O escritor Ray Bradbury sofisticou as predições de George Orwell. Em 1953 já havia previsto tudo aquilo que testemunhamos em nossos dias, quando publicou Fahrenheit 451 — o título é uma alusão à temperatura sob a qual os livros queimam. Mais uma vez, foi a imaginação dos escritores que antecipou a ciência e os problemas da vida prática. Questões fundamentais como o controle dos cidadãos, a gula fiscal e o sistema que protege os políticos da vigilância que costumam montar para espionar a sociedade, já estavam na cabeça dos romancistas.

É possível que os sujeitos sejam realmente emancipados da sociedade em que vivem e ao mesmo tempo permaneçam como atores nas comunidades? Em outras palavras, como adquirir autonomia em meio a um ambiente que menospreza a independência e a autodeterminação individual?

O Estado, ao se preocupar com a totalidade abstrata, doravante nomeada “população”, e desprezar os sujeitos únicos que compõem a sociedade não só negligencia como — em nome da ordem e da segurança —  oprime com sua força de  Leviatã urbano. O Estado onipresente hipertrofia a fiscalização em troca de segurança.

Se a privacidade ainda sobrevive por aí, ela passou a ter uma dose de ilegalidade e adquiriu aura imoral. A vida pública é a do cidadão, e a mais recôndita e protegida é a da autoridade que fiscaliza. Curiosamente, na República dos fiscais os mais controláveis são os mais inofensivos. O cidadão comum é o único alvo fácil. A delação e sabotagem viraram moedas políticas potentes, armas que podem virar o jogo ao revirar a cabeça dos cidadãos em meio à guerra de versões.

Nenhuma destas mazelas é regional, a realidade dos abusos é mundial.

Sim, temos sido a civilização do sossego, da acomodação, das ondas passageiras. E não é só o brasileiro que não tem memória, a amnésia corre solta pelo mundo. A política demanda uma reforma que não poderia se limitar aos remendos. A expressão mais apropriada para o que seria conveniente seria ressignificação da vida política. Uma nova ordem que trouxesse a representação ao alcance do arrependimento, de repensar um voto dado, de voltar a ter poder de fato para obstruir quem não faz jus ao cargo.

É que as pessoas, assim como Montesquieu, têm aversão natural a qualquer despotismo. Essa mistura de medo e desconfiança que temos das lideranças deve ser herança dos ancestrais. E se líderes tiverem mesmo que existir, se o Estado e o conceito de nação ainda forem imprescindíveis, será tanto mais saudável para todos quanto mais temporário e reversível for.

A conciliação entre a solidão criadora e o exercício de uma vida social ativa nunca foi fácil, ainda que a maioria despreze a solidão e sem vacilar escolha uma vida gregária embora pouco original. O que será de nós quando todos os livros editados se limitarem aos que mais vendem?

Nada contra best-sellers, mas avaliando as listas parece que no futuro teremos só títulos inofensivos,  obras que não nos perturbam, manuais de ataraxia e compêndios de resignação. Nos poderosos guias de acomodação, todos poderão ler slogans, os mesmos que ilustram os livros de autoajuda e os dramas sem literatura das novelas. Não será mais preciso queimar livros, eles nem chegarão a ser editados, censura na fonte.

A Suíça de nossos dias estimula os cidadãos a denunciarem uns aos outros quando um lixo não é devidamente embalado. O Estado então faz a intermediação entre as pessoas, jugula o diálogo usando seu poder e a repressão para fazer valer as regras de convívio. Não é fortuito que na sociedade norte-americana, uma das mais judicializadas do mundo, boa parte das contendas e disputas sejam entre vizinhos e gente próxima. A morte do  diálogo exige sua substituição por ações penais.

Na ex-URSS filhos poderiam, com promessas de bônus dados pelo PC, denunciar os pais por atividades antissoviéticas como, por exemplo, posse de livros “subversivos”. Um Arquipélago Gulag ou um bom romance burguês ocidental bastariam para se abrir um processo e, quem sabe, gozar uma temporada na Sibéria. Ironicamente, a nossa ditadura também procurava cidadãos pela posse dos livros considerados subversivos. Sinais invertidos: por aqui o crime era possuir “O capital” ou filósofos perigosos. Foi assim que bibliotecas inteiras com títulos considerados revolucionários ou de autores suspeitos de pensar sumiram sob o leito do rio Tietê.

Só mesmo peixes alfabetizados e falantes podem recriar nossas esperanças.

Coisas da Política – Jornal do Brasil