Blog Estadão – Ditaduras democráticas

Nova presidente da SIP vê ‘ditaduras democráticas’

Imprensa pressionada

Qual versão você prefere?  Que o País vai mal, bem ou muito pelo contrário?  Como saber se uma cartada econômica foi ou não bem sucedida? Ouvir a oposição? Dar crédito ao governo? Foi a maior privatização da história ou não se trata de privatizar, mas sim de parceria? Parceria é consórcio? Há como saber qual a tese mais plausível? Basta escolher a linha de consultor e bem-vindos à teia geral da complexidade. Tudo pode ter duas ou mais respostas, abordagens opostas, consensos contraditórios e explicações desencontradas. Isso significa que estamos oficialmente desobrigados da coerência. Pode ser mentira ou omissão. Mas pode ser só meia verdade. A não linearidade das respostas é apenas um desdobramento da multiplicidade de fatores simultâneos. Uma espécie de efeito colateral do caos multifatorial. Há uma recusa inconsciente em admitir que, apesar de todas as metodologias de quantificação disponíveis, a realidade se recusa a proceder cientificamente. A propaganda, como nunca antes na história do planeta, parece ter se tornado a essência de todas as coisas. Tudo depende como se divulga, o tempo na Tv, a verba destinada ao marketing e como a linguagem é articulada. Ao contrário das insinuações cada vez mais comuns, nem sempre há golpismo ou conspiração nas discordâncias. Se existem, são patrocinadas pelos cultores da lógica única e das dicotomias baratas. Ainda que os executivos públicos não enxerguem há um vasto mundo, para bem além dos partidos e das ideologias.

Enquanto os números são debatidos e a agenda fica sempre aberta no amanhã, existe uma conexão inquietante entre o cerceamento das liberdades individuais, a neo censura e o fim da vida privada. Com fervor análogo o pensamento totalitário e as multidões afobadas odeiam a liberdade de expressão. E tem sido cada vez mais frequente que façam as vezes da tropa de choque do obscurantismo. Compreensível, portanto, que a primeira vítima do arbítrio seja a imprensa, cuja natureza é intrinsecamente desafiadora, discordante e crítica. Ela expressa, explicita e ousa debater a infinidade de versões que se atribuem aos fatos. Apesar do senso comum, contra fatos sobram argumentos. Essa dificuldade para lidar com a abundância de variáveis explica a prosperidade das burcas laicas e a brutalidade com que Estado têm tratado seus habitantes. Por toda América Latina testemunhamos os direitos da cidadania cassados. Melancolicamente, o assalto da gritaria desalojou o diálogo. Não ficou fácil identificar bandido e mocinho, podem, inclusive, nunca ter existido.

Já ouvimos o suficiente acerca de um Estado onisciente que reformará a sociedade delinquente. Faltou contar a outra metade da história, o avesso deste pressuposto. Aquela que considera que uma sociedade adulta admite sonhar, mas não consegue mais dormir embalada pelo faz de conta. Exige respeito pois considera que ela é quem dá vida e propósito ao Estado e não vice versa. A sociedade emancipada não tolera conviver com o que a presidente da SIP — sociedade interamericana de imprensa — nomeou como “ditaduras democráticas”. Em qual outro período histórico teríamos um exotismo destes? A aversão ao Estado salvador e onipotente não tem nada a ver com ideologia. Tampouco é porque preferimos outros governantes, ou a sensação de que estamos quites com os débitos sociais. Fazemos por pura teimosia. É que seguir acreditando no sonho é que dá sentido para todos os outros, liberdade.

Para comentar

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/ditaduras-democraticas/

Nota

Campo dos sonhos

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Campo dos sonhos

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Não se trata de Libra, petróleo ou leilão. Nada de apanhador no campo de centeio. Até quando teremos que aturar discursos políticos ufanistas e autorreferentes? Opiniões autocentradas se transformaram na terceira via do totalitarismo. Confunde-se “uma pessoa, um voto” com “uma pessoa, autoridade sobre todos os assuntos”. Por outro lado, temos uma sociedade voltada e regida por especialistas, gente que se esmera numa coisa só.

Na era da massificação é muito provável que estejamos vivendo o tempo onde nunca se entendeu tão superficialmente sobre tantas coisas. Ao mesmo tempo, nunca tantos dominaram tanto sobre tão poucos assuntos. O paradoxo não significa que não seja realidade. Essa é uma façanha com a marca registrada da pós-modernidade terminal. Isso é ou não desejável? Nada de sim ou não.

Aliás, ninguém ainda conseguiu vincular aos sonhos uma área submersa com megatoneladas de fósseis apodrecidos. Sonhar é uma atividade neurológica, experiência diária na qual estão envolvidos os núcleos cerebrais mais sofisticados quando o córtex atenua sua performance. Sonhar reserva mistérios desafiadores para as neurociências. Como as imagens adquirem tanta consistência? Como se processa o senso de realismo deste cinema interior? Muitos têm a sensação de que o sonho não termina mesmo quando passamos do sono à vigília. Quase 1/16 do nosso tempo existencial, essa é contabilidade onírica. É mais ou menos isso que passamos sonhando pela vida. Há até tradições que dizem que neste interregno o espírito provisoriamente desabita o corpo. Quando a respiração, as atividades metabólicas e a temperatura caírem é que tecemos esse enredo curioso. Os sonhos ainda ajudam a solucionar impasses e problemas que a capacidade lógica ordinária não consegue alcançar, segundo pesquisas recentes do neurocientista Robert Stickgold, da Universidade de Medicina de Harvard

Mas há um campo em que o sonho encontra barreira mais espessa, dificilmente superável: o domínio da realidade.

O princípio da realidade pode ser um intruso no campo dos sonhos. Uma espécie de bolsa estraga-prazeres. Não é bem que a maioria de nossos políticos não sonhem. Estão ocupados nos vendendo uma versão edulcorada da fábula. Como aprender a confiar em quem tergiversa?Qual mágica será necessária para que voltemos a crer no resgate da função dos governantes?

Nosso problema, portanto, não é ceticismo. O problema é que somos ingênuos de véspera, e mesmo assim continuamos a acreditar. Sempre uma nova véspera renasce na manhã seguinte. Muito provavelmente, mecanismo de adaptação. Em mais uma lance espetacular da evolução, ela nos faz acordar com fé.

Não sei se a educação poderá sofrer a revolução evocada, porque ainda não pensamos a etapa preliminar: que educação queremos? Os professores, as instituições, maltratados por salários humilhantes, condições indignas, manipulados politicamente até a medula, simplesmente não podem depender da extração do fundo do poço.

Podemos ensinar até em condições precárias, enfrentar mazelas subumanas. Possível até esquecer que vivemos num mundo em que temos contas a pagar. Dar suporte aos filhos de famílias disfuncionais para exercer um papel que extrapola totalmente a função. Mas há limites para a automotivação e o altruísmo. Não podemos mais servir a uma causa que deforma o dever de ensinar. Muito menos em uma estrutura arcaica que nos coage a compactuar com a estupidez. Há ou não uma emergência? Podemos esperar que o óleo e derivados mantenham o valor em algum futuro distante? Ou merecemos mudar o estado das coisas com o que já temos?

Escolho o agora. O futuro já passou.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/10/24/campo-dos-sonhos/

Depressão Induzida

 

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Depressão induzida 

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Jamais os pesquisadores que elaboraram o relatório da Organização Mundial de Saúde no ano de 1988 em Genebra, Suíça, poderiam ter imaginado. Como previsões de um texto científico se transformariam em profecias. Ali estava escrito: o mal do século 21 seria a “era da depressão”. Assim como sujeitos peregrinam até os cuidadores e médicos se queixando de patologias diversas, em nossa era, a queixa prevalente seria dominada pelo mal-estar difuso, a sensação de adoecimento sem moléstias, um estado inominável e não menos opressivo

A palavra “depressão” é uma generalização, uma nomenclatura inexata para definir esta condição subjetiva que não tem sítio, comprovante de residência ou CPF. Mesmo fugindo da atribuição do estrito caráter nosológico (de doença propriamente dita) conferido à palavra, o século comprova o que prometia: se mostra arredio, inóspito, aborrecido. 

A palavra “depressão” é uma generalização, uma nomenclatura inexata para definir esta condição subjetiva que não tem sítio, comprovante de residência ou CPF. Mesmo fugindo da atribuição do estrito caráter nosológico (de doença propriamente dita) conferido à palavra, o século comprova o que prometia: se mostra arredio, inóspito, aborrecido.

As ideologias da esquerda se transformaram em andrajos, costurados com retalhos. O capitalismo selvagem urbanizou-se e agora achaca à luz do dia. Até aqui os verdes, nem cá nem acolá, constituíram um programa que realmente representasse uma terceira via consistente. Estamos sem projetos. A pobreza objetiva pode ter diminuído, mas persiste outra, perversa, ainda que menos aparente. Avanços existiram: no Brasil 10 milhões de famintos a menos nos últimos 20 anos, e no mundo, só no último ano 18 milhões de miseráveis absolutos saíram desta condição.

Tudo é muito razoável. Como poderia ser ótimo, se o saldo persiste devedor?

Quase um bilhão de pessoas passa fome, enquanto ficamos discutindo a utopia da isonomia absoluta. Se a desigualdade social diminui então por que cargas d’água ainda estamos no prejuízo? Por que não saímos comemorando? De onde provém tamanha insatisfação? O que impede o entusiasmo com os progressos da tecnologia, o Bóson premiado, a inventividade dos cientistas? Por que não aplaudimos de pé? Temos uma rede mundial de computadores? Certo, os monitores nos invadem com dados imprestáveis e imagens irrelevantes. Facilitou a vida da Al Qaeda e dos encrenqueiros urbanos, mas imaginem só o potencial, a quantidade de veiculações sensacionais, a capacidade pedagógica!

Mais uma vez, por que raios nos rendemos à paralisia? Por que seguimos insatisfeitos com mais qualquer coisa? Tudo parece insuficiente, leniente, ineficiente. Todo esforço, complacente. Nós, ainda indigentes! Como toda fome de espírito o vazio pode não ser contabilizado. Pode ser síndrome de abstinência de justiça, de exemplos, de humanistas.          

Pelo instante considerem que o problema pode estar exatamente no “mais”. Como rezava o velho provérbio oriental “as moléstias vêm do mais”.  Pode estar numa miserabilidade menos urgente que a faina propriamente dita. A disparidade maior está oculta. Num lugar que não tem nada a ver com pobreza, fome, nem más condições sanitárias e de habitação.

Com tantas necessidades materiais criadas, passa a não ser só uma impressão de que nada é suficiente. Saturados de matéria e de consumo, a insuficiência induzida está no ar. E ela não guarda relação linear exclusiva com condições socioeconômicas: a taxa de suicídios mais alta no mundo ainda está nos países escandinavos, aqueles com melhores índices de desenvolvimento humano. Mesmo assim, indicadores subjetivos como bem-estar e felicidade permanecem tabus. Ainda são encarados com desconfiança e frieza pelos sociólogos e economistas. De pirraça, gente sisuda nos joga na cara estatísticas, renda per capita e PIBs. Como contraponto à depressão induzida, só mesmo reaprender a arte do amusement. Não é programa humorístico, deboche ou entretenimento. É dar uma recíproca na vida quando ela mesma ameaça brincar com nossas existências.        

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/10/17/depressao-induzida/?from_rss=colunistas

Retrocesso

A palavra foi forte, pertinente, necessária. O necessário costuma ser dose incomoda. Submersos é mais fácil observar a arrogância do gigante. O periscópio de Marina Silva verbalizou o que muitos já intuíam. O retrocesso vigente não é só regressão, é estagnação pintada de progresso. O que o regime político da vez tenta fazer é postergar as tintas, e assim, borrar a percepção da composição geral. Já vimos tudo isso antes. Nos estados totalitários, na ditadura, nos estados de exceção A arte final da tela permanece sem diagnóstico. Não é só a bolha econômica e a volta da inflação, não é só a irresponsabilidade fiscal e a negligencia com as coisas públicas. O poder impinge-nos sua agenda reducionista, anacrônica, sectária.

O contraste fica mais chocante num país de multiplicidades continentais, étnicas, políticas, temáticas.

Decerto, nenhum partido quer soltar o osso. Mas e se o custo for dilacerar os avanços sociais que ajudou a construir? O tudo ou nada político é jogo para lá de tenebroso. A fábrica de crises tem formula: imbróglios, cortina de fumaça. Vamos assumir que seja uma  teoria conspiratória desde que alguém conteste, o que é deixar o pau comer solto senão anular a maioria?

Uma rápida passada pelas analogias da palavra retrocesso desvenda mais do que pretende, “voltar sobre si”, “andar ao arrepio”, “virar de bordo”, “distorcer caminho” e finalmente, o mais preciso: “não manter o terreno conquistado”.

Por acaso vamos nos conformar? Alcançamos estes dias para deixar que a censura, branca, parda ou preta nos aleije de um processo pelo qual muitos deram a vida? Desacorrentamos a democracia para que políticos presunçosos usurpem a República?  Por acaso viemos para assistir grupelhos proto-fascistas e bandidos, que cresceram nas barbas da irresponsabilidade do Estado, desafiar a sociedade para espalhar terror e intolerância?

Chegamos até aqui para testemunhar a história ser varrida a contrapelo por incompetência e acefalia? Acaso sobrevivemos para ver o país recuar até onde? A sagração da ignorância?

Se é para isso que viemos, melhor ciar, andar de caranguejo e recomeçar do zero.

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Dia da Criança Vintage

 

 

 

Parque de brinquedos vintage abre as portas em Nova York

Tertius entrou desesperado na casa do avô viúvo.

Sentiu que poderia achar o que queria.

– Onde está vovô?

– Na última gaveta.

O garoto ficou olhando esperando pelo complemento da informação.

–Lá. No quarto que era do seu pai.

Tertius escalou o sobrado e ajoelhou-se diante da  cômoda instável. Revirou tudo da última gaveta e retirou o brinquedo.

Estava inteiro e era parecido com o que brincou no parque. Fez a fricção e soltou para ver a locomotiva circular.

Anoiteceu e ele ainda estava excitado.

O avô recolheu o neto adormecido do chão do quarto e o embalou até a cama.

Tertius sonhou: descobriu que o mundo das telas, dos vídeo-games era uma enganação de brincadeira.

Ele riu. Soube que a felicidade estava ao contrário.

Blog Estadão – Ofício Literatura

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 Imagem

 

Não sei se foi ou não aula de sociologia mas faz muito sentido que o discurso do escritor brasileiro em Frankfurt tenha sido uma crítica generalizada. O Estado contemporâneo merece ser refundado numa sustentabilidade com sobrenome. E ela não parece ser material, financeira ou industrial. Talvez não esteja nem mesmo na preservação do meio ambiente, segurança ou reservas estratégicas. No atual mal estar no mundo subsiste algo anterior. Uma enfermidade atávica, que os antigos gregos já compararam com a temível hidra de mil braços que habitava o lago de Peloponeso. Também chamada de muitos outros nomes, como mal estar na cultura, e, mais recentemente, de peste emocional. Estamos perdidos numa travessa, sem significados claros, cruzando de uma era para outra sem timão nem timoneiro. 

 

Viramos o milênio como uma legião entorpecida de bens, drogados pela abundancia. E quem não goza de fartura quer entrar no jogo. A fantasia é que lá está a completude. A classe média recém chegada ao paraíso, realiza que não é nada disso. Por sua vez, o poder acelerou a máquina para nos poluir com pão e distração. Um circo que se locupleta com a sociedade sem critérios. Os outros? Obscurecidos pela cegueira que emanamos. Trabalho, esforço e educação foram transformados. Nas sinonímias populares já aparecem como estupidez e perda de tempo. A busca de sucesso a qualquer preço é a prova da deslegitimação de todas as pedagogias. Que importa a biografia do sujeito desde que o resultado seja superávit primário?  Neste contexto, quem se espantaria com a desvalorização dos professores em meio à escolas cujas funções originais foram pervertidas? Quem ainda fica perplexo com o déficit de leitores? Ainda há alguma coisa a ser feita?  Digo, sem cair no moralismo salvacionista, medicalização da vida ou em formulações políticas messiânicas. Deslocar-se para estar no lugar do outro? Há quem seja capaz? A literatura acrescenta experiências, ressignifica sentidos. Não que seja sua função, trata-se de apenas um dos efeitos colaterais favoráveis.  Acontece por que a singularidade é caprichosa e costuma se manifestar na estranheza, no reconhecimento das diferenças. Apollinaire escreveu, “amo os homens não pelo que os une, mas pelo que os divide.” Luis Rufatto pode ter razão: a literatura transforma sujeitos e têm potencial para romper a imutabilidade de nossos tempos.   

 

Leiam Hipócrates

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Hipócrates (460 a.e.c. – 370 a.e.c): Medicina que convém a cada um

 

Apresentação:

Paulo Rosenbaum

A obra de Hipócrates é vasta e a autoria dos textos polêmica. Entretanto, o conjunto de obras deixado pelo fundador da técnica médica permanece indelével e surpreendentemente atual.

Leia mais

Naturalizando o insuportável

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h13

Naturalizando o insuportável

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Quem pode acompanhar esta página sabe o desprezo que me causa o antinorte-americanismo sectário, dominante no circuito do jet set diplomático e politico mundial. Cometem seus erros, mas só quem não tem computador não sabe que a espionagem é a alma dos negócios. Pode-se espernear, mas o que os Estados Unidos avançaram em termos sociais, tecnológicos e na implantação de uma democracia e instituições sólidas nenhum outro país do mundo ocidental conquistou. Certo, são egoístas para favorecer o próprio povo. Mas não é isso que um Estado decente deve ser? Poderiam ser menos egocêntricos, de acordo. Mas o crescimento do protecionismo mundial escancara: ninguém é vilão sozinho. E até aqui sedimentavam seus índices sociais mantendo a liberdade e a democracia, o que não é fácil. Muitos socialistas órfãos sabem disso, mas não podem admitir em público. Aliás, talvez um dos primeiros países a cumprir as demandas do Manifesto Comunista no que diz respeito aos direitos trabalhistas. Claro que eles não têm nosso tino paternalista, nem nossa capacidade de rir dos próprios infortúnios. Enquanto isso, o irresoluto Obama oscila entre notáveis propostas de avanço social — a inclusão de 50  milhões de pessoas nos serviços de saúde é o que está em jogo — e humilhantes concessões na política externa que estão corroendo símbolos. Pois, o que significa tomar lições de moral  e cívica de Putin? É autoevidente. 

O fato é que a melhora dos índices de pobreza eram provas de que havia recuperação e eficiência. A retomada depois do tombo de 2008 — nas previsões otimistas para 20 anos — estava se fazendo em menos de cinco — tudo fruto de gerações de fibra dos norte-americanos.  Eles não só superaram a ideia do lucro e da livre iniciativa como pecados burgueses, como formataram um sistema de previdência social que mesmo ruim ou deficitária é muito melhor que o da concorrência. Isso, mesmo naqueles países onde o bem estar-social é chamado de outros nomes.

Mesmo na recuperação econômica nota-se um clima de regressão. De abandono de algum eixo sobre o qual os pioneiros ergueram a Constituição mais duradoura e enxuta da história. A liberdade parece estar afundando na armadilha da guerra fragmentária e sem perspectivas. Não porque haja qualquer dúvida da superioridade estratégica e militar, mas porque é impossível abrir intermináveis e extensas frentes de batalha e não sucumbir. Roma soube disso tarde demais, e só quando se esgotou o estoque de escravos.  

A prisão de um jornalista do estado de São Paulo, Claudia Trevisan, no campus de uma universidade é um sintoma. Mas há outros. Mais graves ainda. Apenas seis meses separam o atentando terrorista dos dois irmãos chechenos em Boston, do fuzilamento de uma senhora que, após uma depressão puerperal, teve a infelicidade de ter seus delírios e fantasias com o presidente. Procuremos não os elos óbvios entre a paranoia antiterror generalizada e a politica que tem levado a erros de julgamento cada vez mais graves. Os irmãos que explodiram e mutilaram pessoas em Boston tiveram inúmeros defensores. Até a velha e ridícula legião, que conseguiu plantar todos os eventos nas costas da CIA. Chegou a haver comoção pelos dois jovens terroristas que resistiram, um morto e o outro gravemente ferido num barco da pequena cidade em Massachusetts.

Por mais insanas que sejam as justificativas, isso significa que há sempre gente disposta a  defender direitos das minorias, desde que estas tenham causas ideológicas em comum. No caso da senhora que, desarmada, estava no dia e hora erradas e seu carro recebeu pelo menos 29 balaços da policia local até ter a trajetória interrompida para sempre. Não houve comoção. O caso não parece ter recebido a atenção devida.  O silêncio relativo é aquele que faz soar o “mereceu o que recebeu”. Seu destino ficou por isso mesmo. Depois de morta, ninguém hasteou bandeira a meio pau. Não houve passeatas, nem mesmo contestações veementes da mídia mais progressista. Isso é mais do que um sintoma. É um sinal, e não vem dos céus. Estamos naturalizando o insuportável, e o retrocesso é mental.

Mas é claro que há uma guerra, a terceira, mundial, ainda fria, fracionada demais para que se note. O mundo inteiro está em polvorosa. Mas, será que a resposta é dobrar a reação? O mundo pede menos censura e mais cuidado. O mundo exige atenção ao outro. Torço para que os irmãos de cima resistam à tentação totalitária para se igualarem a tantos outros. Pode ser que não passe de um pesadelo dos direitos civis e um coma transitório dos valores democráticos. 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/10/10/naturalizando-o-insuportavel/

 

 

Blog Estadão – O Menor Sentido

Três e quarenta da madrugada. Dois sujeitos trôpegos estão para se trombar no meio da calçada. O asfalto tinha marcas de sangue, cacos de vidro, e a fumaça cinérea de incêndios recém apagados. Klauss, sentado na calçada com a sobrancelha estourada, esfregava um lenço para estancar o corte vivo enquanto tentava com o dedo, limpar com saliva o risco fundo que tinha na bochecha. Mário estava com paletó rasgado e a gravata pendurada, apoiando a cabeça contra a parede do prédio da filosofia.

– Voce é de lá ou de cá, puxa assunto Klauss sem levantar a cabeça

– Cá e lá? Estranhou Mário que se desloca na direção do interlocutor

–Daquele lado? Aponta a edificação de tijolos escuros.

Mário balança a cabeça em negativa. Klauss levanta preocupado. Retrocede uns passos enquanto Mário parte em sua direção

– Moro na filosofia. E retoca com um gesto vago.

– Comuna!

– Reaça!

–Libertino!

– Burguês!

–Mac!

–Filo!

–Carne!

–Leite!

–Clássico!

– Rock!

– Capital!

–Marx!

–Esquerda!

– Direita!

Os homens se adiantam e estão frente a frente,  posição de duelo.

– Isso é ridículo!

– Ridículo!

–Estou de saco cheio de tudo isso!

– Não faz sentido!

– O menor sentido!

Os dois jogaram os porretes. Um se foi em direção à Consolação, o outro, chutou a placa que estava na sarjeta.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/

Nota

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

Hoje às 06h00

O Levante e a Democracia

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Ontem, dia 2 de outubro,  há 69 anos, depois de 63 dias resistindo, os insurgentes do Gueto de Varsóvia foram esmagados pelas tropas nazistas. Duraram mais do que o Exército francês e polonês. Lutavam com o espírito, pelo espírito. O episódio poderia ser só mais um na história da humanidade, um dentre os milhares de resistência frente à tirania e à opressão. E a opressão costuma se formar sob o tijolo da inflexibilidade e da recusa ao diálogo, isto é, não reconhecer o outro como a si mesmo.  

A surdez precede a mudez, a qual por sua vez deságua na única alternativa quando tudo desparece: a foz da violência. No entanto, aqueles e tantos outros heróis não foram heróis porque pegaram em armas para fazer frente a uma máquina que triturara a Europa e colocou metade do mundo de joelhos. Tampouco, porque eram símbolos de destemor ou ícones da moral pública.  

Aquelas pessoas, mulheres e adolescentes tiveram o mérito de resistir quando a outra opção era capitular à resignação. Quando a luta persiste, mesmo com a derrota garantida, a dimensão heroica torna-se mais clara. Por isso só podemos avaliá-la retrospectivamente. Isso significa que, surpreendentemente, a capacidade humana de acreditar é superior ao pragmatismo. Em tempos de selvageria política não deixa de ser uma inspiração.

Heróis involuntários não têm partido, ideologia, metas ou estratégias. Não são tomados pela exaustão das mesmas coisas que acontecem com as mesmas pessoas sob circunstâncias similares. Nem se deixam dobrar pelas evidencias consistentes e lógicas bem à sua frente. Neste sentido há em tal comportamento uma enigmática irracionalidade que estranhamente não parece estar equivocada. Por que lutar contra demiurgos que não largam o osso? Para que se bater por gente que nos paga com insultos? Como enfrentar a indelicadeza da injustiça que parece predominante?

Pois o caráter redentor daqueles que fazem valer suas presenças não está nem em uma suposta causa. As vezes não há uma causa. A causa é a própria luta. Surpreende que seja assim, poder-se-ia tratar de uma ética inata.  Não se trata do rebelde sem causa, mas da rebeldia que não precisa de causa, já que é preciso saber quando é preciso dizer não. Quando a única coisa que realmente funciona é um basta. Quando o silêncio absoluto vira uma forma de protestar. 

Uma democracia precisa ser encarada analogamente a um ser vivo que precisa dispor das condições para estabelecer raízes, hidratação e nutrientes. Mas o solo não é um provedor infinito, são pessoas que formam os órgãos do regime político. E atenção, não estamos em guerra, ainda que haja um inimigo oculto! Há quem queira dominar e predominar.

Como fazer? São as pessoas que podem mudar pelo voto e por atuação não violenta a cara da sociedade,  e para isso temos que dispensar máscaras e gás, cassetetes e bombas. O anonimato não precisa ser secreto, nem as forças de segurança uma ameaça para as pessoas.

É verdade que ninguém em nossos dias parece querer entrar na briga para perder, mas é que em nossos dias era de se supor que pauladas não seriam mais necessárias, a disposição dialógica, sim. 

Tags: espírito, exércioto, gueto, nazistas, pauladas, varsóvia

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