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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h13

Naturalizando o insuportável

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Quem pode acompanhar esta página sabe o desprezo que me causa o antinorte-americanismo sectário, dominante no circuito do jet set diplomático e politico mundial. Cometem seus erros, mas só quem não tem computador não sabe que a espionagem é a alma dos negócios. Pode-se espernear, mas o que os Estados Unidos avançaram em termos sociais, tecnológicos e na implantação de uma democracia e instituições sólidas nenhum outro país do mundo ocidental conquistou. Certo, são egoístas para favorecer o próprio povo. Mas não é isso que um Estado decente deve ser? Poderiam ser menos egocêntricos, de acordo. Mas o crescimento do protecionismo mundial escancara: ninguém é vilão sozinho. E até aqui sedimentavam seus índices sociais mantendo a liberdade e a democracia, o que não é fácil. Muitos socialistas órfãos sabem disso, mas não podem admitir em público. Aliás, talvez um dos primeiros países a cumprir as demandas do Manifesto Comunista no que diz respeito aos direitos trabalhistas. Claro que eles não têm nosso tino paternalista, nem nossa capacidade de rir dos próprios infortúnios. Enquanto isso, o irresoluto Obama oscila entre notáveis propostas de avanço social — a inclusão de 50  milhões de pessoas nos serviços de saúde é o que está em jogo — e humilhantes concessões na política externa que estão corroendo símbolos. Pois, o que significa tomar lições de moral  e cívica de Putin? É autoevidente. 

O fato é que a melhora dos índices de pobreza eram provas de que havia recuperação e eficiência. A retomada depois do tombo de 2008 — nas previsões otimistas para 20 anos — estava se fazendo em menos de cinco — tudo fruto de gerações de fibra dos norte-americanos.  Eles não só superaram a ideia do lucro e da livre iniciativa como pecados burgueses, como formataram um sistema de previdência social que mesmo ruim ou deficitária é muito melhor que o da concorrência. Isso, mesmo naqueles países onde o bem estar-social é chamado de outros nomes.

Mesmo na recuperação econômica nota-se um clima de regressão. De abandono de algum eixo sobre o qual os pioneiros ergueram a Constituição mais duradoura e enxuta da história. A liberdade parece estar afundando na armadilha da guerra fragmentária e sem perspectivas. Não porque haja qualquer dúvida da superioridade estratégica e militar, mas porque é impossível abrir intermináveis e extensas frentes de batalha e não sucumbir. Roma soube disso tarde demais, e só quando se esgotou o estoque de escravos.  

A prisão de um jornalista do estado de São Paulo, Claudia Trevisan, no campus de uma universidade é um sintoma. Mas há outros. Mais graves ainda. Apenas seis meses separam o atentando terrorista dos dois irmãos chechenos em Boston, do fuzilamento de uma senhora que, após uma depressão puerperal, teve a infelicidade de ter seus delírios e fantasias com o presidente. Procuremos não os elos óbvios entre a paranoia antiterror generalizada e a politica que tem levado a erros de julgamento cada vez mais graves. Os irmãos que explodiram e mutilaram pessoas em Boston tiveram inúmeros defensores. Até a velha e ridícula legião, que conseguiu plantar todos os eventos nas costas da CIA. Chegou a haver comoção pelos dois jovens terroristas que resistiram, um morto e o outro gravemente ferido num barco da pequena cidade em Massachusetts.

Por mais insanas que sejam as justificativas, isso significa que há sempre gente disposta a  defender direitos das minorias, desde que estas tenham causas ideológicas em comum. No caso da senhora que, desarmada, estava no dia e hora erradas e seu carro recebeu pelo menos 29 balaços da policia local até ter a trajetória interrompida para sempre. Não houve comoção. O caso não parece ter recebido a atenção devida.  O silêncio relativo é aquele que faz soar o “mereceu o que recebeu”. Seu destino ficou por isso mesmo. Depois de morta, ninguém hasteou bandeira a meio pau. Não houve passeatas, nem mesmo contestações veementes da mídia mais progressista. Isso é mais do que um sintoma. É um sinal, e não vem dos céus. Estamos naturalizando o insuportável, e o retrocesso é mental.

Mas é claro que há uma guerra, a terceira, mundial, ainda fria, fracionada demais para que se note. O mundo inteiro está em polvorosa. Mas, será que a resposta é dobrar a reação? O mundo pede menos censura e mais cuidado. O mundo exige atenção ao outro. Torço para que os irmãos de cima resistam à tentação totalitária para se igualarem a tantos outros. Pode ser que não passe de um pesadelo dos direitos civis e um coma transitório dos valores democráticos. 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/10/10/naturalizando-o-insuportavel/