Jornal do Brasil

Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

Hoje às 06h00

O Levante e a Democracia

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Ontem, dia 2 de outubro,  há 69 anos, depois de 63 dias resistindo, os insurgentes do Gueto de Varsóvia foram esmagados pelas tropas nazistas. Duraram mais do que o Exército francês e polonês. Lutavam com o espírito, pelo espírito. O episódio poderia ser só mais um na história da humanidade, um dentre os milhares de resistência frente à tirania e à opressão. E a opressão costuma se formar sob o tijolo da inflexibilidade e da recusa ao diálogo, isto é, não reconhecer o outro como a si mesmo.  

A surdez precede a mudez, a qual por sua vez deságua na única alternativa quando tudo desparece: a foz da violência. No entanto, aqueles e tantos outros heróis não foram heróis porque pegaram em armas para fazer frente a uma máquina que triturara a Europa e colocou metade do mundo de joelhos. Tampouco, porque eram símbolos de destemor ou ícones da moral pública.  

Aquelas pessoas, mulheres e adolescentes tiveram o mérito de resistir quando a outra opção era capitular à resignação. Quando a luta persiste, mesmo com a derrota garantida, a dimensão heroica torna-se mais clara. Por isso só podemos avaliá-la retrospectivamente. Isso significa que, surpreendentemente, a capacidade humana de acreditar é superior ao pragmatismo. Em tempos de selvageria política não deixa de ser uma inspiração.

Heróis involuntários não têm partido, ideologia, metas ou estratégias. Não são tomados pela exaustão das mesmas coisas que acontecem com as mesmas pessoas sob circunstâncias similares. Nem se deixam dobrar pelas evidencias consistentes e lógicas bem à sua frente. Neste sentido há em tal comportamento uma enigmática irracionalidade que estranhamente não parece estar equivocada. Por que lutar contra demiurgos que não largam o osso? Para que se bater por gente que nos paga com insultos? Como enfrentar a indelicadeza da injustiça que parece predominante?

Pois o caráter redentor daqueles que fazem valer suas presenças não está nem em uma suposta causa. As vezes não há uma causa. A causa é a própria luta. Surpreende que seja assim, poder-se-ia tratar de uma ética inata.  Não se trata do rebelde sem causa, mas da rebeldia que não precisa de causa, já que é preciso saber quando é preciso dizer não. Quando a única coisa que realmente funciona é um basta. Quando o silêncio absoluto vira uma forma de protestar. 

Uma democracia precisa ser encarada analogamente a um ser vivo que precisa dispor das condições para estabelecer raízes, hidratação e nutrientes. Mas o solo não é um provedor infinito, são pessoas que formam os órgãos do regime político. E atenção, não estamos em guerra, ainda que haja um inimigo oculto! Há quem queira dominar e predominar.

Como fazer? São as pessoas que podem mudar pelo voto e por atuação não violenta a cara da sociedade,  e para isso temos que dispensar máscaras e gás, cassetetes e bombas. O anonimato não precisa ser secreto, nem as forças de segurança uma ameaça para as pessoas.

É verdade que ninguém em nossos dias parece querer entrar na briga para perder, mas é que em nossos dias era de se supor que pauladas não seriam mais necessárias, a disposição dialógica, sim. 

Tags: espírito, exércioto, gueto, nazistas, pauladas, varsóvia

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