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Trata-se de uma reflexão mais ampla mas que se encaminhou também para a pergunta afinal o que querem os autores de nosso tempo? Será que toda literatura deve/pode estar impregnada pelos conteúdos autobiográficos dos autores? Nesse caso – e tomado por certa incredulidade – devemos aceitar o caráter semi-documental da obra literária como parece ser o curso do mundo? Estará ela sempre embasada em fatos reais e nascida dentro dos contextos históricos? Poderá se manter engajada em causas políticas? Sua narrativa deve acompanhar o ritmo contemporâneo e online do jornalismo? Ou há um ressurgimento à vista? Será ele um retorno ao subjetivo, à experiência existencial como base de toda narrativa?

Sou escritor, não teórico, crítico ou especialista em história da literatura, mas aprendi, ou me conformei — já nem sei ao certo, que isso pode ser uma vantagem numa sociedade expertocrata e impregnada de especialistas.

O que se discutia no fundo eram os desdobramentos do famoso estamento de Mark Twain que escreveu que “a única diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção precisa ser crível” [1].

Num documentário sobre o cineasta Pier Paolo Pasolini há uma entrevista antológica do autor no qual compara a edição de um filme com a morte. Obcecado pelo tema tanatológico, o italiano explica que poderíamos fazer 700 versões para o assassinato de J.F.Kennedy e cada uma conterá, provavelmente, uma faceta da realidade, porem somente uma sairá como versão editada. Neste sentido, a edição é uma espécie de palavra final, uma mistura complexa de compostos que estarão ali estratificados e acabados.

Por isso, para ele, qualquer coisa editada equivale a morte. E um homem só se conhece efetivamente depois que passa: edição definitiva. Com o agravante atual de que com a morte do rascunho, assassinado pelos editores eletrônicos de texto, nem teremos mais como saber qual foi o processo criador do artista.

Pode ser que Pasolini tenha razão, mas neste caso o que estamos buscando com a edição? O que define se um livro é bom? Gosto do editor? Sucesso de público? Estilo da escrita? Densidade dos personagens? Na quase ausência de críticos e avaliadores de obras literárias independentes – aqueles que não sejam profissionais que prestam serviços às editoras – vai ficar cada vez mais difícil editar aquilo que Milan Kundera chamou de a razão de ser da literatura, a digressão.

Neste sentido, só a surpresa, a variação de linguagem e capacidade de redigir tornariam possível que o leitor se encontrasse com o texto em campo neutro. Dar vida e materialidade aos diálogos é sentir como se fossemos outros. De certo modo, é o que o escritor tem de vantagem sobre quem não escreve. Não é muito mas se lhe falta esta capacidade significa que seus livros não só serão mais do mesmo, como suas letras desaparecerão na sombra das frações de uma mesmíssima personalidade. É contraintuitiva essa observação já que, neste caso, ser original passa a ser uma inovação duvidosa. Por isso, a auto ficção ou é pleonasmo ou forma muito limitada de expressão: subutiliza a potencial polissemia das vozes para reduzi-la à variações monotemáticas, ainda que cheia de personagens e capítulos.

Kundera brinca e radicaliza:  a narrativa pessoal deve sumir num romance e a compensação pelo silenciamento do ego autoral mereceria a herança de um livro de conteúdo e significado. Para o autor de “O livro do riso e do esquecimento” o valor da literatura está na digressão, no não ideológico, na distante e doce liberdade de ruptura e na apreciação da existência, de preferencia, contra fatos e fenômenos. Isso conta muito numa época conflagrada onde todos são chamados a tomar partido, o do romancista será nenhum.

Porém estamos cercados dos agélastes, patrulhadores do senso comum, aqueles que reduzem tudo, que precisam de currículo, carreira e estampa, que enfim perderiam o bom humor se um dia já o tivessem experimentado.  

Não é difícil reconhece-los. Levam suas biografias muito a sério. E, sem conseguir rir de si mesmos, perdem a capacidade de divertir os outros.