer de que precisamos de pernas e cabeças alheias para viver. Por isso mesmo, simplesmente sensacional a figura de linguagem “voto de cabresto”, mereceria figurar no Oxford Dictionary como expressão idiomática local com caráter universal.

Deve haver algum motivo para que, ao nascer, sejamos os animais com menor autonomia dentre todos os mamíferos. O verdadeiro poder não está nos mandatos, e sim em assumir passos próprios. Só assim o Estado seria um servidor da comunidade e não seu demiurgo. A democracia, como uma criança, também precisa aprender a se movimentar e dizer do que precisa e do que pode prescindir para crescer.

Ninguém disse que seria fácil, e talvez nem mesmo haja escolha, mas quem não aprender a andar sozinho vai rapidamente virar passado.

Para comentar acessar o link do JB:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/08/25/ideologia-quero-uma-para-esquecer/

Foro especial para Assange

Foro especial para Assange

Porque ele merece foro especial por uma acusação de abuso sexual? Só há uma resposta, O curso “Livre-se deles” oferecido cá. Trata-se de pós lato sensu, é não presencial e entre os palestrantes estão políticos de Brasília. Formou-se com louvor. Crime comum, Maracutaia, Violação de privacidade? Esconda-se atrás de imunidade parlamentar, sindical ou qualquer uma destas que tornam uns mais iguais que os outros.  Mas o mais singelo é ver o perseguidor de jornalistas Correa acolhê-lo. Vai entender!

Internacional Teocrática

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Internacional teocrática.

Acabaram-se as Olimpíadas mas a vibração continua fora dos campos e das raias olímpicas. O brasileiro – até as padarias tem deixado a tela acesa na TV Justiça – ainda espera pelo justo, e sem compreender a linguagem jurídica a conversa que se ouve nas ruas é “vamos ver no que isso vai dar”.

Mas hoje o mundo opera numa simultaneidade caótica. Sempre foi assim, a diferença é que a informação online nos obrigou à onisciência. Enquanto o mensalão é debatido, num canal de tevê paga pode-se assistir o documentário sobre quem são os atuais líderes do Irã. Imaginem, mas a realidade é pior do que parece. A estratégia persa para controlar a região é estarrecedora. Explicitamente o regime dos aiatolás e sua guarda revolucionária traçaram planos onde mundo é o limite. Graças aos bons negócios que empresários europeus e de muitos outros países fazem no mercado negro o boicote internacional simplesmente não tem funcionado, faliu, conforme as câmeras da TV britânica provaram. O mercado central de Teerã repleto de mercadorias de última geração, dos americanos aos chineses. Plataformas e tecnologia para extração do petróleo foram compradas da China depois que os Estados Unidos e União Europeia se recusaram a vendê-las ao iranianos. Componentes para usinas atômicas estão chegando em dia, da Coreia do Norte e Rússia, sem prejuízos ao cronograma para obter a bomba nuclear.

A verdade é que o regime de Teerã se internacionalizou e é com essa ideologia que eles tem aumentado a presença em vários pontos do globo. Depois que G. W. Bush nos fez o favor de trocar o regime em Bagdá a “internacional teocrática” aportou com força total no Iraque e já desestabiliza países na África. A presença de assessores militares iranianos e agentes políticos dentro das fronteiras iraquianas é crescente. Nas palavras de um jornalista iraniano que preferiu o anonimato: “eles sempre consideraram o Iraque como parte do Irã, ainda sonham com o grande império persa”.

A recente prisão de agentes da guarda revolucionária iraniana em Aleppo e a troca de agrados verbais entre Damasco e Teerã, também são pistas importantes para rastrear as intenções dos sucessores de Khomeini. Os assessores militares iranianos se uniram às equipes de extermínio de Assad fornecendo armamentos e logística para a indústria do massacre na Síria. Teerã assegura casa e comida para o clã sírio se tudo der errado. A ONU e a comunidade internacional seguem expectadoras. De onde vêm todo este descaso com os consensos internacionais?

No front, a dobradinha AA, Assad-Ahmanejahd já tem pronto planos derivacionistas como provocar alguma reação norte-americana ou reativar os conflitos com Israel na fronteira ao norte para criar um foco mais sustentável enquanto finalizam o serviço genocida sobre o povo sírio. A planilha incluiria ataques contra alvos via Hezbolhah repassando o máximo de armamentos para a organização terrorista que há décadas constrói sistemas de bunkers e já conta com um expressivo arsenal subterrâneo de mísseis.

Ninguém é santo no tabuleiro explosivo dos jogos de poder, a diferença brutal é que quando Israel, EUA ou qualquer país democrático faz das suas, a imprensa livre – cada vez mais comprometida — tem um colossal alcance e assim exerce poder sobre a opinião publica interna e externa. Completamente diferente dos outros países no oriente médio, inexiste liberdade de expressão. Como tudo é filtrado – destarte passado como realidade — espalham-se ainda mais as fronteiras do rancor antissionista e antiamericano.

Como se não bastasse o apetite pelo jihadismo internacional, os aiatolás de longo alcance estão muito provavelmente por trás de recentes atentados terroristas com tendência a abrir filiais na América do Sul, notadamente na tríplice fronteira. Além do escandaloso e ainda impune atentando contra a AMIA em Buenos Aires, os países da tríplice aliança seguem fazendo vistas grossas a estas perigosas aproximações. Problema grave, especialmente para o Brasil, com a proximidade de dois eventos de relevância mundial.

Para completar suas metas o ditador iraniano vem usando as facilidades oferecida pelo companheiro da Venezuela e paga a conta com pesados investimentos em infra estrutura e campanhas eleitorais. Ninguém se espante se sob os auspícios de Hugo Chaves, e a conivência de Brasília, contarmos com o Irã como próximo convidado do Mercosul.

O que os roteiristas e assistentes esqueceram de prever no script é que a maioria não é corrompível, há exaurimento crescente pela sensação de já termos sido suficientemente manipulados e ninguém mais quer ser escravo da causa nem viver sob o cutelo de quem diz encarnar a divindade.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

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Achou, morreu!

Quem achou morreu,
Quem não procurou, não viveu
Quem viveu nada dirá em nome da surpresa!

Pobre literatura!

O espirito da nossa época empobrece o romance porque obriga os autores a remover dos seus rascunhos o sentimento de estranheza. Revistas literárias endossaram recentemente a “superaçao do realismo fantástico” dos autores latino-americanos. Jean Cocteau também trouxe esta preocupação já atrás, nos anos 30. Se naquela época era o patrulhamento ideológico hoje a pressão vem de outras direções. A nova demanda da critica literária e portanto dos que formam opinião (seja lá o que isso significa) é expurgar toda preocupação com a transcendencia ou com as inquietações do espírito. Parcialidade temporal, pois é o que isso é. Como se não pudesse haver autentica literatura fora da prosa fácil da sub-literatura ou da tradiçao erudita das academicas. Pobre literatura!