Três e quarenta da madrugada. Dois sujeitos trôpegos estão para se trombar no meio da calçada. O asfalto tinha marcas de sangue, cacos de vidro, e a fumaça cinérea de incêndios recém apagados. Klauss, sentado na calçada com a sobrancelha estourada, esfregava um lenço para estancar o corte vivo enquanto tentava com o dedo, limpar com saliva o risco fundo que tinha na bochecha. Mário estava com paletó rasgado e a gravata pendurada, apoiando a cabeça contra a parede do prédio da filosofia.

– Voce é de lá ou de cá, puxa assunto Klauss sem levantar a cabeça

– Cá e lá? Estranhou Mário que se desloca na direção do interlocutor

–Daquele lado? Aponta a edificação de tijolos escuros.

Mário balança a cabeça em negativa. Klauss levanta preocupado. Retrocede uns passos enquanto Mário parte em sua direção

– Moro na filosofia. E retoca com um gesto vago.

– Comuna!

– Reaça!

–Libertino!

– Burguês!

–Mac!

–Filo!

–Carne!

–Leite!

–Clássico!

– Rock!

– Capital!

–Marx!

–Esquerda!

– Direita!

Os homens se adiantam e estão frente a frente,  posição de duelo.

– Isso é ridículo!

– Ridículo!

–Estou de saco cheio de tudo isso!

– Não faz sentido!

– O menor sentido!

Os dois jogaram os porretes. Um se foi em direção à Consolação, o outro, chutou a placa que estava na sarjeta.

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