Não Basta Viver?

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Não basta viver?

Diz-se que Montaigne respondeu a uma carta cheias de lamúrias e imprecações existenciais de um velho conhecido, e redarguiu com um texto que ofendeu o remetente à morte. O filósofo emendou, numa única frase, um ensinamento que deveria vir gravado nos imas de geladeira ou no google glass:

— E não te basta viver ?  escreveu o francês.

Por que a leitura de algumas poesias e de muitos romances nos dá a sensação de incompletude? Aliás, o que é esta sensação que assola a maioria das pessoas e que muitos identificam com o vazio existencial? Há um nome? É possível defini-la através da elipse, da síntese, da condensação?

Também não se pode apontar o limites do tempo para explicar uma espécie de lacuna final nas obras clássicas. Pode ser que seja um simbolismo dos nossos ciclos de vida. Mas também é cogitável que sejam os limites das histórias que contamos uns para os outros.

Parece que não nos basta mais, ou nunca. Para ninguém. A vida, ela mesma, parece dessignificada e isso explica em parte a banalização da violência e dos conflitos tribalistas presentes na raiz das barbáries do XX e do XXI. Da Síria ao Congo, da China ao Kosovo.

Nossa cultura vai virando uma tradição dos sem tradição. Mas o que parece uma pueril simplicidade vai se tornando improvável no universo intelectual. Nossa natureza gregária e o medo faz com que ainda precisemos pertencer aos grupos, as tribos, ou clubes ou classes para fazer parecer que há qualquer sentido na vida e para a vida. É como se estivéssemos obrigados a adotar perspectivas exógenas para restaurar nossa improvável completude .

E como a vida também pode ser comparada a uma editoração, é o quanto falta para dar o acabamento que importa? Ou as páginas manuseadas e percorridas?

A sensação de que “não é bem por aí” fez longa trajetória até chegar aos nossos dias. Nossas obras são inacabadas como as páginas, que segundo Jorge Luis Borges, jamais chegarão à perfeição. Não se trata de uma estratégia de artista. É que o inacabado imita Deus em performance. Seguindo a tradição judaica – e este é o significado do ano novo — tudo está sendo feito e recriado todo tempo o tempo todo. O incessante não significa acúmulo, mas renovação radical, despojamento absoluto. É como se precisássemos escapar do útero todas as manhãs. Daí a imperfeição intrínseca de toda obra, humana, natural, sobrenatural incluindo as coisas de natureza indefiníveis.

Mesmo assim por que nos bastaria viver como um mérito em si mesmo? Será que o otimismo e a alienação controlada merecem vigilância, descriminação? Esquerda e direita, ambas escravas do monotrilho partilham do mesmo mau humor endógeno: estão escravizadas pela herança materialista. Mas eis um monitoramento que vai para bem além da política. Fomos tão intensamente colonizados por ideias e teorias abstratas tão variadas que já não conseguimos nos desvincular para adotar uma síntese pessoal das coisas. Estamos amarrados para criar. Por isso mesmo a teimosia é uma benção.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/09/06/nao-basta-viver/

Da tolerância e da decência

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Quem insiste em ir contra os consensos. Alguns? Poucos? Os inconformados? Mas, e se muitos desses consensos estiveram costurados às custas de um alimento venenoso? E se for nutriente premeditadamente adicionado para sustentar a confusão e as suspeições. Preparado com astúcia, está temperado com a invencível capacidade mitômana de quem só pensa em ganhar. E, graças a ela, tornou-se possível vender um produto obscuro, como se ele fosse o fruto da maturidade administrativa.

 

O governo poderia adotar uma estratégia mais civilizada, crível e consensual para expor, debater e depois oferecer o programa “mais médicos” à sociedade. E por que não o fez? Fácil explicar: grande jogada de marketing. Além do ganho secundário, que têm gerado, disseminado e potencializado o produto, junto com seu  trunfo político. Pelo menos momentâneo.

 

Faz faz algum tempo que a estratégia sinistra têm sido atiçar a cisão, aguçar a litigância e a rixa entre grupos sociais. Ao constranger médicos e entidades médicas e, indiscriminadamente, joga-las contra a opinião pública a administração federal já nem se preocupa em esconder seu verve ardiloso. Nada de moralismo: nem os cubanos são humanistas natos nem os nacionais são seus antagonistas.

 

A estratégia, óbvia: demonizar os médicos brasileiros como se fossem todos xenófobos, racistas, orgulhosos e insensíveis. Como se estivessem alinhados num boicote sistemático para subverter o grandioso plano saneador do Estado. Para os autocratas de Brasília é a burguesia leniente do avental branco que se recusou atender ao chamado de emergência do estado de calamidade da saúde pública. Vê-se que não foi difícil fazer com que muitos articulistas mordessem a isca. Inúmeros se posicionaram com a arma mais débil e covarde num debate: a generalização.

Para ler mais e comentar

 http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/da-tolerancia-e-outras-impossibilidades/

 

Rir, escrever e as patrulhas do senso comum

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Trata-se de uma reflexão mais ampla mas que se encaminhou também para a pergunta afinal o que querem os autores de nosso tempo? Será que toda literatura deve/pode estar impregnada pelos conteúdos autobiográficos dos autores? Nesse caso – e tomado por certa incredulidade – devemos aceitar o caráter semi-documental da obra literária como parece ser o curso do mundo? Estará ela sempre embasada em fatos reais e nascida dentro dos contextos históricos? Poderá se manter engajada em causas políticas? Sua narrativa deve acompanhar o ritmo contemporâneo e online do jornalismo? Ou há um ressurgimento à vista? Será ele um retorno ao subjetivo, à experiência existencial como base de toda narrativa?

Sou escritor, não teórico, crítico ou especialista em história da literatura, mas aprendi, ou me conformei — já nem sei ao certo, que isso pode ser uma vantagem numa sociedade expertocrata e impregnada de especialistas.

O que se discutia no fundo eram os desdobramentos do famoso estamento de Mark Twain que escreveu que “a única diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção precisa ser crível” [1].

Num documentário sobre o cineasta Pier Paolo Pasolini há uma entrevista antológica do autor no qual compara a edição de um filme com a morte. Obcecado pelo tema tanatológico, o italiano explica que poderíamos fazer 700 versões para o assassinato de J.F.Kennedy e cada uma conterá, provavelmente, uma faceta da realidade, porem somente uma sairá como versão editada. Neste sentido, a edição é uma espécie de palavra final, uma mistura complexa de compostos que estarão ali estratificados e acabados.

Por isso, para ele, qualquer coisa editada equivale a morte. E um homem só se conhece efetivamente depois que passa: edição definitiva. Com o agravante atual de que com a morte do rascunho, assassinado pelos editores eletrônicos de texto, nem teremos mais como saber qual foi o processo criador do artista.

Pode ser que Pasolini tenha razão, mas neste caso o que estamos buscando com a edição? O que define se um livro é bom? Gosto do editor? Sucesso de público? Estilo da escrita? Densidade dos personagens? Na quase ausência de críticos e avaliadores de obras literárias independentes – aqueles que não sejam profissionais que prestam serviços às editoras – vai ficar cada vez mais difícil editar aquilo que Milan Kundera chamou de a razão de ser da literatura, a digressão.

Neste sentido, só a surpresa, a variação de linguagem e capacidade de redigir tornariam possível que o leitor se encontrasse com o texto em campo neutro. Dar vida e materialidade aos diálogos é sentir como se fossemos outros. De certo modo, é o que o escritor tem de vantagem sobre quem não escreve. Não é muito mas se lhe falta esta capacidade significa que seus livros não só serão mais do mesmo, como suas letras desaparecerão na sombra das frações de uma mesmíssima personalidade. É contraintuitiva essa observação já que, neste caso, ser original passa a ser uma inovação duvidosa. Por isso, a auto ficção ou é pleonasmo ou forma muito limitada de expressão: subutiliza a potencial polissemia das vozes para reduzi-la à variações monotemáticas, ainda que cheia de personagens e capítulos.

Kundera brinca e radicaliza:  a narrativa pessoal deve sumir num romance e a compensação pelo silenciamento do ego autoral mereceria a herança de um livro de conteúdo e significado. Para o autor de “O livro do riso e do esquecimento” o valor da literatura está na digressão, no não ideológico, na distante e doce liberdade de ruptura e na apreciação da existência, de preferencia, contra fatos e fenômenos. Isso conta muito numa época conflagrada onde todos são chamados a tomar partido, o do romancista será nenhum.

Porém estamos cercados dos agélastes, patrulhadores do senso comum, aqueles que reduzem tudo, que precisam de currículo, carreira e estampa, que enfim perderiam o bom humor se um dia já o tivessem experimentado.  

Não é difícil reconhece-los. Levam suas biografias muito a sério. E, sem conseguir rir de si mesmos, perdem a capacidade de divertir os outros.

Arautos do preto no Branco

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O que está acontecendo com as pessoas? Por todo lado está mais fácil encaixar uma gritaria, reações desproporcionais, histeria coletiva. Podemos fingir que nada acontece e até achar que não estamos em crise, mas não é possível controlar as idiossincrasias: uma hiper reatividade instantânea se instalou e impera nas relações interpessoais. E, sem alguma harmonia, nem sonhar com estabilidade e paz social.

Tentamos de todo modo dissuadir a paranoia, mas há um método, e o discurso que o constrói.

Alguém está bem satisfeito pela divisão da sociedade e a marcha ruma à polarização.

Dia desses gente truculenta quebrou vidraças de prédios residenciais num bairro de classe média no Rio de Janeiro,  e os moradores desceram á rua para perguntar:

– É assim que vocês protestam? Tentando nos destruir mano?

E a resposta:

– Vai lá burguesinho, fica vendo tudo da tua janela rapá

O curioso é que provavelmente eram da mesma classe social, a hoje quase hegemônica classe média, moravam no mesmo bairro, e não seria absurdo se descobrissem  que os filhos compartilham a mesma escola ou creche. Quem foi capaz de dividir as pessoas assim? Se não há mesmo uma arquitetura magistral e sórdida por trás de tudo isso deve ser a seleção natural fazendo das suas: luta entre classes na mais nova modalidade: luta entre as mesmas classes! Quem mandou a realidade cabular as aulas de filosofia marxista?             

Como luta de classes hoje é um passo anacrônico em direção a um passado impossível novas criações vieram, passaram pela inspiração stalinista e estão chegando até nós com seus refrões intolerantes. Repetidos acriticamente. Berrados a céu aberto. Podem ser xenófobos, classistas, racistas, ou só estúpidos. Definitivamente a grosseria desembarcou aqui.  

Ela está no varejo mas a inspiração no atacado veio do poder. Ela sempre raivosa, comandados na defensiva. Bom humor? Nem pensar. Respondem agressivamente à qualquer crítica. Ai começam a pipocar os saudosistas da ditadura e pronto, reinventou-se o ridículo climinha entre direita e esquerda. Isso só poder ser uma adição. Gente que precisa de uma dose de maniqueísmo diário na veia. Pode vir de pessoas hostilizando médicos, médicos hostilizando outros médicos, e, no fim, a peleja fica clara: jogar a população contra os críticos. O conflito de interesses foi abolido, suspenso por uma MP subjetiva. A crítica e o debate oficialmente criminalizados. Qualquer coisa serve. Como a oposição, esvaziada, perdeu a voz, e os furos do legislativo são auto evidentes, é a sociedade, na perigosa e instável ausência de intermediação política, que fica obrigada a acolher mais este papel.

Para ler mais:

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/arautos-do-preto-no-branco/

Paulo Rosenbaum na Revista Hospitais do Brasil

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O médico e autor do livro, A verdade lançada ao solo, Paulo Rosenbaum fez um artigo sobre o programa “Mais Médicos” do Ministério da Saúde. E a versão online da revista publicou o artigo.

Para além dos cubanos, totalitarismo de resultados

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A polêmica do programa mais médicos agora se direciona francamente ao ideológico. E, a rigor, talvez não seja exatamente um erro, mas um enfoque problemático. Pesquisas encomendadas pelo governo mostram aprovação da vinda de profissionais de outros países, mas está no mesmo escopo da pesquisa que traz a pergunta “você é a favor do combate a corrupção?”ou “concorda com uma reforma que modernize o país?”. Quem acha que as pessoas não apreciariam que todos tivessem atendimento médico decente? Está na constituição, consta que é um motivos da existência do SUS, enfim, uma das poucas coisas em que há consenso é que a medicina não pode ser submetida às estruturas econômicas mercantilistas.

Então porque tanta polêmica com a vida dos estrangeiros e particularmente dos cubanos? Em debate o ex-ministro da saúde disse que eles viriam por “questões humanitárias”. Questões político-partidárias teria sido uma resposta mais próxima da sinceridade.

Na verdade, tudo isso estava sendo articulado bem antes das manifestações, especialmente com dirigentes da ditadura cubana. O governo federal só esperava a oportunidade propícia para anunciar o convênio secreto. E achou que a teria achado em meio aos dias de pressão máxima, quando as manifestações e o desafio ao poder atingiram o perigeu.

Para ler mais:
http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/

Peçamos o inconcebível

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  • Ainda que o gigante pareça estar em crise de narcolepsia e a economia em turbulência, perdura a necessidade de acreditar que nossa jovem democracia avance.  Mais que isso, a fé se tornou um imperativo.

Justiça seja feita. Nos últimos 20 anos conseguiu-se expressivo aumento do IDH da maioria dos municípios brasileiros. Malgrado o país tenha melhorado em muitos aspectos, especialmente na desigualdade social — ainda uma das 10 piores do mundo — não se conseguiu (coletivo, todos nós) inculcar na elite, nos dirigentes e na própria população uma das qualidades essenciais da democracia. Aqui há, sim, um principismo: que assumamos as responsabilidades.

Sem esta qualidade viveremos em solavancos e de sustos. Revolucionar valores tem a ver mais com o mundo que valoriza qualidades do que com o que os grupos escrevem em suas plaquetas. Curioso é que parecem todos as favor. Se não há ninguém contrário às  mudanças, o que estamos esperando?

Mas, e se as regras que permitiriam o resgate da cidadania estiverem cercadas pelas catracas do atraso e de um anacrônico sistema cartorial? E se  a burocracia continuar a engessar a liberdade? Sair por aí contestando sem foco, sem direção e especialmente sem princípios não é saída, é escapatória autoilusória.

Crescer não significa abandonar ambições e expectativas, nem a derrocada da utopia que nunca chegou. O amadurecimento tem a ver antes com enfrentar as consequências dos próprios atos. Não que seja fácil ingressar no mundo adulto, mas é o que podemos exigir dos que postulam e ocupam cargos públicos.

Sejamos sensatos, peçamos o inconcebível, quem sabe conquistamos o plausível?

A maturidade ensina que a demolição prematura de instituições que apenas começavam a funcionar depois da redemocratização do país é o resultado de grave erro de avaliação. Na era do tempo real, sem verdadeiros pactos pelo consenso a governabilidade inexiste ou tem prazo de validade vencido precocemente. Não basta ter a soma dos votos e a maioria. Quando com um clique se convoca uma marcha pelas redes sociais, ninguém pensa no alcance prático disso. O protesto, que era manifesto, que era resistência, que era indignação coletiva, vem adquirindo uma autonomia escusa. E, como se sabe, a violência costuma ser o braço armado do autoritarismo.

Não porque existem vândalos. Os anarquistas que depredam as vias públicas pensam ser revolucionários vem a calhar. Servem bem para construir repúdio por mudanças e mostrar quão pior pode ser. São, portanto, a antítese da revolução. Incorporaram-se à reação porque a sua preocupação está em mostrar força e negar qualquer tipo de poder. Ao mesmo tempo, investem-se de um poder maior, e fazem das multidões um aríete contra qualquer um. Dominados pelo narcisismo primitivo que distorce as imagens e os espelhos, não se enxergam assim. Mas não passam de reacionários perturbados. E eles não estão sós. Por trás dos mascarados que roubam e depredam está uma inimputabilidade inconsequente que o poder, com a anuência da sociedade, vem se outorgando. Pois, não se trata de uma outra via autoritária quando se criam foros privilegiados, justiça inacessível e/ou subordinada?  Quando ficam evidentes os critérios seletivos para o que se costuma chamar “igualdade de oportunidades”?

Para cada autêntico beócio predador que se infiltra nos protestos há um correspondente que se esconde na vidraça blindada das autoridades, dos palanques, no palavreado autocongratulatório e nos discursos de posse. Trata-se da dupla face, ambas igualmente injustificáveis e daninhas. Só que  enquanto uma é televisionada, a outra permanece privativa em circuito fechado.

E como a filósofa ensinou: quando se perde a autoridade, alguém há de clamar pelo autoritarismo.

Coisas da Política – Jornal do Brasil

Impossível, eu escuto teu nome

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Nasa divulga imagens de planeta rosa

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Quando a realidade parece inapreensível, recorramos ao impossível.

Tomemos este, que é um dos seus mais significativos e sub explorados verbetes do dicionário.  Até o suposto defeito vira virtude na voz polissêmica dos glossários.

Deduzamos sozinhos examinando a rubrica “impossível”: áporo, sonho de louco, pedra filosofal, vôo de um boi, o irrealizável, não haver possibilidade de espécie alguma, querer sol na eira e chuva no nabal, prende la lune avec les dents, incendiar o Amazonas, meter o Rocio na betesga, tirar leite de um bode na peneira, carregar água num jacá,  abarcar o céu com as mãos, assar qualquer coisa no bico do dedo, extinguir-se no planeta o calor central, acabar no céu a rotação dos astros, querer ter o dom da ubiquidade, inacesso, inabordável.

O impossível só pode ser o que acabamos de realizar, o possível visto por alguém fora das nossas órbitas.

Em outras palavras, só o impossível é justo.

Sob o pó que sobe

Escuto teu nome

Sob o desvio das línguas

Sob a conjugação dos mares

Sob bloqueio das ondas

Eu escuto teu nome

Sob a marcha dos acorrentados

Sob exércitos vencidos

Sob a exaustão das setas

Eu escuto teu nome

Sob o plátano fixo

Sob a cadeia de choros

Sob o destino sem eixo

Eu escuto teu nome

Sob órbitas de passagem

Sob a miragem do término

Sob incêndio dos rios

Eu escuto teu nome

Sob o sol oceânico

Sob a divisão artificial

Sob a palafita abissal

Eu escuto teu nome

Sob a fome da África

Sob o gelo degradado

Sob o coro dos escravos

Eu escuto teu nome

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia

Suspeitos por Pensar

O escritor Ray Bradbury sofisticou as predições de George Orwell. Em 1953 já havia previsto tudo aquilo que testemunhamos em nossos dias, quando publicou Fahrenheit 451 — o título é uma alusão à temperatura sob a qual os livros queimam. Mais uma vez, foi a imaginação dos escritores que antecipou a ciência e os problemas da vida prática. Questões fundamentais como o controle dos cidadãos, a gula fiscal e o sistema que protege os políticos da vigilância que costumam montar para espionar a sociedade, já estavam na cabeça dos romancistas.

É possível que os sujeitos sejam realmente emancipados da sociedade em que vivem e ao mesmo tempo permaneçam como atores nas comunidades? Em outras palavras, como adquirir autonomia em meio a um ambiente que menospreza a independência e a autodeterminação individual?

O Estado, ao se preocupar com a totalidade abstrata, doravante nomeada “população”, e desprezar os sujeitos únicos que compõem a sociedade não só negligencia como — em nome da ordem e da segurança —  oprime com sua força de  Leviatã urbano. O Estado onipresente hipertrofia a fiscalização em troca de segurança.

Se a privacidade ainda sobrevive por aí, ela passou a ter uma dose de ilegalidade e adquiriu aura imoral. A vida pública é a do cidadão, e a mais recôndita e protegida é a da autoridade que fiscaliza. Curiosamente, na República dos fiscais os mais controláveis são os mais inofensivos. O cidadão comum é o único alvo fácil. A delação e sabotagem viraram moedas políticas potentes, armas que podem virar o jogo ao revirar a cabeça dos cidadãos em meio à guerra de versões.

Nenhuma destas mazelas é regional, a realidade dos abusos é mundial.

Sim, temos sido a civilização do sossego, da acomodação, das ondas passageiras. E não é só o brasileiro que não tem memória, a amnésia corre solta pelo mundo. A política demanda uma reforma que não poderia se limitar aos remendos. A expressão mais apropriada para o que seria conveniente seria ressignificação da vida política. Uma nova ordem que trouxesse a representação ao alcance do arrependimento, de repensar um voto dado, de voltar a ter poder de fato para obstruir quem não faz jus ao cargo.

É que as pessoas, assim como Montesquieu, têm aversão natural a qualquer despotismo. Essa mistura de medo e desconfiança que temos das lideranças deve ser herança dos ancestrais. E se líderes tiverem mesmo que existir, se o Estado e o conceito de nação ainda forem imprescindíveis, será tanto mais saudável para todos quanto mais temporário e reversível for.

A conciliação entre a solidão criadora e o exercício de uma vida social ativa nunca foi fácil, ainda que a maioria despreze a solidão e sem vacilar escolha uma vida gregária embora pouco original. O que será de nós quando todos os livros editados se limitarem aos que mais vendem?

Nada contra best-sellers, mas avaliando as listas parece que no futuro teremos só títulos inofensivos,  obras que não nos perturbam, manuais de ataraxia e compêndios de resignação. Nos poderosos guias de acomodação, todos poderão ler slogans, os mesmos que ilustram os livros de autoajuda e os dramas sem literatura das novelas. Não será mais preciso queimar livros, eles nem chegarão a ser editados, censura na fonte.

A Suíça de nossos dias estimula os cidadãos a denunciarem uns aos outros quando um lixo não é devidamente embalado. O Estado então faz a intermediação entre as pessoas, jugula o diálogo usando seu poder e a repressão para fazer valer as regras de convívio. Não é fortuito que na sociedade norte-americana, uma das mais judicializadas do mundo, boa parte das contendas e disputas sejam entre vizinhos e gente próxima. A morte do  diálogo exige sua substituição por ações penais.

Na ex-URSS filhos poderiam, com promessas de bônus dados pelo PC, denunciar os pais por atividades antissoviéticas como, por exemplo, posse de livros “subversivos”. Um Arquipélago Gulag ou um bom romance burguês ocidental bastariam para se abrir um processo e, quem sabe, gozar uma temporada na Sibéria. Ironicamente, a nossa ditadura também procurava cidadãos pela posse dos livros considerados subversivos. Sinais invertidos: por aqui o crime era possuir “O capital” ou filósofos perigosos. Foi assim que bibliotecas inteiras com títulos considerados revolucionários ou de autores suspeitos de pensar sumiram sob o leito do rio Tietê.

Só mesmo peixes alfabetizados e falantes podem recriar nossas esperanças.

Coisas da Política – Jornal do Brasil

 

Diretrizes em esparadrapos

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A saúde pública no Brasil é precária e os contrastes mais evidentes estão nos grandes centros urbanos. Hospitais que disponibilizam procedimentos de alta complexidade se associam a UBS (unidades básicas de saúde) com atendimentos que oscilam em performance, regularidade e infraestrutura. Em um posto de saúde, falta material de sutura, menos de dez quadras atrás um hospital privado com equipamentos de última geração. O sofisticado convive com o precário e o supérfluo muitas vezes ocupa o lugar do básico.

Para além da desigualdade social do País, convenhamos que a situação acima descrita não é de hoje nem se trata de erro de planejamento recente. Há muito tempo relegou-se o atendimento primário e ambulatorial e deu-se preferência e prioridade aos planejamentos que davam visibilidade a uma saúde publica centrada nos atendimentos secundários e de cunho hospitalocêntrico. Era mais do que imperícia de planejamento, tratava-se de uma estratégia de marketing que traria mais dividendos políticos. A lógica de que a carência no setor era de especialistas invadiu até os tradicionais critérios ambulatoriais, por excelência redutos da atenção primária, e alguém teve a ideia de ofertar clínica de especialidades nestes mesmos locais.

Apesar de precária, a rede publica de saúde apresentou avanços nos últimos 20 anos. A expansão da oferta de medicamentos subsidiados, o aumento da capacidade de atendimento e um incremento na infraestrutura se fizeram sentir. O PSF, programa de saúde da família foi, dentre todos os programas, um dos mais bem sucedidos porque associou o conceito de saúde comunitária descentralizado com os critérios de atenção primária. Em termos de investimentos em saúde medicina até 2000 o Brasil investia U$ 107/ano e hoje atingimos U$466/ano contra uma média mundial de U$ 571/ano. Ouvimos sempre que este é o possível para se oferecer para a população. Porém quem se dá ao trabalho de debruçar sobre as planilhas, nota que o contexto todo cria um contraste desfavorável. Estamos muito aquém do possível.

Ver mais:

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