Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Depressão induzida 

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Jamais os pesquisadores que elaboraram o relatório da Organização Mundial de Saúde no ano de 1988 em Genebra, Suíça, poderiam ter imaginado. Como previsões de um texto científico se transformariam em profecias. Ali estava escrito: o mal do século 21 seria a “era da depressão”. Assim como sujeitos peregrinam até os cuidadores e médicos se queixando de patologias diversas, em nossa era, a queixa prevalente seria dominada pelo mal-estar difuso, a sensação de adoecimento sem moléstias, um estado inominável e não menos opressivo

A palavra “depressão” é uma generalização, uma nomenclatura inexata para definir esta condição subjetiva que não tem sítio, comprovante de residência ou CPF. Mesmo fugindo da atribuição do estrito caráter nosológico (de doença propriamente dita) conferido à palavra, o século comprova o que prometia: se mostra arredio, inóspito, aborrecido. 

A palavra “depressão” é uma generalização, uma nomenclatura inexata para definir esta condição subjetiva que não tem sítio, comprovante de residência ou CPF. Mesmo fugindo da atribuição do estrito caráter nosológico (de doença propriamente dita) conferido à palavra, o século comprova o que prometia: se mostra arredio, inóspito, aborrecido.

As ideologias da esquerda se transformaram em andrajos, costurados com retalhos. O capitalismo selvagem urbanizou-se e agora achaca à luz do dia. Até aqui os verdes, nem cá nem acolá, constituíram um programa que realmente representasse uma terceira via consistente. Estamos sem projetos. A pobreza objetiva pode ter diminuído, mas persiste outra, perversa, ainda que menos aparente. Avanços existiram: no Brasil 10 milhões de famintos a menos nos últimos 20 anos, e no mundo, só no último ano 18 milhões de miseráveis absolutos saíram desta condição.

Tudo é muito razoável. Como poderia ser ótimo, se o saldo persiste devedor?

Quase um bilhão de pessoas passa fome, enquanto ficamos discutindo a utopia da isonomia absoluta. Se a desigualdade social diminui então por que cargas d’água ainda estamos no prejuízo? Por que não saímos comemorando? De onde provém tamanha insatisfação? O que impede o entusiasmo com os progressos da tecnologia, o Bóson premiado, a inventividade dos cientistas? Por que não aplaudimos de pé? Temos uma rede mundial de computadores? Certo, os monitores nos invadem com dados imprestáveis e imagens irrelevantes. Facilitou a vida da Al Qaeda e dos encrenqueiros urbanos, mas imaginem só o potencial, a quantidade de veiculações sensacionais, a capacidade pedagógica!

Mais uma vez, por que raios nos rendemos à paralisia? Por que seguimos insatisfeitos com mais qualquer coisa? Tudo parece insuficiente, leniente, ineficiente. Todo esforço, complacente. Nós, ainda indigentes! Como toda fome de espírito o vazio pode não ser contabilizado. Pode ser síndrome de abstinência de justiça, de exemplos, de humanistas.          

Pelo instante considerem que o problema pode estar exatamente no “mais”. Como rezava o velho provérbio oriental “as moléstias vêm do mais”.  Pode estar numa miserabilidade menos urgente que a faina propriamente dita. A disparidade maior está oculta. Num lugar que não tem nada a ver com pobreza, fome, nem más condições sanitárias e de habitação.

Com tantas necessidades materiais criadas, passa a não ser só uma impressão de que nada é suficiente. Saturados de matéria e de consumo, a insuficiência induzida está no ar. E ela não guarda relação linear exclusiva com condições socioeconômicas: a taxa de suicídios mais alta no mundo ainda está nos países escandinavos, aqueles com melhores índices de desenvolvimento humano. Mesmo assim, indicadores subjetivos como bem-estar e felicidade permanecem tabus. Ainda são encarados com desconfiança e frieza pelos sociólogos e economistas. De pirraça, gente sisuda nos joga na cara estatísticas, renda per capita e PIBs. Como contraponto à depressão induzida, só mesmo reaprender a arte do amusement. Não é programa humorístico, deboche ou entretenimento. É dar uma recíproca na vida quando ela mesma ameaça brincar com nossas existências.        

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